07-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )
"ATÉ QUE A MORTE NOS
SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO
FRANCISCO"
[Parte VIII-01]
"Onde
houver desespero, que eu leve a
esperança"
[Atribuída a São Francisco de Assis]
ONDE HOUVER
DESESPERO, QUE EU LEVE A ESPERANÇA!
Com o desespero real não se brinca - e isso
se revela de maneira particularmente dramática no dia a dia da vida conjugal. É
possível fazer humor com situações de pânico circunstancial: a estupefação de
quem é apanhado “com a mão na massa” ocultando dinheiro nas partes íntimas, o
espanto de quem é pego com a “boca na botija” saindo do motel com quem deveria
ser apenas secretária ou secretário, ou o embaraço de quem é pego "no
flagra" enviando mensagens suspeitas que resolvem fazer uma visita
inesperada ao celular da pessoa errada. O susto é grande, o constrangimento é
intenso, e o pânico chega a ser cômico, tal como souberam explorar com maestria
os programas humorísticos Casseta & Planeta e Pânico na TV.
Mas, no dia a dia do casamento - onde a vida
real pouco ou nada tem dos cenários artificiais dos reality shows - esse tipo
de pânico é apenas a camada superficial de uma realidade muito mais profunda,
sofrida e nem sempre perceptível. Aqui, o desespero real não se dissolve com
risos, gargalhadas e, menos ainda, com ironias refinadas; pelo contrário, é
implacavelmente sério e mordaz: corrói silenciosamente o interior do vínculo
até alcançar as bases que lhe servem de sustentação. Instala-se como
experiência que afeta não apenas os parceiros, individual e subjetivamente, mas
também o próprio vínculo que os mantém unidos, afetiva e relacionalmente.
Levar esperança onde há desespero é, sem
dúvida, uma missão das mais nobres e relevantes. Mas, quando se trata da
invocação franciscana, uma curiosidade salta à frente: se o contrário de
confiança é desconfiança, de honestidade é desonestidade e de lealdade é
deslealdade, por qual razão Francisco prefere contrapor desespero à esperança,
e não - o que seria de se esperar - desesperança? Com certeza, a escolha não é
apenas semântica; uma hipótese plausível é que sua opção tenha sido
deliberadamente proposital. Ela aponta para a intensidade dramática da
experiência humana quando a esperança está ausente e o sofrimento se torna
insuportável - isso gera não apenas desesperança; gera desespero - fazendo com
que o viver deixe de ser escolha e passe a ser resistência.
Enquanto a desesperança sugere certa
passividade, indiferença ou ausência de expectativa, o desespero, ao contrário,
aponta para uma vivência carregada de angústia e tensão, que impõem um intenso
bombardeio às emoções, pressionam a razão e exigem resposta imediata. Imagine,
por exemplo, o drama vivido por quem se encontrava no interior das Torres
Gêmeas, naquele fatídico onze de setembro: aguardar um socorro incerto, em meio
às chamas cada vez mais intensas, ou tentar pôr fim ao sofrimento lançando-se a
uma morte dramática e absolutamente certa? Em situações como essa, o desespero
assume contornos extremos, deixando pouca margem à esperança, se é que ela
ainda permanece em cena.
No plano espiritual, situações radicais de
desespero podem precipitar o colapso da fé e a perda total do sentido da vida;
a desesperança, nem tanto. Ao evocar o desespero, Francisco não se limita a
indicar a mera falta de esperança; ele aponta para a urgência premente de um
movimento interior capitaneado pela própria esperança, capaz de superar a
incerteza, renovar a confiança e abrir caminho para a transformação. No vínculo
conjugal, o desespero é o grito da alma diante da ameaça de ruptura iminente,
que impõe confrontar e decidir sob pressão, ainda que essa seja a forma e o momento
menos apropriados para qualquer tomada de decisão. Uma traição reiterada, por
exemplo - quando ausente toda e qualquer demonstração de arrependimento sincero
- não representa apenas a possibilidade de ruptura de um pacto e de uma
aliança; antes, pode significar a dissolução do chão compartilhado por anos ou
mesmo décadas, fazendo com que a intimidade se fragmente, a confiança se
esfarele e cada olhar se transforme em suspeita ou acusação, expondo o coração
a uma escolha dilacerante: suportar o insuportável ou admitir o colapso do
vínculo.
Uma doença súbita ou um acidente que altera
radicalmente a vida de um dos cônjuges pode ser suficiente para converter a
convivência em um labirinto de medo e impotência, no qual o cuidado deixa de
ser escolha livre e passa a ser fardo pesado, enquanto o tempo se estreita, o
futuro se torna incerto e cada decisão pesa como se fosse um fardo. Também a
derrocada da situação financeira - sobretudo quando acompanhada do isolamento
social que costuma provocar - pode acabar transformando o cotidiano em um campo
de tensões contínuas, onde a urgência corrói a serenidade, a vulnerabilidade
expõe feridas antigas, e a pressão constante acaba inibindo tanto a ação quanto
a disposição interior para enfrentar a realidade.
