07- SANTO AGOSTINHO E O PAPADO DE LEÃO XIV
Por
Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior*
O
texto apresenta breve perfil do papa Leão XIV e sete pontos-chave de conexão
entre Agostinho e o pontífice.
Introdução
O agostiniano Robert Francis Prevost Martínez assumiu o
pontificado, como 267º bispo de Roma, em 18 de maio de 2025. Nasceu em Chicago,
Illinois, nos Estados Unidos, em 14 de setembro de 1955, festa da Exaltação da
Santa Cruz. É norte-americano e peruano, com dupla nacionalidade. Leão XIV foi
o nome escolhido pelo sumo pontífice da Igreja universal, patriarca do
Ocidente, primaz da Itália, arcebispo metropolita da Província Romana. Seu lema
episcopal é In Illo uno unum (“No
Cristo uno, unidade”), como programa de ação e vida espiritual. Seu poço de
água viva é Cristo Jesus. Seu pai espiritual é Santo Agostinho.
1. Um homem tímido movido pela
graça de Deus
Robert (Leão XIV),
chamado de Bob pela família, é esse homem-ponte que une povos de dois
hemisférios e duas culturas: nasce nos EUA e, por duas décadas, vive
umbilicalmente sua missão eclesial como padre e bispo agostiniano no Peru.
Assumidamente filho de migrantes, é multicultural e poliglota, reconhecendo-se
um missionário-migrante, como havia sido o pai espiritual da sua ordem, o
peregrino pensador, filósofo e teólogo nascido em Tagaste, estudante em Madaura
e Cartago, convertido em Milão, por influência de Santo Ambrósio, e nomeado
bispo de Hipona, no norte da África, durante o fim do Império Romano. Há grande
similitude entre Robert Prevost e Aurélio Agostinho, tendo sido ambos marcados
pela graça infinita de Deus, que busca e encontra os corações inquietos que o
desejam ardentemente. Robert terá em sua mãe, senhora Mildred, seu modelo de
vida santa e devota, enquanto Santo Agostinho teve em Santa Mônica, mãe
corajosa e firme, as lágrimas de sua conversão. Agostinho começou suas buscas
exteriores desde a morte do pai, Patrício, pondo-se a caminho de Cartago por
volta do ano 371. Seguiu o árduo caminho intelectual das controvérsias teóricas
até a entrega final e o encontro com Deus aos 75 anos, em 28 de agosto de 430,
desejando o Reino que não tem fim. Santo Agostinho é, com Santo Tomás de Aquino
e Hans Urs von Balthasar, uma das grandes autoridades teológicas da história.
São gênios das palavras e mestres na oração. As palavras de Agostinho
estremecem nossa mente e nosso coração: “Me chamastes com uma voz tão forte que
rompestes a minha surdez! Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha
cegueira! Exalastes perfume: respirei-o suspirando por vós. Vós me tocastes e
ardi no desejo de vossa paz” (Agostinho, 2021, p. 267).
Robert Francis, o atual Leão XIV, começa os estudos pela
matemática, faz doutorado em Direito Canônico, em Roma, e entrega seu coração
aquecido ao amado povo peruano de Chiclayo, no Peru, aprendendo uma
espiritualidade encarnada como life-giving (entrega
vital). Prevost assume ser um bispo peregrino agostiniano da Igreja toda ela
peregrina (peregrinus episcopus in
ecclesia peregrina). O pequenino Bob se tornaria o universal Leo, com o coração
ardendo em chamas. Movido por esse amor ao Cristo uno, convida a todos para a
unidade plural na defesa da paz desarmada, seguindo a Igreja peregrina, animada
pela graça salvadora. Tal foco do ministério petrino atual foi, para Santo Agostinho,
uma questão capital no quinto século. Afirma Hans Küng, teólogo suíço:
Agostinho,
evidentemente, não é um historiador em sentido moderno, mas um teólogo que
interpreta a história e que não se interessa preferentemente pela evolução da
humanidade, mas pelo plano de Deus […]. Por isso é Agostinho quem criou no
cristianismo a primeira e monumental teologia da história […] – de que a
história é um movimento que Deus dirige de modo linear até um final: a Cidade
Eterna de Deus, o reino da paz, o Reino de Deus (Küng, 1995, p. 94).
