sexta-feira, 31 de julho de 2026

9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

 9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)


JAMAIS SABEREMOS...

Se o ápice da maturidade é atingido quando se alcança o maior número possível de respostas, ou quando se aprende a conviver serenamente com as perguntas que insistem em continuar desafiando nossa razão e testando nossa imaginação, jamais saberemos.

Se nossa verdadeira prisão está fora de nós, nas muitas dificuldades que enfrentamos e necessidades que seguimos acumulando, ou dentro de nós, nos medos e inseguranças que insistem em nos manter acorrentados e temerosos de seguir em frente, jamais saberemos.

Se a felicidade pela qual tanto ansiamos e freneticamente buscamos depende mais do nosso aprendizado de como ser feliz com o pouco do que da nossa capacidade de conquistar o muito, jamais saberemos.

Se as muitas e diferentes máscaras que usamos na busca por aceitação e validação, ocultam com fidelidade quem verdadeiramente somos, revelam com precisão quem queremos parecer ser, ou cumprem a um só tempo ambas as funções, jamais saberemos.

Se ainda somos de fato os mesmos e vivemos como nossos pais, ou se deveríamos lamentar profundamente o fato de já não estarmos conseguindo sê-lo mais, jamais saberemos.

Se a expectativa por encontrar a pessoa que nos complete e nos realize é natural e legítima, ou se no fundo não passa de uma forma de cobrança e pressão travestidas de promessas de companheirismo e mútua complementação, jamais saberemos.

Se o orgulho e a indiferença aos quais recorremos com frequência cumprem bem a tarefa de nos proteger do desprezo e da rejeição, ou se acabam nos distanciando ainda mais do acolhimento e da aceitação pelos quais tanto ansiamos, jamais saberemos.

Se aqueles por quem mais nos esforçamos para que permaneçam ao nosso lado, são justamente os que mais precisam de nosso encorajamento para seguir em frente, jamais saberemos.

Se nossa dificuldade em criar vínculos duradouros e estáveis se deve mais à liquidez dos novos tempos, do que à nossa própria insegurança em compartilhar nossa vida e nosso espaço com uma companhia tão próxima e constante, jamais saberemos.

Se nossas maiores derrotas não passaram de lamentáveis fracassos, ou se foram decisões estrategicamente escolhidas por uma mente superior para nos conduzir exatamente ali onde deveríamos chegar, jamais saberemos.

Se a decisão de continuar mantendo um vínculo já com prazo de validade vencido, baseada unicamente e exclusivamente na convicção de que esta é a melhor forma de preservar a saúde emocional dos filhos, é mais ou é menos acertada do que aquela de quem se vale do mesmíssimo argumento para se decidir pelo seu rompimento, jamais saberemos.

Se o tempo cura realmente todas as feridas, ou se apenas nos oferece o bálsamo necessário para conseguirmos conviver em paz com aquelas que, indiferentes à nossa dor, se recusam a cicatrizar, jamais saberemos.

Se o ciúme contribui poderosamente para apimentar um relacionamento - efeito malagueta - ou se acaba por empurrá-lo cada vez mais em direção ao abismo, jamais saberemos.

Se a questão jamais suficientemente bem resolvida com a qual a morte nos obriga a conviver, está mais relacionada ao simples fato de termos que deixar de viver do que ao nosso ancestral medo de morrer, jamais saberemos.

Se quanto mais conectados às redes mais desconectados estamos do mundo - familiares, amigos e pessoas que nos cercam - o retorno do Wi-Fi depois de permanecer fora do ar por breves segundos deveria nos alegrar ou nos entristecer? Jamais saberemos.

Se o que chamamos de “história da salvação” corresponde de fato a um evento salvífico atravessando e orientando a história, ou não passa de uma construção humana criada como resposta à eterna busca de sentido diante do inexplicável conflito entre o bem e o mal, jamais saberemos.

Se o aparente silêncio com que Deus tantas vezes se posiciona diante de nossas súplicas e interrogações, deve ser interpretado mais como tolerância e paciência infinita, ou mais como cansaço e fastio em razão da interminável repetição de nossas lenga-lengas e ladainhas, jamais saberemos.

Se o amor infinito e incondicional de Deus, sabidamente suficiente para nos livrar de todo e qualquer tipo de inferno eventualmente existente, entrará ou não em cena no exato momento em que, de acordo com as Escrituras, as ovelhas serão apartadas dos cabritos, jamais saberemos.

Se batizar nossos filhos e netos em uma idade tão precoce representa mais um ato consciente de fé por parte dos pais e padrinhos, ou mais uma estratégia da Instituição para assegurar o mais cedo possível a filiação de seus adeptos, jamais saberemos.

Se quem concebeu a ideia do inferno, independentemente de quem possa ter sido - Deus por pressuposto ficando fora da lista de suspeitos - tinha ou não algo mais importante para fazer naquele exato momento da criação, jamais saberemos.

Se o que nos aguarda depois da morte é uma nova rodada de reencarnações como quer o Espiritismo, uma ressurreição definitiva seguida de vida eterna como ensina o Cristianismo, ou talvez nem reencarnação nem ressurreição, como permite entrever Siddhartha Gautama com o Budismo, jamais saberemos.

Se o fato de "tentativa e erro" continuar sendo o método privilegiado da ciência visando aprimorar cada vez mais suas conclusões, nos autoriza ou não a acreditar que doutrinas como a da indissolubilidade matrimonial possam vir um dia a rever sua pertinência e sua eventual incoerência, jamais saberemos.

Se é válido admitir que quando fazemos o certo não é mérito nosso e sim graça de Deus, essa afirmação nos autoriza ou não a afirmar que quando fazemos o errado Deus também tem culpa no cartório, jamais saberemos.

Se a felicidade que emana da paz é ou não infinitamente superior à paz que emana da felicidade, exceto vivenciando ambas as experiências, jamais saberemos.

Se apesar de toda dor, sofrimento e provação que a vida nos impõe, ela pode e deve ser considerada um verdadeiro show, um maravilhoso espetáculo, jamais saberemos.

Se a felicidade por ver nossos filhos e netos indo ainda mais longe do que nós fomos, é infinitamente maior do que aquela que sentimos quando conseguimos chegar onde um dia nos conduziram nossos sonhos, disso jamais teremos dúvida alguma.

"Duvidar  nunca  foi problema; sempre foi e continuará sendo parte essencial da solução" [L.S.M.]

(*) Texto enviado pelo autor, via Whatsapp de Vitória (ES).

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