4.2- 2 de Agosto – 18° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Marcus Mareano*
Vinde
ao banquete
INTRODUÇÃO GERAL
A celebração da
Eucaristia é um banquete de Deus para nós. Não para nos fartarmos fisicamente,
mas para nos alimentarmos da presença dele a fim de nos comprometermos com a
partilha, a solidariedade e a compaixão.
Na primeira leitura,
Deus chama seu povo a abandonar a terra da escravidão e a caminhar em direção à
terra da liberdade: uma nova Jerusalém de justiça, amor e paz. O Senhor promete
saciar para sempre a fome do seu povo e conceder, de forma gratuita, a vida em
plenitude e a felicidade sem fim.
No Evangelho, Jesus
aparece em torno de uma refeição, ensinando aos discípulos que o verdadeiro
caminho para o Reino é acolher o pão que Deus oferece e partilhá-lo com todos.
Os cinco pães e os dois peixes alimentam muitas pessoas, assim como nossos
gestos de solidariedade podem fazer a diferença na sociedade. Com essa
compreensão, a comunidade de seguidores poderá libertar-se do egoísmo e
descobrir a liberdade que nasce do amor.
A segunda leitura é um
cântico de louvor ao amor de Deus, um amor inabalável que nada pode destruir e
que se revelou plenamente no envio de seu Filho, para nos convidar ao banquete
da vida eterna.
Dessa forma, a liturgia
deste domingo nos apresenta o grande convite de Deus: sentar-nos à mesa que ele
nos preparou. Nessa mesa, o Senhor oferece o alimento que sacia nossas fomes
mais profundas: fome de vida, de sentido, de felicidade e de eternidade. Tudo é
dom, tudo é graça. Cabe a nós acolher esse amor, deixarmo-nos nutrir por ele e,
por ele transformados, tornarmo-nos também pão partilhado para a vida do mundo.
I COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 55,1-3)
Nesse pequeno trecho, o
profeta dirige aos exilados um apelo para realizarem um novo êxodo, deixando a
escravidão na qual se instalaram e partindo em direção a uma nova realidade. O
povo sofredor encontrará alimento, bebida e o conforto de Deus.
Para expressar essa
restauração ansiada, o profeta utiliza a imagem de um banquete, que representa
fartura e comunhão. Este se realizará em Jerusalém, onde o povo, à mesa com
Deus, encontrará trigo, vinho, leite e alimentos saborosos. O que antes era
fome e penúria passa a ser abundância e harmonia restaurada por Deus.
Diante disso, o profeta
conclama para a coragem e a confiança. É preciso romper com a acomodação,
abrir-se ao sonho e caminhar ao encontro do dom divino. Aqueles que se
dispuserem a abandonar suas seguranças para responder ao chamado de Deus
participarão de uma “aliança eterna” que jamaisserá rompida.
Quem aceitar esse dom
encontrará a água que sacia a sede de sentido e o alimento que plenifica a
vida. Assim, viverá uma nova relação com Deus e fará parte, em definitivo, da
comunidade dos que foram restaurados e reintegrados ao povo de Deus.
2. II leitura (Rm 8,35.37-39)
A segunda leitura se
inicia com uma interrogação sobre quem ou o que poderia separar o ser humano do
amor de Cristo. Trata-se de questão importante sobre a qual pensar ainda
atualmente, a fim de reconhecer a infinitude do amor de Deus. O texto bíblico
enfatiza a força desse amor e certifica que nada poderia separar o ser humano
dele.
As afirmações
desenvolvidas contêm a certeza fundamental de que nada pode derrotar aquele que
é objeto do amor imenso e eterno de Deus. Esse amor se manifestou plenamente no
gesto supremo de Cristo, que se entregou até a morte para conduzir a humanidade
ao caminho da salvação e da vida em plenitude. Em Cristo, Deus revelou o amor
que vence todo o mal e garante à pessoa a segurança de estar sempre amparada
por sua graça.
