5.2-13 de setembro – 24º
DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
“Respirar” o perdão sem limites!
1.
INTRODUÇÃO GERAL
A liturgia da Palavra deste 24º
Domingo do Tempo Comum põe no centro o tema do perdão. É a exigência mais alta
do discípulo-missionário e também aquela que conforma mais intensamente a
pessoa e a comunidade cristã ao mistério da paixão, morte e ressurreição de
Jesus. O perdão convida ao enfrentamento do rancor, da raiva, do ódio. Exige um
estilo de vida fraterno e comunitário. No horizonte, está o convite de Jesus a
Pedro e a todos nós para perdoar sempre e assumir verdadeira cultura do perdão.
1.
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1.
I leitura (Eclo 27,33-28,9)
Esse trecho do livro do
Eclesiástico, escrito com o estilo de reflexão sapiencial, apresenta as
consequências causadas pelo rancor e pela raiva, que fecham as portas do
perdão: “Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a
cura?” (v. 3). A forma como nos relacionamos com as pessoas está diretamente
ligada à forma como vivemos a intimidade com Deus.
Esse é um discernimento que nos
compete sempre alcançar. Se, no último domingo, refletimos sobre o primado da
fraternidade, tal experiência nos leva hoje para o perdão, o lugar mais alto do
amor. De fato, o amor precisa ser testado pela sua capacidade de perdoar e de
vencer a raiva e o rancor: “Se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá
pedir perdão dos seus pecados?” (v. 4).
A leitura vai concluindo com
este convite, que nunca deixa de ser o coração das relações novas e saudáveis:
“deixa de odiar” (v. 6). A indiferença com as pessoas pode produzir o
imaginário de que o outro é um adversário que precisa ser derrubado, um
potencial inimigo que deve ser enfrentado. O ódio é consequência quase
automática. Nesse mundo dividido, os cristãos devem regressar ao desejo
autêntico de conviver em paz, nas diferenças.
2.
II leitura (Rm 14,7-9)
A exigência do amor e do
perdão, a qual está na base da vida cristã, aparece, na conclusão da carta de
São Paulo aos Romanos, como identificação com aquilo de mais importante da
nossa fé: a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. De fato, nossa missão é uma
vida configurada a Jesus: “Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se
morremos, é para o Senhor que morremos” (v. 8).
Ao escolher viver a fé em Jesus
Cristo, o cristão é convidado a mergulhar numa entrega total, num estilo de
vida que se torne resposta viva e verdadeira àquele amor que Cristo viveu e
pelo qual se entregou na cruz até a morte. Tudo o que fazemos deve se tornar
uma resposta amorosa, e não uma obrigação exterior, como se fosse uma
prescrição qualquer: “Cristo morreu e ressuscitou exatamente para isto: para
ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (v. 9). Seguir Jesus Cristo é viver uma
pertença total a ele, a qual não é possível sem os irmãos.
3.
Evangelho (Mt 18,21-35)
Gostaria de basear o comentário
sobre o Evangelho deste domingo em uma reflexão de Daniel, o protagonista de
uma série chamada Tudo
pede salvação. Trata-se da história desse rapaz, que, certo
domingo, acordou em uma clínica psiquiátrica, depois de ter atacado
violentamente seu pai. Havia surtado por causa do uso abusivo de drogas e de
álcool. Os episódios da série – em número de sete, um para cada dia –
acompanham a semana de internação de Daniel. É possível assistir à descoberta
da amizade, da convivência, do afeto, do cuidado de si e dos outros, das perdas
e das dores, das aventuras, da consciência da condição humana e,
principalmente, do significado de salvação. Com outros colegas de quarto,
Daniel se abriu a um verdadeiro discernimento, que exige sempre perdoar e
perdoar-se!
Em um momento importante da
série, Daniel toma a palavra e faz ecoar estas palavras:
Foram irmãos oferecidos pela
vida, encontrados no mesmo barco, no meio da mesma tempestade. Entre a loucura
e uma outra coisa qualquer que, talvez, um dia, saberei nomear. Cada um no seu
canto do quarto, indefesos perante a própria condição, abraçados pela vida,
esmagados por um mal, recebido como dádiva... Meus irmãos.
A salvação de Daniel passou
pelo perdão. O perdão curou tudo. Como base em uma biografia complexa e
improvável, é possível “respirar” o perdão que Jesus convidou Pedro a acolher,
diante da sua pergunta: “Quantas vezes devo perdoar?” (v. 21). A resposta de
Jesus indica que não é uma questão de número, de quantidade, mas do compromisso
com uma cultura de perdão, com um estilo de vida que sabe perdoar sem limites.
Aqui está o lugar mais alto do amor. O perdão é o sustento da mensagem de Jesus
para a comunidade que estava sendo formada: o ponto de partida, o ponto de
chegada e a estrada a ser percorrida! A salvação depende do perdão, e fora do
perdão não existe nada.
Para iluminar esse convite, o
Evangelho conta uma parábola que está dividida em três cenas: a cena inicial
diz respeito a um servo e seu patrão (v. 23-27); a segunda apresenta esse servo
com um outro (v. 28-31); a terceira, por fim, traz novamente o patrão e o
primeiro servo (v. 32-34), sendo seguida por uma indicação explícita de Jesus
(v. 35). A parábola põe em evidência o contraste entre a boa vontade de perdoar
e o fechamento ao perdão, avesso a qualquer sinal de paciência. A contradição
humana e a grandeza de Deus se manifestam na parábola, que continua convidando
cada pessoa a contemplar Jesus como “o rosto da misericórdia do Pai”, nas
palavras do papa Francisco.
Ao final da série citada
anteriormente, Daniel transformou tudo em poesia:
Do alto, da ponta extrema do
universo, passando pelas nossas cabeças e descendo até os calcanhares, na
velocidade da luz e além dela, através de cada átomo de matéria: tudo pede salvação!
Era a palavra que eu estava procurando: salvação! Para os vivos e para os
mortos: salvação! Salvação para o Mario, para o Gianluca, para o Giorgio, para
o Alessandro e para a dona Maria. Para os loucos de todos os tempos, engolidos
pelos manicômios da história: salvação!
III.
PISTAS PARA REFLEXÃO
A abertura ao perdão é sempre
um passo adiante em nossa capacidade de conviver com as pessoas e com as
diferenças. Nenhum fechamento é saudável. A comunidade cristã, portanto, é
lugar privilegiado para, com base na oração comum e no amor compartilhado,
alcançar a experiência do perdão. O perdão não é esquecimento, mas um
reconhecimento de que o outro também pode errar e seu erro pode ser uma escola
de conversão. Perdoar é ajudar a converter, a transformar aquilo que parece
estar perdido. Pelo perdão, participamos do mistério maior do amor de Deus pela
humanidade, o qual se realizou na cruz salvadora e redentora.
Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS,
pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na
Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela
Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: maiconmalacarne@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/13-de-setembro-24o-domingo-do-tempo-comum-2/
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