"ATÉ QUE A MORTE NOS
SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO
FRANCISCO"
[Parte VI]
"Onde houver dúvida, que eu
leve a fé!"
[Atribuída a São Francisco de Assis]
ONDE HOUVER DÚVIDA, QUE EU LEVE A FÉ!
Imagine
que a Oração de Francisco tivesse sido dada à luz na segunda metade do século V
antes de Cristo, pela boca de um jovem ateniense chamado Sócrates. Muito
provavelmente ele não conceberia a dúvida como uma ferida a ser curada, nem
veria na fé o remédio mais eficaz para tratá-la. Talvez ele assim rezasse - ou,
mais coerentemente, propusesse: "onde houver dúvida, que se busque a
verdade". A Oração de Francisco parte do pressuposto de que essa verdade
já foi encontrada; mais precisamente, já foi revelada e, sendo assim, não
precisa mais ser procurada - apenas transmitida e ensinada. Uma vez que dela se
toma conhecimento, não cabe mais discussão ou debate: "Roma locuta, causa
finita"; basta assentir; um simples “amém” é suficiente para que a dúvida
seja definitivamente superada. Se ainda assim a resistência persiste,
impulsionada pela insegurança da mente, a solução não é continuar procurando,
mas dar voz e vez ao coração e suplicar pela fé - tida como dom e graça - certo
de sua disposição em socorrer a razão.
Francisco
sabia que a racionalidade humana não se dobra com facilidade. Diferentemente de
Sócrates, porém, ele não convida o discípulo a buscarem juntos a verdade, mas
prontamente se dispõe a fazer-se portador da fé, convicto de que ela é a
resposta mais adequada a uma verdade já disponível e prontamente acessível a
todos. Eis aí a diferença fundamental entre o ser humano que procura - Deepak
Chopra os chama de "fraternidade dos buscadores" - e aquele que
deixou de procurar a partir do exato momento em que a dúvida foi superada - ao
menos é o que se pressupõe - bastando um ato consciente e deliberado da vontade
para aceder a essa verdade dogmaticamente segura e seguramente indubitável.
A
Oração de Francisco não nega a importância da procura nem invalida seu mérito;
antes, porém, compreende a dúvida não como questionamento racional, filosófico
ou mesmo teológico - algo que pode, inclusive, favorecer o amadurecimento da fé
- mas como uma experiência existencial ambígua e, sob certo prisma,
desfavorável, enraizada no âmago da pessoa e potencialmente capaz de
enfraquecer a confiança em si mesma, no outro, na vida e, em última instância,
no próprio Deus. Esse é um tipo de dúvida substancialmente distinto tanto da
dúvida socrática quanto da dúvida agostiniana e cartesiana, nas quais ela é
concebida como ponto de partida fundamental no processo de busca pela verdade.
A dúvida franciscana - se é que podemos chamá-la assim - tem sua origem no
sofrimento que se prolonga sem razões claras e explicações convincentes, no bem
praticado que não encontra ressonância nem contrapartida, nas relações que se
tornam cada vez mais frágeis e insuficientes, e no silêncio de Deus quando ele
parece pesar mais do que qualquer palavra, produzindo não apenas incerteza mas
desalento e perda de sentido. Ao se oferecer como mensageiro da fé em visita
aos campos onde a dúvida reina soberana, Francisco não se apresenta com
argumentos lógicos, discursos persuasivos ou respostas prontas, mas se oferece
como testemunho silencioso e empático de serenidade, confiança e esperança,
encarnando uma fé que ampara, consola e devolve a quem precisa o chão da
coragem e da confiança para seguir em frente.
Essa
compreensão singular e diferenciada da dúvida e da fé permite estender sua
súplica ao vínculo conjugal, deslocando a experiência para o plano do sensível,
onde os afetos se mostram frágeis e a vida a dois assume contornos ainda mais
delicados e dolorosos. Aqui, a dúvida se manifesta como um abalo progressivo da
confiança e da segurança que sustentam o vínculo, emergindo sobretudo nas
situações em que o diálogo escasseia e empobrece, nos gestos de proteção e
cuidado se tornam raros e hesitantes, na presença que já não oferece abrigo e conforto
e sim embaraço e estranhamento. Numa tal situação, as juras e promessas, que no
início conferiam colorido ao horizonte, passam a soar vagas, irreais ou
distantes. Mais do que qualquer dúvida existencial, portanto, trata-se de uma
incerteza que gera insegurança e que, juntas, bastam para levar um cônjuge a se
perguntar: continuo ainda sendo visto por meu parceiro? Continuo sendo amado
por ele? Continuo sendo seu escolhido? Esse acréscimo de incertezas, por sua
vez, pode conduzir a questionamentos ainda mais profundos e angustiantes: o
esforço cotidiano continua valendo a pena? Nosso projeto compartilhado
permanece vivo ou já se transformou em um mesquinho intercâmbio de interesses?
