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REFLEXÕES PARA O SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM
4.1- FELIZES OS QUE GUARDAM OS PRECEITOS DO SENHOR
Nosso
Senhor diz no Evangelho da Missa de hoje que não veio destruir a antiga Lei,
mas dar-lhe a sua plenitude: ou seja, Jesus restaura, aperfeiçoa e eleva a uma
ordem superior os preceitos do Antigo Testamento. O Livro do Eclesiástico
propõe-nos uma vida de acordo com o plano de Deus: “se quiseres observar os mandamentos,
eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás”. Jesus, por outro
lado, fala com autoridade, ampliando os preceitos da Antiga Lei: “Não penseis
que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes
pleno cumprimento. Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de
existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se
cumpra. Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que
seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino
dos Céus. Porém, quem os pra- ticar e ensinar será considerado grande no Reino
dos Céus... Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar
será condenado pelo tribunal’. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se
encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: ‘patife!’
será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de ‘tolo’ será condenado ao
fogo do inferno.” Jesus é muito radical, aparentemente: a razão se deve a que
não podemos colocar em risco a nossa felicidade eterna: “Não cometerás
adultério. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o
desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o teu olho
direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De
fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no
inferno”. Quem se atreverá a interpretar a Palavra divina ao seu gosto, ousar mudá-la
ou atenuá-la? Por isso o Senhor nos adverte hoje: “Aquele que violar um destes
manda- mentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o
menor do reino dos céus.” Somos convidados a defender e preservar o depósito da
Fé Católica, porque ela é o caminho seguro nesta vida. Da nossa perseverança na
fé e na vida cristã depende a salvação das nossas almas e das almas das pessoas
que dependem de nós. Devemos conhecer bem e proteger cuidadosamente esse conjunto
de verdades e preceitos que constituem o depósito da fé e da moral cristãs,
pois é o tesouro que o Senhor nos entrega através da Igreja, para que possamos
andar seguros no caminho da salvação. E protegemo-lo especialmente quando
fomentamos a piedade pessoal na oração constante e na recepção dos sacramentos
(especialmente a Confissão e a Eucaristia), quando nos propomos alimentar uma
formação doutrinal adequada às nossas circunstâncias e também quando somos
prudentes nas leituras. “Felizes aqueles cuja vida é pura e que seguem a lei do
Senhor. Felizes os que guardam com esmero os seus preceitos e o procuram de
todo o co- ração”, diz o Salmo responsorial, avivando a nossa disposição de
seguir fielmente o Senhor. A fé é o nosso maior tesouro e não podemos expor-nos
a perdê-la ou deixar que se deteriore. Não há nada que valha a pena em
comparação com a fé. Por isso clamamos: “Mostrai-me, Senhor, o caminho das
vossas leis [...]. Ensinai-me a cumprir a vossa vontade”, continuamos a dizer a
Deus com palavras do salmo. Como lemos na segunda leitura: “Nenhum dos
poderosos deste mundo conheceu essa sabedoria. Pois, se a tivessem conhecido,
não teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como está escrito, ‘o que Deus
preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram
nem coração algum jamais pressentiu’". A doutrina de Jesus Cristo tem um
va- lor perene para os homens de todos os tempos e é um tesouro que cada
geração recebe das mãos da Igreja, que o guarda fielmente com a assistência do
Espírito Santo e o expõe com autoridade.
D. Carlos Lema Garcia Bispo Auxiliar de São
Paulo Vigário Episcopal para a Educação
https://arquisp.org.br/wp-content/uploads/2025/12/Ano-50A-15-6o-DOMINGO-DO-TEMPO-COMUM.pdf
4.2- 15 de fevereiro – 6º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Junior Vasconcelos do Amaral*
Que o vosso “sim” seja “sim” e
vosso “não” seja “não”
I.
