4.3- 17 DE MAIO - ASCENSÃO DO SENHOR
17 de
maio – ASCENSÃO DO SENHOR
Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos
do Amaral**
“Ide e fazei discípulos
meus todos os povos”
INTRODUÇÃO GERAL
A solenidade da Ascensão
do Senhor simboliza, no horizonte da fé, o destino da pessoa fiel: o céu, a
vida eterna junto daquele que vive e reina. Na perspectiva teológica cristã, a
ascensão corresponde ao aceite de Deus acerca da vida inteira de Jesus, que,
ressuscitado, volta para o Pai, levando consigo toda experiência aqui vivida.
Ele será, ao lado do Pai, no laço do Espírito que os une, o eterno
Crucificado-Ressuscitado que enxerta no mistério de Deus a vida humana da
encarnação, sendo esta assumida pela redenção. Sua vida é integralmente
acolhida por Deus e, portanto, tendo assumido nossa condição mortal, revela que
nossa vida está escondida com ele (Cl 3,3). Na primeira leitura, Lucas
apresenta a cronologia dos fatos teológicos envolvendo Jesus e seus discípulos
logo após a ressurreição, inserindo-nos no contexto da ascensão, que, mais que
um fato, constitui a experiência existencial de Jesus de ser acolhido
plenamente no coração de Deus. Na segunda leitura, Paulo convida a comunidade
de Éfeso a conhecer o amor de Deus e seus planos, que envolvem chamá-la à
riqueza da glória com todos os santos (cristãos). No Evangelho, Jesus se
despede de seus discípulos em uma montanha e deixa-lhes dupla missão: batizar e
ensinar. Jesus não apenas volta para o Pai, mas deixa aos discípulos e à Igreja
um legado.
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 1,1-11)
Na primeira leitura, Lucas inicia seu livro, os Atos dos
Apóstolos (em grego, Praxéis
Apostolon), endereçando-se a Teófilo, o “amigo de Deus”, que pode
hipoteticamente não ser apenas um dignitário pagão, mas constituir toda a
Igreja, que fez, por Jesus Cristo – o Filho –, uma amizade com Deus, o Pai.
Lucas afirma que, no seu primeiro livro, o Evangelho, tratou de tudo o que
Jesus havia feito e ensinado (v. 1). O v. 2 já nos põe em sintonia com o
mistério hoje celebrado: “até ao dia em que foi levado para o céu”, depois de
ensinar, pelo Espírito Santo, os apóstolos, os escolhidos (exeléxato). O termo
“levado”, que em grego lucano é anelēmphthē, é
traduzido também por “foi elevado”, dando a entender que esse movimento não é
autônomo por parte de Jesus, mas sua vida é elevada por ação de Deus, que
também o ressuscitou dos mortos, sinalizando, assim, sua plena comunhão com
aquele que o enviou e, agora, o resgata deste mundo. Do v. 3 ao v. 5, Lucas faz
uma anamnese de tudo o que realizou Jesus: apareceu aos apóstolos e, em uma
refeição, após lembrá-los do batismo ministrado por João com água, afirmou que agora
os discípulos seriam batizados pelo Espírito, comunicando-lhes em seguida a
missão de anunciar o Evangelho. Os que lá estavam reunidos (v. 6) perguntaram a
Jesus quando seria a restauração do reino de Israel. Jesus lhes respondeu (v.
7) que não lhes cabia saber o dia e o momento que o Pai havia determinado por
sua própria autoridade.
Jesus promete (v. 8) que
seus discípulos receberão logo mais o Espírito Santo, aludindo a Pentecostes, a
festa da manifestação do Espírito. Diz-lhes que serão suas testemunhas em
Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até os confins do mundo. Depois de
comunicar-lhes a missão evangelizadora, Jesus foi levado ao céu na frente deles
(v. 9). A nuvem é uma representação da presença divina desde o AT (Ex
13,21-22), simboliza a presença de Deus junto aos israelitas no deserto. A
nuvem impede os discípulos de ver o mistério, que deve ser compreendido com o
coração, não com o sentido da visão. Segundo o v. 10, enquanto ainda os
discípulos olhavam para o céu, apareceram dois anjos vestidos de branco,
mensageiros de Deus, que lhes disseram (v. 11): “Homens da Galileia, por que
ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o
céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. Essa promessa, que
parece uma consolação, evoca os mistérios que ainda serão testemunhados por
eles: Jesus enviará o Espírito Santo em Pentecostes, que falará por eles e
agirá por meio deles, para que o Evangelho não seja esquecido.
