sábado, 7 de novembro de 2026

8-ASPP: “ANSIEDADE –A SÍNDROME DO PENSAMENTO POLARIZADO" [Parte I]

 

 

8-ASPP: “ANSIEDADE –A SÍNDROME DO PENSAMENTO   POLARIZADO"

                      [Parte I]

            "Aqueles que conservam a sua paz interior  em  meioao  tumulto  da vi-

             da  moderna,  estão  imunizados contra  doenças nervosas" [Alexis Carell]

 

Provavelmente você já leu ou ao menos já ouviu falar da obra “Ansiedade: a Síndrome do Pensamento Acelerado”, do psiquiatra e estudioso brasileiro Augusto Cury. Trata-se de um novo e específico tipo de ansiedade que, segundo Cury, nasce da interação prolongada do ser humano com máquinas complexas, dentre as quais computadores, notebooks, celulares e outras tecnologias que vão adentrando o mercado e aliciando o consumidor. A Síndrome do Pensamento Acelerado, SPA, expressão cunhada e popularizada por Cury, não é reconhecida como diagnóstico específico nem pelo DSM-5 – o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua 5ª edição, nem pela CID-11 – Classificação Internacional de Doenças, em sua 11ª revisão. Ou seja, do ponto de vista da investigação científica, a Síndrome do Pensamento Acelerado pode ser considerada uma “hipótese diagnóstica” em debate e discussão, mas ainda não consensualmente assumida pela comunidade científica internacional. Obviamente, isso em nada diminui sua importância para a compreensão dos fenômenos mentais e dos transtornos psicológicos, notadamente da ansiedade.

É nesse mesmo contexto que propomos explorar uma nova e específica hipótese diagnóstica. Nós a chamaremos de ASPP – Ansiedade: a Síndrome do Pensamento Polarizado. Trata-se de uma hipótese diagnóstica nascida da observação de condutas e comportamentos cada vez mais recorrentes no cotidiano de nossa vida social e política. O foco da investigação não é, como poderia parecer à primeira vista, a polarização em si. Tampouco a defesa apaixonada de crenças e convicções políticas. Trata-se de investigar uma categoria peculiar de ansiedade que, a nosso ver, tem sua origem no âmbito político, mais especificamente na polarização emocionalmente exacerbada em detrimento da reflexão crítica e do discernimento racional. Divergências ideológicas, assim como disputas eleitorais e posicionamentos políticos divergentes fazem parte da vida democrática. A polarização, por si só, portanto, não é necessariamente geradora ou amplificadora de ansiedade. O problema que pretendemos examinar surge quando a adesão a determinado partido ou campo político ultrapassa o terreno das ideias e das convicções e passa a comprometer, de maneira acentuada e persistente, a saúde psíquica e o equilíbrio emocional de pessoas e de grupos inteiros afetados pela polarização política.

Nosso ponto de partida apoia-se na seguinte afirmação do orientador filosófico norte-americano Lou Marinoff: “Nenhuma fé é racional. Toda fé é apaixonada. [...]. Toda fé é uma paixão fortíssima para o bem ou para o mal”. É certo que a afirmação de Marinoff ocorre num contexto de religiosidade e de espiritualidade. A afirmação mencionada encontra-se inserida num capítulo intitulado: "Você é um ser espiritual?". Nosso entendimento, entretanto, é de que ela pode ser transposta, por analogia, para o âmbito de uma situação sociopolítica emocionalmente polarizada. Em que sentido essa transposição pode ser considerada legítima e válida? É o que buscaremos demonstrar nos parágrafos seguintes.

Quando o que estamos chamando de “polarização” ocorre menos por via do exercício da razão e da racionalidade – tal como ocorre em outros países, como os Estados Unidos, por exemplo – e mais por via da emoção e da acriticidade, como vem ocorrendo nos últimos anos no Brasil, um partido ou sistema político pode acabar se transformando numa espécie de religião  ou seita. As religiões organizadas, tais como tradicionalmente as conhecemos há milênios, são apenas uma entre tantas outras formas ou caminhos possíveis para que cada ser humano possa empreender sua jornada espiritual pessoal. Por outro lado, a política talvez seja o campo da vida social que mais semelhanças guarda com a religião. Senão, vejamos: a maioria das religiões têm um credo, a política partidária tem um ideário ou uma ideologia. Muitas religiões têm altares e púlpitos, a política tem púlpitos e palanques. A maioria das religiões tem um ou vários deuses, a política tem líderes  literalmente "endeusados e lideranças literalmente "divinizadas”. Muitas religiões têm seu “messias” próprio, a política também tem seus “salvadores da pátria”. A maioria das religiões faz uso frequente de promessas já para a vida presente e recompensas para a vida futura, a política se utiliza de recursos semelhantes e equivalentes. A maioria das religiões lança mão de dogmas e verdades concebidas como absolutas, a política faz uso dos mesmos recursos. Por fim, e isso é o que aqui mais nos interessa, a maioria das religiões conta com a fé passiva e o conformismo acrítico de grande parte, senão dá maioria, de seus seguidores, a política provavelmente não se sustentaria se abrisse mão desses mesmos recursos. Essa estranha semelhança certamente ajuda a compreender melhor a aproximação, nem sempre imaculada, entre o poder temporal e o poder espiritual, que perdurou por séculos ao longo da história.

