8-ASPP: “ANSIEDADE –A SÍNDROME DO PENSAMENTO POLARIZADO"
[Parte I]
"Aqueles que conservam a sua paz
interior em meioao
tumulto da vi-
da
moderna, estão imunizados contra doenças nervosas" [Alexis Carell]
Provavelmente
você já leu ou ao menos já ouviu falar da obra “Ansiedade: a Síndrome do
Pensamento Acelerado”, do psiquiatra e estudioso brasileiro Augusto Cury.
Trata-se de um novo e específico tipo de ansiedade que, segundo Cury, nasce da
interação prolongada do ser humano com máquinas complexas, dentre as quais
computadores, notebooks, celulares e outras tecnologias que vão adentrando o
mercado e aliciando o consumidor. A Síndrome do Pensamento Acelerado, SPA,
expressão cunhada e popularizada por Cury, não é reconhecida como diagnóstico
específico nem pelo DSM-5 – o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais, em sua 5ª edição, nem pela CID-11 – Classificação Internacional de
Doenças, em sua 11ª revisão. Ou seja, do ponto de vista da investigação
científica, a Síndrome do Pensamento Acelerado pode ser considerada uma
“hipótese diagnóstica” em debate e discussão, mas ainda não consensualmente
assumida pela comunidade científica internacional. Obviamente, isso em nada
diminui sua importância para a compreensão dos fenômenos mentais e dos
transtornos psicológicos, notadamente da ansiedade.
É nesse mesmo
contexto que propomos explorar uma nova e específica hipótese diagnóstica. Nós
a chamaremos de ASPP – Ansiedade: a Síndrome do Pensamento Polarizado. Trata-se
de uma hipótese diagnóstica nascida da observação de condutas e comportamentos
cada vez mais recorrentes no cotidiano de nossa vida social e política. O foco
da investigação não é, como poderia parecer à primeira vista, a polarização em
si. Tampouco a defesa apaixonada de crenças e convicções políticas. Trata-se de
investigar uma categoria peculiar de ansiedade que, a nosso ver, tem sua origem
no âmbito político, mais especificamente na polarização emocionalmente
exacerbada em detrimento da reflexão crítica e do discernimento racional.
Divergências ideológicas, assim como disputas eleitorais e posicionamentos
políticos divergentes fazem parte da vida democrática. A polarização, por si
só, portanto, não é necessariamente geradora ou amplificadora de ansiedade. O
problema que pretendemos examinar surge quando a adesão a determinado partido
ou campo político ultrapassa o terreno das ideias e das convicções e passa a
comprometer, de maneira acentuada e persistente, a saúde psíquica e o
equilíbrio emocional de pessoas e de grupos inteiros afetados pela polarização
política.
Nosso ponto
de partida apoia-se na seguinte afirmação do orientador filosófico
norte-americano Lou Marinoff: “Nenhuma fé é racional. Toda fé é apaixonada.
[...]. Toda fé é uma paixão fortíssima para o bem ou para o mal”. É certo que a
afirmação de Marinoff ocorre num contexto de religiosidade e de
espiritualidade. A afirmação mencionada encontra-se inserida num capítulo
intitulado: "Você é um ser espiritual?". Nosso entendimento,
entretanto, é de que ela pode ser transposta, por analogia, para o âmbito de
uma situação sociopolítica emocionalmente polarizada. Em que sentido essa
transposição pode ser considerada legítima e válida? É o que buscaremos
demonstrar nos parágrafos seguintes.
Quando o que
estamos chamando de “polarização” ocorre menos por via do exercício da razão e
da racionalidade – tal como ocorre em outros países, como os Estados Unidos,
por exemplo – e mais por via da emoção e da acriticidade, como vem ocorrendo
nos últimos anos no Brasil, um partido ou sistema político pode acabar se
transformando numa espécie de religião
ou seita. As religiões organizadas, tais como tradicionalmente as
conhecemos há milênios, são apenas uma entre tantas outras formas ou caminhos
possíveis para que cada ser humano possa empreender sua jornada espiritual
pessoal. Por outro lado, a política talvez seja o campo da vida social que mais
semelhanças guarda com a religião. Senão, vejamos: a maioria das religiões têm
um credo, a política partidária tem um ideário ou uma ideologia. Muitas
religiões têm altares e púlpitos, a política tem púlpitos e palanques. A
maioria das religiões tem um ou vários deuses, a política tem líderes literalmente "endeusados e lideranças
literalmente "divinizadas”. Muitas religiões têm seu “messias” próprio, a
política também tem seus “salvadores da pátria”. A maioria das religiões faz
uso frequente de promessas já para a vida presente e recompensas para a vida
futura, a política se utiliza de recursos semelhantes e equivalentes. A maioria
das religiões lança mão de dogmas e verdades concebidas como absolutas, a
política faz uso dos mesmos recursos. Por fim, e isso é o que aqui mais nos
interessa, a maioria das religiões conta com a fé passiva e o conformismo
acrítico de grande parte, senão dá maioria, de seus seguidores, a política
provavelmente não se sustentaria se abrisse mão desses mesmos recursos. Essa
estranha semelhança certamente ajuda a compreender melhor a aproximação, nem
sempre imaculada, entre o poder temporal e o poder espiritual, que perdurou por
séculos ao longo da história.
