08- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )
"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O
VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"- [Parte X-02]
"Onde
houver trevas, que eu leve a luz"
[Atribuída
a São Francisco de Assis]
ONDE HOUVER TREVAS, QUE EU LEVE A LUZ!
Até aqui, falamos de sombras e
trevas, tanto em sentido literal quanto metafórico; pouco ou quase nada de luz
e iluminação. Nosso eixo central, recordemos, é a Oração atribuída a São
Francisco de Assis, com foco na súplica "onde houver trevas, que eu leve a
luz!". Tal invocação nos oferece uma espécie de moldura genérica, mas
Francisco não ignorava que cada tipo de sombra ou treva requer luz própria e
diferenciada para ser dissipada. Assim, para as trevas do mundo exterior parece
suficiente a
luz dos inumeráveis astros mantidos
suspensos no firmamento pelo Criador. Já para as trevas e sombras da
ignorância e do desconhecimento, Platão sugeriu uma espécie de ascese racional,
moral e espiritual, à qual deu o nome de "dialética", única forma de
se atingir o que ele chamou de Bem ou Luz Suprema. Sem a contemplação dessa Luz
o ser humano permanece cativo de um mundo de sombras e aparências, sendo essa,
para Platão, a pior das escravidões, da qual derivam todas as demais.
Aristóteles, seu mais eminente discípulo, discordou abertamente do mestre. Não
vivemos de lembranças, sombras e aparências, afirmou. Nosso mundo pode não ser
o melhor dos mundos, como dirá Leibniz mais tarde, mas é sem dúvida o melhor
mundo possível. Cada mundo e cada realidade carregam seu próprio sentido e
significado. O saber e a sabedoria devem iluminar primeiro o mundo presente e
imanente em que vivemos. Sem essa iluminação da realidade imanente, nenhum
mundo ou realidade transcendente faz sentido. Mestre de Platão, Sócrates
advertira, bem antes, que o sentido ou a verdade das coisas, incluindo de nós
mesmos, não está fora de nós e menos ainda em uma realidade transcendente, e
sim dentro de nós. Todo sentido e qualquer verdade devem, portanto, ser
buscados no interior de nós mesmos, "no mais íntimo de nosso próprio
íntimo", como dirá mais tarde Agostinho de Hipona, em um mundo que
começava a se cristianizar. Para nos guiar nessa procura, o que Sócrates chamou
de "daimon", seu mestre ou luz interior, Agostinho, no "De
Magistro", chamou de Jesus, mestre e luz interior de todos e de cada um de
nós. Por fim, séculos mais tarde o Iluminismo elegeu a razão como luz suprema e
absoluta. Onde quer que tal luz aportasse, não ficaria sombra sobre sombra,
treva sobre treva. Uma vez entronizada a razão, todas as demais luzes e
luzeiros não passariam de tênue e pálido reflexo. O cientificismo discordou,
Karl Marx criticou, Sigmund Freud relativizou, Charles Darwin desestabilizou,
e, por fim, a Inteligência Artificial parece sugerir: calma, pessoal; por
favor, vamos com calma.
Para a dissipação das sombras e trevas
afetivas e emocionais, apontadas por Jung, tudo indica que não há luz mais
adequada do que um bom e criterioso acompanhamento terapêutico profissional. O
problema é que muitas pessoas veem o tratamento psicológico com desconfiança,
por desconhecerem o que ele realmente é, associando-o à doença mental grave.