Se Sartre afirmou que "o inferno são os outros", Bertrand Russell escreveu: “É necessário algum tipo de filosofia para todos, com exceção dos mais insensatos e, na ausência de conhecimento, é quase certo que seja uma filosofia tola. O resultado disso é que a raça humana fica dividida em grupos de fanáticos rivais, cada grupo firmemente convencido de que seu próprio tipo de tolice é a verdade sagrada, enquanto a do outro grupo é uma heresia digna da danação”. Na prática, o que ocorre é que a religião, assim como todo e qualquer partido político, retira seus seguidores e partidários do grande grupo a que chamamos “humanidade” e os coloca numa espécie de “subgrupo”, no qual o sentimento de pertencimento pode acabar se sobrepondo à própria condição humana que os une aos demais. Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, esse subgrupo passará a ser visto como único e como essencial para o bem do todo e de todos. Simone de Beauvoir escreveu: "Nenhum grupo jamais se estabelece como o Único sem, ao mesmo tempo, colocar o Outro contra si". Concomitantemente, portanto, os demais grupos são classificados como secundários, depois como ameaça e, finalmente, como inimigos em potencial. A partir daí o mundo passa a ser dividido entre nós e os outros, opressores e oprimidos, crentes e infiéis, salvos e condenados, e por aí segue o andar dos demais antagonismos. A nosso ver, a polarização pela via emocional, seja ela religiosa, política ou de outra natureza, tem início na instauração desse antagonismo extremo e radical.

O escritor e pensador de origem húngara e naturalizado britânico, Arthur Koestler, ao comentar a mudança de identidade individual e única para a identidade grupal e uniforme, escreveu: “Os males da humanidade são causados não pela agressividade primária dos indivíduos, mas por sua identificação autotranscendente com os grupos. [...]. O traço ilusório que perpassa a história não se deve a formas individuais de insanidade, mas às ilusões coletivas geradas por sistemas de crenças baseados em emoções”. Ou seja, ao abrir mão de sua identidade como indivíduo singular e único, passando a assumir uma identidade grupal e uniforme, a pessoa abre mão também de grande parte de sua liberdade de pensamento crítico e de expressão individual em favor da submissão às exigências coletivas de uniformidade de crenças, de estruturas emocionais rígidas, e de conformidade de ação. Esse é, sem dúvida, o mais alto preço que geralmente se paga pelo sentimento de pertença, validação e segurança que qualquer tipo de grupo, religião ou partido oferece aos que dele fazem parte.

Todos pagarão esse preço? A resposta não parece ser tão simples, se considerarmos que, num mesmo corpo, temos uma cabeça, um tronco e diversos membros e que, quer queiramos quer não, quem governa é a cabeça, o tronco é que a sustenta, e os diversos membros estão tanto a serviço de um quanto da outra. Ao contemplar os níveis de intolerância e de carnificina produzidos pelas duas grandes guerras, notadamente pela segunda, o pensador e crítico político de origem húngara e naturalizado britânico Cyril Joad escreveu: “A civilização ocidental moderna resulta de dotar com os frutos de uma dúzia de homens de gênio uma população que, emocionalmente, está no nível dos selvagens e, culturalmente, no nível de meninos de escola”. Podemos discutir sua referência aparentemente tolerante para com a dúzia de “homens de gênio”, por ele mencionada. Mas, sem dúvida, atribuir às populações de diversos países europeus da primeira metade do século passado o status de “selvagens”, no tocante ao nível emocional, e de “meninos de escola”, no que concerne ao nível cultural, não chega, com certeza, a ser um elogio, e sim uma crítica ácida. Se tal crítica guarda semelhança com pessoas e grupos de nossa sociedade, passionalmente polarizados politicamente, talvez não seja simples coincidência. O que a ansiedade, considerada o “mal do século” dos tempos atuais, tem a ver com isso é o que abordaremos posteriormente, numa segunda parte.

Obs.: Esta primeira parte continua e será concluída com as partes seguintes, de mesmo título.

(* )Possui graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES. Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente, cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental

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