Se Sartre
afirmou que "o inferno são os outros", Bertrand Russell escreveu: “É
necessário algum tipo de filosofia para todos, com exceção dos mais insensatos
e, na ausência de conhecimento, é quase certo que seja uma filosofia tola. O
resultado disso é que a raça humana fica dividida em grupos de fanáticos
rivais, cada grupo firmemente convencido de que seu próprio tipo de tolice é a
verdade sagrada, enquanto a do outro grupo é uma heresia digna da danação”. Na
prática, o que ocorre é que a religião, assim como todo e qualquer partido
político, retira seus seguidores e partidários do grande grupo a que chamamos
“humanidade” e os coloca numa espécie de “subgrupo”, no qual o sentimento de
pertencimento pode acabar se sobrepondo à própria condição humana que os une
aos demais. Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, esse subgrupo passará a
ser visto como único e como essencial para o bem do todo e de todos. Simone de
Beauvoir escreveu: "Nenhum grupo jamais se estabelece como o Único sem, ao
mesmo tempo, colocar o Outro contra si". Concomitantemente, portanto, os
demais grupos são classificados como secundários, depois como ameaça e,
finalmente, como inimigos em potencial. A partir daí o mundo passa a ser
dividido entre nós e os outros, opressores e oprimidos, crentes e infiéis,
salvos e condenados, e por aí segue o andar dos demais antagonismos. A nosso
ver, a polarização pela via emocional, seja ela religiosa, política ou de outra
natureza, tem início na instauração desse antagonismo extremo e radical.
O escritor e
pensador de origem húngara e naturalizado britânico, Arthur Koestler, ao
comentar a mudança de identidade individual e única para a identidade grupal e
uniforme, escreveu: “Os males da humanidade são causados não pela agressividade
primária dos indivíduos, mas por sua identificação autotranscendente com os
grupos. [...]. O traço ilusório que perpassa a história não se deve a formas
individuais de insanidade, mas às ilusões coletivas geradas por sistemas de
crenças baseados em emoções”. Ou seja, ao abrir mão de sua identidade como
indivíduo singular e único, passando a assumir uma identidade grupal e
uniforme, a pessoa abre mão também de grande parte de sua liberdade de
pensamento crítico e de expressão individual em favor da submissão às
exigências coletivas de uniformidade de crenças, de estruturas emocionais
rígidas, e de conformidade de ação. Esse é, sem dúvida, o mais alto preço que
geralmente se paga pelo sentimento de pertença, validação e segurança que
qualquer tipo de grupo, religião ou partido oferece aos que dele fazem parte.
Todos pagarão
esse preço? A resposta não parece ser tão simples, se considerarmos que, num
mesmo corpo, temos uma cabeça, um tronco e diversos membros e que, quer
queiramos quer não, quem governa é a cabeça, o tronco é que a sustenta, e os
diversos membros estão tanto a serviço de um quanto da outra. Ao contemplar os
níveis de intolerância e de carnificina produzidos pelas duas grandes guerras,
notadamente pela segunda, o pensador e crítico político de origem húngara e
naturalizado britânico Cyril Joad escreveu: “A civilização ocidental moderna
resulta de dotar com os frutos de uma dúzia de homens de gênio uma população
que, emocionalmente, está no nível dos selvagens e, culturalmente, no nível de
meninos de escola”. Podemos discutir sua referência aparentemente tolerante
para com a dúzia de “homens de gênio”, por ele mencionada. Mas, sem dúvida,
atribuir às populações de diversos países europeus da primeira metade do século
passado o status de “selvagens”, no tocante ao nível emocional, e de “meninos
de escola”, no que concerne ao nível cultural, não chega, com certeza, a ser um
elogio, e sim uma crítica ácida. Se tal crítica guarda semelhança com pessoas e
grupos de nossa sociedade, passionalmente polarizados politicamente, talvez não
seja simples coincidência. O que a ansiedade, considerada o “mal do século” dos
tempos atuais, tem a ver com isso é o que abordaremos posteriormente, numa
segunda parte.
Obs.: Esta primeira parte continua e será concluída com as partes seguintes, de mesmo título.
(* )Possui graduação
em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia
pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela
Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em
Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi
por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica
do Centro Universitário de Vila Velha, ES. Durante esses 11 anos foi
Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso
de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional,
Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente em
Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente, cursa a
pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental
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