Todas essas experiências, entre outras,
acabam expondo o vínculo a um estresse extremo, que o fragiliza, exaure e o
aproxima perigosamente do fim. Em situações desse tipo, quando a fé e a
esperança são escassas - ou, o que é ainda pior, estão ausentes - o desespero se
apresenta muito menos como energia que impulsiona rumo à mudança, e muito mais
como força que desestabiliza e fragiliza o que parecia blindado contra qualquer
tipo de ameaça. Impõe-se, em tais momentos, a urgência de abrir caminhos que,
respeitando e reverenciando o amor que permanece, permitam à vida reencontrar o
equilíbrio, por mais delicada, dolorosa - e mesmo traumática - que se mostre a
situação.
“Até que a morte nos separe”: se você passou
pela dramática experiência de perder repentina e inesperadamente um filho ou o
próprio parceiro, é natural que se pergunte por que tal experiência não foi
incluída entre os exemplos que podem gerar desespero, apontados anteriormente.
Adianto que isso não se deu por lapso de memória ou de percepção; seria quase imperdoável
se assim acontecesse. Afinal, perder para sempre alguém que, além de nós
mesmos, é a própria razão de ser de nossas vidas, talvez esteja entre as
situações com maior potencial capaz de desestabilizar o vínculo conjugal e
familiar. Aqui, não é apenas o chão que se desfaz, abrindo um abismo sob nossos
pés; é o próprio mundo que parece ruir, sem direção, sem porto seguro, como se
a pessoa perdesse a razão maior de continuar vivendo. E isso, claro, pode ser
tremendamente desesperador.
Mesmo quando a fé e a esperança estão
presentes, não raro também elas podem sofrer abalos profundos, que tanto podem
fragilizá-las quanto fortalecê-las ainda mais. A dor de se perder quem mais se
ama só é plenamente compreensível por quem já passou ou esteja passando pelo mesmo
tipo de experiência. Exige coragem silenciosa para reconstruir sentidos e,
mesmo na ausência irreversível, abrir caminhos que reverenciem o amor que
permanece e permitam à vida restabelecer seu delicado, doloroso e, por vezes,
traumático equilíbrio.
A morte física, repentina e inesperada, pode
ser traumática para o casal - quando se trata de um filho ou filha - ou para o
cônjuge, quando se trata do parceiro. Há, contudo, um tipo peculiar de “morte”
que, sem ser necessariamente traumática, instaura na convivência conjugal não
propriamente o desespero, mas a desesperança: refiro-me à morte do próprio
vínculo, enquanto tal. Ariano Suassuna dizia que o otimista é um tolo, o
pessimista é um chato e que o melhor é ser realista com esperança. Não há
dúvida de que essa máxima se aplica a muitas dimensões da vida, inclusive ao
vínculo conjugal. Também a afirmação atribuída a Abraham Lincoln - segundo a
qual, “casamento não é céu nem inferno; é apenas purgatório” - parece, sob esse
prisma, bastante razoável.
Sendo assim, a afirmação de que “aquilo que
Deus uniu, o homem não separe” pode soar convincente para vocacionados ao
celibato, mas altamente questionável quando aplicada ao vínculo conjugal.
Humanos, frágeis, falíveis e imprevisíveis que somos - para mencionar apenas
algumas de nossas limitações - a razoabilidade sugere que tratemos esse tipo
singular de vínculo com respeito, antes de tudo, com coerência, em segundo
lugar, e com a máxima compreensão, para completar a tríade. Spinoza diria que a
compreensão basta, pois ela constitui a base tanto da fidelidade, por um lado,
quanto do perdão, por outro. Ainda que possa parecer razoável almejar que o
vínculo conjugal dure para sempre, até que a morte o separe, o realismo
esperançoso adverte que haverá casos - talvez não tão raros quanto se imagina -
em que será igualmente desejável, e até recomendável, que o vínculo tenha
início, meio e fim, sem que seja exclusivamente a morte física a impor esse
desfecho. A nosso ver, a “morte” do próprio vínculo é igualmente capaz de
cumprir tal função. O que vem a ser essa “morte” e em que consiste a
“desesperança” silenciosa que ela traz consigo - e que nem sempre culmina em
desespero - será tema do segundo tópico da presente reflexão.
Obs.: Esta parte número oito, tópico 01, será completada pelo
tópico 02, de mesmo título.…
(* ) Reflexão enviada por whatsapp pelo autor, de Vitoria (ES).
Nenhum comentário:
Postar um comentário