08-Comentário Exegético – EVANGELHO
(Mt 5, 1-12)
(Lugar paralelo Lc 8, 20-23)
(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)
AS BEM-AVENTURANÇAS
INTRODUÇÃO: Dois evangelistas
narram o que se tem chamado as bem-aventuranças. Mateus como parte do sermão da
montanha, pois foi desta cátedra que Jesus falou (5,1) e Lucas que coloca o
pequeno discurso paralelo numa planície (6, 17). Isso indica que a
circunstância é redacional, independente das palavras e idéias a expressar.
Também há uma grande diferença entre as oito ou nove bem-aventuranças de Mateus
e as quatro de Lucas. Ambos, porém, usam a mesma palavra makarioi para designar
os contemplados como prediletos do reino. Que significado tinha nos lábios de
Jesus essa palavra e de que idéias hebraicas era tradução, de modo que os
ouvintes a pudessem entender ? O grego makários significa tanto ditoso ou feliz
como bendito do verbo makarizo que significa declarar afortunado. No
primeiro caso, indicaria uma situação determinista da vida mesma, sem ligação
com ulteriores fins ou propósitos. No segundo caso, a palavra tem um conteúdo
teológico de modo que implica uma providência divina que, pelo contraste com o
sentir comum dos dirigentes religiosos, apontava uma nova era completamente
revolucionária em perspectivas religiosas. Esse é nosso caso. No final do
capítulo IV, em que Jesus percorre a Galileia pregando nas sinagogas a metânoia
e a fé na Boa Nova. Agora, pela primeira vez, ele enfrenta as multidões. Não
são unicamente os judeus, mas também acodem os gentios de Transjordânia, dos
arredores de Tiro e de Sidônia, e da Idumeia (Mc 3, 8). Reunia-os especialmente
a fama de curandeiro de Jesus e escutavam sua voz como a de um homem enviado
por Deus. Na primeira parte do discurso, Jesus anuncia a esperança dos
desvalidos [pobres]: São as bem-aventuranças. Logo apresenta a metânoia,
conversão, com uma nova moral iniciada com a frase se vossa justiça não exceder
a dos escribas e fariseus (5, 20). Por isso retifica a mesma dizendo: ouvistes
que foi dito; eu, porém vos digo (5, 21). Logicamente era necessária uma
conversão ou metânoia para esta nova ética que Jesus apresenta. E são os
capítulos 5, 6 e 7 os que narram a chamada radicalidade cirstã. A fé racional
da crítica não pode substituir a fé razoável eclesiástica, como afirma o Papa
atual, pois seria a nossa razão o princípio de nossa vida religiosa e não a fé.
A fé racional seria o mesmo que acreditar na ciência, como afirma Bacon, e não
a fé transmitida pela boca dos apóstolos e profetas como fundamento da mesma
(Ef 2, 20). Hoje, em que damos máxima importância à crítica [científica]
devemos ler esta página das bem-aventuranças com a fé simples de quem ouve a
verdade da boca do Filho de Deus, com fé religiosa [razoável=acreditável pelo
testemunho; mas não racional=como imposta pela evidência crítica da razão].
O MONTE: Tendo, pois,
visto as multidões, subiu ao monte e tendo-se ele assentado, se aproximaram a
ele seus discípulos (1). Então, tendo aberto sua boca, os ensinava dizendo (2).
Videns autem turbas ascendit in montem et cum sedisset accesserunt ad eum
discipuli eius. Et aperiens os suum docebat eos dicens. Os comentaristas unem o
sermão da montanha com a entrega da Lei por Javé-Deus no monte Sinai no A T.
MONTE: Oros em grego, é usado por Mateus como um ambiente paralelo ao lugar em
que Moisés recebeu a lei no Sinai, sendo que o cumprimento do primeiro
mandamento receberia uma gratificação especial para os que fielmente o
guardavam (Ex 20, 6). Jesus também, do monte, ensina a nova lei a seus
discípulos. Porém, antes deve escolher o novo Israel, e daí as chamadas
bem-aventuranças. Os que por elas são alcançados serão o novo Israel e,
portanto, podem ser designados como verdadeiramente felizes. Jesus começa,
pois, por essa distinção em que derruba o velho conceito de etnia e
descendência como parte para formar a elite de Jahvé, e contrariamente, suscita
um novo modelo de povo de Deus, cuja base é precisamente o infortúnio material.