INTRODUÇÃO GERAL
Movidos pela Palavra de
Deus, somos convidados a amar profundamente nossos semelhantes, aqueles que
chamamos de irmãos, com os quais construímos fraternidade. A primeira leitura
nos convida a discernir sobre o bem e o mal, a fim de que colhamos as melhores
consequências para nossa existência, não obstante saibamos que, mesmo que
sejamos bons, podemos sofrer e de fato sofremos. A segunda leitura nos convida
a viver com ousadia a sabedoria que vem de Deus, o qual orienta o ser humano no
conjunto de suas leis. O Evangelho nos orienta para a nova ética de Jesus, que
vai além daquela exigida no conjunto das 613 leis judaicas. Amar, para Jesus,
não é seguir à risca os mandamentos, mas ampliá-los, compreendendo que amar
exige de nós mais do que aquilo que simplesmente somos obrigados a vivenciar.
Amar é querer o bem do outro.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Eclo 15,16-21)
O relato do livro do
Eclesiástico se inspira nitidamente em Dt 30. Viver a sabedoria e com sabedoria
é saber discernir entre o bem e o mal, no intuito de não sofrer as
consequências das más escolhas. Os caminhos são opções que cada ser humano se
dispõe a percorrer na liberdade. Na essência, Sirácida, como é conhecido o
autor do livro do Eclesiástico, argumenta que cada indivíduo tem a liberdade
radical para escolher a “vida”, obedecendo à lei, ou a “morte”, recusando-se a
obedecer. A decisão cabe a cada um, particularmente, e também à comunidade, que
pode ajudar o indivíduo a discernir o melhor caminho, orientando a consciência
humana no seu processo de escolha do bem ou do mal.
O v. 16 começa com o condicional “se quiseres observar”,
levando-nos a compreender que depende do ser humano crente viver os
mandamentos, e estes o guardarão. A confiança em Deus é fonte de vida, é graça,
para que o fiel seja guardado. Evidentemente, o autor sagrado não tem a
intenção de alienar ninguém em um fideísmo, mas apresentar a Lei de Deus como
performática: Deus fala e cumpre, guardando o fiel em sua Palavra. A metáfora
da água e do fogo aparece no v. 17 como caminhos de escolha: estender a mão
para ser molhado ou queimado depende exclusivamente daquele que é convidado por
Deus. O sentido da metáfora da água e do fogo se entende no versículo seguinte
(v. 18), pois diante do ser humano estão a vida e a morte, o bem e o mal, e ele
terá como recompensa aquilo que preferir. A sabedoria é o elemento vital, Hockmah em
hebraico; é o que brota da consciência humana advindo de Deus, que ilumina o
ser humano para que se torne sábio. A sabedoria, para o mundo semita, não é
acúmulo de conhecimento, mas o bom senso de ofertar ao mundo o que de melhor
temos. A sabedoria do Senhor é imensa (v. 19). Deus é autor e Senhor da
sabedoria; a sentença “ele tudo vê continuamente” exprime a onisciência divina.
O v. 20 ressalta a atenção de Deus para com os que o temem. Deus é capaz de
conhecer as obras do coração humano, pois o criou como lugar para germinar e
florescer sua Lei. Por fim, o v. 21 ressalta que Deus não mandou ninguém agir
como ímpio, não dando licença a ninguém para pecar. Na perspectiva de Sirácida,
a vida humana é um caminho de decisões que o ser humano continuamente deve
tomar. Todas as decisões, seja para o bem, seja para o mal, trarão
consequências.
2. II leitura (1Cor 2,6-10)
Paulo exorta os irmãos de Corinto, como fez o autor da primeira
leitura com o povo de Israel, a tomar consciência de sua missão. Tais palavras
são pura ironia, inteligíveis somente à luz de 1Cor 3,1 (“quanto a mim, irmãos,
não vos pude falar como a homens espirituais, mas somente como a homens
carnais, como a crianças em Cristo”). Ele diz que “entre os perfeitos (em
grego, Teléiois – o
que equivaleria a ‘maduros’, ‘vividos’, ou ainda ‘os experientes’) nós falamos
de sabedoria” (Sofían). Entre os
fiéis, não há almas escolhidas para distintamente terem conhecimento reservado
de Deus ou de suas coisas. A sabedoria vem do alto, de Deus, para todo aquele
que se abre à sua vontade, à sua revelação. Na perspectiva paulina, não se
trata da sabedoria humana, mas da derivada de Deus, do alto, do céu. A esta
altura, Paulo está criticando os coríntios, pois se deixaram seduzir por
sabedorias filosóficas e ignoraram a verdadeira sapiência, a derivada de Deus.
