4.2- 25
de janeiro – 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Junior Vasconcelos do Amaral*
“Segui-me, e eu farei de vós pescadores de
homens”
I.
INTRODUÇÃO GERAL
Deus convida seu povo a ser luz nas trevas deste mundo. Somos
todos vocacionados à vida, ao seguimento de Jesus e ao serviço. Nossa missão
inicia-se com o batismo, nutre-se na Eucaristia e desemboca em serviço na vida
da comunidade cristã. A missão de todo cristão é ser como Cristo, luz do mundo.
Jesus, no Evangelho deste domingo, convida seus discípulos à conversão (metanoia) e ao
seguimento, a fim de que possam pescar homens, resgatando das incertezas do
mundo (simbolizado pelo mar) aqueles que são destinados à salvação, à nova
criação.
Na primeira leitura, o
profeta Isaías, retomado também no Evangelho, evoca Zebulon e Neftali, cidades
humilhadas pelo Senhor, que, em seu modo de agir, cobre de glória o caminho do
mar. O mar é a incerteza do mundo, e eis que surge uma luz para iluminar o
mundo em suas trevas.
Na segunda leitura,
Paulo convida a Igreja de Corinto a viver a unidade na diversidade e
pluralidade, evitando as dissensões, brigas e contendas. Os cristãos de Corinto
são chamados a ser todos de Cristo, fazendo que as divisões sejam superadas.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 8,23b-9,3)
Isaías inicia evocando a
humilhação que Deus fez a Zabulon e Neftali, bem como a glória com a qual
cobriu o caminho do mar, do além-Jordão e da Galileia das nações. O profeta
fala das contradições que Deus é capaz de realizar (v. 23b). Por isso, o povo
que anda na escuridão é capaz de ver uma grande luz. A luz resplandece aos que
andam nas trevas, na sombra da morte (Is 9,1). Deus transforma as realidades à
sua volta. O que era antes exultado é agora humilhado, e o que estava na
tristeza é capaz de vislumbrar a alegria. Deus faz crescer a alegria e aumentar
a felicidade. Na presença do Senhor, todos se alegram, como os que colhem em
dia de fartura, como os soldados quando terminam a guerra e dividem os despojos
dos que foram derrotados. Somente Deus é capaz de transformar as realidades do
seu povo, que antes se via oprimido, carregando sobre os ombros seus fardos.
Deus abate o orgulho dos fiscais e o jugo que oprimia o povo, como na jornada
de Madiã, daqueles que, além de cultuarem a Adonai, também cultuavam outros
deuses.
2. II leitura (1Cor 1,10-13.17)
Em tom exortativo, Paulo
convida a Igreja de Corinto à concordância, que é a via contrária dos que viviam
na discórdia, cultivando facções e separações. Ele convida os membros da
Igreja, em nome de Jesus Cristo, a viver em concórdia uns com os outros e não
admitir divisões entre eles. É preciso que existam a harmonia e a unidade,
tanto no pensar quanto no falar. Havia, é certo, na comunidade coríntia
divisões históricas e rivalidades entre as pessoas. Alguns da família de Cloé
informaram o apóstolo de que a divisão gerava contendas entre os membros da
Igreja (v. 11). Uns afirmavam ser de Paulo, outros de Apolo e outros ainda de
Cefas, ou de Cristo. Paulo os questiona: “Será que Cristo está dividido?” Não
foi Paulo crucificado por amor a eles nem foi em nome de Paulo que foram
batizados. O apóstolo afirma que Cristo não o enviou para batizar, mas para
pregar a Boa-nova da salvação, sem se valer dos recursos da oratória. A cruz de
Cristo, segundo Paulo, tem sua própria força.
As divisões internas na
comunidade de Corinto estavam associadas, como afirmam alguns estudiosos de
Paulo, às ênfases doutrinárias características dos líderes mencionados por ele:
havia os que tendiam a um cristianismo mais judaico e rígido, ligado à figura
de Pedro, beirando certo legalismo; os que seguiam as tendências teológicas de
Paulo, mais abertos, enfatizando a missão, a fé sem a necessidade de obras; e
outros que tendiam para a figura de Apolo, ligado à hermenêutica alegórica
eloquente, pois era alexandrino. Não há, em 1Cor 1-4, a menção à existência de
partidos teológicos ou escolas no sentido clássico da palavra, mas adeptos desses
líderes.
3. Evangelho (Mt 4,12-23)
Após a morte de João
Batista, Jesus deixa Nazaré e vai morar em Cafarnaum. Ele passa a habitar o
entorno do mar da Galileia, que será o cenário principal para sua ação
missionária, taumatúrgica, de ensino e outras ações, como exorcismos. O mar da
Galileia é onde Jesus inicia o chamado para o discipulado, que consistirá em um
convite para que as pessoas o sigam e aprendam com ele novo modo de ser fiel a
Deus. O v. 15 retoma o texto de Isaías acerca de Zabulon e Neftali, o caminho
do mar, a Galileia dos pagãos. Mateus, assim como Marcos e Lucas, assinala que
a Galileia é o território escolhido por Jesus para iniciar seu ministério.
