sexta-feira, 29 de maio de 2026

7- SOBRE A TRINDADE, DE SANTO AGOSTINHO

 

7-   SOBRE A TRINDADE, DE SANTO AGOSTINHO

A obra Sobre a Trindade (de Trinitate) foi escrita por Santo Agostinho entre os anos 399 e 420. Diz uma lenda bem conhecida que um anjo, na forma de um menino, apareceu a Santo Agostinho nesse período quando ele andava a passear pela praia de Hipona na África (sua terra natal) e, absorto em seus pensamentos, meditava a excelsa Trindade que é Deus. A criança havia cavado um buraco na areia e, com uma conchinha na mão, pretendia despejar dentro dele toda a água do mar. Com espanto, o Bispo de Hipona disse ao menino que aquilo era impossível, pois o buraco era pequenino, ao passo que as águas do mar se estendiam por uma vastidão imensurável. O menino revelou então ser um anjo de Deus, e respondeu:

Seria mais fácil para mim derramar com esta conchinha toda a água do oceano neste buraco, do que para ti decifrares, só com os recursos da tua razão, o augusto mistério da Trindade.

E, dizendo isto, desapareceu.

Apesar da bela expressão poética, essa história não é inteiramente exata, pois atribui ao Santo Filósofo uma intenção que jamais passou pela sua cabeça: a pretensão racionalista de compreender os mistérios da Trindade apenas com os instrumentos da razão natural. Santo Agostinho está ciente dos limites da filosofia, ele sabe que sua inteligência não é capaz de sondar em inteira profundidade o mistério trinitário, pois o buraco que nela existe não comporta as águas impenetráveis da fé. Para isso, a inteligência deve contar com o auxílio da razão sobrenatural.

A fórmula do método de Santo Agostinho é bem conhecida: “crê para entenderes, entende para creres” (crede ut intelligas, intellige ut credas), que pressupõe que razão e fé são complementares. A fé alimenta o entendimento na sua procura, e o entendimento dissipa as obscuridades da crença. Embora a cavidade na areia seja pequena, é possível nela derramar, pela fé, algumas gotas do oceano divino. A alma humana é intelectiva justamente para buscar a Deus. A alma sabe, conforme sua essência, que “desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras” (Rm. 1,20). Para o Santo Bispo, a fé busca, mas é o entendimento que encontra; conforme diz o profeta: “Se não crerdes, não subsistireis” (Is. 7,9).

No tratado, composto de quinze livros, busca-se conhecer a Trindade por três vias diferentes: (I) a partir das Sagradas Escrituras; (II) pela razão filosófica; por último (III) pelo amor (caritas), que supera as outras vias, porque constitui o eco da vida divina: “se vês o amor, vês a Trindade” (uides trinitatem si caritatem uides, De Trin., VIII, 8, 12).

Os primeiros quatro livros são de exegese bíblica. Santo Agostinho compila os textos das Escrituras que atestam a unidade de essência entre o Pai e o Filho, investigando as aparições a Adão, Abraão, Lot, Moisés e Daniel. Para o Bispo de Hipona, o plural majestático de Gn. 1,26 “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” pode ser interpretado como uma referência à Trindade. Semelhantemente, a aparição de Deus a Abraão junto ao carvalho de Mambré em Gn. 18,1-5 (onde se lê que Abraão “levantou os olhos e viu três homens de pé diante dele”) leva a refletir sobre o significado das epifanias trinitárias, na medida em que elas refletem a unidade da Trindade, assim como a trindade da Unidade.

No Livro I, apoiado na autoridade das Sagradas Escrituras, Santo Agostinho demonstra a igualdade suprema da Trindade. Nos Livros II, III e IV, por sua vez, ele disserta com diligência sobre a missão do Filho e do Espírito Santo, baseado em leitura de Jo 14,28 (“o Pai é maior do que eu” – por causa de sua submissão à Vontade do Pai na Encarnação) e Jo 10,30 (“Eu e o Pai somos um”). Ele demonstra que Deus, Aquele que enviou, não é maior do que o Filho e o Espírito Santo, que foram enviados, pois a Trindade é essencialmente igual sob todos os aspectos, imutável, invisível, e opera de modo inseparável, estando onipresente.

A interpretação filosófica predomina nos próximos três livros. Santo Agostinho combate a doutrina modalista e a doutrina ariana, ambas heréticas. Sabélio preconiza que Deus-Pai é uma Unidade Absoluta, e que o Filho e o Espírito Santo são apenas modos dessa unidade. Ário, por sua vez, prega que há uma diferença radical entre as Três Pessoas. Na heresia modalista, a Unidade absorve e suprime a Trindade; enquanto que, na heresia ariana, a diferença entre as três pessoas é tão intensa que ela fratura a unidade real das Três Pessoas.