2 II leitura (Ef 1,17-23)
Constituindo verdadeiro
legado espiritual de Paulo, embora considerada deuteropaulina, escrita desde
sua prisão em Roma (Ef 3,1; 4,1), a carta aos Efésios demonstra a doutrina de
fé do apóstolo, sendo provavelmente expressão de sua íntima relação com os
judeus da sinagoga daquele lugar, onde ele permaneceu por pouco tempo. Éfeso
era um centro de irradiação para a vida missionária na Ásia Menor. A carta
possivelmente foi escrita por volta dos anos 60 a 62. É dirigida aos “santos”
que estão em Éfeso, aos cristãos daquela renomada comunidade. Paulo escreve com
a intenção de ajudar a desenvolver a espiritualidade e o testemunho daqueles
que já eram membros. O propósito era ajudar esses convertidos a crescer no
conhecimento espiritual de Deus e da Igreja, sobretudo aqueles oriundos do paganismo,
com os quais o apóstolo sempre soube dialogar.
Paulo inicia falando da
sabedoria dada por Deus aos que ele chamou (v. 17). Em tom litúrgico, parece
estar rogando a Deus para que o coração deles se abra à luz, a fim de saberem a
esperança do seu chamamento, a herança da glória reservada aos “santos”
(leia-se “cristãos batizados”). Deus (v. 20) manifesta em Cristo sua força,
ressuscitando-o dos mortos e fazendo-o assentar-se à sua direita. Essa
cristologia (v. 21) ainda ressalta a potestade de Deus em Cristo. Deus submeteu
todas as coisas a Cristo (v. 22), que está acima de tudo e é a cabeça da
Igreja, seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal (v.
23). Para Paulo, Cristo é a razão de ser dos cristãos e todos estamos nele
vinculados. Como verdadeiro legado de fé, Efésios demonstra a convicção de
Paulo mesmo em meio aos sofrimentos e lágrimas que vive em sua prisão.
3. Evangelho (Mt 28,16-20)
Correspondendo ao final do Evangelho segundo Mateus, essa
passagem tem um tom de despedida e, ao mesmo tempo, de envio missionário, à luz
do que Jesus já havia ensinado sobre a montanha (Mt 5-7, intitulado “Sermão da
montanha”). Trata-se de transmissão importante de legado, o de Jesus para os
discípulos, chamados de apóstolos como em Mt 10,2-3 (apostolōn: “enviados”).
Desde o sepulcro vazio, a atenção se volta para o encontro de
Jesus com os discípulos na Galileia (Mt 28,7). Na opinião de Giuseppe
Barbaglio, a relação entre Jesus e os discípulos constitui “o centro de
interesse de Mateus nesta seção pascal” (“O Evangelho de Mateus”. In: BARBAGLIO,
G. et al. Os Evangelhos I.
São Paulo: Loyola, 1990, p. 417), opinião compartilhada por inúmeros exegetas.
A cena acentua não apenas a atitude dos discípulos com relação a Jesus, vendo-o
(v. 17), mas também a de Jesus com relação a eles (v. 18), em que ele se
aproxima e lhes diz: “Foi me dado por Deus todo o poder no céu e sobre a
terra”. A exousia de
Jesus, seu poder, é autorizada pelo Pai, que o envia ao mundo para revelar a si
e seu plano, o Reino de Deus, em Mateus entendido como Reino dos Céus (Mt 3,2).
Jesus incumbe seus discípulos de constituir outros discípulos do meio de todos
os povos, revelando que seu plano e sua vontade se orientam para a
universalidade, e não apenas para os da casa de Israel (v. 19). Essa ordem
termina com o verbo “batizai-os” (em grego: baptizontes autous) em nome da Trindade. O v. 20
inclui: “ensinai-os (didaskontes)
a observar tudo o que vos ordenei”. Note-se que o verbo é derivado de didaskalia, do
ensinamento daquilo que Jesus veio comunicar. Tudo o que ele deseja é que suas
verdades sejam observadas.
Jesus envia sua Igreja ao mundo e promete que estará presente
com ela, os discípulos, no mundo. A Igreja, segundo Barbaglio, “não foi deixada
sozinha no seu longo e cansativo caminho histórico” (op. cit., p. 420).
Jesus a acompanha, sustentando e encorajando seus passos sobre o pó da
história. Como Igreja em saída, Jesus sai com seus discípulos, pois, onde dois
ou três estão reunidos em seu nome, ele está no meio deles. A comunidade
eclesial experimenta, nas vivências fraterna, missionária e anunciadora,
celebrando também hoje a Eucaristia, a presença viva de Jesus, Senhor que a
anima e não a deixa sucumbir diante dos desafios.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Anunciar que Jesus está
no meio de nós, que nossas comunidades não se encontram órfãs nem abandonadas,
pois ele é quem preside a vida da Igreja, animando os ministros e os fiéis
leigos na missão evangelizadora. Catequizar a comunidade para firmar nela a
certeza de que a ascensão de Jesus não constitui uma despedida fatídica, na
qual a vida dele é apartada da nossa, mas sim um ganho para a humanidade, que,
em sua humildade, é acolhida na realidade celestial por Deus. Ajudar os fiéis a
se prepararem para a festa solene de Pentecostes, pedindo ao Espírito os dons
diversos para que a evangelização continue acontecendo.
Pe. Gustavo
César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**
*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial
da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia
pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão
Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: gustavocesar339@gmail.com
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da
Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade
Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na
modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve,
Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
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