sábado, 24 de janeiro de 2026

07-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )

 

 07-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

 

                    [Parte VI]

 

      "Onde houver dúvida,  que eu  leve a fé!"

                 [Atribuída a  São Francisco de Assis]

 

ONDE HOUVER DÚVIDA, QUE EU LEVE A FÉ!

 

Imagine que a Oração de Francisco tivesse sido dada à luz na segunda metade do século V antes de Cristo, pela boca de um jovem ateniense chamado Sócrates. Muito provavelmente ele não conceberia a dúvida como uma ferida a ser curada, nem veria na fé o remédio mais eficaz para tratá-la. Talvez ele assim rezasse - ou, mais coerentemente, propusesse: "onde houver dúvida, que se busque a verdade". A Oração de Francisco parte do pressuposto de que essa verdade já foi encontrada; mais precisamente, já foi revelada e, sendo assim, não precisa mais ser procurada - apenas transmitida e ensinada. Uma vez que dela se toma conhecimento, não cabe mais discussão ou debate: "Roma locuta, causa finita"; basta assentir; um simples “amém” é suficiente para que a dúvida seja definitivamente superada. Se ainda assim a resistência persiste, impulsionada pela insegurança da mente, a solução não é continuar procurando, mas dar voz e vez ao coração e suplicar pela fé - tida como dom e graça - certo de sua disposição em socorrer a razão.

 

Francisco sabia que a racionalidade humana não se dobra com facilidade. Diferentemente de Sócrates, porém, ele não convida o discípulo a buscarem juntos a verdade, mas prontamente se dispõe a fazer-se portador da fé, convicto de que ela é a resposta mais adequada a uma verdade já disponível e prontamente acessível a todos. Eis aí a diferença fundamental entre o ser humano que procura - Deepak Chopra os chama de "fraternidade dos buscadores" - e aquele que deixou de procurar a partir do exato momento em que a dúvida foi superada - ao menos é o que se pressupõe - bastando um ato consciente e deliberado da vontade para aceder a essa verdade dogmaticamente segura e seguramente indubitável.

 

A Oração de Francisco não nega a importância da procura nem invalida seu mérito; antes, porém, compreende a dúvida não como questionamento racional, filosófico ou mesmo teológico - algo que pode, inclusive, favorecer o amadurecimento da fé - mas como uma experiência existencial ambígua e, sob certo prisma, desfavorável, enraizada no âmago da pessoa e potencialmente capaz de enfraquecer a confiança em si mesma, no outro, na vida e, em última instância, no próprio Deus. Esse é um tipo de dúvida substancialmente distinto tanto da dúvida socrática quanto da dúvida agostiniana e cartesiana, nas quais ela é concebida como ponto de partida fundamental no processo de busca pela verdade. A dúvida franciscana - se é que podemos chamá-la assim - tem sua origem no sofrimento que se prolonga sem razões claras e explicações convincentes, no bem praticado que não encontra ressonância nem contrapartida, nas relações que se tornam cada vez mais frágeis e insuficientes, e no silêncio de Deus quando ele parece pesar mais do que qualquer palavra, produzindo não apenas incerteza mas desalento e perda de sentido. Ao se oferecer como mensageiro da fé em visita aos campos onde a dúvida reina soberana, Francisco não se apresenta com argumentos lógicos, discursos persuasivos ou respostas prontas, mas se oferece como testemunho silencioso e empático de serenidade, confiança e esperança, encarnando uma fé que ampara, consola e devolve a quem precisa o chão da coragem e da confiança para seguir em frente.

 