Tal é a intuição similar do papa Leão XIV ao contemplar o
cenário internacional e a Terceira Guerra Mundial aos pedaços. Leão identifica
claramente que sua missão é pregar a Boa Notícia de Jesus, a tempo e
contratempo, sem medo, arrogância ou poder mundano. Ele compreende que fora do
amor não há salvação! Amor que emerge da aldeia de Nazaré ou caminha pela
província de Chiclayo. Que sofre em Beirute, no Líbano, e nas vidas ceifadas
das crianças palestinas em Gaza e na Cisjordânia invadidas. Em entrevista ao
jornal Corriere della Sera em
24 de abril de 2026, o pontífice americano relatou um episódio que o marcou
profundamente: “Trago comigo a foto de uma criança muçulmana que, durante minha
visita ao Líbano, me esperava com uma placa que dizia ‘Bem-vindo, papa’. Então,
na fase final da guerra, ela foi morta”.[1] A
compaixão do papa Prevost revela a “beleza tão antiga e nova, escondida no mais
íntimo de nossos corações”, que o alimenta e o move no ministério da unidade,
tornando-o interlocutor eloquente no cenário internacional. Leão XIV sabe, por
experiência e herança agostiniana, que religião é um assunto de coração.
Seu programa se concentra em viver a Doutrina Social da Igreja,
considerando os 135 anos de sua elaboração desde Leão XIII, em favor da
dignidade humana inalienável; defender a paz e caminhar ao lado dos pobres,
como consta no documento inicial de seu pontificado, Dilexi Te. Nessa
exortação apostólica, herança do papa argentino, Leão XIV fez questão de
incluir uma seção dedicada a Santo Agostinho. Lemos no número 47:
Numa Igreja que
reconhece nos pobres o rosto de Cristo e nos bens o instrumento da caridade, o
pensamento agostiniano permanece uma luz segura. Hoje, a fidelidade aos
ensinamentos de Agostinho exige não só o estudo de suas obras, mas a
predisposição para viver com radicalidade o seu apelo à conversão que inclui
necessariamente o serviço da caridade.
Tal reconhecimento pontifício da atualidade do pensamento e da
mística de Santo Agostinho também emergiu por ocasião do discurso aos membros
do corpo diplomático creditado junto à Santa Sé para as felicitações de
ano-novo, em 9 de janeiro de 2026. Leão XIV apresenta Santo Agostinho como
luminar em questões de diplomacia e relações internacionais, as quais, segundo
ele, “vivem um verdadeiro ‘curto-circuito’ dos direitos humanos.[2] Ao
citar a obra De
civitate Dei, e, é claro, reconhecendo os novos contextos
geopolíticos e culturais, passados quinze séculos, o papa agostiniano destaca
temas nevrálgicos da contemporaneidade: a fragilidade do multilateralismo no
plano internacional; a diplomacia da força; a guerra; a paz equivocadamente
procurada por meio das armas; o comprometimento do Estado de Direito; a
liberdade religiosa; a necessária qualificação da linguagem e da comunicação;
enfim, o orgulho dos grupos poderosos que pensam dominar o planeta pela força e
opressão. A lista imensa das sintonias e reverberações do pensamento
agostiniano serve de luz para a atual “mudança de época” e comprova a
importância de Santo Agostinho no pontificado de Leão XIV, como chave de
interpretação e força teológica viva.
2. Sete pontos de conexão entre Agostinho e Leão XIV
1) A relação entre fé e razão, com primazia daquele que crê para
entender (“credo ut intelligam”). Santo Agostinho sustenta que a fé precede a compreensão,
mas a razão é fundamental para explorar a fé. Ele utiliza a máxima: “Creio para
compreender”, a qual mostra a fé iluminando a razão na busca pela verdade.