Somam-se a isso uma cultura de automedicação e decisão de suportar tudo
sozinho, a influência de certas interpretações religiosas que dispensam ou desconfiam
da ajuda profissional, a dificuldade com a linguagem mais técnica da
Psicologia, e a falta de referências próximas que mostrem, na prática, os
benefícios da terapia. Isso, sem deixar de mencionar a dificuldade financeira
da maioria das pessoas. Dessa forma, para muitos esse tipo de luz acaba
permanecendo debaixo do candeeiro. A evolução espiritual e o despertar da
consciência, por sua vez, operam como uma luz interior que se acende gradual e
progressivamente, iluminando as regiões mais obscuras da vida afetiva e
emocional. À medida que essa luz avança, ela revela feridas antigas, padrões
repetitivos, medos silenciosos e ilusões que antes permaneciam ocultos nas
regiões sombrias da inconsciência. Esse processo não é imediato nem isento de
desconforto, pois ver com clareza exige coragem e ousadia. Contudo, é
justamente essa luz que permite compreender, ressignificar e integrar tais
conteúdos de forma reconciliação e restauradora. As trevas não são simplesmente
expulsas, mas transformadas, transfiguradas, dando lugar a uma vida mais lúcida
e uma convivência mais equilibrada e
interiormente livre. Porém qui o problema é outro: a maioria das pessoas
confundem espiritualidade com religião, e simplesmente não crescem
espiritualmente. Acresce-se a isso o fato de que muitas religiões não só não
favorecem como dificultam esse tipo de crescimento, já que sobrevivem de
consciências adormecidas e mal iluminadas. As sombras e trevas de seus próprios
líderes os impedem de perceber isso, e para os que conseguem perceber, não
conseguem romper a viciosidade do círculo.
Resumindo,
por melhores que sejam as intenções e mais fiéis as promessas, no matrimônio os
parceiros compartilham também, o tempo todo, suas sombras e trevas pessoais de
diversos tipos e naturezas. Fazem-no, na maioria das vezes, de modo
inconsciente e involuntário. Sofrem e fazem sofrer muito mais por
desconhecimento e ignorância do que por consciência e intenção. São quase
sempre mais vítimas de si mesmos do que algozes um do outro. Por isso, o amadurecimento
da relação passa menos pela cobrança e mais pelo despertar da consciência, pela
capacidade de reconhecer as próprias limitações e pela disposição de crescer
juntos. Quando essa luz interior começa a se acender, o que antes gerava dor
pode tornar-se caminho de compreensão, cura e aprofundamento do vínculo.
À luz da súplica atribuída a São Francisco de
Assis, "onde houver trevas, que eu leve a luz!", compreende-se,
então, que não se trata de um gesto ingênuo ou genérico, mas de uma vocação
exigente e lúcida, a de discernir, em cada situação, qual luz é necessária e
possível. Há trevas que pedem o rigor da razão, como intuíram Platão e
Aristóteles; outras que exigem a escuta interior, como ensinou Sócrates e
aprofundou Agostinho de Hipona; há aquelas que reclamam o enfrentamento das
sombras psíquicas, como indicou Carl Jung; e há, ainda, as que só se deixam
tocar por uma consciência espiritualmente desperta, humilde e em contínuo
processo de conversão. Levar a luz, portanto, não é impor verdades, nem projetar
sobre o outro uma claridade que ainda não possuímos, mas permitir que, em nós,
essa luz se acenda e amadureça a ponto de se tornar presença, presença que
ilumina sem cegar, aquece sem queimar e revela sem violentar. No âmbito das
relações, especialmente no matrimônio, isso significa substituir a acusação
pela compreensão, a impaciência pela consciência e o julgamento pelo
compromisso de crescimento mútuo. Assim, a oração franciscana deixa de ser
apenas um ideal piedoso e se converte em tarefa concreta e cotidiana,
tornar-se, pouco a pouco, alguém que, tendo atravessado suas próprias sombras,
já não reage a elas com mais escuridão, mas responde com a única força capaz de
realmente dissipá-las, uma luz interior suficientemente verdadeira para não
negar as trevas e suficientemente viva para transformá-las em caminho de
comunhão, maturidade, liberdade e libertação.
Obs.: Esta décima parte será complementada
pelas partes posteriores de mesmo título.
( * ) Texto enviado pelo autor, de
Vitória(ES) via WhatsApp.
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