4.2- 22 de março – 5º DOMINGO DA QUARESMA
(LASR)*
DA
MORTE PARA A VIDA
Por Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire
Rodrigues**
INTRODUÇÃO
GERAL
Imagens de ossos secos e
de túmulos sempre trazem à mente a perspectiva da desolação, do limite da vida
humana, da dor e da falta de esperança. Nessas situações-limite, a presença de
Deus faz toda a diferença. Ossos secos recuperam o vigor da vida, Lázaro ressuscita
e o Espírito de Deus resgata a esperança que havia sido perdida. O Espírito é
quem provoca a renovação do ser humano. Por isso, onde existiam os sintomas da
morte, a presença do Espírito produz a celebração da vida.
II. COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ez 37,12-14)
A primeira leitura está
inserida no contexto da visão do vale de ossos secos do profeta Ezequiel. A
imagem dos ossos secos e dos túmulos representa a condição de um povo morto,
sem espírito e sem sentido de vida. Ezequiel é profeta que exerce sua atividade
em meio ao exílio, uma época de dor e sofrimento – afinal, tudo quanto era
importante, significativo e garantidor da própria identidade do povo de Deus
deixara de existir. O poderoso exército da Babilônia, liderado por
Nabucodonosor, invadiu e destruiu a cidade e o templo. Pensava-se, naquela
época, que a cidade e o templo eram invioláveis porque Deus se fazia presente.
As certezas do povo desmoronaram, e, em terra estranha, exilados, “à beira dos
rios da Babilônia, aí nos sentamos e choramos” (Sl 137,1). Se a dor está
presente no cotidiano do povo, Ezequiel, nessa belíssima visão, mostra que Javé
também se encontra presente. Todo o capítulo 37 proporciona a reflexão de que a
esperança está germinando em meio ao sofrimento. Se a esperança parece escapar
por entre os dedos e o desânimo não proporciona saída, o espírito de Deus
sopra, restaurando todos aqueles que o exílio fatalmente havia atingido.
A ação é do próprio
Javé. Ele é o protagonista da salvação. O Deus que está plenamente vivo e ativo
para restaurar a vida e a esperança de seu povo. A depender da tradução, é
possível ler, por duas vezes, a expressão “povo meu” (v. 12.13). Se o povo
anteriormente, quando da destruição de Jerusalém, pensava ter sido abandonado por
Deus, a expressão demonstra que, da parte de Deus, permanecem inalterados os
vínculos de afeto e de pertença do povo em relação a ele. Isso explica as
múltiplas promessas: “vou abrir”, “tirar vocês”, “levá-los”, “colocar meu
espírito”, “colocarei em sua própria terra”, a fim de que o povo saiba que ele
é Javé.
2. II leitura (Rm 8,8-11)
O apóstolo Paulo
contrapõe dois projetos, dois estilos de vida diferentes: um orientado pela
carne (os instintos humanos) e outro orientado pelo Espírito. Um projeto conduz
à morte; o outro, à vida. Não é possível conciliar um com o outro. Aqueles que
vivem o projeto da carne desagradam a Deus, e aqueles que vivem o projeto do
Espírito são agradáveis a Deus. Na teologia paulina, o Espírito habita no
discípulo de Jesus. O Espírito, portanto, é a confirmação de que se pertence
também a Jesus. E, da mesma forma como o Espírito ressuscitou Jesus dentre os
mortos, ele também produzirá vida nos corpos mortais. O Espírito é quem provoca
a renovação interior. Onde existiam os sintomas da morte, a presença do
Espírito produz a celebração da vida.
3. Evangelho (Jo 11,1-45)
Jesus sempre chama para
a vida. Mais do que isso, chama a cada um pelo nome. O Evangelho narra a doença
e a morte de Lázaro. Suas irmãs se incomodam com o sofrimento do irmão e,
apressadamente, enviam uma mensagem para Jesus: “Seu amigo está doente” (v. 3).
Jesus mantém com Lázaro relação de autêntica amizade.
Há, por parte dele,
preocupação genuína, própria dos amigos. Assim, ele tranquiliza as irmãs diante
do desespero vivido: “Essa doença não é para a morte” (v. 4). Diante de um
ambiente marcado pela dor, o Evangelho nos lembra que Jesus amava Marta, Maria
e Lázaro. Jesus sentia empaticamente a dor de Lázaro e, por isso, decide
permanecer no mesmo local por mais dois dias. Não lhe é possível virar as
costas àqueles que sofrem. A solidariedade sempre deve ser maior do que os
próprios interesses. Assim, Jesus não se apresenta nessa narrativa como se
fosse um grande bloco de gelo. A situação do amigo o incomoda sobremaneira.
Não há sofrimento
estranho para Jesus. Por conta disso, e para desespero dos discípulos, ele
decide retornar à Judeia. Como voltar para um lugar que respirava perigo? O que
levaria Jesus a caminhar três quilômetros e arriscar a própria vida? A única resposta
possível é a solidariedade que nasce em meio à dor. Jesus não pode seguir seu
caminho se o caminho de seu amigo se encontra obstaculizado pela dor. Mais do
que isso: a dor do amigo não permite que Jesus caminhe seus próprios passos.
Diante da dor do próximo, os passos dados somente podem ser em direção a ele.
Enfim Jesus chega – após quatro dias – à casa de Marta e de Maria. Quatro dias
em que a dor havia se tornado tão penetrante, que as lágrimas já não podiam ser
contidas: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (v. 21.32),
dizem as irmãs, uma após a outra. Pensavam que a ressurreição era um projeto
apenas para o futuro e se esqueciam de que o projeto de Jesus proporciona vida
plena desde já. A promessa de Jesus é clara: “Seu irmão vai ressuscitar” (v.
23). Por duas vezes lemos que ele “se comoveu interiormente e se perturbou” (v.
33.38).
Não havia como
permanecer impassível perante tamanha dor. Diante do local onde o corpo de
Lázaro havia sido colocado, Jesus gritou bem forte: “Lázaro, venha para fora”
(v. 43). A pessoalidade de Jesus impressiona. Ele não é impessoal, glacial e
apático. Trata as pessoas pelo nome. Proferindo o nome, demonstra não só a
proximidade do relacionamento, mas também a maneira mediante a qual se constrói
a solidariedade em meio à dor. A ressurreição de Lázaro é bela catequese para
que ouçamos as palavras de Jesus – dirigidas a cada um de nós – e acreditemos
na vida em abundância que ele nos traz tanto no já quanto no ainda não.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
1) A ressurreição de
Lázaro pode ser considerada bela catequese para que ouçamos as palavras de
Jesus – dirigidas a cada um de nós – e acreditemos na vida em abundância que
ele nos traz tanto no já quanto no ainda não. De que forma podemos compreender
nossa missão numa sociedade que provoca a morte de milhares de pessoas
diariamente, sobretudo das mais fragilizadas?
2) Na visão do vale de
ossos secos, é o próprio Javé que toma a iniciativa. Os ossos secos não podem
fazer nada por si mesmos. Nessa cena, o grande e único protagonista é Deus.
Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco
Cornélio Freire Rodrigues**
*é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de
São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia,
EUA). É professor no programa de mestrado e doutorado em Teologia da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e no Centro Universitário Internacional
(Uninter).
**é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica
pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É
licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife)
e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma).
Professor na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN), é autor do
roteiro do 4º Domingo da Páscoa.
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/22-de-marco-5o-domingo-da-quaresma-lasr/
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