sábado, 31 de janeiro de 2026

07-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )

 

 07-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

 

                    [Parte VII]

 

             "Onde houver erro,que eu leve a verdade!"

                 [Atribuída a  São Francisco de Assis]

 

 

ONDE HOUVER ERRO, QUE EU LEVE A VERDADE!

 

À primeira vista, a contraposição entre erro e verdade pode causar certo estranhamento na súplica de Francisco, sobretudo quando considerada a partir de um critério ético-moral, segundo o qual o oposto da verdade não é o erro, mas a mentira. Esta - a mentira - implica intenção, cálculo, premeditação e, em certa medida, má-fé; a chamada mentira bem-intencionada também existe, mas é rara, quase uma exceção. O erro, ao contrário, nasce da imperfeição humana, da percepção sempre limitada da realidade, da leitura imprecisa dos fatos e da inevitável interferência de crenças, expectativas e paixões na elaboração da percepção. Ao eleger o erro - e não a mentira - como uma espécie de enfermidade que requer a verdade para ser sanada, Francisco desloca o eixo da súplica, retirando-o do plano moral e situando-o no plano existencial: não se trata, antes, de denunciar culpados nem de punir desvios éticos, por mais graves que eles sejam, mas de reconhecer a limitação humana em sua permanente exposição ao erro e ao equívoco e, a partir daí, dispor-se a prestar-lhe socorro. Para Platão, nossos sentidos são uma fonte constante de erros e enganos, que prejudicam a alma em sua perene busca pela verdade eterna e imutável.

 

Nesse sentido, a verdade invocada por Francisco não se apresenta como um veredicto implacável de culpa e de condenação, e sim como luz que esclarece, orienta e contribui para que o erro seja reconhecido, sanado e tratado sem constrangimento ou humilhação, evitando que o ser humano, em razão dele, venha a ser desterrado de seu habitat natural pela segunda vez; um lugar que não chega a ser exatamente um paraíso, mas que tampouco deveria ser tratado como um inconsolável vale de lágrimas. Trata-se, portanto, de uma verdade que está a serviço da libertação e da emancipação, que não se impõe pela força mas se oferece como possibilidade de reencontro e reaproximação. Assim compreendida, a súplica “onde houver erro, que eu leve a verdade” assume um alcance arquetípico e universal, tornando-se expressão da condição humana atravessada pela falibilidade, pela incompletude e pela permanente necessidade de revisão de suas certezas. É justamente essa característica de universalidade que a torna credenciada a servir de luz e orientação para diversos contextos específicos, dentre os quais se destaca, de modo particular, o vínculo de natureza conjugal, que ora estamos abordando.

 

Entretanto, quando utilizada como bússola norteadora com vistas à ressignificação do vínculo matrimonial, essa percepção franciscana dessa tensão entre erro e verdade defronta-se com um dilema que não admite soluções fáceis, qual seja: geralmente não é o erro, mas a mentira, a principal responsável pelo desencadeamento de crises e conflitos nos relacionamentos, excetuados os casos em que o erro se converte em um autêntico divisor de águas para o vínculo, como é o caso da traição, aqui entendida em seu sentido físico estrito. Ainda assim, também aqui a mentira que nega o fato - denominada pela psicologia de "negação", em seu sentido geral - pode ser considerada tão grave quanto o próprio ato. Em certos casos, até mais. E se tanto a traição quanto a mentira que a nega estão presentes, as chances de reconciliação praticamente colapsam. Isso acaba colocando o infrator - seja ele ou ela - diante de uma autêntica encruzilhada: ocultar a verdade, como última tentativa de evitar que a tempestade se transforme em tsunami, ou revelar o fato abertamente e se preparar para enfrentar as consequências. Se a decisão recai sobre a segunda opção - a confissão da verdade - não resta outra alternativa senão confiar no destino - caso não se tenha religião alguma - ou, se se tem, invocar com fervor a intervenção da providência divina. Em meio a esse mar de incertezas, muitos se decidem por abandonar a orientação de Francisco - “onde houver erro, que eu leve a verdade” - movidos pelo temor de que a tempestade acabe se transformando em tsunami. Mas se a traição se cristaliza em vício, hábito ou rotina - à semelhança de um verme que corrói, lenta e progressivamente, cada fibra vital do relacionamento minando silenciosamente a solidez que parecia inabalável - somente uma intervenção trinitária, em ação sinérgica, provavelmente se mostraria capaz de reverter a situação.