Agostinho entende que é preciso conciliar as duas posições para alcançar a verdade. Contra Sabélio, seria preciso defender a diferença real do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sem fragmentar Deus e assim esvaziar sua Unidade. E, ao mesmo tempo, contra Ário, seria preciso defender a unidade da substância de Deus, sem compactá-lo e, destarte, expulsar a Alteridade.

Para Santo Agostinho, na expressão de Jo 10,30 “Eu e o Pai somos um”, o “um” refuta a heresia ariana, e o “somos” refuta a heresia modalista. Porém, como compreender filosoficamente essa expressão? Na tentativa de encontrar a linguagem mais apropriada para exprimir o excelso mistério, Santo Agostinho vai na linha dos Padres Capadócios que tinham se orientado pela categoria da relação de Aristóteles. Na filosofia aristotélica, tudo aquilo que existe na realidade existe justamente como substância, como indivíduo, ou então existe como um acidente contido na substância. Mas seria preciso modificar essa filosofia internamente para torná-la capaz de exprimir a essência da Trindade.

Santo Agostinho promove essa modificação mediante o conceito de relação. Ele introduz uma mudança nuclear, em que há identidade substancial nas Três Pessoas, que implica essencial igualdade, mas sem haver qualquer distinção hierárquica entre elas. Deus em sentido absoluto é tanto Pai, como Filho e Espírito Santo, e Eles são inseparáveis tanto no Ser quanto na operação. As três Pessoas são distintas, mas não são diversas em se tratando de seu Ser. Daí, pode-se dizer que o Pai tem o filho, mas não é o Filho, e o Filho tem o Pai, mas não é o Pai, o Filho é consubstancial ao Pai, e o mesmo acontece com o Espírito Santo. Os atributos pertencem à relação, sem ser acidentais, porque são imutáveis e se colocam na dimensão da eternidade.

O cardeal Ratzinger (1970, pp. 82-83) diz a respeito: “Está latente aí uma revolução da imagem do mundo: está quebrada a soberania única do conceito de substância, descoberta a relação como modalidade original, equivalente da realidade”. Santo Agostinho, com efeito, abre caminho para uma verdadeira transformação na ontologia: uma vez que nada se predica de Deus segundo o acidente, Ele é totalmente absoluto, mas, simultaneamente, nem tudo se predica de Deus segundo a substância. O que não é dito nem segundo o acidente nem segundo a substância é dito conforme a relação, que é reinterpretada segundo a concepção de consubstancialidade, e modifica radicalmente o esquema aristotélico substância e acidentes. “Resta, portanto, que o Filho é dito essência relativamente ao Pai. Com isso produz-se um sentido completamente inesperado (...) a correlação” (De Trin.,VII, 1, 2). A ontologia das relações trinitárias absolutas afirma no mesmo movimento a unidade e a diferença em Deus.

Mas essas duas vias, das Escrituras e da Razão Filosófica, são superadas pela via do Amor, que o Santo Bispo busca aprofundar na sequência, do livro VIII até o XIV. Só a caritas em sua plenitude é dotada do poder de desvelar a Trindade e iluminá-la para o entendimento. A vida trinitária exprime-se como uma comunhão de amor entre as três pessoas divinas. Esta comunhão inefável é o próprio Deus. E ele convoca São João para corroborar a validade desse dogma: “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 Jo 4,8). O amor possui uma estrutura radicalmente trinitária naquele que ama, no amado e no amor que liga os dois: “(...) quando se chegou ao amor que é dito Deus na Sagrada Escritura, brilhou um pouco [para nós] uma trindade, isto é, aquele que ama, aquilo que é amado e o amor” (De Trin., XV, 6, 10). Aí então o espírito se volta para si mesmo e procura encontrar em si próprio uma imagem da Trindade, já que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Para Agostinho, encontram-se afinidades em nós que refletem analogicamente a Trindade, como num espelho. É assim que a tríade amor, amante e amado dá lugar à tríade da mente, do conhecimento de si e do amor que os unifica. E em seguida a tríade da memória, da inteligência e da vontade.

A questão do Cogito no Capítulo 10 do tratado sobre a Trindade (analogia do existir, do viver e o entender e antecipação do cogito cartesiano)

A partir da frase “A alma sabe com certeza que existe, vive e entende”, Santo Agostinho trata da natureza racional da alma humana, considerando que a capacidade de saber ou conhecer constitui o seu traço distintivo.

Para Santo Agostinho, a alma intui imediatamente a si quando responde à ordem que lhe é dirigida de “conhecer-se a si mesma”. Isso porque ela está imediatamente presente a si mesma. No entanto, a alma não acrescenta nada ao conhecimento que tem de si através desse ato. Por exemplo, quando ela julga ser ar ou fogo ou cérebro, tende a pensar que o ar, o fogo ou o cérebro entendem, mas, na verdade, ela sabe que é ela própria quem entende.