Nos versículos finais
(v. 38-39), Paulo enumera uma série de forças que, segundo as crenças da época,
poderiam ameaçar o ser humano. Essa lista não pretende descrever o mundo
sobrenatural, mas apenas reforçar, de modo retórico e enfático, a convicção
central do apóstolo: nenhuma realidade – nem a morte, nem os poderes cósmicos,
nem qualquer criatura – é capaz de separar o cristão do amor de Deus,
manifestado em Jesus Cristo. É esse amor indestrutível que sustenta a fé, dá
sentido à existência e assegura à pessoa a vitória sobre todas as forças de
destruição.
3. Evangelho (Mt 14,13-21)
No início do Evangelho
deste domingo, Mateus nos mostra Jesus retirando-se para o deserto, seguido por
grande multidão. Ali, movido pela compaixão, Ele acolhe a dor e a fome daquele
povo e cura os enfermos (v. 13-14).
O deserto recorda aos
ouvintes e leitores do Evangelho um lugar de encontro com Deus, no qual se
aprende a confiar, a desapegar-se das seguranças humanas e a reconhecer que
tudo é dom do amor divino. É também o lugar da consideração pelo outro, da
partilha e da fraternidade, pois nele cada pessoa depende do cuidado e da
solidariedade dos outros para continuar a caminhar. Assim, Jesus conduz o povo
ao deserto não para isolá-lo, mas para fazê-lo redescobrir o essencial: a
presença de Deus que sustenta e alimenta por meio de irmãos e irmãs.
Diante da multidão
faminta, os discípulos querem despedir o povo, mas Jesus os desafia com uma
palavra que ressoa até hoje: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (v. 16). Com isso,
ele os chama à responsabilidade diante da fome e do sofrimento do mundo. Seguir
Jesus é comprometer-se com as dores humanas, pois não há verdadeiro discipulado
cristão sem solidariedade. A comunidade do Reino é aquela que escuta o grito
dos necessitados e responde com gestos concretos de partilha, compaixão e
cuidado fraterno.
Por fim, Jesus exerce a
partilha. Ele toma os cinco pães e dois peixes, ergue os olhos ao céu,
pronuncia a bênção e os reparte entre todos. Ao agradecer, reconhece que tudo
vem de Deus e tudo deve voltar a Deus por meio do amor. Nenhum bem é
propriedade exclusiva. Tudo é dom confiado para o serviço e o bem comum.
Assim, a bênção de Jesus
transforma o pouco em abundância e o medo em generosidade. A comunidade que
vive dessa lógica do dom recebido e partilhado torna-se sinal do Reino de Deus:
um povo novo, liberto do egoísmo, alimentado pela gratuidade e unido no amor
que sacia toda fome.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
Muitas vezes se cultiva a
imagem de que Deus prefere alguns, por serem cumpridores de preceitos, e exclui
outros, por não corresponderem aos cânones da religião. Contrariamente a isso,
a lógica divina se apresenta como uma proposta para todas as pessoas.
As leituras deste
domingo, por meio do cenário da comensalidade, demonstram que Deus acolhe a
todos para a comunhão de amor e deseja que todos dela participem. A primeira
leitura constitui um convite à comunhão com Deus no banquete preparado por ele.
No Evangelho, Jesus realiza essa comunhão na acolhida do dom oferecido e na
partilha dos pães e dos peixes para que os discípulos os distribuam. A segunda
leitura declara que a comunhão com o amor de Deus não se perde por nada e que
essa é nossa vitória.
Portanto, a celebração
da Eucaristia não pode servir para promover exclusões pastorais e favorecer
ferramentas de acusação. Ela é o sacramento de comunhão, e Deus deseja a
comunhão com todas as pessoas. Nossa liturgia se torna mais eficaz quando nos
comprometemos com a vivência do que celebramos, com a acolhida de todas as
pessoas nesse banquete de Deus e com a partilha solidária dos dons recebidos.
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus
Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade
Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta
de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla
diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU
Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus
(Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador
Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG.
E-mail: marcusmareano@gmail.com
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