4.2-18 de
outubro – 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
O
primado de Deus!
1.
INTRODUÇÃO GERAL
A liturgia da Palavra
deste 29º Domingo do Tempo Comum recorda que Deus deve ser o centro da nossa
vida. Ele é o Senhor da história, o criador, o libertador e o redentor da
humanidade. Nossa resposta deve ser a vivência do amor, que, no testemunho da
comunidade de Tessalônica, foi traduzido em fé, esperança e caridade. O rei
Ciro, ao possibilitar o retorno do povo exilado na Babilônia, tornou-se um
instrumento importante de Deus para comunicar a libertação dos israelitas. Ser
instrumento de Deus significa abrir os olhos para “os dois lados da moeda”, ou
seja, para a realidade, sem esquecer que o centro de tudo é Deus, e trabalhar
cotidianamente para que seu Reino seja assumido e vivido no meio da humanidade.
Trata-se, também, de enfrentar e desarticular o poder dominador de tantos
“imperadores” que oprimem os filhos e filhas de Deus.
1.
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 45,1.4-6)
O exílio dos israelitas
na Babilônia foi um dos acontecimentos mais trágicos da história daquele povo.
Para quem experimentou a opressão, naqueles mais de cinquenta anos, a esperança
de retornar para a terra dos seus antepassados parecia diminuir a cada dia,
dada a situação de domínio do poder babilônico.
É do meio de um cenário
de desilusão que o profeta anuncia que Deus não esqueceu seu povo e que haverá
um momento novo para eles. A esperança tem nome: Ciro, rei dos persas. Ao tomar
o poder da Babilônia, o rei autorizou uma vida nova para os israelitas: a
possibilidade de voltar para a terra dos seus antepassados, praticar sua fé e
reconstruir os lugares de culto. Sabemos que o retorno não foi fácil, a
reconstrução custou muito, mas era possível ainda sonhar.
O profeta anuncia Ciro
como um rei escolhido por Deus para libertar os israelitas: “Tomei-o pela mão
para submeter os povos ao seu domínio, dobrar o orgulho dos reis, abrir todas
as portas à sua marcha, e para não deixar trancar os portões” (v. 1). Ciro foi
um instrumento divino, assim como Deus despertou e continua despertando, no
meio da humanidade, diferentes maneiras de realizar sua vontade. Um instrumento
está sempre a serviço de algo ou de alguém; não é ele o centro de tudo, mas
realiza um projeto em vista daquele que é o centro. Deus é o verdadeiro Senhor
da história, e Ciro realizou sua vontade ao possibilitar o retorno do povo
exilado.
2. II leitura (1Ts 1,1-5b)
Tessalônica era a cidade
mais importante da Mesopotâmia no século I, porque sua localização, próxima ao
mar, lhe possibilitou tornar-se um grande centro comercial. Paulo chegou a essa
cidade durante sua segunda viagem missionária e, conforme a leitura, estava acompanhado
de Silvano e Timóteo (v. 1). A comunidade fundada ali era pujante, viva. Os
estudiosos garantem que, redigida por volta do ano 50, essa carta foi o
primeiro escrito do Novo Testamento.
O trecho se inicia com
uma “ação de graças” pela experiência da fé vivida por essa comunidade. Em
seguida, São Paulo sinaliza a expressão dessa fé: “recordamos sem cessar a
atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança
em nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 3). A fé, a caridade e a esperança, essas
três virtudes fundamentais, traduziram-se, naquela comunidade, em um estilo de
vida que merece louvor.
Nossas comunidades
cristãs, apesar do esforço de viver o Evangelho de Jesus Cristo, muitas vezes
são manchadas pela hipocrisia dos seus membros, que dividem e escandalizam o
mundo com atitudes pequenas. O caminho será sempre este mapa que a comunidade
de Tessalônica abriu, não sem dificuldades: fé, caridade e esperança, sem
limites!
3.
Evangelho (Mt 22,15-21)
Nossa relação com Deus
corre o risco de se transformar em “posso ou não posso, devo ou não devo, é
lícito ou não é lícito”. Deus vai se tornando como que uma instância ética à
qual devo satisfações e com a qual parece que me encontro mais para um acerto
de contas do que para qualquer outra coisa. Pelo Evangelho, é possível
encontrar Deus com o rosto da humanidade. Em Jesus Cristo, a fé recebe o
estatuto de uma relação. Deus deve ser o centro da nossa vida, para o qual
nosso olhar está direcionado e nossa prática está orientada. No entanto, essa
experiência não pode ser feita fora do mundo, fora do primado da realidade.
A pergunta que os
fariseus e partidários de Herodes fizeram a Jesus, no Evangelho, numa tentativa
de pegá-lo no erro para condená-lo, foi: “É lícito ou não pagar imposto a César?”
(v. 17). Jesus, que já tinha compreendido as intenções, convida-os a olhar uma
moeda: “De quem é a figura e a inscrição que está nessa moeda?” (v. 20).
Fugindo da armadilha, sentencia: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus
o que é de Deus” (v. 21). Muito maior do que o imposto a ser pago a César é o
valor da vida de cada pessoa que pertence a Deus.
Servir a Deus e servir a
César encontra sentido no serviço à humanidade. De fato, para além das muitas
espiritualidades que sugerem uma “fuga do mundo”, o Evangelho recorda esta
verdade: Jesus assumiu em tudo a condição humana, e tudo que é humano é também
de Deus. Não há fé senão com os pés bem colados na vida cotidiana, por dentro
das contradições dos “lados da moeda”.
A admiração, o espanto, o fascínio que Jesus causava eram
expressão de compromisso e solicitude com a vida! Vida que não era reduzida a
uma soma de atividades, mas era sempre elevada à transcendência. Jesus superou
o risco que o poeta William Blake chamou “da visão única e do sono de Newton”.
No romance Middlemarch, George
Eliot escreveu uma espécie de elogio à atenção com a vida: “Se fôssemos dotados
da capacidade de ver e ouvir cada detalhe da vida comum, poderíamos perceber o
movimento da grama que cresce e o batimento cardíaco dos esquilos e morreríamos
do barulho constante que é o outro lado do silêncio”.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A liturgia da Palavra
recorda que os cristãos têm um compromisso fundamental de agir no mundo em
vista do Reino de Deus. Não se pode viver de qualquer jeito nem ser seguidor de
Jesus Cristo de qualquer jeito. O batismo empenha nossa vida e nos orienta para
o caminho da justiça, que nega qualquer tipo de privilégio e qualquer forma de
corrupção. Com os olhos bem abertos para o real – marcado por tantas opressões,
como foi aquela do povo exilado na Babilônia –, nossa fé deve traduzir-se em
práticas que garantem a vida, que possibilitam sonhar com dias melhores e que
guiam tudo para Deus.
Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS,
pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na
Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela
Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: maiconmalacarne@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/18-de-outubro-29o-domingo-do-tempo-comum-2/