4. REFLEXÕES
PARA ESTE 5.º DOMINGO DA QUARESMA
4.1-
SAIR DE TUDO O QUE
NOS APRISIONA
Neste 5º
domingo da quaresma, a Liturgia nos conduz ao coração do mistério cristão: Deus
é aquele que faz brotar vida onde, aos nossos olhos, parece haver apenas morte.
À medida que nos aproximamos da Páscoa, a Palavra de Deus nos convida a renovar
a esperança e a confiar n'Aquele que é, ontem, hoje e sempre, a Ressureição e a
Vida. A primeira leitura, do profeta Ezequiel, nos apresenta um povo cansado,
ferido, sem horizonte. Um povo que se sente como que enterrado, antes mesmo de
morrer. É a esse povo que Deus dirige uma promessa cheia de esperança: “Abrirei
vossas sepulturas e vos farei sair delas” (Ez 37, 12). Deus não aceita que a
morte, o desânimo ou o exílio tenham a última palavra. Ele sopra o seu Espírito
e devolve vida, dignidade e futuro. Essa Palavra ressoa fortemente também em
nossa quaresma: Deus não desiste de nós, mesmo quando tudo parece perdido. O
salmo nos ajuda a rezar essa confiança: “No Senhor se encontra toda graça e
copiosa redenção” (Sl 129). Do fundo do abismo, o salmista clama, certo de que
Deus escuta o grito do seu povo. A Quaresma é exatamente esse tempo: tempo de
reconhecer nossas fragilidades, nossas quedas e limites, mas também de esperar
no Senhor, confiantes na sua misericórdia. Na segunda leitura, São Paulo nos
recorda uma verdade consoladora: “O Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos
mortos habita em vós” (Rm 8, 11). Não estamos sozinhos em nossa caminhada. A
vida nova já começou em nós pelo Batismo. Somos chamamos a viver segundo o
Espírito, permitindo que Ele transforme nossas escolhas, nossas relações e o
nosso modo de viver. O Evangelho nos apresenta uma das histórias mais belas e
humanas do relato segundo São João: a ressurreição de Lázaro. Jesus não é
indiferente à dor. Ele se aproxima, se comove e chora diante do túmulo do
amigo. Jesus entra na dor da família, enfrenta a morte e proclama: “Lázaro, vem
para fora!”, Com isso, Ele nos revela que a última palavra não é da morte, mas
da vida. Marta, em meio à dor, faz uma das mais belas profissões de fé do
Evangelho: “Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 11, 27). Essa fé
não elimina o sofrimento, mas dá sentido à esperança. Também nós, tantas vezes,
nos deparamos com “sepulcros fechados” em nossa vida: crises pessoais,
familiares, sociais. E hoje somos convidados a repetir com Marta: “Senhor, eu
creio”. A Campanha da Fraternidade deste ano nos ajuda a atualizar essa
Palavra, chamando nosso olhar para uma realidade concreta de morte e exclusão:
a falta de moradia digna. Muitos irmãos e irmãs vivem como que sepultados pela
pobreza, pela insegurança e pela invisibilidade social. Crer em Jesus, o Deus
da Vida, implica ouvir esse clamor. Aquele que “veio morar entre nós” (Jo 1,14)
nos convida a reconhecer sua presença naqueles que lutam por um teto, por
dignidade e por um lugar seguro para viver. No final do Evangelho, Jesus nos
confia uma missão clara: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11, 44). A vida nova
exige compromisso. Não basta crer apenas com os lábios; é preciso agir. Como
comunidade cristã, somos chamados a remover as pedras que impedem a vida de
florescer: a indiferença, o egoísmo, a injustiça social. Ver Jesus vivo é
reconhecê-lo no rosto do irmão e da irmã que caminham conosco. Nesta Quaresma,
deixemo-nos tocar por essa palavra que gera vida. Que o Espírito Santo nos
ajude a sair de tudo aquilo que nos aprisiona e nos conduza a uma fé viva,
comprometida e transformadora. E que, caminhando para a Páscoa, possamos
proclamar com a vida aquilo que professamos com os lábios: Jesus é a
Ressurreição e a Vida, ontem, hoje e sempre. Amém.
Dom
Carlos Silva, OFMCap Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a
Região Brasilândia
https://arquisp.org.br/wp-content/uploads/2026/01/Ano-50A-21-5o-DOMINGO-DE-QUARESMA.pdf
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