4.2- 12
de outubro – BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA DA CONCEIÇÃO APARECIDA
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
Nossa
Senhora, nossa esperança de vida!
1.
INTRODUÇÃO GERAL
O dia 12 de outubro faz
parte da identidade religiosa do povo brasileiro, que reconhece a presença
materna e a intercessão viva de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
Nossas comunidades celebram com muitos vivas e muitos aplausos este dia, em que
recordamos a Mãe de Jesus, a Virgem Maria, a qual não se esqueceu dos
pescadores do rio Paraíba do Sul e marcou sua aparição “aos pedaços”, para
repartir o sofrimento daquele povo e garantir que nunca mais sairia do seu coração.
A liturgia da Palavra da
solenidade da Bem-aventurada Virgem Maria da Conceição Aparecida vai buscar na
rainha Ester e no “desejo de vida” o fundamento teológico da presença de Maria
no meio da comunidade cristã. Ao apontar sempre para seu Filho, Jesus, Nossa
Senhora permanece muito atenta aos sinais, às nossas “talhas vazias”, para
sempre de novo recordar: “Fazei o que Ele disser”. Nossa Senhora Aparecida
possibilitou redes cheias de peixes, assim como o “vinho novo” de Caná da
Galileia
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Est 5,1b-2; 7,2b-3)
“A vida do meu povo –
eis o meu desejo” (7,3) é o pedido nascido do coração de Ester, a jovem judia
que vivia no exílio da Mesopotâmia e encontrou graça diante do rei Assuero, o
qual se apaixonou por ela e a escolheu como esposa. Estava em curso uma trama
de Amã – um homem muito poderoso do reinado –, que buscava a todo custo
aniquilar o povo judeu. Amã odiava Mardoqueu – que havia criado Ester como
filha – porque este se recusava a ajoelhar-se diante dele.
Ao descobrir as
artimanhas de Amã, Ester ficou muito angustiada, por causa do risco que seu
povo corria. Ela se utilizou, então, da sua beleza, como indica o início da
leitura, e se aproximou do rei, que ficou encantado: “olhou para ela com
agrado” (5,2). Assuero prometeu dar a Ester o que ela quisesse, até “a metade
do [...] reino” (7,2), ao que a rainha respondeu, manifestando o pedido de
salvação do povo judeu. O rei acolheu o pedido de Ester, o povo se salvou e
Amã, cuja artimanha havia sido revelada, foi condenado à morte.
O livro de Ester é uma
novela e sempre foi um texto muito querido pelo povo de Israel. Apresenta a
força dos pequenos, dos humilhados, e, ao mesmo tempo, mostra como aqueles que
organizam as maldades e perversões sempre vão esbarrar na força de Deus e na
organização dos pobres. Ester, mulher forte, utilizou tudo o que tinha em favor
da vida das pessoas. Ela é sinal de beleza, de inteligência, de articulação,
que devem sempre estar na direção do compromisso com a vida.
2. II leitura (Ap 12,1.5.13a.15-16a)
Uma mulher e um dragão
protagonizam a cena do trecho dessa leitura do livro do Apocalipse. De um lado,
a fragilidade, a pequenez da mulher que acabara de dar à luz; de outro, a
potência, a grandiosidade do dragão, que utiliza sua força para destruir e
perseguir.
O livro do Apocalipse,
escrito por volta do fim do primeiro século, descreve as situações que as
primeiras comunidades cristãs da Ásia Menor estavam vivendo. O cenário é
desolador: muitos estavam sendo perseguidos, aniquilados, destruídos pela força
do Império Romano. O dragão e a serpente são o símbolo desse mal, da força que
trabalha na contramão de Deus. A força do mal, no entanto, não consegue ter a
palavra definitiva, porque é o menino – o Cristo – “que deve reger todas as
nações pagãs com cetro de ferro” (v. 5).