Nossa convivência continua valendo a pena ou foi reduzida a um cumprimento
mecânico de obrigações? Como se pode perceber, trata-se de uma incerteza
dilacerante, de natureza afetiva e relacional, e não um simples melodrama de
BBB virtual. Nesse novo contexto, também a fé - que se apresenta como seu
contraponto terapêutico - passa a assumir características singulares e
específicas, como veremos a seguir.
Em
"Ame a si mesmo e permaneça casado", a estudiosa do comportamento
humano Eva-Maria Zurhorst sugere que, ao contrário do que os momentos de crise
possam nos fazer crer, na grande maioria dos casamentos a pessoa com quem
estamos é, de fato, a pessoa certa para nós. Certa, não por preencher o perfil
de um idealismo romântico, isento de falhas, defeitos e imperfeições, mas
porque é com ela que a existência concreta nos colocou em relação de convívio,
companheirismo, proteção e cuidado mútuo. Nesse contexto, a fé deixa de
gravitar prevalentemente em torno do eixo “Criador–criação–criatura” e se
desloca para o terreno do investimento permanente na aliança e na reconstrução
da confiança no parceiro, especialmente nos momentos em que a relação se vê
atravessada por crises, conflitos, dúvidas e impactos emocionais profundos.
Trata-se menos de uma fé que nasce do autoconvencimento decorrente de um
prognóstico percebido como favorável, e mais de uma decisão deliberada e
consciente de continuar investindo no parceiro, não por uma questão de justiça,
merecimento ou retribuição, mas por um ato consciente de fé, esperança e amor.
Nesse contexto, a fé invocada por Francisco, quando aplicada ao vínculo
conjugal, não se apresenta como um apelo ingênuo à negação da crise ou do
conflito, mas como um chamado ousado e generoso a investir no ‘nós’ mais do que
no eu, sobretudo quando o terreno da relação se torna instável e movediço,
abalado por tempestades imprevisíveis e inesperadas.
De
acordo com o filósofo espanhol Miguel de Unamuno, “acreditar em Deus não é
senão desejar que ele exista”. Trata-se, portanto, de um ato da vontade ativa,
mais do que de simples assentimento ou concordância passiva. Nesse sentido, a
fé no vínculo conjugal não consiste em blindar a relação contra crises ou
sofrimentos inevitáveis, mas em recusar a lógica imediatista e consumista do
“amor líquido”, que transforma toda dúvida em prova inequívoca de erro e toda
crise numa espécie de certeza de que se escolheu a pessoa errada. Do ponto de
vista psicológico, a fé significa acreditar que o vínculo ainda merece
investimento, cuidado e dedicação, mesmo quando o estado atual das coisas possa
sugerir exatamente o contrário. Do ponto de vista espiritual, significa aceitar
que amar envolve atravessar zonas de obscuridade sem respostas prontas,
mantendo viva a aposta de que o outro pode voltar a ser abrigo, digno de
confiança e merecedor de uma nova chance.
Assim
compreendida, a “fé conjugal” não elimina a dúvida e a insegurança, mas impede
que elas se tornem soberanas e passem a “dar as cartas”; não nega o abalo
sísmico da desconfiança, mas assume-o, atravessa-o e busca transcendê-lo; não
resolve necessariamente a crise ou o conflito, mas confere sustentação ao
vínculo, abrindo espaço e criando condições para que a relação se reconstrua
sobre bases mais sólidas. Pode parecer pouco, e até ingênua, uma aposta desse
tipo. Mas de que vale a fé se ela só se faz presente onde dela menos se precisa?
“Ama-me quando menos mereço - deixou escrito Madre Teresa - pois é quando eu
mais preciso”.
Obs.: Esta sexta parte
terá sequência com as partes posteriores, de mesmo título.
(* ) Reflexão enviada por whatsapp pelo autor, de Vitoria (ES).
Nenhum comentário:
Postar um comentário