Desse modo, a alma sabe que existe, que vive e entende. Diz Santo Agostinho que o cadáver, decerto, também existe e o animal, com certeza, também vive. No entanto, nenhum deles é capaz de entender. Pois, do fato de existir, como o cadáver, não se segue necessariamente a capacidade de entender, nem o fato de viver, como o animal, implica necessariamente o entendimento. Mas o ser que entende, como a alma, necessariamente também existe e vive. A alma, portanto, de modo nobre e peculiar, existe, vive e entende.

Santo Agostinho trata em seguida da faculdade da vontade. Ele salienta que toda alma humana, na medida em que quer, sabe que quer e que, para querer e saber que quer, é preciso existir e viver. Assim, a alma humana refere a sua vontade ao objeto que ela quer. O mesmo argumento se aplica à recordação: a alma, quando recorda, sabe que para recordar é preciso ser e viver. Assim, ela refere a sua memória ao objeto recordado.

Santo Agostinho observa que nas faculdades da memória e da inteligência está contido o conhecimento de muitas coisas. A faculdade da vontade, por sua vez, cumpre o papel de tornar possível à alma beneficiar-se do uso e deleite das coisas que são por ela conhecidas.

Santo Agostinho deixa de lado em sua consideração o saber das coisas exteriores, obtido pelos sentidos do corpo, e chama maior atenção para a certeza absoluta que a alma possui de si mesma ao exercer as suas faculdades de viver, recordar, entender, querer, pensar, saber e julgar. Diz o filósofo que a alma não pode duvidar da existência dessas faculdades, porque, se ela duvidar, mesmo assim ela sabe que precisa viver para duvidar. O mesmo acontece com a recordação e demais faculdades: se ela duvida, lembra-se de que há um motivo para sua dúvida; de que duvidar pressupõe o querer estar certo; pressupõe o pensar, o julgar, etc. Além disso, não é possível que ela duvide de sua dúvida, visto que, para duvidar, é preciso antes existir, sendo impossível que algo inexistente duvide.

Santo Agostinho, por conseguinte, se posiciona contra os que acreditam que a alma é um corpo, tendo ela a natureza do ar ou do fogo. Nessa concepção, a alma seria o sujeito, a substância primeira, e a inteligência seria apenas uma qualidade ou acidente contido nessa substância. O filósofo também se posiciona contra os que acreditam que a alma é a constituição interna ou estrutura do corpo, estando presente neste como uma qualidade ou acidente.

Para Santo Agostinho, as duas crenças acima são impugnadas pelo fato de que a alma tem um conhecimento evidente de si mesma, e que esse conhecimento é encontrado imediatamente toda vez que ela se procura. Segue-se com necessidade disso que a alma conhece a sua substância, e conhece com plena certeza. Ora, ela não pode saber com certeza ser constituída de ar, fogo ou algo corporal, pois tudo isso é vago e incerto. O conhecimento só pode ser dito certo e evidente quando nada há nele que seja incerto. Assim, a existência e a vida da alma consistem em entender que ela existe e vive, e disso ela está absolutamente certa.

A alma é capaz de representar para si, na imaginação, o ar, o fogo e o corpo, mas não pode dizer que ela própria é constituída desses elementos, pois estes não estão presentes a ela de maneira evidente e imediata. Se a substância da alma fosse ar, fogo ou corpo, estes elementos compareceriam diante dela como uma presença interior, real e não imaginária. A presença da alma a si mesma é a única que é absolutamente certa e evidente.

Santo Agostinho, portanto, conclui que a alma só pode ser definida por essa presença, estando excluído que ela seja alguns daqueles elementos que ela, às vezes, imagina ser.

No Livro XV, de conclusão, Agostinho tenta enfim passar da imagem trinitária em nós para a Trindade Divina em si mesma, investigando as “realidades eternas, incorpóreas e imutáveis, cuja perfeita contemplação será a vida bem-aventurada que não pode ser senão eterna, e que nos é prometida” (De Trin., XV, 4, 6).

Edição Resenhada:

SANTO AGOSTINHO, De Trinitate / Trindade, Paulinas Editora, Prior Velho, 2007.

Referências:

RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. Preleções sobre o Símbolo Apostólico. São Paulo: Editora Herder, 1970.