Também diz a frase contundente: “Que tem você, que não tenha recebido?” (Küng,
1995, p. 85). Se o texto de São João Paulo II, Fides et Ratio, dizia que fé e razão eram como duas
asas a nos fazer voar, elevando a humanidade, o atual papa nos recorda que a fé
precisa se exprimir em novas categorias e idiomas na cultura pós-moderna para
ser compreendida e vivida como serviço apaixonado da Boa Notícia. Proclama
Leão:
Queridos irmãos e irmãs, a Igreja e o mundo não precisam de
pessoas que cumprem os seus deveres religiosos mostrando a sua fé como um
rótulo exterior; precisam, pelo contrário, de operários desejosos de trabalhar
no campo da missão, de discípulos apaixonados que testemunhem o Reino de Deus
onde quer que estejam.[3]
2) A
teoria da iluminação divina. Agostinho argumenta que o conhecimento
das verdades eternas e imutáveis só é possível por meio de uma “iluminação”
direta de Deus sobre a mente humana, como um presente gratuito do Pai, que nos
ama. A verdade absoluta não é construída por homens e mulheres, mas recebida de
Deus com profunda gratidão. Trata-se de graça gratuita, sempre acolhida como
filhos e filhas, e não como inteligências artificiais ou robôs humanoides.
Afirma Leão, em sua mensagem aos participantes da 2ª Conferência Anual de Roma
sobre Inteligência Artificial, Ética e Governança Corporativa, em 17 de junho
de 2025:
Nenhuma geração jamais teve acesso tão rápido à quantidade de
informações atualmente disponível, graças à inteligência artificial. Porém,
mais uma vez, o acesso aos dados – por mais vastos que sejam – não deve ser
confundido com a inteligência que, necessariamente, “implica a abertura da
pessoa às interrogações últimas da vida e reflete uma orientação para a Verdade
e o Bem” (Antiqua et Nova, n.
29). Afinal, a verdadeira sabedoria tem mais a ver com o reconhecimento do
sentido autêntico da vida do que com a disponibilidade de dados.[4]
3) O problema do mal e o livre-arbítrio. Agostinho enfrenta
o paradoxo do mal (um Deus bom criando um mundo marcado pelo mal e pelo
maligno) ao defini-lo não como um ser, mas como a ausência ou privação do bem (privatio boni). Ele
atribui o mal moral ao mau uso do livre-arbítrio pelo ser humano. Na conjuntura
eclesial de Agostinho e também em nosso século XXI, uma das formas de crise
“diabólica” são as divisões e as bolhas ideológicas dentro das Igrejas cristãs.
Agostinho e Leão XIV assumem decididamente posição em favor da unidade da
Igreja. Para os dois bispos, uma Igreja particular não pode se isolar, mas deve
manter comunhão com Jerusalém, Roma e as grandes comunidades orientais, ou
seja, com a Igreja universal, que Agostinho chama de mãe de todos os fiéis.
4) A doutrina do pecado original, uma chave agostiniana complexa. Após a queda de
Adão, a natureza humana ficou corrompida pelo pecado original, o que tornou o
ser humano incapaz de alcançar a salvação por seus próprios esforços (como
defendia Pelágio). A salvação é, sobretudo, um dom gratuito de Deus, a graça
divina que capacita o ser humano para fazer o bem. De forma atualizada, assim
diz o teólogo espanhol Faus: “O pecado é o ataque ao projeto criador de Deus,
que acontece ou porque o homem rejeita sua imagem divina, agarrando-se a essa
identidade fechada de sua criaturalidade, ou porque o homem falsifica sua
imagem divina, tomando-a como desculpa para sua autodivinização” (Faus, 2025,
p. 172). Proclama Leão, conforme seu discurso aos fiéis na basílica de São
Pedro quando da sua eleição, em 8 de maio de 2025: “Deus ama a todos nós e o
mal não prevalecerá. Estamos todos nas mãos de Deus; portanto, sem medo, todos
unidos à mão de Deus e uns aos outros, vamos em frente”.[5]
5) A cidade de Deus e a história. Na obra A cidade de Deus,
Agostinho pensa em duas cidades, a “Cidade Terrena” (baseada no amor-próprio) e
a “Cidade de Deus” (baseada no amor a Deus). A história é o desenrolar desse