A sabedoria do mundo, dos poderosos – “líderes” (archónton) – desta
terra, é aquela que desaparece (katargouménon;
na tradução proposta pela liturgia de hoje: “destruição”). Equivale a dizer que
a sabedoria deste mundo é passageira, fugaz, vaidosa e, por isso, destrutiva.
No v. 7, Paulo diz: “Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus (Sofián em mystério), que está
oculta e, desde a eternidade, Deus destinou para nossa glória” (dóxan émon). Essa
sabedoria é, para Paulo, Jesus Cristo, o Logos de Deus na história da
humanidade que revela, desde sua encarnação, os mistérios divinos da salvação
para todo o gênero humano.
Por falta da sabedoria de Deus, o mundo crucificou o Senhor da
glória (Kyrion tés dóxes), Jesus Cristo
(v. 8). A sabedoria proveniente de Deus capacita o ser humano para o
discernimento da razão, da sua intelecção, por isso lhe concede a inteligência
da fé em Jesus Cristo. Foi por causa da ausência da sabedoria divina que
levaram Jesus à morte. Tal realidade é indecifrável, fugindo à razão humana e
passando a ser chamada de mistério. Tudo o que ocorre com Jesus, Deus o
preparou para os que o amam. Os olhos não viram nem os corações pressentiram
(v. 9). Aos eleitos da grande comunidade cristã, Deus revelou seu mistério por
meio do Espírito, que auxilia o fiel no discernimento de todas as coisas. Na
pneumatologia final desse relato, o Espírito é entendido como ente que leva
à compreensão das realidades de Deus.
3. Evangelho (Mt 5,17-37)
Continuidade do primeiro
discurso mateano – o Sermão da montanha, como ouvimos nos últimos dois domingos
–, a extensa narrativa deste dia (havendo também a opção pelo texto
sintetizado, breve, para proclamação) oferece-nos uma reflexão acerca do novo
código de leis, baseado na sabedoria divina, que Jesus vem propor aos que o
seguem e que estão com ele na montanha, lugar do encontro com Deus, como, no
passado, estiveram Moisés e o povo de Israel.
Jesus, no início do relato (v. 17-18), diz que não veio para
abolir (katalysai) a Lei e
os Profetas, mas levá-los a cumprimento (plērōsai, em
grego), à plenitude. Ele afirma que, antes que o céu ou a terra deixem de
existir, nem a menor letra (iota, em
grego; iod, em hebraico)
ou uma vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. Jesus não vem para
destruir a Lei ou as Escrituras, mas vem levá-las à inteira conformidade e
compreensão. Para ele, quem desobedecer a um mandamento da Lei e ensinar outros
a fazer o mesmo será considerado o menor no Reino dos Céus. Quem, porém,
praticar a Lei e ensiná-la será o maior no Reino dos Céus (v. 19). Jesus não é
contra a Lei, mas sim contra todo rigorismo na interpretação da Lei, e isso ele
vai ensinar adiante. A partir do v. 20, ele evidencia sua nova compreensão da
Lei, ampliando seu modo de interpretá-la; para isso, faz uso da conjunção
grega gar, “porque”, em
sentido explicativo, dizendo algo além do que está no escrito da Lei: “Se a
vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus,
não entrareis no Reino dos Céus”.
Nos v. 21-22, Jesus ensina sobre o modo como tratar o/a irmão/ã.