 

https://philosophiamarcelovieira.blogspot.com/2021/04/resumo-do-tratado-sobre-trindade-de.html

8-O BRASIL NAS COPAS DO MUNDO

 

 

8-O BRASIL NAS COPAS DO MUNDO

A Seleção Brasileira de Futebol, um símbolo de paixão e excelência no esporte, possui uma história rica e vitoriosa em Copas do Mundo. Com cinco títulos, a “Canarinho” é a maior campeã do torneio, marcando sua trajetória com momentos de brilho e jogadores que se tornaram lendas do futebol mundial.

Década de 1930: Os primeiros passos

  • A seleção brasileira participou da primeira Copa do Mundo em 1930, no Uruguai, mas foi eliminada na fase de grupos. Em 1938, na França, o Brasil alcançou o terceiro lugar, demonstrando seu potencial.

Década de 1950: O trauma do “Maracanazo” e o início da era de ouro

  • A Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil, foi marcada pelo traumático “Maracanazo”, quando o Uruguai venceu a final. No entanto, a década de 1950 também marcou o início da era de ouro do futebol brasileiro, com o surgimento de Pelé.
  • Em 1958, na Suécia, o Brasil conquistou seu primeiro título mundial, com Pelé e Garrincha brilhando em campo.

Década de 1960 e 1970: O bicampeonato e o tricampeonato

  • Em 1962, no Chile, o Brasil conquistou o bicampeonato, mesmo com a ausência de Pelé por lesão. Garrincha assumiu o protagonismo e conduziu a seleção ao título.
  • Em 1970, no México, o Brasil conquistou o tricampeonato, com um time considerado um dos melhores da história, liderado por Pelé, Gérson, Jairzinho, Rivelino e Tostão.

Década de 1990 e 2000: O tetracampeonato e o pentacampeonato

  • Após um longo jejum, o Brasil voltou a conquistar a Copa do Mundo em 1994, nos Estados Unidos, com Romário e Bebeto em grande fase.
  • Em 2002, na Coreia do Sul e no Japão, o Brasil conquistou o pentacampeonato, com Ronaldo Fenômeno sendo o artilheiro do torneio.

Década de 2010 e 2020: A busca pelo hexacampeonato

  • Apesar de campanhas com boas expectativas, a seleção brasileira não conseguiu adicionar mais títulos à sua história. A copa de 2014, sediada no Brasil, foi marcada pela derrota para a Alemanha por 7×1, um dos maiores vexames da seleção.
  • A seleção brasileira continua sendo uma das favoritas em todas as edições da Copa do Mundo, buscando o hexacampeonato e consolidando sua posição como uma das maiores potências do futebol mundial.

A Seleção Brasileira, com sua história rica em títulos e jogadores lendários, é um símbolo do futebol mundial, inspirando paixão e admiração em todo o planeta.

https://enciclopediadascopas.com.br/2023/04/20/a-historia-da-selecao-brasileira-na-copa-do-mundo/

9-SANTO AGOSTINHO E A SANTÍSSIMA TRINDADE

 

9-SANTO AGOSTINHO E A SANTÍSSIMA TRINDADE

1.

Introdução.

Foi Santo Agostinho quem deu à tradição ocidental a sua expressão madura e final acerca da Trindade. Durante toda a sua vida como cristão meditou sobre a Santíssima Trindade, explicando a doutrina da Igreja aos interessados e defendendo-a contra os ataques dos opositores. Não obstante ser Santo Agostinho mais conhecido através de obras como "As Confissões" ou "A Cidade de Deus", provavelmente sua obra prima é o tratado conhecido por "De Trinitate", que ele demorou dezesseis anos para redigir. Conforme suas palavras:

"Sobre a Trindade,
que é o Deus Sumo e Verdadeiro,
principiei alguns livros quando jovem,
editei-os quando velho".

Santo Agostinho aceita sem discussão a verdade que existe um só Deus que é Trindade, e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são simultaneamente distintos e co-essenciais, numericamente um quanto à substância; e seus escritos estão repletos de declarações detalhadas quanto a isto.

Caracteristicamente, em nenhum lugar Agostinho tenta demonstrar estas afirmações. Trata-se de um dado da Revelação que, segundo ele, a Escritura proclama em quase toda a página e que a "fé católica" transmite aos que crêem. Seu imenso esforço teológico é uma tentativa de compreensão, o exemplo supremo de seu princípio de que a fé deve preceder o entendimento.

Referências:

Santo Agostinho :Epistola 174; 120,17;
Idem : De Fide et Symb. 16;
Idem : De Doctrina Christ. 1,5;
Idem : De Trinitate 1,7; 15,2;
Idem : Sermo 7,4; 118,1;
Idem : Iohan. Tract. 74,1.

2.

A Santíssima Trindade segundo Santo Agostinho.

A exposição da doutrina trinitária em Santo Agostinho é inteiramente baseada nas Sagradas Escrituras.

