08- Tempestades, dívidas e urnas: O Brasil
diante de 2026
O fim de ano se aproxima sob o impacto de chuvas torrenciais que castigam
diversas regiões do país, revelando a fragilidade histórica da infraestrutura
urbana e a incapacidade crônica do poder público de prevenir tragédias
anunciadas. Mas, para além das águas que transbordam rios e invadem cidades, o
Brasil enfrenta um outro dilúvio — o das incertezas políticas e econômicas, que
se acumulam no horizonte nacional.
No plano político, o cenário permanece
rigidamente polarizado. Mesmo mostrando cenários
em que o presidente Lula leva vantagem, ganhando o
pleito nos primeiro e segundo turnos, as pesquisas de opinião continuam a
mostrar a intensa polarização que se arrasta desde as eleições de 2022,
reproduzindo uma clivagem que deixou de ser apenas eleitoral para se tornar
estrutural, emocional e identitária. Trata-se de uma divisão que bloqueia
consensos mínimos, empobrece o debate público e transforma qualquer agenda em
campo de batalha ideológica.
Essa polarização entre lulistas e bolsonaristas já projeta sua
sombra sobre 2026. Embora o calendário eleitoral ainda pareça distante, o país
vive, na prática, um estado permanente de pré-campanha. Lideranças políticas
calculam cada gesto à luz da disputa futura, partidos evitam decisões
impopulares e o discurso radical tende a se intensificar. O centro político,
fragmentado e sem narrativa consistente, luta para se fazer ouvir em meio ao
ruído dos extremos.
Política
e economia
No Congresso, a consequência é um ambiente de
negociação instável e pragmática, no qual o apoio se constrói
mais por conveniência momentânea do que por projetos de longo prazo. O
Executivo governa sob pressão contínua, enquanto o Judiciário é frequentemente
empurrado para o centro da arena política, assumindo protagonismo em temas que
deveriam ser resolvidos pela via institucional tradicional.
No campo econômico, os sinais tampouco oferecem alívio. O rombo
nas contas públicas aprofunda-se e já dá mostras de ter alcançado um ponto
crítico. Dados recentes do Banco Central indicam que a dívida do setor público
consolidado registrou alta de um ponto percentual em setembro, atingindo 78,1%
do Produto Interno Bruto (PIB) — o equivalente a R$ 9,75 trilhões. É um patamar
elevado para um país emergente, sobretudo em um contexto de crescimento modesto
e forte pressão por gastos sociais.
O avanço da dívida limita a capacidade de investimento do
Estado, pressiona a política monetária e alimenta desconfianças quanto à
sustentabilidade fiscal. Mais do que um indicador técnico, trata-se de um
problema político. Em ano pré-eleitoral, cresce a tentação do gasto fácil, das
promessas generosas e das soluções simplistas, enquanto diminui a disposição
para ajustes impopulares, porém necessários.
Eleição
plebiscitária
O risco é evidente: 2026 pode se transformar em uma eleição
plebiscitária, centrada em paixões e ressentimentos, com pouco espaço para um
debate sério sobre responsabilidade fiscal, reformas estruturais e adaptação do
país aos desafios climáticos, tecnológicos e demográficos. A insistência na
lógica do confronto tende a produzir vencedores eleitorais, mas não soluções
duradouras.
Entre enchentes que expõem a ausência de planejamento, uma
polarização que paralisa o diálogo e uma dívida pública que estreita o campo de
escolhas, o Brasil encerra o ano imerso em dúvidas. O desafio que se impõe não
é apenas vencer a próxima eleição, mas recuperar a capacidade de pensar o médio
e o longo prazo, resgatar a confiança nas instituições e substituir o grito
pela razão.
Sem isso, seguiremos atravessando tempestades — climáticas,
políticas e fiscais — sempre com a sensação de que o pior pode estar logo
adiante.
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