4- REFLEXÕES PARA O 19.º DOMINGO DO TEMPO COMUM- A
4.1- “CORAGEM! SOU EU. NÃO
TENHAIS MEDO!”
A
liturgia deste domingo, 19° do tempo comum, nos conduz a uma experiência
fundamental da fé: aprender a reconhecer Deus não no espetáculo, mas na
presença que sustenta. Na primeira leitura, o profeta Elias, cansado,
perseguido e com medo, sobe ao Horeb. Ali, Deus não se manifesta no vento
impetuoso, nem no terremoto, nem no fogo, mas numa brisa suave. Essa cena nos
ensina algo decisivo: Deus não se impõe, Ele se revela. Sua presença não é
invasiva; é fiel, discreta e constante. A fé madura nasce quando aprendemos a
escutar esse Deus que fala no silêncio. O Evangelho retoma essa mesma pedagogia
divina. Os discípulos estão no mar, símbolo bíblico do caos, da morte e das
forças que escapam ao controle humano. Jesus não está no barco. Ele está no
monte, em oração. Aqui já encontramos um dado profundamente teológico: a missão
de Jesus nasce da comunhão com o Pai. Antes de intervir, Ele reza; antes de
agir, Ele se abandona à vontade do Pai. Quando Jesus caminha sobre as águas, o
Evangelho não quer apenas nos mostrar um milagre, mas revelar quem é Jesus.
Somente Deus, no Antigo Testamento, domina o mar. Ao caminhar sobre as águas,
Jesus se manifesta como o Senhor da criação, aquele que vence o caos e conduz o
povo à vida. Por isso Ele diz: “Sou eu” — expressão que evoca o próprio nome de
Deus revelado a Moisés. Pedro representa a Igreja e cada um de nós. Ele deseja
ir ao encontro do Senhor, mas sua fé ainda é frágil. Enquanto fixa o olhar em
Cristo, caminha; quando se deixa dominar pelo medo, afunda. Isso revela uma verdade
espiritual profunda: a fé não elimina as dificuldades, mas nos dá um novo modo
de atravessá-las. Afundamos não porque as ondas existem, mas porque esquecemos
em quem confiamos. O grito de Pedro — “Senhor, salva-me!” — é uma verdadeira
oração de fé. E o gesto de Jesus, que estende a mão, revela o coração pastoral
de Deus: Ele não censura antes de salvar; salva para depois ensinar. A correção
vem, mas vem acompanhada da misericórdia. Quando Jesus entra no barco, o vento
cessa. A Igreja aprende, então, que não é a ausência de tempestades que define
a presença de Deus, mas a presença de Cristo no meio delas. Por isso, os
discípulos professam a fé: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus.” A
travessia se transforma em profissão de fé. Pastoralmente, este Evangelho nos
convida a educar a fé do povo para além de soluções imediatas. Não se trata de
prometer mares tranquilos, mas de anunciar um Senhor que caminha conosco, mesmo
quando a noite é longa e o vento é contrário. A comunidade cristã é chamada a
ser esse barco onde Cristo está presente e onde ninguém atravessa sozinho.
Peçamos hoje a graça de uma fé mais enraizada, capaz de escutar Deus no
silêncio, de confiar no meio da instabilidade e de reconhecer que, mesmo nas
tempestades, o Senhor continua vindo ao nosso encontro.
Dom Cícero Alves de
França Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a Região Belém
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