Porém, em contraste com a tradição que fêz da Pessoa do Pai o seu ponto de partida, Santo Agostinho principia com a natureza divina em si mesmo. É esta simples e imutável natureza ou essência que é Trindade. A unidade da Trindade é assim colocada em primeiro plano, excluindo-se rigorosamente todo tipo de subordinacionismo. Tudo o que é afirmado de Deus é afirmado igualmente de cada uma das três Pessoas.

Diversas conseqüências se seguem desta ênfase na unidade da natureza divina.

Primeiro, tudo o que pertence à natureza divina como tal deve, numa linguagem exata, ser expresso no singular, já que esta natureza é única. Conforme mais tarde o Credo que já foi atribuído a Santo Atanásio dirá, Credo este que é totalmente agostiniano, embora cada uma das três Pessoas seja incriada, infinita, onipotente, eterna, etc., não há três incriados, infinitos, onipotentes e eternos, mas apenas um.

Segundo, a Trindade possui uma única e indivisível ação e uma única vontade. Sua operação é "inseparável". Em relação à ordem contingente as três Pessoas atuam como "um único princípio" e, como as Pessoas são inseparáveis,

"assim também
operam inseparavelmente".

Como exemplo disto, Agostinho argumenta que as teofanias, manifestações de Deus registradas no Velho Testamento, não devem ser consideradas, como a tradição patrística primitiva tendia a considerar, como manifestações exclusivamente do Verbo. Algumas vezes as teofanias podem ser atribuídas ao Verbo, ou ao Espírito Santo, algumas vezes ao Pai, outras vezes a todos os Três; outras vezes ainda é impossível decidir a qual das três Pessoas atribuí-las.

A dificuldade óbvia que esta teoria sugere é que ela parece ignorar os diversos papéis das três Pessoas. A isto Agostinho responde que, embora seja verdade que o Filho, embora distinto do Pai, nasceu, sofreu e ressuscitou, é igualmente verdade que o Pai cooperou com o Filho na realização da Encarnação, paixão e ressurreição. Era conveniente para o Filho, entretanto, em virtude de sua relação com o Pai, manifestar-se e fazer-se visível.

Em outras palavras, já que cada uma das Pessoas possui a natureza divina de uma maneira particular, é apropriado atribuir a cada uma dElas, na operação externa da Divindade, o papel que Lhe é apropriado em virtude de Sua origem.

Referências:

Santo Agostinho : De Civitate Dei 11,10;
Idem :Epistola 120,17; 11,2-4;
Idem : De Trinitate 5,9; 5,10; 8,1; 2,9; 5, 15; 1,7; 2,3; 2,12-34; 3,4-27; 2,9; 2,18;
Idem : C. Ser. Ar. 4;
Idem : Enchirid. 38;
Idem : Sermo 52.

3.

A distinção das Pessoas.

Segundo Agostinho, a distinção das Pessoas se fundamenta nas suas relações mútuas com a Divindade.

Embora consideradas enquanto substância divina, as Pessoas sejam idênticas, o Pai se distingue enquanto Pai por gerar o Filho, e o Filho se distingue enquanto Filho por ser gerado. O Espírito Santo, semelhantemente, distingue-se do Pai e do Filho enquanto "dom comum" de ambos.

Surge então a questão de o que são os Três.

Agostinho reconhece que tradicionalmente eles são designados como Pessoas, mas ele fica descontente com o termo. Provavelmente a expressão lhe trazia a conotação de indivíduos separados. No fim, ele consente em usar a expressão, mas por causa da necessidade de afirmar a distinção dos Três contra o Monarquianismo, e com um profundo sentido da inadequação da linguagem humana.

Sua teoria positiva, original e muito importante para a história subseqüente da doutrina da Trindade no Ocidente, foi a de que os Três são relações reais ou subsistentes.

O motivo que levou Santo Agostinho a esta colocação foi o dilema colocado pelos arianos. Estes, baseando-se no esquema aristotélico das categorias, afirmaram que as distinções na Divindade, se elas existissem, teriam que ser classificadas ou na categoria de substância ou na de acidente. Na categoria dos acidentes não poderia sê-lo, porque em Deus não há acidentes; se o fossem, porém, na categoria da substância, então a conclusão seria que existem três deuses.

Agostinho nega ambas as alternativas, explicando que a categoria da relação é uma alternativa possível. Os Três, prossegue ele, são relações, tão reais e eternas como o gerar, o ser gerado e o proceder, que fundamentam as relações, são reais dentro da Divindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são assim relações, no sentido de que o que quer que cada um dEles seja, o é em relação a um ou a ambos dos demais.