A eles Jesus abre um novo mundo de esperanças e felicidade. A lei, para os
judeus, não era unicamente o nomos [preceito], mas também abrangia declarações,
propostas e fatos de Deus em relação com seu povo escolhido. Neste sentido
total e amplo, Jesus determina primeiro o âmbito de seus verdadeiros
escolhidos. Logo propõe seus nomoi [preceitos], precedidos de uma retificação aperfeiçoada
da antiga lei: ouvistes que foi proclamado, eu, porém vos digo (Mt 5, 21). Como
mestre da nova Lei, Jesus adota uma postura frequente entre os rabinos ou
mestres em Israel. Ele fica sentado, tendo seus discípulos e ouvintes ao seu
redor, geralmente de pé, pendentes de suas palavras. Os rabinos explicavam a
lei segundo as tradições [ouvistes que foi dito], mas Jesus explica a nova Lei
como quem tem autoridade para propô-la e anunciá-la como novidade feliz a um
público geralmente esquecido e desprezado. Constituía a esperança messiânica,
já atuando como realidade nova e definitiva. Finalmente, uma palavra sobre o
monte: Realmente, segundo Lucas, Jesus subiu ao monte para orar durante a noite
(Lc 6, 12). Na manhã, escolheu seus doze discípulos e logo ao descer do monte,
se deteve num lugar plano onde a multidão o esperava para ser curada de suas
doenças. Lucas, pois, circunscreve as bem-aventuranças a uma planície,
embora tivesse como fundo o monte do qual acabava de descer. Também Lucas diz
que elevando os olhos aos discípulos dizia (Lc 2, 20).
AFORTUNADOS: Ditosos os pobres
em espírito, porque deles é o Reino dos céus (3). Beati pauperes spiritu
quoniam ipsorum est regnum caelorum. A palavra, usada tanto por Mateus como por
Lucas, no início de cada versículo é MAKARIOI, em grego, plural de Makarios
<3107>. Logicamente Mateus e Lucas usam a palavra como tradução de um
original aramaico usado por Jesus. Qual é essa palavra e que significado se
encerra na raiz da mesma?
1º) No AT: . Existem no hebraico
bíblico dois verbos com o sentido de abençoar. Um deles é Barak <01288>
que é só empregado por Deus no Piel [intensivo ativo] indicando uma ação
contínua, como em Gn 1, 22 : E Deus os abençoou [yebarek] dizendo: sede
fecundos. Usando a mesma raiz, Deus abençoou também o dia sétimo. A setenta
traduz por eulogesen louvar ou falar bem, que no inglês é traduzido por
blessed. De barak temos baruk [bendito] e a palavra beraká [ bênção], cujo
plural é berakoth. Todas as berakoth começam com Baruk Ata Adonai que pode ser
traduzido por louvado seja meu Senhor [=Deus]. Os setenta traduzem baruk
[bendito] por eulogetos ou eulogemenos (Dt 28, 3 +). O outro é Ashar
<0833> cujo significado primitivo é avançar; também no piel significa
pronunciar feliz; e pela primeira vez o encontramos em Gn 30, 13 em boca de
Lia: Feliz, eu [beasheri], porque chamar-me-ão ditosa [asheruni] todas as
mulheres. Nos setenta, os termos em colchetes são traduzidos por makaria
e makarizousin, a mesma raiz empregada nas bem-aventuranças. Não entramos em
maiores detalhes. Só com o dito podemos dizer que barak [eulogeo<2127>,]
é a palavra reservada para a ação divina, quando declara bendita uma pessoa; e
asher [makarios<3107>] é a ação do povo que vê uma circunstância que
torna feliz uma vida. Logicamente essa circunstância provém de Deus como causa
principal. (Os números correspondem aos de Sprong). Os evangelistas têm muito
cuidado nas palavras com que escolhem as ipsissima verba Christi e, portanto
acreditamos que se ambos os evangelistas escolheram makarios como tradução das
palavras de Jesus, este não quis dizer que eram abençoados por Deus, mas
declarados felizes pelos homens. Jesus quer mudar o modo de pensar dos
discípulos para que estes pudessem ver nos pobres, nos aflitos, nos humildes, nos
famintos, uma classe de predileção divina que os tornava desejáveis e
invejáveis. Jesus, praticamente, na sua primeira lição pública define a conduta
humana diante da pobreza tanto material como espiritual do mundo que o rodeia.