Ele diz: “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar
será condenado pelo tribunal’”. Derivado de Ex 20,13 e reeditado em Dt 5,17, o
imperativo “não matarás” constitui o quinto mandamento da Lei de Deus, acerca
da sacralidade da vida em sua inviolabilidade. Agora, para Jesus (v. 22), não é
apenas a inviolabilidade da vida que está em jogo, mas também toda ação que a
macule, sobretudo encolerizar-se com o outro e dizer-lhe algo ofensivo; por
exemplo, dizer ao irmão “patife” (em grego, Rhaka) implicará condenação ao tribunal, e dizer
“tolo” (Móre) trará
condenação ao fogo do inferno (em grego, Geennan). Geena é um termo helenizado para entender o
vale de Hinom (lugar de horror e desprezo) em Jerusalém, onde se mantinha
constantemente um fogo aceso para a queima de todo o lixo da cidade. Por
conseguinte, todo aquele que xinga seu irmão e dele desdenha está se arruinando
em suas próprias palavras, que constituem o pior lixo queimando em seu coração,
aquilo que de pior a pessoa tem a oferecer; ou seja, aquilo que ela está
projetando no outro e que, na verdade, está nela mesma (psicanaliticamente
dizendo).
Nos v. 23-26 encontramos os ensinamentos de Jesus sobre a reconciliação,
que começa com a própria atitude daquele que está levando sua oferta ao altar:
se lembrar que o outro tem algo contra ele, deve voltar e reconciliar-se (em
grego, diallagēthi) com
seu irmão. O verbo “reconciliar” está no imperativo, como uma ordem. Somente
depois da reconciliação se deve levar a oferta ao altar. Não há, desse modo,
boa oferta com um coração adoecido de raiva ou rancor contra o outro. O
processo deve ser desenvolvido no caminho para o tribunal, com base no diálogo
(v. 25); se isso não acontecer, pode ser que o destino seja a prisão. A
conclusão é o v. 26: da prisão somente se sairá quando for pago o último
centavo.
Os v. 27-32 tratam do
adultério e de questões sobre a convivência. Para Jesus, o adultério não se
resume apenas a um ato de traição carnal contra outra pessoa, mas envolve o
olhar concupiscente, de desejo. O olhar humano deve ser direcionado para o bem
do outro, e não para a sedução e a malícia (v. 28). Arrancar o olho não é
retirá-lo em sentido físico, mas significa arrancar o que leva ao pecado, o
olhar de cobiça (v. 29). O mesmo acontece com a mão (v. 30). Sobre o divórcio –
as últimas consequências da não relação –, Jesus diz nos v. 31-32: “Foi dito
também: ‘Quem se divorcia de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio’. Eu,
porém, vos digo: todo aquele que se divorcia de uma mulher, a não ser por
motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera, e quem se casa
com a mulher divorciada comete adultério”. Jesus implica o homem na gravidade
da situação de se casar com uma mulher divorciada, quando não se entendia que
existissem homens adúlteros no costume dos antigos. Jesus iguala os homens às
mulheres nesse sentido.
Por fim, na série de
ensinamentos, encontramos os v. 33-37 sobre o juramento, uma atitude comum.
Jesus diz: “Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás
falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’”. Jesus diz em
seguida: “Eu, porém, vos digo: não jureis de modo algum”. Para ele, nosso “sim”
deve ser “sim” e nosso “não”, “não”.
Em resumo, Jesus nos
ensina que, mesmo que a Lei exista e deva ser cumprida, há uma lei cristã,
derivada daquela que ele nos ensina, que deve ser levada em consideração por
nós que o seguimos como seus discípulos.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Oferecer à comunidade
uma reflexão mais ampliada sobre a Lei e os Profetas contidos nas Escrituras,
fazendo-a perceber que a nova ética construída por Jesus está baseada no amor
profundo, compromissado com o outro, na construção de uma sociedade mais justa,
fraterna e igualitária. Ajudar as pessoas a compreender que suas ações no
cotidiano da vida têm consequências, que plantar o bem é ter a certeza de que
colheremos bondade, não obstante as vicissitudes encontradas no caminho da
existência, marcada pela finitude e, muitas vezes, por incompreensões.
Estimular a comunidade a vivenciar com sabedoria divina este tempo que nos
prepara para a Quaresma que está chegando.
Junior Vasconcelos do Amaral*
*é presbítero da arquidiocese de Belo
Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança
(Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e
Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade
“sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain
(Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo
Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre
psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico. E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/15-de-fevereiro-6o-domingo-do-tempo-comum-2/