Essa compreensão singular e diferenciada da dúvida e da fé permite estender sua súplica ao vínculo conjugal, deslocando a experiência para o plano do sensível, onde os afetos se mostram frágeis e a vida a dois assume contornos ainda mais delicados e dolorosos. Aqui, a dúvida se manifesta como um abalo progressivo da confiança e da segurança que sustentam o vínculo, emergindo sobretudo nas situações em que o diálogo escasseia e empobrece, nos gestos de proteção e cuidado se tornam raros e hesitantes, na presença que já não oferece abrigo e conforto e sim embaraço e estranhamento. Numa tal situação, as juras e promessas, que no início conferiam colorido ao horizonte, passam a soar vagas, irreais ou distantes. Mais do que qualquer dúvida existencial, portanto, trata-se de uma incerteza que gera insegurança e que, juntas, bastam para levar um cônjuge a se perguntar: continuo ainda sendo visto por meu parceiro? Continuo sendo amado por ele? Continuo sendo seu escolhido? Esse acréscimo de incertezas, por sua vez, pode conduzir a questionamentos ainda mais profundos e angustiantes: o esforço cotidiano continua valendo a pena? Nosso projeto compartilhado permanece vivo ou já se transformou em um mesquinho intercâmbio de interesses? Nossa convivência continua valendo a pena ou foi reduzida a um cumprimento mecânico de obrigações? Como se pode perceber, trata-se de uma incerteza dilacerante, de natureza afetiva e relacional, e não um simples melodrama de BBB virtual. Nesse novo contexto, também a fé - que se apresenta como seu contraponto terapêutico - passa a assumir características singulares e específicas, como veremos a seguir.

 

Em "Ame a si mesmo e permaneça casado", a estudiosa do comportamento humano Eva-Maria Zurhorst sugere que, ao contrário do que os momentos de crise possam nos fazer crer, na grande maioria dos casamentos a pessoa com quem estamos é, de fato, a pessoa certa para nós. Certa, não por preencher o perfil de um idealismo romântico, isento de falhas, defeitos e imperfeições, mas porque é com ela que a existência concreta nos colocou em relação de convívio, companheirismo, proteção e cuidado mútuo. Nesse contexto, a fé deixa de gravitar prevalentemente em torno do eixo “Criador–criação–criatura” e se desloca para o terreno do investimento permanente na aliança e na reconstrução da confiança no parceiro, especialmente nos momentos em que a relação se vê atravessada por crises, conflitos, dúvidas e impactos emocionais profundos. Trata-se menos de uma fé que nasce do autoconvencimento decorrente de um prognóstico percebido como favorável, e mais de uma decisão deliberada e consciente de continuar investindo no parceiro, não por uma questão de justiça, merecimento ou retribuição, mas por um ato consciente de fé, esperança e amor. Nesse contexto, a fé invocada por Francisco, quando aplicada ao vínculo conjugal, não se apresenta como um apelo ingênuo à negação da crise ou do conflito, mas como um chamado ousado e generoso a investir no ‘nós’ mais do que no eu, sobretudo quando o terreno da relação se torna instável e movediço, abalado por tempestades imprevisíveis e inesperadas.

 

De acordo com o filósofo espanhol Miguel de Unamuno, “acreditar em Deus não é senão desejar que ele exista”. Trata-se, portanto, de um ato da vontade ativa, mais do que de simples assentimento ou concordância passiva. Nesse sentido, a fé no vínculo conjugal não consiste em blindar a relação contra crises ou sofrimentos inevitáveis, mas em recusar a lógica imediatista e consumista do “amor líquido”, que transforma toda dúvida em prova inequívoca de erro e toda crise numa espécie de certeza de que se escolheu a pessoa errada. Do ponto de vista psicológico, a fé significa acreditar que o vínculo ainda merece investimento, cuidado e dedicação, mesmo quando o estado atual das coisas possa sugerir exatamente o contrário. Do ponto de vista espiritual, significa aceitar que amar envolve atravessar zonas de obscuridade sem respostas prontas, mantendo viva a aposta de que o outro pode voltar a ser abrigo, digno de confiança e merecedor de uma nova chance.

 

Assim compreendida, a “fé conjugal” não elimina a dúvida e a insegurança, mas impede que elas se tornem soberanas e passem a “dar as cartas”; não nega o abalo sísmico da desconfiança, mas assume-o, atravessa-o e busca transcendê-lo; não resolve necessariamente a crise ou o conflito, mas confere sustentação ao vínculo, abrindo espaço e criando condições para que a relação se reconstrua sobre bases mais sólidas. Pode parecer pouco, e até ingênua, uma aposta desse tipo. Mas de que vale a fé se ela só se faz presente onde dela menos se precisa? “Ama-me quando menos mereço - deixou escrito Madre Teresa - pois é quando eu mais preciso”.

 

Obs.: Esta sexta parte terá sequência com as partes posteriores, de mesmo título.            

            (* ) Reflexão enviada por whatsapp pelo autor, de Vitoria (ES).

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