2º) No grego clássico, a palavra
makarios inicialmente significava livre dos cuidados e preocupações de todos os
dias. O significado é afortunado. Assim, a ilha de Chipre é chamada de ‘e
makaria [a afortunada] por ser uma ilha verde e próspera. Homero chama os
deuses de ‘oi makarioi [os felizardos] em comparação com os humanos que
devem trabalhar para poder viver. Na linguagem poética, descreve a condição dos
deuses e daqueles que compartilham da existência feliz deles. Aos poucos,
perdeu seu significado original para se tornar num equivalente de nosso Feliz.
Quando acompanhada de tu ou vós, se transforma em bem-aventurado, ou
bem-aventurados, indicando um elogio por parte dos conhecedores do caso. Como
tais, são parabenizados os pais por causa dos seus filhos, os ricos por causa de
suas riquezas, os sãos pela sua saúde, os sábios por causa de seu conhecimento,
os piedosos por causa de seu bem-estar interior, os mortos por terem escapado à
vaidade das coisas. Indica, pois, como motivo, uma circunstância especial que
acompanha uma certa classe de homens e que por esse requisito podem ser
considerados afortunados.
3º) No grego bíblico makarios traduz
o hebraico esher [felicidade], ashar [declarar bem-aventurado], ou asheré
[bem-estar]. Vemos o asheré traduzido por makarios no salmo 2,12:
Bem-aventurados todos os que nele se refugiam; ou o salmo 32,1 e 2:
Bem-aventurado aquele…e bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui
iniquidade. Em ambos os casos makarios é usado como tradução de asheré. O homem
é bendito, e especialmente esta bênção, provém de Deus. No NT é claro que
substituímos o asheré hebraico por Makarios. Makarios aparece 13 vezes em
Mateus e 15 em Lucas e apenas duas em João: Bem-aventurados, pois, se
praticares estas coisas(13, 17) e Bem-aventurados os que não viram e creram
(20, 29). No caso de Mateus, os bem-aventurados não são os discípulos; mas,
estando a frase em terceira pessoa é qualquer um que se encontra em semelhantes
circunstâncias. A estimativa predominante do Reino de Deus leva consigo uma
inversão de todas as avaliações costumeiras. E todos os que compartilham dessa
experiência da chegada do Reino, nas circunstâncias reveladas na frase inicial,
serão benditos por esse dom recebido de Deus de modo gratuito.
4º) Mas vejamos as traduções:
Dichosos ou Felices em espanhol, Beati em latim e italiano, Fortunate em
inglês, embora a KJ traduzirá Blessed, Felizes em português e Hereux em
francês. É uma palavra que indica completa satisfação ou felicidade. Todas elas
cumprem as palavras de Dt 33, 29 em que o hebraico asherê é traduzido por
makários e por ditoso : Ditoso [makários] tu Israel. Quem como tu povo
vencedor? Deus é o escudo que te protege, a espada em marcha que te conduz ao
triunfo. Ou o salmo 144, 15: Ditoso [makarios] o povo que tem tudo isso; ditoso
[makários] o povo cujo Deus é o Senhor. Em Baruc 4,4 temos: Felizes [makarioi]
somos Israel, pois podemos descobrir o que agrada o Senhor.