A mulher é sinal da
comunidade cristã. É verdade que a imagem descrita – “uma mulher vestida do
sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas”
(v. 1) – pode logo ser relacionada a Maria; no entanto, o texto do Apocalipse
indica, sobretudo, a força das pequenas comunidades, que devem vencer a
tentação do medo e confiar que Deus está ao seu lado: “a terra, porém, veio em
socorro da mulher” (v. 16).
3. Evangelho (Jo 2,1-11)
O Evangelho de João diz
que Jesus realizou sinais. Prefere empregar essa linguagem a falar de
“milagres”. Os sinais apontam para uma dimensão maior do que aquilo que se pode
ver. O Evangelho desta solenidade de Nossa Senhora apresenta, em Caná da
Galileia, o primeiro sinal de Jesus. Serão, ao todo, sete.
O sinal de Jesus foi
realizado durante uma festa de casamento em que também estavam presentes sua
mãe e os discípulos (v. 2). Aconteceu que, durante a festa, o vinho terminou.
Uma festa sem vinho era uma festa fracassada. Maria logo percebeu e foi dizer a
Jesus: “Eles não têm mais vinho” (v. 3). O cenário da festa de casamento
(imagem da festa humana) que não tem mais vinho (imagem da alegria) indica a
situação de uma humanidade que perdeu a esperança, que perdeu o sentido da
vida. Havia muita força contrária à felicidade das pessoas. A sensibilidade de
Nossa Senhora era muito genuína e forte. Maria percebeu que o povo estava
necessitado de um “vinho novo”, de um vinho “muito melhor” do que aquele que
costumava beber, e, para suprir essa necessidade, ela também indicou o caminho:
“Fazei o que ele vos disser” (v. 5).
Não foi o mestre-sala, o
responsável pela festa, quem “resolveu” a falta de vinho. Maria entendeu que
aquela situação precisava da intervenção de Jesus. Outro detalhe evidencia a
causa da “falta de alegria” das pessoas: havia seis talhas no pátio do local
onde ocorria a festa (v. 6). As talhas de água eram para a purificação das
pessoas, um gesto piedoso de quem queria ficar “puro” diante de Deus. As talhas
estavam vazias, e Jesus transforma aquelas talhas de água em talhas de vinho. O
ritualismo exterior não estava ajudando as pessoas a viver felizes. As talhas
precisam de Jesus, os ritos precisam de Jesus, uma denominada pureza sem Jesus
não faz sentido. É ele o vinho novo, a vida nova!
Os pescadores João
Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, em 1717, no rio Paraíba do Sul,
fizeram a experiência da presença e da sensibilidade de Maria, a Mãe Aparecida,
no meio da angústia da pesca. A mesma Mãe que está muito atenta às necessidades
dos filhos. “Eles não têm mais vinho”, “eles não têm mais alegria”, “eles não
têm mais esperança” é a prece simples de Nossa Senhora, que sabe, como mais
ninguém, que nossas “talhas” precisam de Jesus, o “vinho novo” da nossa
humanidade.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A celebração de Nossa
Senhora da Conceição Aparecida nos insere na festa de Caná da Galileia, naquele
“terceiro dia”. Nascemos para ressuscitar, e a ressurreição é a graça contida
nas “talhas cheias de vinho”, símbolo maior da alegria e do amor! Esta é a
festa que a presença de Maria torna possível: nossos vazios, nossos silêncios,
nossa pequenez são assumidos e conduzidos na direção de Jesus. “Fazei o que ele
vos disser” são as primeiras e as últimas palavras de Maria no Evangelho de
João. Todas as nossas palavras devem servir para aproximar nossa humanidade do
coração amoroso do Senhor!
Pe. Ms. Maicon André
Malacarne*
*Maicon André Malacarne
é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em
Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS.
Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de
Roma. E-mail: maiconmalacarne@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/12-de-outubro-bem-aventurada-virgem-maria-da-conceicao-aparecida-2/