quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

07-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )

 07-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

 

                    [Parte VIII-01]

             "Onde  houver desespero,  que eu leve a esperança"

                [Atribuída a São Francisco de Assis]

ONDE HOUVER DESESPERO, QUE EU LEVE A ESPERANÇA!

Com o desespero real não se brinca - e isso se revela de maneira particularmente dramática no dia a dia da vida conjugal. É possível fazer humor com situações de pânico circunstancial: a estupefação de quem é apanhado “com a mão na massa” ocultando dinheiro nas partes íntimas, o espanto de quem é pego com a “boca na botija” saindo do motel com quem deveria ser apenas secretária ou secretário, ou o embaraço de quem é pego "no flagra" enviando mensagens suspeitas que resolvem fazer uma visita inesperada ao celular da pessoa errada. O susto é grande, o constrangimento é intenso, e o pânico chega a ser cômico, tal como souberam explorar com maestria os programas humorísticos Casseta & Planeta e Pânico na TV.

Mas, no dia a dia do casamento - onde a vida real pouco ou nada tem dos cenários artificiais dos reality shows - esse tipo de pânico é apenas a camada superficial de uma realidade muito mais profunda, sofrida e nem sempre perceptível. Aqui, o desespero real não se dissolve com risos, gargalhadas e, menos ainda, com ironias refinadas; pelo contrário, é implacavelmente sério e mordaz: corrói silenciosamente o interior do vínculo até alcançar as bases que lhe servem de sustentação. Instala-se como experiência que afeta não apenas os parceiros, individual e subjetivamente, mas também o próprio vínculo que os mantém unidos, afetiva e relacionalmente.

Levar esperança onde há desespero é, sem dúvida, uma missão das mais nobres e relevantes. Mas, quando se trata da invocação franciscana, uma curiosidade salta à frente: se o contrário de confiança é desconfiança, de honestidade é desonestidade e de lealdade é deslealdade, por qual razão Francisco prefere contrapor desespero à esperança, e não - o que seria de se esperar - desesperança? Com certeza, a escolha não é apenas semântica; uma hipótese plausível é que sua opção tenha sido deliberadamente proposital. Ela aponta para a intensidade dramática da experiência humana quando a esperança está ausente e o sofrimento se torna insuportável - isso gera não apenas desesperança; gera desespero - fazendo com que o viver deixe de ser escolha e passe a ser resistência.

Enquanto a desesperança sugere certa passividade, indiferença ou ausência de expectativa, o desespero, ao contrário, aponta para uma vivência carregada de angústia e tensão, que impõem um intenso bombardeio às emoções, pressionam a razão e exigem resposta imediata. Imagine, por exemplo, o drama vivido por quem se encontrava no interior das Torres Gêmeas, naquele fatídico onze de setembro: aguardar um socorro incerto, em meio às chamas cada vez mais intensas, ou tentar pôr fim ao sofrimento lançando-se a uma morte dramática e absolutamente certa? Em situações como essa, o desespero assume contornos extremos, deixando pouca margem à esperança, se é que ela ainda permanece em cena.

No plano espiritual, situações radicais de desespero podem precipitar o colapso da fé e a perda total do sentido da vida; a desesperança, nem tanto. Ao evocar o desespero, Francisco não se limita a indicar a mera falta de esperança; ele aponta para a urgência premente de um movimento interior capitaneado pela própria esperança, capaz de superar a incerteza, renovar a confiança e abrir caminho para a transformação. No vínculo conjugal, o desespero é o grito da alma diante da ameaça de ruptura iminente, que impõe confrontar e decidir sob pressão, ainda que essa seja a forma e o momento menos apropriados para qualquer tomada de decisão. Uma traição reiterada, por exemplo - quando ausente toda e qualquer demonstração de arrependimento sincero - não representa apenas a possibilidade de ruptura de um pacto e de uma aliança; antes, pode significar a dissolução do chão compartilhado por anos ou mesmo décadas, fazendo com que a intimidade se fragmente, a confiança se esfarele e cada olhar se transforme em suspeita ou acusação, expondo o coração a uma escolha dilacerante: suportar o insuportável ou admitir o colapso do vínculo.

Uma doença súbita ou um acidente que altera radicalmente a vida de um dos cônjuges pode ser suficiente para converter a convivência em um labirinto de medo e impotência, no qual o cuidado deixa de ser escolha livre e passa a ser fardo pesado, enquanto o tempo se estreita, o futuro se torna incerto e cada decisão pesa como se fosse um fardo. Também a derrocada da situação financeira - sobretudo quando acompanhada do isolamento social que costuma provocar - pode acabar transformando o cotidiano em um campo de tensões contínuas, onde a urgência corrói a serenidade, a vulnerabilidade expõe feridas antigas, e a pressão constante acaba inibindo tanto a ação quanto a disposição interior para enfrentar a realidade.