5º) Como Conclusão podemos afirmar que a palavra grega makários tem o
significado de homem, cuja vida é invejada por ser um privilegiado por Deus nos
seus planos beneficentes. Em definitivo, podemos facilmente traduzi-la por
BENDITO ou ABENÇOADO. Deus está no meio, por ser a causa de todos e verdadeiros
bens. O Makarioi de Jesus entra, pois, nos planos divinos, como causa principal
ao ser Deus o observador que escolhe seus eleitos, como declara Maria em seu
canto: Exultou meu espírito em Deus meu Salvador porque ele fixou seus olhos na
insignificância de sua escrava (Lc 1, 47-48). Até agora no mundo católico,
quase de forma geral, as bem-aventuranças eram vistas como prêmio oferecido às
virtudes dos que mereciam semelhante elogio. Hoje não são consideradas como
recompensa de virtudes, mas como escolha divina, que em sua misericórdia quer
favorecer os mais desamparados. Não é a virtude interior alcançada, que obtém
um prêmio, mas são as circunstâncias que favorecem a ação divina em sua
misericórdia. Deste ponto de vista, podemos enxergar todo o contexto como sendo
uma política divina que dá uma reviravolta na totalidade do pensar e atuar
humanos. Jesus, em nome de Deus, como seu profeta, declara quais deveriam ser
chamados de ditosos ou afortunados. Assim começa a nova economia que inicia uma
nova visão do mundo dos sofridos e despossuídos. Esta situação, no lugar de ser
uma situação de infortúnio, ou um estado aparente de desdita, é, pelo
contrário, uma condição de sorte, porque as riquezas divinas estão à disposição
dos que se supõem ter herdado o azar como condição de suas vidas. Como diria
Paulo, na fraqueza é que se manifesta (mais) o poder [de Deus] (2 Cor 12, 9).
Por isso, todas as bem-aventuranças terminam com um porque em que Deus entra
como causa ativa, subentendido na passiva do verbo correspondente, passiva que
era praticamente usada só para atuações divinas. Talvez a melhor tradução
seria: Sois abençoados por Deus vós os…
O ESQUEMA: temos em cada
bem-aventurança uma prótasis [primeira parte de uma poema teatral] e uma
apódosis [explicação]. A prótasis ou primeira parte de cada oração é uma
circunstância da vida, independente da vontade da pessoa respectiva. A apódosis
é a explicação do porquê e como a sorte lhes favorece. Como caso curioso
podemos ver que as quatro primeiras começam com a letra pi em grego: Ptochoi
[mendigos], penthountes [chorantes], praeis [mansos] e peinountes[famintos].
Quando se sabe que a kabala era característica da interpretação das Escrituras,
há uma pequena razão para pensar que Mateus, legista e intérprete da lei,
tivesse alguma razão, por nós hoje desconhecida, de seguir seus ocultos princípios. PTÔCHOI: No
AT ptochos aparece perto de 100 vezes e são a tradução de 7 palavras hebraicas:
1º) `anav <06035> é sinônimo de humilde, especialmente quando em
forma adjetivada acompanhado de Jahvé. Com seu número de Sprong <06035>
aparece 24 vezes, especialmente nos salmos e em Isaías, a começar por
Moisés que é declarado o mais humilde, ou mais manso dos homens como traduz a
vulgata. O anav desse número é geralmente traduzido por prays [manso](12),
penes [pobre] (11) e tapeinós [baixo] (1). Na vulgata temos mites (6) mansuetus
(6) e pauper (12). Existem duas frases em que anav acompanha terra anave
heretz. E que em ambos são traduzidos por prays ou mansos. 2º) ‘ani [37 vezes]
<06041> que tem o significado de pobre, humilde, modesto, oprimido. A
primeira vez que aparece é em Ex 22, 24: Se emprestares prata ao meu povo, ao
pobre [ani e ptochós] que está contigo. Quando não se menciona o opressor, a
palavra significa realmente pobre material, os que não têm terra. A Setenta
traduz, indistintamente, ani por pobre ou humilde. 3º) `anah <06033>. A
única vez que anah sai é em Daniel 4, 27: redime tua iniquidade para com os
pobres <06033> em grego penetön [=dos pobres]. 4º) dal [22
vezes] <01800> baixo, fraco, pobre, magro. Fisicamente dal significa
fraco e passa a ser empregado para as classes sociais mais baixas como
camponeses, pobres, necessitados, sem importância. 5º) ebyon [11 vezes]