Mateus ressalta a Galileia dos pagãos, demonstrando, à sua maneira, a
universalidade da missão e da mensagem de seu mestre, embora o Evangelho seja
dirigido a judeus que estão aderindo a Jesus e à sua mensagem.
Mateus recupera a
teologia de Isaías, ressaltando a missão do Servo de Adonai, que vem para
transformar o mundo envolto em trevas. A imagem utilizada é a da luz, que
reaparecerá no primeiro discurso do Evangelho, “da montanha” (Mt 5-7), em Mt
5,14. O elemento que simboliza o discípulo de Jesus é a luz. Os cristãos sempre
compreenderam que, ao passar pelo batismo, se tornavam iluminados e deveriam
sinalizar essa luz no mundo. A luz é um elemento vital. Sem o sol, não haveria
a vida sobre a terra. Desse modo, a luz é um símbolo vital, que perfaz a
existência. Quando nascemos, diz-se que viemos à luz ou que nossa mãe “nos deu
à luz”. Portanto, Jesus deseja que seus discípulos e nós, hoje, possamos
iluminar o mundo com a sabedoria do Evangelho.
A partir do v. 17, o relato assume um tom exortativo e Jesus
convida à conversão. Esse versículo marca a passagem do sentido
histórico-teológico para o sentido existencial prático, fundado no seguimento
de Jesus. O verbo no presente imperativo ativo, metanoeite, designa
uma reconsideração que deve ser feita pelo discípulo, convocado para deixar
para trás seu modo de ser, pensar e agir a fim de seguir Jesus, que propõe não
reinos pessoais, mas o Reino de Deus, que está nos céus. O discípulo, agora
convidado por Jesus, deverá deixar seu autodomínio para ser dominado por Deus.
Deus é o Senhor da vida do discípulo que segue Jesus. Portanto, a proximidade
do Reino dos Céus passa a ser um elemento vital da pregação de Jesus, motivo
pelo qual os discípulos devem viver o arrependimento, a mudança de pensamento,
a fim de acolher o Reino dos Céus, que é o domínio de Deus sobre a humanidade.
A cena seguinte, iniciada no v. 18, é marcadamente vocacional.
Nos primeiros atos do messianismo de Jesus, ele convida homens para segui-lo. O
verbo “ver” (“viu”), utilizado tanto por Mt quanto por Mc, consiste em uma
espécie de identificação com os discípulos. Não se trata de um convite como um
passe de mágica, mas sim de um processo de escolha e confiança desenvolvido na
relação que Jesus estabelecerá com os dois irmãos, Simão e André, bem como com
os demais a serem por ele convidados. Jesus confia a Simão e André, que estavam
lançando a rede ao mar, pois eram pescadores, uma nova missão: pescar homens
(v. 19). A condição de possibilidade para tal missão é “segui-lo”, em
grego opisō mou. Seguir
Jesus é a condição fundamental para se tornar pescador de homens, retirando
pessoas das incertezas do mar para levá-las à vida nova que nasce do batismo.
Os discípulos
imediatamente deixaram as redes e seguiram Jesus (v. 20). O mesmo ato de
convidar se dá no v. 21, quando Jesus vê outros dois irmãos, Tiago e João, filhos
de Zebedeu, que estavam na barca com o pai, consertando as redes. Jesus os
chamou. O mesmo gesto dos outros dois irmãos aqui se repete: eles imediatamente
deixaram a barca e o pai e o seguiram. O texto se conclui (v. 23) dizendo que
Jesus andava por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas dos judeus e pregando
o Evangelho do Reino, curando todo tipo de enfermidade. Mateus, como os dois
outros sinóticos, ressalta a taumaturgia de Jesus como elemento fundamental da
cristologia do NT. Para Mateus, Jesus é o Messias que veio curar e salvar a
todos, e sua missão se estenderá e se efetivará com o auxílio de seus
discípulos, a Igreja por ele constituída (cf. Mt 16,18).
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
É possível perceber a
integração desta liturgia com a dos domingos anteriores, desde o batismo de
Jesus, ministrado por João Batista, e o testemunho do precursor sobre quem
Jesus é: o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (domingo passado). Após
seu batismo, Jesus inicia sua missão pública, convidando discípulos para o
seguimento. Estimular a comunidade a perceber que todos somos chamados à missão
de ir ao encontro dos/as irmãos/ãs a fim de retirá-los de seus sofrimentos com
a mensagem do Evangelho: a proximidade do Reino de Deus, sua hegemonia sobre a
vida humana, pois Deus quer que todos sejam salvos. Ajudar a comunidade a viver
a comunhão e a unidade em meio à diversidade. O que não podemos permitir é que
nossas diferenças se tornem divergências e não aceitemos o outro como nosso
irmão.
Junior Vasconcelos do Amaral*
*é
presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela
Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), realizou parte de seus
estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica
na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é
professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e
desenvolve pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/25-de-janeiro-3o-domingo-do-tempo-comum-2/
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