Referências:

Santo Agostinho : Epistola 170,7; 170; 238; 239; 240; 241;
Idem : De Trinitate 5,6; 5,8; 5,15; 5,12; 5,15-17; 8,1; 5,10; 7,7-9; 5,4; Livros 5-7.
Idem : Iohan. Tract. 74,1-4; 39;
Idem : De Civitate Dei 11,10;
Idem : C. Serm. Ar. 32; 118,1;
Idem : Enarrat. in Psalm. 68, 1, 5.

4.

A processão do Espírito Santo.

Santo Agostinho também procurou explicar o que é a processão do Espírito Santo, ou em que ela difere da geração do Filho.

Ele considerou como certo que o Espírito Santo é o amor mútuo do Pai e do Filho:

"A caridade comum pela qual
o Pai e o Filho se amam mutuamente".

Assim, Agostinho coloca que

"O Espírito Santo não é
Espírito de um dEles,
mas de ambos".

Desta maneira, em relação ao Espírito Santo o Pai e o Filho formam um único princípio, o que é inevitável, pois a relação de ambos para com o Espírito Santo é idêntica e onde não há diferença de relação sua operação é inseparável. Santo Agostinho, pois, mais inequivocamente do que qualquer dos Padres Ocidentais antes dele, ensinou a doutrina da dupla processão do Espírito Santo do Pai e do Filho, doutrina que, alguns séculos mais tarde, por questões circunstanciais, passaria a ser conhecida como o "Filioque", palavra latina que significa `e do Filho'. Segundo Agostinho,

"O Pai é autor da processão do Espírito Santo
porque Ele gerou um tal Filho,
e ao gerá-lo tornou-o também
fonte a partir do qual o Espírito procede".

 

"Já que tudo o que o Filho tem,
o tem do Pai,
do Pai tem também
que dEle proceda o Espírito Santo".

Daqui porém não se deve conclui, ele nos adverte, que o Espírito Santo tenha duas fontes ou princípios. Ao contrário, a ação do Pai e do Filho na processão do Espírito é comum, assim como é a ação de todas as três Pessoas na Criação.

Além disso, não obstante a dupla processão, o Pai permanece a fonte primordial, na medida em que é dEle que deriva a capacidade do Espírito Santo de proceder do Filho. Ainda segundo Agostinho,

"Do Pai de modo principal, ... ,
o Espírito Santo procede
de ambos em comum".

Referências:

Santo Agostinho : De Trinitate 9,17; 15,45; 15,27; 5,12; 1,7; 5,15; 15,29; 15,45; 15,47;
Idem : Iohan. Tract. 99,6; 99,9;
Idem : Epistola 170,4;
Idem : Contra Maxim. 2,14,1; 2,14,7-9.

5.

A contribuição mais própria de Agostinho à Teologia Trinitária.

Chegamos àquela que é provavelmente a contribuição mais original de Santo Agostinho à teologia trinitária, o uso de analogias tiradas da estrutura da alma humana. A função destas analogias, deve-se notar, não é demonstrar que Deus é Trindade, mas aprofundar nosso entendimento do mistério da absoluta unidade e também da distinção real dos Três.

No sentido estrito, de acordo com Santo Agostinho, há vestígios da Trindade em todo o lugar, porque as criaturas, na medida em que existem, existem por participação nas idéias de Deus; portanto, tudo deve refletir, embora timidamente, a Trindade que as criou. Para buscar a Sua verdadeira imagem, entretanto, o homem deve olhar primeiramente dentro de si,porque a Escritura representa Deus dizendo "Façamos", - isto é, os Três -,

"o homem à Nossa imagem
e à Nossa semelhança".

Mesmo o homem exterior, isto é, o homem considerado em sua natureza sensível, fornece

"uma certa figura da Trindade".

O processo de percepção, por exemplo, fornece três elementos distintos que são ao mesmo tempo intimamente unidos, do qual o primeiro, em um certo sentido, gera o segundo, enquanto que o terceiro une aos outros dois. Por exemplo, o objeto externo (a coisa que vemos), a representação sensível da mente (a visão), e a intenção ou ato de focalizar a mente (a intenção da vontade).

Quando o objeto externo é removido, temos uma segunda trindade, que lhe é superior, pois é localizada inteiramente dentro da mente. Neste sentido, Agostinho fala da impressão da memória (a memória), a imagem interna da memória (visão interna), e a intenção da vontade.

Para a imagem real, entretanto, da Divindade Triuna, devemos olhar no homem interior, ou alma. Freqüentemente tem sido dito que a principal analogia trinitária do De Trinitate é a do amante, do objeto amado e do amor que os une. Porém a discussão de Santo Agostinho desta trindade é bastante curta, e é apenas uma transição para aquela que ele considera sua verdadeiramente importante analogia, a da atividade da mente enquanto dirigida para si mesma ou, melhor ainda, para Deus.

