"ATÉ QUE A MORTE NOS
SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO
FRANCISCO"
[Parte VII]
"Onde houver erro,que eu leve
a verdade!"
[Atribuída a São Francisco de Assis]
ONDE HOUVER ERRO, QUE EU LEVE A
VERDADE!
À
primeira vista, a contraposição entre erro e verdade pode causar certo
estranhamento na súplica de Francisco, sobretudo quando considerada a partir de
um critério ético-moral, segundo o qual o oposto da verdade não é o erro, mas a
mentira. Esta - a mentira - implica intenção, cálculo, premeditação e, em certa
medida, má-fé; a chamada mentira bem-intencionada também existe, mas é rara,
quase uma exceção. O erro, ao contrário, nasce da imperfeição humana, da
percepção sempre limitada da realidade, da leitura imprecisa dos fatos e da
inevitável interferência de crenças, expectativas e paixões na elaboração da
percepção. Ao eleger o erro - e não a mentira - como uma espécie de enfermidade
que requer a verdade para ser sanada, Francisco desloca o eixo da súplica,
retirando-o do plano moral e situando-o no plano existencial: não se trata,
antes, de denunciar culpados nem de punir desvios éticos, por mais graves que
eles sejam, mas de reconhecer a limitação humana em sua permanente exposição ao
erro e ao equívoco e, a partir daí, dispor-se a prestar-lhe socorro. Para
Platão, nossos sentidos são uma fonte constante de erros e enganos, que
prejudicam a alma em sua perene busca pela verdade eterna e imutável.
Nesse
sentido, a verdade invocada por Francisco não se apresenta como um veredicto
implacável de culpa e de condenação, e sim como luz que esclarece, orienta e
contribui para que o erro seja reconhecido, sanado e tratado sem
constrangimento ou humilhação, evitando que o ser humano, em razão dele, venha
a ser desterrado de seu habitat natural pela segunda vez; um lugar que não chega
a ser exatamente um paraíso, mas que tampouco deveria ser tratado como um
inconsolável vale de lágrimas. Trata-se, portanto, de uma verdade que está a
serviço da libertação e da emancipação, que não se impõe pela força mas se
oferece como possibilidade de reencontro e reaproximação. Assim compreendida, a
súplica “onde houver erro, que eu leve a verdade” assume um alcance arquetípico
e universal, tornando-se expressão da condição humana atravessada pela
falibilidade, pela incompletude e pela permanente necessidade de revisão de
suas certezas. É justamente essa característica de universalidade que a torna
credenciada a servir de luz e orientação para diversos contextos específicos,
dentre os quais se destaca, de modo particular, o vínculo de natureza conjugal,
que ora estamos abordando.
Entretanto,
quando utilizada como bússola norteadora com vistas à ressignificação do
vínculo matrimonial, essa percepção franciscana dessa tensão entre erro e
verdade defronta-se com um dilema que não admite soluções fáceis, qual seja:
geralmente não é o erro, mas a mentira, a principal responsável pelo
desencadeamento de crises e conflitos nos relacionamentos, excetuados os casos
em que o erro se converte em um autêntico divisor de águas para o vínculo, como
é o caso da traição, aqui entendida em seu sentido físico estrito. Ainda assim,
também aqui a mentira que nega o fato - denominada pela psicologia de
"negação", em seu sentido geral - pode ser considerada tão grave
quanto o próprio ato. Em certos casos, até mais. E se tanto a traição quanto a
mentira que a nega estão presentes, as chances de reconciliação praticamente colapsam.
Isso acaba colocando o infrator - seja ele ou ela - diante de uma autêntica
encruzilhada: ocultar a verdade, como última tentativa de evitar que a
tempestade se transforme em tsunami, ou revelar o fato abertamente e se
preparar para enfrentar as consequências. Se a decisão recai sobre a segunda
opção - a confissão da verdade - não resta outra alternativa senão confiar no
destino - caso não se tenha religião alguma - ou, se se tem, invocar com fervor
a intervenção da providência divina. Em meio a esse mar de incertezas, muitos
se decidem por abandonar a orientação de Francisco - “onde houver erro, que eu
leve a verdade” - movidos pelo temor de que a tempestade acabe se transformando
em tsunami. Mas se a traição se cristaliza em vício, hábito ou rotina - à semelhança
de um verme que corrói, lenta e progressivamente, cada fibra vital do
relacionamento minando silenciosamente a solidez que parecia inabalável -
somente uma intervenção trinitária, em ação sinérgica, provavelmente se
mostraria capaz de reverter a situação.
Não
creio que aqueles que me acompanham em minhas reflexões ousariam concordar com
a seguinte afirmação de André Comte-Sponville, em seu "Pequeno tratado das
grandes virtudes". Ao abordar a fidelidade como um quesito estruturante do
vínculo conjugal, ele afirma: "A cada um, ou antes a cada casal, a verdade
é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me parece menos traído
pelo amor (pelo outro amor) do que pela mentira" - a
"exclusividade" é concebida pelo próprio Comte-Sponville como
"usufruto mútuo dos corpos". Não precisamos concordar com a afirmação
por completo, ou em sua forma generalizada; nem por isso, entretanto, ela perde
sua força provocativa, e tampouco pareceria sensato abrir mão da oportunidade
de tentarmos entender as possíveis razões - ou a razão maior - que a sustentam.
