sexta-feira, 24 de abril de 2026

08- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 08- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"- [Parte X-02]

"Onde houver trevas,  que eu leve a luz"

[Atribuída a  São Francisco de Assis]

 

ONDE HOUVER TREVAS, QUE EU LEVE A LUZ!

Até aqui, falamos de sombras e trevas, tanto em sentido literal quanto metafórico; pouco ou quase nada de luz e iluminação. Nosso eixo central, recordemos, é a Oração atribuída a São Francisco de Assis, com foco na súplica "onde houver trevas, que eu leve a luz!". Tal invocação nos oferece uma espécie de moldura genérica, mas Francisco não ignorava que cada tipo de sombra ou treva requer luz própria e diferenciada para ser dissipada. Assim, para as trevas do mundo exterior parece suficiente a luz dos inumeráveis astros mantidos  suspensos no firmamento pelo Criador. Já para as trevas e sombras da ignorância e do desconhecimento, Platão sugeriu uma espécie de ascese racional, moral e espiritual, à qual deu o nome de "dialética", única forma de se atingir o que ele chamou de Bem ou Luz Suprema. Sem a contemplação dessa Luz o ser humano permanece cativo de um mundo de sombras e aparências, sendo essa, para Platão, a pior das escravidões, da qual derivam todas as demais. Aristóteles, seu mais eminente discípulo, discordou abertamente do mestre. Não vivemos de lembranças, sombras e aparências, afirmou. Nosso mundo pode não ser o melhor dos mundos, como dirá Leibniz mais tarde, mas é sem dúvida o melhor mundo possível. Cada mundo e cada realidade carregam seu próprio sentido e significado. O saber e a sabedoria devem iluminar primeiro o mundo presente e imanente em que vivemos. Sem essa iluminação da realidade imanente, nenhum mundo ou realidade transcendente faz sentido. Mestre de Platão, Sócrates advertira, bem antes, que o sentido ou a verdade das coisas, incluindo de nós mesmos, não está fora de nós e menos ainda em uma realidade transcendente, e sim dentro de nós. Todo sentido e qualquer verdade devem, portanto, ser buscados no interior de nós mesmos, "no mais íntimo de nosso próprio íntimo", como dirá mais tarde Agostinho de Hipona, em um mundo que começava a se cristianizar. Para nos guiar nessa procura, o que Sócrates chamou de "daimon", seu mestre ou luz interior, Agostinho, no "De Magistro", chamou de Jesus, mestre e luz interior de todos e de cada um de nós. Por fim, séculos mais tarde o Iluminismo elegeu a razão como luz suprema e absoluta. Onde quer que tal luz aportasse, não ficaria sombra sobre sombra, treva sobre treva. Uma vez entronizada a razão, todas as demais luzes e luzeiros não passariam de tênue e pálido reflexo. O cientificismo discordou, Karl Marx criticou, Sigmund Freud relativizou, Charles Darwin desestabilizou, e, por fim, a Inteligência Artificial parece sugerir: calma, pessoal; por favor, vamos com calma.

Para a dissipação das sombras e trevas afetivas e emocionais, apontadas por Jung, tudo indica que não há luz mais adequada do que um bom e criterioso acompanhamento terapêutico profissional. O problema é que muitas pessoas veem o tratamento psicológico com desconfiança, por desconhecerem o que ele realmente é, associando-o à doença mental grave. Somam-se a isso uma cultura de automedicação e decisão de suportar tudo sozinho, a influência de certas interpretações religiosas que dispensam ou desconfiam da ajuda profissional, a dificuldade com a linguagem mais técnica da Psicologia, e a falta de referências próximas que mostrem, na prática, os benefícios da terapia. Isso, sem deixar de mencionar a dificuldade financeira da maioria das pessoas. Dessa forma, para muitos esse tipo de luz acaba permanecendo debaixo do candeeiro. A evolução espiritual e o despertar da consciência, por sua vez, operam como uma luz interior que se acende gradual e progressivamente, iluminando as regiões mais obscuras da vida afetiva e emocional. À medida que essa luz avança, ela revela feridas antigas, padrões repetitivos, medos silenciosos e ilusões que antes permaneciam ocultos nas regiões sombrias da inconsciência. Esse processo não é imediato nem isento de desconforto, pois ver com clareza exige coragem e ousadia. Contudo, é justamente essa luz que permite compreender, ressignificar e integrar tais conteúdos de forma reconciliação e restauradora. As trevas não são simplesmente expulsas, mas transformadas, transfiguradas, dando lugar a uma vida mais lúcida e  uma convivência mais equilibrada e interiormente livre. Porém qui o problema é outro: a maioria das pessoas confundem espiritualidade com religião, e simplesmente não crescem espiritualmente. Acresce-se a isso o fato de que muitas religiões não só não favorecem como dificultam esse tipo de crescimento, já que sobrevivem de consciências adormecidas e mal iluminadas. As sombras e trevas de seus próprios líderes os impedem de perceber isso, e para os que conseguem perceber, não conseguem romper a viciosidade do círculo.

Resumindo, por melhores que sejam as intenções e mais fiéis as promessas, no matrimônio os parceiros compartilham também, o tempo todo, suas sombras e trevas pessoais de diversos tipos e naturezas. Fazem-no, na maioria das vezes, de modo inconsciente e involuntário. Sofrem e fazem sofrer muito mais por desconhecimento e ignorância do que por consciência e intenção. São quase sempre mais vítimas de si mesmos do que algozes um do outro. Por isso, o amadurecimento da relação passa menos pela cobrança e mais pelo despertar da consciência, pela capacidade de reconhecer as próprias limitações e pela disposição de crescer juntos. Quando essa luz interior começa a se acender, o que antes gerava dor pode tornar-se caminho de compreensão, cura e aprofundamento do vínculo.

 

À luz da súplica atribuída a São Francisco de Assis, "onde houver trevas, que eu leve a luz!", compreende-se, então, que não se trata de um gesto ingênuo ou genérico, mas de uma vocação exigente e lúcida, a de discernir, em cada situação, qual luz é necessária e possível. Há trevas que pedem o rigor da razão, como intuíram Platão e Aristóteles; outras que exigem a escuta interior, como ensinou Sócrates e aprofundou Agostinho de Hipona; há aquelas que reclamam o enfrentamento das sombras psíquicas, como indicou Carl Jung; e há, ainda, as que só se deixam tocar por uma consciência espiritualmente desperta, humilde e em contínuo processo de conversão. Levar a luz, portanto, não é impor verdades, nem projetar sobre o outro uma claridade que ainda não possuímos, mas permitir que, em nós, essa luz se acenda e amadureça a ponto de se tornar presença, presença que ilumina sem cegar, aquece sem queimar e revela sem violentar. No âmbito das relações, especialmente no matrimônio, isso significa substituir a acusação pela compreensão, a impaciência pela consciência e o julgamento pelo compromisso de crescimento mútuo. Assim, a oração franciscana deixa de ser apenas um ideal piedoso e se converte em tarefa concreta e cotidiana, tornar-se, pouco a pouco, alguém que, tendo atravessado suas próprias sombras, já não reage a elas com mais escuridão, mas responde com a única força capaz de realmente dissipá-las, uma luz interior suficientemente verdadeira para não negar as trevas e suficientemente viva para transformá-las em caminho de comunhão, maturidade, liberdade e libertação.

 

Obs.: Esta décima parte será complementada pelas partes posteriores de mesmo título.

 

( * ) Texto enviado pelo autor, de Vitória(ES) via WhatsApp.

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