9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
JAMAIS SABEREMOS...
Se
o ápice da maturidade é atingido quando se alcança o maior número possível de
respostas, ou quando se aprende a conviver serenamente com as perguntas que
insistem em continuar desafiando nossa razão e testando nossa imaginação,
jamais saberemos.
Se
nossa verdadeira prisão está fora de nós, nas muitas dificuldades que
enfrentamos e necessidades que seguimos acumulando, ou dentro de nós, nos medos
e inseguranças que insistem em nos manter acorrentados e temerosos de seguir em
frente, jamais saberemos.
Se
a felicidade pela qual tanto ansiamos e freneticamente buscamos depende mais do
nosso aprendizado de como ser feliz com o pouco do que da nossa capacidade de
conquistar o muito, jamais saberemos.
Se
as muitas e diferentes máscaras que usamos na busca por aceitação e validação,
ocultam com fidelidade quem verdadeiramente somos, revelam com precisão quem
queremos parecer ser, ou cumprem a um só tempo ambas as funções, jamais
saberemos.
Se
ainda somos de fato os mesmos e vivemos como nossos pais, ou se deveríamos
lamentar profundamente o fato de já não estarmos conseguindo sê-lo mais, jamais
saberemos.
Se
a expectativa por encontrar a pessoa que nos complete e nos realize é natural e
legítima, ou se no fundo não passa de uma forma de cobrança e pressão
travestidas de promessas de companheirismo e mútua complementação, jamais
saberemos.
Se
o orgulho e a indiferença aos quais recorremos com frequência cumprem bem a
tarefa de nos proteger do desprezo e da rejeição, ou se acabam nos distanciando
ainda mais do acolhimento e da aceitação pelos quais tanto ansiamos, jamais
saberemos.
Se
aqueles por quem mais nos esforçamos para que permaneçam ao nosso lado, são
justamente os que mais precisam de nosso encorajamento para seguir em frente,
jamais saberemos.
Se
nossa dificuldade em criar vínculos duradouros e estáveis se deve mais à
liquidez dos novos tempos, do que à nossa própria insegurança em compartilhar
nossa vida e nosso espaço com uma companhia tão próxima e constante, jamais
saberemos.
Se
nossas maiores derrotas não passaram de lamentáveis fracassos, ou se foram
decisões estrategicamente escolhidas por uma mente superior para nos conduzir
exatamente ali onde deveríamos chegar, jamais saberemos.
Se
a decisão de continuar mantendo um vínculo já com prazo de validade vencido,
baseada unicamente e exclusivamente na convicção de que esta é a melhor forma
de preservar a saúde emocional dos filhos, é mais ou é menos acertada do que
aquela de quem se vale do mesmíssimo argumento para se decidir pelo seu
rompimento, jamais saberemos.
Se
o tempo cura realmente todas as feridas, ou se apenas nos oferece o bálsamo
necessário para conseguirmos conviver em paz com aquelas que, indiferentes à
nossa dor, se recusam a cicatrizar, jamais saberemos.
Se
o ciúme contribui poderosamente para apimentar um relacionamento - efeito
malagueta - ou se acaba por empurrá-lo cada vez mais em direção ao abismo,
jamais saberemos.
Se
a questão jamais suficientemente bem resolvida com a qual a morte nos obriga a
conviver, está mais relacionada ao simples fato de termos que deixar de viver
do que ao nosso ancestral medo de morrer, jamais saberemos.
Se
quanto mais conectados às redes mais desconectados estamos do mundo -
familiares, amigos e pessoas que nos cercam - o retorno do Wi-Fi depois de
permanecer fora do ar por breves segundos deveria nos alegrar ou nos
entristecer? Jamais saberemos.
Se
o que chamamos de “história da salvação” corresponde de fato a um evento
salvífico atravessando e orientando a história, ou não passa de uma construção
humana criada como resposta à eterna busca de sentido diante do inexplicável
conflito entre o bem e o mal, jamais saberemos.
Se
o aparente silêncio com que Deus tantas vezes se posiciona diante de nossas
súplicas e interrogações, deve ser interpretado mais como tolerância e
paciência infinita, ou mais como cansaço e fastio em razão da interminável
repetição de nossas lenga-lengas e ladainhas, jamais saberemos.
Se
o amor infinito e incondicional de Deus, sabidamente suficiente para nos livrar
de todo e qualquer tipo de inferno eventualmente existente, entrará ou não em
cena no exato momento em que, de acordo com as Escrituras, as ovelhas serão
apartadas dos cabritos, jamais saberemos.
Se
batizar nossos filhos e netos em uma idade tão precoce representa mais um ato
consciente de fé por parte dos pais e padrinhos, ou mais uma estratégia da
Instituição para assegurar o mais cedo possível a filiação de seus adeptos,
jamais saberemos.
Se
quem concebeu a ideia do inferno, independentemente de quem possa ter sido -
Deus por pressuposto ficando fora da lista de suspeitos - tinha ou não algo
mais importante para fazer naquele exato momento da criação, jamais saberemos.
Se
o que nos aguarda depois da morte é uma nova rodada de reencarnações como quer
o Espiritismo, uma ressurreição definitiva seguida de vida eterna como ensina o
Cristianismo, ou talvez nem reencarnação nem ressurreição, como permite
entrever Siddhartha Gautama com o Budismo, jamais saberemos.
Se
o fato de "tentativa e erro" continuar sendo o método privilegiado da
ciência visando aprimorar cada vez mais suas conclusões, nos autoriza ou não a
acreditar que doutrinas como a da indissolubilidade matrimonial possam vir um
dia a rever sua pertinência e sua eventual incoerência, jamais saberemos.
Se
é válido admitir que quando fazemos o certo não é mérito nosso e sim graça de
Deus, essa afirmação nos autoriza ou não a afirmar que quando fazemos o errado
Deus também tem culpa no cartório, jamais saberemos.
Se
a felicidade que emana da paz é ou não infinitamente superior à paz que emana
da felicidade, exceto vivenciando ambas as experiências, jamais saberemos.
Se
apesar de toda dor, sofrimento e provação que a vida nos impõe, ela pode e deve
ser considerada um verdadeiro show, um maravilhoso espetáculo, jamais
saberemos.
Se
a felicidade por ver nossos filhos e netos indo ainda mais longe do que nós
fomos, é infinitamente maior do que aquela que sentimos quando conseguimos
chegar onde um dia nos conduziram nossos sonhos, disso jamais teremos dúvida
alguma.
"Duvidar nunca
foi problema; sempre foi e continuará sendo parte essencial da
solução"
[L.S.M.]
(*) Texto enviado pelo autor, via Whatsapp de Vitória (ES).
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