<034> significa pedinte de esmolas, mendigo; ou seja, os muito pobres e
sem lar. 6º) rush [11 vezes] <07326> necessitado, pobre, é uma
palavra que se emprega como contraste de rico. 7º) Misken.<04542>. Nos
tempos mais modernos usa-se misken, um termo que os mendigos orientais empregam
para definir a si mesmos. Que deduzimos então? Se o mendigo é precisamente o
ebyon e equivale ao endeês [menesteroso em grego] o ptochós de nossa
bem-aventurança pode ser pobre no sentido de desvalido, sem recursos, cujo
único goel [defensor] era Jahvé, em oposição aos ricos que dependiam de
suas riquezas como base fundamental de suas vidas. Os textos mais modernos
descartam o pobre material e traduzem o Ptochós como humilde, ou humilde de
espírito (AV), ou os que têm o coração de pobre (francesa). A melhor exegese
será, sem dúvida, a feita por Maria: Depôs poderosos de seus tronos e aos humildes
[de baixa condição] exaltou. Cumulou de bens os famintos e despediu ricos de
mãos vazias. Parece que Jesus aprendeu bem de sua mãe esta política divina que
tão bem se realizou na sua família. Os rabinos louvavam a simplicidade e a
humildade, mas nunca a pobreza porque, segundo eles, nenhum dos males
podia se equiparar ao mal da pobreza; daí que Mateus, legista e conhecedor das
tradições judaicas, teve que acrescentar uma explicação ao simples fato de
pobreza. Pois para esses mestres da Lei a riqueza era o prêmio justo da virtude
e a pobreza era considerada como legítimo castigo. Porém, a pobreza entra nos
planos de Deus e a sua aceitação coloca os pobres como escolhidos às portas do
Reino do qual Jesus era o arauto ao proclamar as condições que o limitavam,
segundo Is 61,1: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres [ptochoi em
grego e humildes nas versões mais modernas como a italiana]. Na Historia do
Israel antigo, após a economia inicial de troca, uma vez consolidada a
monarquia, o dinheiro tomou conta da economia e muitos dos agricultores
passaram a depender dos homens das cidades. Este empobrecimento não só se
tornou um problema social, mas religioso como fruto da quebra da Lei,
tornando-se uma injustiça, atacada pelos profetas do século VIII aC. que
ameaçavam com o juízo divino os ricos que eram culpados. E é nesta situação
histórica que podemos entender o significado de pobre e necessitado. O pobre
que sofre injustiça porque outros se tornaram gananciosos, volta-se indefeso e
humilde a Deus em oração, pensando que a ajuda divina em suas necessidades é a
base da glória a Deus. Pobres, são os que se voltam a Deus em suas necessidades
pois é um Deus-protetor dos pobres (Sl 72, 2): Com justiça ele [o rei] julgue o
teu povo, salve os filhos dos indigentes [anawim e ptochoi] e esmague seus
opressores. No salmo 132, 15 diz: De pão fartarei seus pobres [anawim e
ptochoi]. A desgraça do exílio levou temporariamente ao emprego das palavras
pobre e necessitado como termos coletivos para o povo. No judaísmo tardio,
tanto a pobreza material como o aspecto da sua espiritualização têm
características novas: Todos os grupos religiosos tinham suas formas especiais
de obras de caridade. Nas sinagogas havia uma organização para ajuda dos
pobres, existindo esmolas públicas semanais. Cada sexta feira, aqueles que
viviam na localidade, recebiam dinheiro suficiente da cesta dos pobres [quppah]
para 14 refeições ; os estrangeiros recebiam comida diariamente da comida dos
pobres [tamhuy]; esta comida tinha sido coletada antes, de casa em casa, pelos
oficiais dos pobres. Na diáspora, as sinagogas frequentemente estabeleciam uma
comissão de sete para esse serviço, como fizeram os apóstolos em Atos 6, 1-6. A
distribuição das esmolas era considerada particularmente meritória, se feita na
cidade santa. A semelhança entre hoje e antigamente é tão grande –escreve J.
Jeremias- que há algumas dezenas de anos encontravam-se leprosos, pedindo
esmolas nos seus lugares habituais, no caminho de Getsêmani, fora dos muros da
cidade. Em Jerusalém a mendicância concentrava-se em torno do Templo, como
vemos em At 3, 1-8. Como temos visto, os setenta traduzem anawim por ptochoi.