Esta última analogia fascinou Santo Agostinho por toda a sua vida, as trindades resultantes sendo:

A mente, seu conhecimento de si mesma e seu amor de si mesma;

A memória, ou, mais propriamente, o conhecimento latente da mente de si mesma; o entendimento, isto é, sua apreensão de si mesma à luz das razões eternas; e a vontade, ou amor de si mesma, pela qual este processo do ato de conhecimento é posto em movimento;

A mente, enquanto lembrando, conhecendo e amando ao próprio Deus.

Santo Agostinho considera que somente quando a mente focalizou a si mesma com todas as suas potências de lembrança, entendimento e amor em seu Criador é que a imagem de Deus que ela traz em si, corrompida como está pelo pecado, pode ser plenamente restaurada.

Embora demorando-se nestas analogias, Santo Agostinho não tem ilusões quanto às suas imensas limitações. Em primeiro lugar, a imagem de Deus na mente humana é em qualquer caso uma imagem remota e imperfeita. Em segundo lugar, embora a natureza racional do homem exiba as trindades acima mencionadas, elas representam faculdades ou atributos que o ser humano possui, enquanto que a natureza divina é perfeitamente simples. Em terceiro lugar, a memória, entendimento e vontade operam no homem separadamente, enquanto que as três Pessoas divinas co- inerem mutuamente e Sua ação é perfeitamente una e indivisível. Finalmente, na Divindade os três membros da Trindade são Pessoas, mas o mesmo não ocorre na mente humana. Segundo as palavras do próprio Agostinho,

"A imagem da Trindade é uma pessoa,
mas a suprema Trindade é Ela própria três Pessoas:
o que é um paradoxo,
quando alguém reflete que,
não obstante isso,
os Três são mais inseparavelmente um
do que a trindade da mente".

Referências:

Santo Agostinho : De Vera Relig. 13;
Idem :Sermo 52, 17-19;
Idem : De Trinitate 11, 1; 11, 2-5; 11,6; 8,12 a 9,2; 15,5; 15,10; 13,11; 9,2-8; 10,17-19; 14,11 até o fim; 10,18; 9,17; 15,7 e ss.; 15,11-13; 15, 43;
Idem : Enarrat. In Psalm. 42, 6;
Idem : Sermo de Symb. 1, 2.


https://cristianismo.org.br/trindd22.htm

10-DICAS DE LEITURA

 

 

10-DICAS DE LEITURA

No decorrer da história do cristianismo, muitos foram os autores, teólogos e padres da Igreja que meditaram à luz das Sagradas Escrituras sobre a manifestação trinitária, entre eles estão Santo Agostinho, Santo Hilário, Novaciano, autores contemporâneos, entre outros. Para celebrar o encontro com Deus nessas três pessoas, que se relacionam na plenitude do amor e se revelam aos homens, a PAULUS selecionou algumas obras que dialogam sobre o tema.  Confira!

01- Iluminação trinitária em Santo Agostinho

O livro de Cristiane Ayoub é uma contribuição aos estudos agostinianos, porque retoma a teoria da iluminação a partir de um novo horizonte de trabalho. Com roupagem nova, o estudo toma como base as análises trinitárias de Agostinho, alçando voos nomeadamente no campo da moral e da ontologia agostinianas. Mediante uma reconstrução paciente do itinerário percorrido pela obra, a importância da matriz trinitária acentua-se em momentos distintos e bem delimitados, porque apoia-se num texto sólido, sem a tradicional restrição ao campo da teoria do conhecimento. A publicação é composta de cinco partes, conclusão, ampla bibliografia e apêndices que a complementam-na ainda mais.

 

02- Introdução à Trindade

 

Onde a Santíssima Trindade começou como doutrina? Por que essa doutrina se desenvolveu? Como os cristãos podem falar de Deus como três pessoas e, ao mesmo tempo, um só Deus? Introdução à examina como a doutrina da Trindade foi interpretada pelo cristianismo oriental, pelo cristianismo ocidental e pelos teólogos contemporâneos, entre os quais teólogas feministas e teólogos do processo. Construindo uma síntese de todas essas linhas, a autora faz um esforço de “reautenticar” a doutrina da Trindade. A corajosa fundamentação numa ampla diversidade de fontes tem o objetivo de estimular a reflexão do leitor para a recuperação e renovação desta doutrina cristã essencial. 

03- Patrística – A Trindade – Vol. 7

 

Na obra “Patrística – A Trindade – Vol. 7”, as teses apresentadas sobre o mistério da Santíssima Trindade foram assumidas por toda a Igreja do Ocidente e continuam a exercer forte influência pelos séculos afora. A obra nos introduz na vida íntima do Deus-Trino e na própria vida de nosso espírito. O desejo de Santo Agostinho é mostrar ser a vida divina particularmente semelhante à atividade íntima da alma que se pensa, se conhece e se ama. Ele almeja fazer a mente humana voltar ao Criador e levá-la a tomar consciência de sua dignidade de imagem de Deus. 

