sexta-feira, 20 de março de 2026

4. REFLEXÕES PARA ESTE 5.º DOMINGO DA QUARESMA 4.1- SAIR DE TUDO O QUE NOS APRISIONA

 

4.    REFLEXÕES PARA ESTE 5.º DOMINGO DA QUARESMA

 

4.1-       SAIR DE TUDO O QUE NOS APRISIONA

 

Neste 5º domingo da quaresma, a Liturgia nos conduz ao coração do mistério cristão: Deus é aquele que faz brotar vida onde, aos nossos olhos, parece haver apenas morte. À medida que nos aproximamos da Páscoa, a Palavra de Deus nos convida a renovar a esperança e a confiar n'Aquele que é, ontem, hoje e sempre, a Ressureição e a Vida. A primeira leitura, do profeta Ezequiel, nos apresenta um povo cansado, ferido, sem horizonte. Um povo que se sente como que enterrado, antes mesmo de morrer. É a esse povo que Deus dirige uma promessa cheia de esperança: “Abrirei vossas sepulturas e vos farei sair delas” (Ez 37, 12). Deus não aceita que a morte, o desânimo ou o exílio tenham a última palavra. Ele sopra o seu Espírito e devolve vida, dignidade e futuro. Essa Palavra ressoa fortemente também em nossa quaresma: Deus não desiste de nós, mesmo quando tudo parece perdido. O salmo nos ajuda a rezar essa confiança: “No Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção” (Sl 129). Do fundo do abismo, o salmista clama, certo de que Deus escuta o grito do seu povo. A Quaresma é exatamente esse tempo: tempo de reconhecer nossas fragilidades, nossas quedas e limites, mas também de esperar no Senhor, confiantes na sua misericórdia. Na segunda leitura, São Paulo nos recorda uma verdade consoladora: “O Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós” (Rm 8, 11). Não estamos sozinhos em nossa caminhada. A vida nova já começou em nós pelo Batismo. Somos chamamos a viver segundo o Espírito, permitindo que Ele transforme nossas escolhas, nossas relações e o nosso modo de viver. O Evangelho nos apresenta uma das histórias mais belas e humanas do relato segundo São João: a ressurreição de Lázaro. Jesus não é indiferente à dor. Ele se aproxima, se comove e chora diante do túmulo do amigo. Jesus entra na dor da família, enfrenta a morte e proclama: “Lázaro, vem para fora!”, Com isso, Ele nos revela que a última palavra não é da morte, mas da vida. Marta, em meio à dor, faz uma das mais belas profissões de fé do Evangelho: “Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 11, 27). Essa fé não elimina o sofrimento, mas dá sentido à esperança. Também nós, tantas vezes, nos deparamos com “sepulcros fechados” em nossa vida: crises pessoais, familiares, sociais. E hoje somos convidados a repetir com Marta: “Senhor, eu creio”. A Campanha da Fraternidade deste ano nos ajuda a atualizar essa Palavra, chamando nosso olhar para uma realidade concreta de morte e exclusão: a falta de moradia digna. Muitos irmãos e irmãs vivem como que sepultados pela pobreza, pela insegurança e pela invisibilidade social. Crer em Jesus, o Deus da Vida, implica ouvir esse clamor. Aquele que “veio morar entre nós” (Jo 1,14) nos convida a reconhecer sua presença naqueles que lutam por um teto, por dignidade e por um lugar seguro para viver. No final do Evangelho, Jesus nos confia uma missão clara: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11, 44). A vida nova exige compromisso. Não basta crer apenas com os lábios; é preciso agir. Como comunidade cristã, somos chamados a remover as pedras que impedem a vida de florescer: a indiferença, o egoísmo, a injustiça social. Ver Jesus vivo é reconhecê-lo no rosto do irmão e da irmã que caminham conosco. Nesta Quaresma, deixemo-nos tocar por essa palavra que gera vida. Que o Espírito Santo nos ajude a sair de tudo aquilo que nos aprisiona e nos conduza a uma fé viva, comprometida e transformadora. E que, caminhando para a Páscoa, possamos proclamar com a vida aquilo que professamos com os lábios: Jesus é a Ressurreição e a Vida, ontem, hoje e sempre. Amém.

 

Dom Carlos Silva, OFMCap Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a Região Brasilândia

 

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