conflito, que culmina na vitória final da Cidade de Deus. Assume Leão: “Deus me
confiou este tesouro para que, com sua ajuda, eu possa ser seu administrador
fiel em benefício de todo o corpo místico da Igreja. Ele o fez para que ela
seja cada vez mais plenamente uma cidade sobre o monte, uma arca de salvação
navegando pelas águas da história e um farol que ilumina as noites deste
mundo”.[6]
6) Interioridade e busca incessante por Deus. Agostinho
acredita, por experiência, que Deus é encontrado no interior da alma humana:
“Não saias de ti mesmo, volta para dentro de ti; a verdade habita no homem
interior” (A verdadeira religião, 39,
72). A autoconsciência e o mergulho psicanalíticos são bons caminhos teológicos
para Deus. Grave problema eclesial e eclesiástico a evitar são as
personalidades narcísicas e manipuladoras de muitos líderes religiosos. Será
preciso distinguir entre busca interior libertadora e uso da religião para
domesticar e submeter pessoas. Prevenir personalidades narcísicas nas igrejas é
tarefa urgente, para evitar comunidades doentes, síndrome de burnout e o
abandono da fé, que atinge fiéis e clérigos. É preciso pôr em ação autêntica
pedagogia da estima de si e de entrega pessoal, como remédio eficaz contra os
narcisismos. “Se a personalidade manipuladora é doente – possivelmente culpada
– por nada ofertar, também nós, todos e todas, também o somos, por não doar o
suficiente” (Ide, 2016, p. 246).
7) A nova teologia da Trindade. Agostinho aprofundou a compreensão de
Deus como uno e trino, investigando a Santíssima Trindade não apenas na
Escritura sagrada, mas também traçando analogias na própria mente humana
(memória, entendimento e vontade) como reflexo da imagem e semelhança de Deus.
O bispo de Hipona supera Orígenes e os pensadores patrísticos do Oriente com
sua chave de leitura de base platônica e filosófica. Ele parte da natureza
divina em direção à unidade do Pai, do Filho e do Espírito. Assim falou o filho
de Agostinho, o papa Leão, na Mesquita de Argel:
Agradeço por esta
reflexão e por estas palavras, tão importantes nesta visita, proferidas num
local que representa o espaço que pertence a Deus, um espaço divino e sagrado,
onde tantas pessoas vêm para rezar, para encontrar a presença do Altíssimo, de
Deus, nas suas vidas. Como o senhor sabe, venho com grande alegria à Argélia,
pois esta é também a terra do meu pai espiritual, Santo Agostinho, que desejou
ensinar tanto ao mundo, sobretudo através da busca da verdade, da busca de
Deus, reconhecendo a dignidade de cada ser humano e a importância de construir
a paz. Procurar Deus é também reconhecer a sua imagem em cada criatura, nos
seus filhos, em cada homem e mulher criados à imagem e semelhança de Deus. Para
nós, isto significa que é muito importante aprender a viver juntos, respeitando
a dignidade de cada pessoa humana.[7]
Referências bibliográficas
AGOSTINHO, Santo. Confissões.
6. ed. Petrópolis: Vozes, 2021.
FAUS, J. I. G. Desumanidade:
reflexões sobre o mal moral. São Paulo: Paulus, 2025.
IDE, P. Manipulateurs:
les personnalités narcissiques. Détecter, comprendre, agir. Paris: Emmanuel,
2016.
KÜNG, H. Grandes
pensadores cristianos: uña pequeña introducción a la teología.
Madrid: Trotta, 1995.
Prof. Dr. Fernando Altemeyer
Junior*
*Fernando Altemeyer
Junior é professor assistente doutor da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP). Graduado em Filosofia e em Teologia pela Faculdade Nossa
Senhora da Assunção, mestre em Teologia e Ciências da Religião pela
Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) e doutor em Ciências Sociais pela
PUC-SP. Foi assessor de comunicação da arquidiocese de São Paulo e porta-voz
dos cardeais Arns e Hummes (1994-2000). Escreve para revistas confessionais e
acadêmicas sobre comunicação, religião, teologia, ética e bioética.
E-mail: fajr@pucsp.br.
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