 

https://www.paulus.com.br/portal/dicas-de-leitura-solenidade-da-santissima-trindade/

sexta-feira, 22 de maio de 2026

BEM-VINDOS AO SB SABENDO BEM DE 24 DE MAIO DE 2026- SOLENIDADE DE PENTECOSTES




 A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. (I Coríntios 1, 18).

(ANO A-VERMELHO)- SOLENIDADE DE PENTECOSTES

Missa do dia

24 de maio de 2026

MÊS MARIANO

VEM ESPÍRITO SANTO, ILUMINAR A TUA IGREJA!


A NÓS DESCEI DIVINA LUZ

https://youtu.be/Uwno4ZNd6wQ?si=LzFGEyeNZCctP4JG

SENHOR, VEM DAR-NOS...

https://youtu.be/FeVWviUYv6Q?si=wEuhU9X0RRZM2IbY

EU NAVEGAREI

https://youtu.be/nSvxVCdj_gU?si=lYNq0yj-ZwAtp_Nj

SB SABENDO BEM DE 24 DE MAIO DE 2026 INFORMA.

Caro(a) Leitor(a) amigo(a):

O meu abraço fraterno e um Novo Pentecostes!

ACESSE SEMPRE O BLOG: sbsabendobem.blogspot.com e divulgue aos seus amigos, conhecidos e contatos nas redes sociais. Comente, faça sugestões. Agradeço. ESCREVA PARA sbsabendobem@gmail.com

 

SEJA BEM-VINDA! SEJA BEM-VINDO!

1-SEJAM BEM-VINDOS AO SB SABENDO BEM DO DOMINGO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES

 

 

1-SEJAM BEM-VINDOS AO SB SABENDO BEM DO DOMINGO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES

1.1-     Ambientação

- Preparar um painel com os nomes das Comunidades da paróquia e colocar em destaque à porta principal da igreja. Ambientação: um jovem com veste branca entra com o Círio até o meio do corredor da igreja. Em seguida, 07 crismandos (ou jovens) com 07 velas, com vestes vermelhas, entram de diferentes lugares da igreja e acendem suas velas e as colocam na menorá preparada junto ao ambão. Para concluir o gesto, o jovem que está com o círio coloca-o também junto ao ambão e diz: "Bendito sejais, Senhor nosso Deus, porque fizeste resplandecer no mundo a vossa luz. Bendito sejais Deus, que em vosso Filho Jesus Cristo, fez nascer para nós a sua Igreja". Se for à noite, apagam-se as lâmpadas da igreja. Durante o momento, canta-se: "Vem, Espírito Santo, vem, vem iluminar..." nº 838.

1.2-Bem-vindos Irmãs e Irmãos!

Irmãos e irmãs, hoje celebramos o dia em que o mistério pascal atingiu a sua plenitude no dom do Espírito derramado sobre a Igreja nascente. Nós, que vivemos nesta grande cidade marcada por tantas culturas, damos graças ao Pai porque o Espírito revelou a todos os povos o mistério outrora escondido e reuniu todas as raças na alegria da salvação. Que esse mesmo Espírito, agora derramado em nossos corações, nos fortaleça para testemunharmos a todos a vitória do Cristo sobre o mal.

(INTRODUÇÃO DO F OLHETO POVO DE DEUS EM SÃO PAULO).

 

Irmãos e irmãs, sejam todos bem-vindos! Hoje, nos reunimos como Igreja para celebrarmos a plenitude da Páscoa: o dom do Espírito Santo na Solenidade de Pentecostes.

Pentecostes é o dia em que o Espírito Santo foi derramado sobre os Apóstolos reunidos no Cenáculo, junto à Mãe do Senhor. O Espírito que guiou Jesus é dado a nós, para que nossa comunidade se torne manifestação de Deus, proclamando suas maravilhas. É o Espírito Santo que nos impulsiona para a missão, suscitando atitudes de unidade, misericórdia, bondade, justiça, paz, esperança e reconciliação.

- Irmãos e irmãs amados, bemvindos todos vocês que vieram participar deste encontro de fé e vida. Nesta Solenidade de Pentecostes concluímos o Tempo Pascal e fazemos memória do dia em que a comunidade é revestida pela força do Espírito Santo para ser testemunha do Senhor ressuscitado, que a envia a anunciar o Evangelho a todos os povos, línguas e nações. Jubilosos pela presença do Espírito Santo no meio de nós, saudemos a Trindade Santíssima. Em nome do Pai...