9- SANTO AGOSTINHO E A TEMPESTADE ACALMADA
Santo Agostinho, Sermão, 63, 1-3
«Subindo para uma barca,
seguiram-n’O os seus discípulos. E eis que se levantou no mar uma tempestade
tão grande que as ondas alagavam a barca; Ele, entretanto, dormia.
Aproximaram-se d’Ele os discípulos e acordaram-no dizendo: Senhor, salva-nos
que perecemos! Jesus, porém, disse-lhes: porque temeis, homens de pouca fé?
Então, levantando-Se, ordenou imperiosamente aos ventos e ao mar, e seguiu-se
uma grande bonança. Eles admiraram-se e disseram: Quem é Este a quem até os
ventos e o mar obedecem?»[1].
Vamos comentar, com a
ajuda de Deus, a leitura que hoje nos propõe o Santo Evangelho, não aconteça
que tenhais a fé adormecida nos vossos corações, no meio das tempestades e
ondas deste século.
Porventura Cristo não teve poder sobre a morte ou sobre o sono? Ou será que o
sono pôde dominar a vontade do Navegador Onipotente? Se assim pensais, sem
dúvida Cristo e a fé estão adormecidos no vosso coração. Mas se Cristo vela em
vós, também a vossa fé
está desperta. «Pela fé, Cristo habita nos vossos corações»[2], disse o Apóstolo.
QUE QUER DIZER QUE
CRISTO DORME? QUE TE ESQUECESTE D’ELE. DESPERTA CRISTO, TRÁ-LO À MEMÓRIA: QUE
CRISTO VELE EM TI.
O sono de Cristo é símbolo de um mistério. Os marinheiros são
aquelas almas que atravessam a vida e o tempo presos a um madeiro. A barca é
figura da Igreja. E certamente cada alma é templo de Deus, navega no seu
coração e não naufraga, se pensa retamente.
Injuriaram-te: é a tempestade; aborreceste-te: são as ondas.
Sopra o vento, levantam-se as ondas e a tua barca e o teu coração naufragam,
afundam-se. Injuriaram-te e desejas vingar-te; castigaste de um modo
intempestivo e afundaste-te. E porquê? Porque Cristo dorme no teu coração. Que
quer dizer que Cristo dorme? Que te esqueceste d’Ele. Desperta Cristo, trá-lo à
memória: que Cristo vele em ti. Pensa n’Ele!
Que querias? Vingar-te.
Não te recordas que quando O crucificavam disse: «Pai, perdoa-lhes, porque não
sabem o que fazem»[3]? Quem dormia no teu
coração não quis vingar-se. Desperta-O, contempla-O! A Sua memória são as suas
palavras; a sua memória é a sua Lei. E, se Cristo vela em ti, dirás: quem sou
eu, para querer castigar? Quem sou eu, para ameaçar alguém? Talvez morra antes
de me vingar. E se morro inflamado pela ira, com desejo e sede de vingança,
receber-me-á Aquele que não quis castigar, aquele que disse: «Dai, e
dar-se-vos-á; perdoai, e sereis perdoados?»[4]. Reprimirei, pois, a
minha ira e apaziguarei o meu coração. Mandou Cristo ao mar e seguiu-se uma
grande calmaria[5].
O que se disse acima
sobre a ira, aplicai-o a todo o tipo de tentações. És tentado e perturbas-te:
são o vento e as ondas que se levantam. Desperta Cristo e fala com Ele. «Quem é
Este, a quem até os ventos e o mar obedecem?»[6]. «Quem é este a quem as
águas escutam? Seu é o mar, e Ele o criou»[7].
«Tudo foi feito por Ele»[8]. Imita o mar e os
ventos, e obedece ao Criador. O mar atende o mandato de Cristo e tu estás
surdo? O vento amaina, e tu sopras? O que é que se passa? Eu digo, eu faço, eu
penso que... Tudo isto, o que é senão soprar e não querer amainar perante a voz
de Cristo? Que as ondas não vos arrastem perante as confusões do vosso coração.
De qualquer modo, ainda que sejamos homens, não desesperemos se o vento arrasta
os afetos da nossa alma. Despertemos Cristo: a nossa rota será tranquila e
arribaremos a bom porto.
* * *
Os Sermões de Santo
Agostinho estão divididos em quatro classes: De Scripturis (1-133), comentários
aos textos do Antigo e Novo Testamento lidos na Missa; De tempore (134-272),
glosas às diferentes solenidades do ano litúrgico; De Sanctis (273-340),
panegíricos dos mártires; e De diversis, sermões dogmáticos, morais ou de
circunstância.
[1] Mt
8, 23-27
[2] Ef
3, 17
[3] Lc
23, 34
[4] Lc
6, 36-38
[5] cf.
Mt 8, 27
[6] Mt
8, 27
[7] Sl
94, 5
[8] Jo
1, 3
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