Deixo para outra oportunidade a questão da hipervalorização da traição que - ao
reduzir "Eros" ao apetite erótico, e a nada mais que isso - certa
tradição religiosa nos vem incutindo ao longo dos séculos, cuja gravidade só se
compara ao chamado “pecado contra o Espírito Santo”, o qual, curiosamente,
poucos sabem de fato em que consiste, embora carregue a fama de ser o único que
não admite perdão; a pessoa peca - gravissimamente - sem saber que está
pecando. Retomando: a afirmação de Comte-Sponville, como se pode perceber, está
em sintonia com a premissa que aqui estamos abraçando: a de que a mentira, mais
que o erro, geralmente acaba se transformando na principal responsável pelo
desencadeamento das crises e dos conflitos que com frequência desestabilizam a
vida conjugal. Admitida essa hipótese, a pergunta que parece inevitável é:
como, e por que, isso geralmente acaba acontecendo? Adianto que minha
compreensão dessa questão é meramente hipotética, ficando o leitor totalmente à
vontade para discordar e sugerir sua própria interpretação.
A
meu ver, a mentira - que, entre outras formas de infidelidade, consiste em
negar um ato de traição - pode ferir e lesar mais do que o próprio ato, pela
razão que se segue: enquanto a traição, ao menos até que se prove o contrário,
pode e deve ser considerada como um gesto de fraqueza, de vulnerabilidade e de
imaturidade - tomados em conjunto ou separadamente - a mentira, por sua vez,
envolve cálculo, premeditação e certa dose de intencionalidade e má-fé, como
observado anteriormente. É nesse ponto que a afirmação de Comte-Sponville
parece ganhar densidade e alcance. Na percepção de muitos cônjuges, quando a
mentira se faz calculada e reiterada no tempo, ela passa a ferir ainda mais do
que o próprio ato, pois introduz no vínculo uma fratura mais ampla, difusa e
silenciosa, que atinge de morte a confiança - esse chão invisível sobre o qual
repousam a segurança afetiva, a previsibilidade básica do comportamento do
outro, e a própria possibilidade de continuidade do vínculo. Diferentemente do
ato, que pode ser considerado grave, doloroso, mas ainda perdoável ou
compreensível - sobretudo quando há arrependimento sincero de um lado, e perdão
generoso do outro - a mentira reiterada infiltra-se no cotidiano da
convivência, instala-se na repetição dos gestos e das palavras, contamina o
sentido das promessas feitas, intoxicando as melhores intenções e alcançando
até mesmo as memórias mais íntimas e marcantes. Ao ferir de morte a confiança,
ela deixa marcas silenciosas - comparáveis aos efeitos remanescentes de um
artefato atômico - que minam a segurança afetiva e transformam cada gesto
futuro em terreno movediço e imprevisível, permitindo que a dúvida e a suspeita
passem a governar o relacionamento. Desse modo, lança uma sombra persistente
não apenas sobre o passado e o presente, mas também sobre o futuro do vínculo,
que deixa de ser horizonte de confiança para tornar-se território de
vigilância, cautela e insegurança. Não sem razão, o demônio - perpetrador por
excelência das mais corrosivas desordens, crises e desavenças - é comumente
chamado de “pai da mentira”.
Inversamente,
quando o compromisso com a verdade se impõe e se torna inegociável - aceitando
todos os riscos que tal decisão acarreta - a verdade torna-se potencialmente
capaz não apenas corrigir erros e desarmar mentiras, mas também reconstruir e
fortalecer a confiança, iluminando as sombras do vínculo e abrindo caminhos
para que o amor, mesmo ferido, reencontre o espaço seguro onde possa florescer
ainda mais maduro, sólido e resiliente. É nesse compromisso de coragem e
transparência - tal como almejava Francisco, ao levar verdade onde houvesse
erro, e que Comte-Sponville reconhece como valor superior à própria
exclusividade - que o amor conjugal encontra sua força e sua expressão mais
genuína, não como sentimento ingênuo ou romantizado, mas como fidelidade
persistente, presença consciente e cuidado constante. Num tal contexto, verdade
e transparência atuam como luz silenciosa que dissolve desconfianças, restaura
promessas, redefine palavras e gestos, devolvendo sentido e esperança àquilo
que parecia irremediavelmente perdido e impossível de ser reconstruído.
A
vida ensina que, não raro, é justamente nos momentos de crise aguda que o poder
transformador da sinceridade e da verdade surpreende, oferecendo redenção sem
alarde e permitindo que a intimidade recupere sua segurança - prova inequívoca
de que a fraqueza e a falibilidade humanas, quando acolhidas com compreensão e
perdão, podem proporcionar ao vínculo não apenas sobrevivência, mas também a
possibilidade de crescer de maneira mais autêntica e verdadeira do que jamais
conseguira antes. "O que não mata, nos torna ainda mais fortes",
afirma a sabedoria popular; "Toda crise é também sinônimo de
oportunidade", assegura a milenar tradição chinesa.
Obs.: esta sétima parte será complementada
com as posteriores de mesmo título.
(* ) Reflexão enviada por whatsapp pelo autor, de Vitoria (ES).
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