 

Não creio que aqueles que me acompanham em minhas reflexões ousariam concordar com a seguinte afirmação de André Comte-Sponville, em seu "Pequeno tratado das grandes virtudes". Ao abordar a fidelidade como um quesito estruturante do vínculo conjugal, ele afirma: "A cada um, ou antes a cada casal, a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me parece menos traído pelo amor (pelo outro amor) do que pela mentira" - a "exclusividade" é concebida pelo próprio Comte-Sponville como "usufruto mútuo dos corpos". Não precisamos concordar com a afirmação por completo, ou em sua forma generalizada; nem por isso, entretanto, ela perde sua força provocativa, e tampouco pareceria sensato abrir mão da oportunidade de tentarmos entender as possíveis razões - ou a razão maior - que a sustentam. Deixo para outra oportunidade a questão da hipervalorização da traição que - ao reduzir "Eros" ao apetite erótico, e a nada mais que isso - certa tradição religiosa nos vem incutindo ao longo dos séculos, cuja gravidade só se compara ao chamado “pecado contra o Espírito Santo”, o qual, curiosamente, poucos sabem de fato em que consiste, embora carregue a fama de ser o único que não admite perdão; a pessoa peca - gravissimamente - sem saber que está pecando. Retomando: a afirmação de Comte-Sponville, como se pode perceber, está em sintonia com a premissa que aqui estamos abraçando: a de que a mentira, mais que o erro, geralmente acaba se transformando na principal responsável pelo desencadeamento das crises e dos conflitos que com frequência desestabilizam a vida conjugal. Admitida essa hipótese, a pergunta que parece inevitável é: como, e por que, isso geralmente acaba acontecendo? Adianto que minha compreensão dessa questão é meramente hipotética, ficando o leitor totalmente à vontade para discordar e sugerir sua própria interpretação.

 

A meu ver, a mentira - que, entre outras formas de infidelidade, consiste em negar um ato de traição - pode ferir e lesar mais do que o próprio ato, pela razão que se segue: enquanto a traição, ao menos até que se prove o contrário, pode e deve ser considerada como um gesto de fraqueza, de vulnerabilidade e de imaturidade - tomados em conjunto ou separadamente - a mentira, por sua vez, envolve cálculo, premeditação e certa dose de intencionalidade e má-fé, como observado anteriormente. É nesse ponto que a afirmação de Comte-Sponville parece ganhar densidade e alcance. Na percepção de muitos cônjuges, quando a mentira se faz calculada e reiterada no tempo, ela passa a ferir ainda mais do que o próprio ato, pois introduz no vínculo uma fratura mais ampla, difusa e silenciosa, que atinge de morte a confiança - esse chão invisível sobre o qual repousam a segurança afetiva, a previsibilidade básica do comportamento do outro, e a própria possibilidade de continuidade do vínculo. Diferentemente do ato, que pode ser considerado grave, doloroso, mas ainda perdoável ou compreensível - sobretudo quando há arrependimento sincero de um lado, e perdão generoso do outro - a mentira reiterada infiltra-se no cotidiano da convivência, instala-se na repetição dos gestos e das palavras, contamina o sentido das promessas feitas, intoxicando as melhores intenções e alcançando até mesmo as memórias mais íntimas e marcantes. Ao ferir de morte a confiança, ela deixa marcas silenciosas - comparáveis aos efeitos remanescentes de um artefato atômico - que minam a segurança afetiva e transformam cada gesto futuro em terreno movediço e imprevisível, permitindo que a dúvida e a suspeita passem a governar o relacionamento. Desse modo, lança uma sombra persistente não apenas sobre o passado e o presente, mas também sobre o futuro do vínculo, que deixa de ser horizonte de confiança para tornar-se território de vigilância, cautela e insegurança. Não sem razão, o demônio - perpetrador por excelência das mais corrosivas desordens, crises e desavenças - é comumente chamado de “pai da mentira”.

 

Inversamente, quando o compromisso com a verdade se impõe e se torna inegociável - aceitando todos os riscos que tal decisão acarreta - a verdade torna-se potencialmente capaz não apenas corrigir erros e desarmar mentiras, mas também reconstruir e fortalecer a confiança, iluminando as sombras do vínculo e abrindo caminhos para que o amor, mesmo ferido, reencontre o espaço seguro onde possa florescer ainda mais maduro, sólido e resiliente. É nesse compromisso de coragem e transparência - tal como almejava Francisco, ao levar verdade onde houvesse erro, e que Comte-Sponville reconhece como valor superior à própria exclusividade - que o amor conjugal encontra sua força e sua expressão mais genuína, não como sentimento ingênuo ou romantizado, mas como fidelidade persistente, presença consciente e cuidado constante. Num tal contexto, verdade e transparência atuam como luz silenciosa que dissolve desconfianças, restaura promessas, redefine palavras e gestos, devolvendo sentido e esperança àquilo que parecia irremediavelmente perdido e impossível de ser reconstruído.

 

A vida ensina que, não raro, é justamente nos momentos de crise aguda que o poder transformador da sinceridade e da verdade surpreende, oferecendo redenção sem alarde e permitindo que a intimidade recupere sua segurança - prova inequívoca de que a fraqueza e a falibilidade humanas, quando acolhidas com compreensão e perdão, podem proporcionar ao vínculo não apenas sobrevivência, mas também a possibilidade de crescer de maneira mais autêntica e verdadeira do que jamais conseguira antes. "O que não mata, nos torna ainda mais fortes", afirma a sabedoria popular; "Toda crise é também sinônimo de oportunidade", assegura a milenar tradição chinesa.

 

Obs.: esta sétima parte será complementada com as posteriores de mesmo título.

            (* ) Reflexão enviada por whatsapp pelo autor, de Vitoria (ES).

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