Todas essas experiências, entre outras, acabam expondo o vínculo a um estresse extremo, que o fragiliza, exaure e o aproxima perigosamente do fim. Em situações desse tipo, quando a fé e a esperança são escassas - ou, o que é ainda pior, estão ausentes - o desespero se apresenta muito menos como energia que impulsiona rumo à mudança, e muito mais como força que desestabiliza e fragiliza o que parecia blindado contra qualquer tipo de ameaça. Impõe-se, em tais momentos, a urgência de abrir caminhos que, respeitando e reverenciando o amor que permanece, permitam à vida reencontrar o equilíbrio, por mais delicada, dolorosa - e mesmo traumática - que se mostre a situação.

“Até que a morte nos separe”: se você passou pela dramática experiência de perder repentina e inesperadamente um filho ou o próprio parceiro, é natural que se pergunte por que tal experiência não foi incluída entre os exemplos que podem gerar desespero, apontados anteriormente. Adianto que isso não se deu por lapso de memória ou de percepção; seria quase imperdoável se assim acontecesse. Afinal, perder para sempre alguém que, além de nós mesmos, é a própria razão de ser de nossas vidas, talvez esteja entre as situações com maior potencial capaz de desestabilizar o vínculo conjugal e familiar. Aqui, não é apenas o chão que se desfaz, abrindo um abismo sob nossos pés; é o próprio mundo que parece ruir, sem direção, sem porto seguro, como se a pessoa perdesse a razão maior de continuar vivendo. E isso, claro, pode ser tremendamente desesperador.

Mesmo quando a fé e a esperança estão presentes, não raro também elas podem sofrer abalos profundos, que tanto podem fragilizá-las quanto fortalecê-las ainda mais. A dor de se perder quem mais se ama só é plenamente compreensível por quem já passou ou esteja passando pelo mesmo tipo de experiência. Exige coragem silenciosa para reconstruir sentidos e, mesmo na ausência irreversível, abrir caminhos que reverenciem o amor que permanece e permitam à vida restabelecer seu delicado, doloroso e, por vezes, traumático equilíbrio.

A morte física, repentina e inesperada, pode ser traumática para o casal - quando se trata de um filho ou filha - ou para o cônjuge, quando se trata do parceiro. Há, contudo, um tipo peculiar de “morte” que, sem ser necessariamente traumática, instaura na convivência conjugal não propriamente o desespero, mas a desesperança: refiro-me à morte do próprio vínculo, enquanto tal. Ariano Suassuna dizia que o otimista é um tolo, o pessimista é um chato e que o melhor é ser realista com esperança. Não há dúvida de que essa máxima se aplica a muitas dimensões da vida, inclusive ao vínculo conjugal. Também a afirmação atribuída a Abraham Lincoln - segundo a qual, “casamento não é céu nem inferno; é apenas purgatório” - parece, sob esse prisma, bastante razoável.

Sendo assim, a afirmação de que “aquilo que Deus uniu, o homem não separe” pode soar convincente para vocacionados ao celibato, mas altamente questionável quando aplicada ao vínculo conjugal. Humanos, frágeis, falíveis e imprevisíveis que somos - para mencionar apenas algumas de nossas limitações - a razoabilidade sugere que tratemos esse tipo singular de vínculo com respeito, antes de tudo, com coerência, em segundo lugar, e com a máxima compreensão, para completar a tríade. Spinoza diria que a compreensão basta, pois ela constitui a base tanto da fidelidade, por um lado, quanto do perdão, por outro. Ainda que possa parecer razoável almejar que o vínculo conjugal dure para sempre, até que a morte o separe, o realismo esperançoso adverte que haverá casos - talvez não tão raros quanto se imagina - em que será igualmente desejável, e até recomendável, que o vínculo tenha início, meio e fim, sem que seja exclusivamente a morte física a impor esse desfecho. A nosso ver, a “morte” do próprio vínculo é igualmente capaz de cumprir tal função. O que vem a ser essa “morte” e em que consiste a “desesperança” silenciosa que ela traz consigo - e que nem sempre culmina em desespero - será tema do segundo tópico da presente reflexão.

Obs.: Esta parte número oito, tópico 01, será completada pelo tópico 02, de mesmo título.… 

            (* ) Reflexão enviada por whatsapp pelo autor, de Vitoria (ES).

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