Portanto, esta palavra perdeu o significado de mendigo para denotar o homem
indefeso, que só tem como avaliador Jahweh e que nele depositou sua inteira
confiança. A palavra pobre não significava a mesma coisa para um grego que para
um judeu. Para o grego era um mendigo; para o judeu era aquele que não possuía
terras (Ex 22, 24). Naturalmente, neste último caso, os pobres eram também
gentes desprovidas de influência social, frequentemente exploradas e
humilhadas. Em grego, temos a palavra Ptochós [mendigo] com necessidade de
pedir esmola para subsistir e a palavra Penes, o pobre que não é rico, mas tem
necessidade de trabalhar para poder viver. Como temos visto, ao explicar as
diversas palavras usadas no hebraico, pobres podem ocupar o lugar da palavra
anawin, que tem um significado contrário ao de rico, com conotações religiosas
de confiança em Deus.
TO PNEUMATI: que pode ser
traduzido em espírito ou de espírito. Evidentemente, o espírito é o espírito
humano. Portanto, temos: Ou pobres de espírito, que significaria acanhados; ou
pobres por espírito, por eleição, pessoas estas que aceitavam a pobreza como
natural ou como voluntária. O texto grego presta-se, pois, a duas
interpretações: 1) pobres quanto ao espírito 2) pobres pelo espírito. A
primeira pode ter um sentido pejorativo como homem de qualidades diminuídas. Ou
um positivo como aqueles desapegados do dinheiro, embora o possuam em
abundância, sentido este excluído pelo próprio Jesus em Mt 6, 19-24 e pela
condição imposta ao jovem rico. Na tradição judaica, os termos anawim/aniyim
designavam os pobres sociológicos, que punham sua esperança em Deus por
não achar apoio, nem justiça na sociedade. Jesus recolhe este sentido e convida
a escolher a condição de pobres [opção contra o dinheiro e a posição social]
entregando-se nas mãos de Deus. O termo “espírito” na concepção semita, conota
sempre força e atividade vital. Neste texto, denota o espírito do homem. Na
antropologia do AT o homem possui “espírito” e “coração”. Ambos os termos
designam sua interioridade; o primeiro, enquanto dinâmica, sua atividade em
ato; o segundo, enquanto estática, os estados interiores ou disposições
habituais que orientam e matizam sua atividade. A interioridade do homem passa
à atividade enquanto inteligência, decisão e sentimento. Dado o que Jesus
propõe, é uma opção pela pobreza, e o ato que a realiza é a decisão da vontade.
O sentido da bem-aventurança é, portanto “os pobres por decisão”, opondo-se aos
“pobres por necessidade”. Transpondo o nome decisão pela forma verbal, tem-se
“os que decidem escolher ser pobres”. A vulgata usa pauperes spiritu do
grego ptochoi to pneuma. A tradução da bíblia protestante na sua VA [versão
autorizada] é: Bem-aventurados, os humildes em espírito. As bíblias católicas
conservam a palavra pobres e traduzem pobres de espírito ou em espírito e
algumas pobres de coração. Duas traduções fazem uma exegese particular: A
versão AL [América latina] os que têm o espírito de pobres e a francesa: ceux
qui ont um coeur de pauvre [que têm um coração de pobre]. A bíblia de King
James traduz poor in spirit e comenta que ptochós é uma pessoa que não pode se
ajudar, ao contrário de pénes, que, sendo pobre, pode se virar, como
dizem. E comenta: o primeiro passo para ser abençoado é a admissão da própria
inutilidade espiritual. Enquanto Mateus dá uma explicação sobre o significado
de Ptochoi [pobres], Lucas nada diz sobre a natureza da pobreza, aludida por
Jesus na primeira bem-aventurança. Segundo Lucas, é a pobreza material a que
abre as portas do Reino. Segundo Mateus, essa pobreza tem um matiz necessário:
é a pobreza fomentada no espírito, no desejo, no interior ou pensamento, ou tomada
como objetivo na vida, que implica não considerar as riquezas materiais como
finalidade da vida. Na realidade, ambos os termos podem ser vistos com uma
convergência: a pobreza material é um pré-requisito para a pobreza espiritual,
muito mais difícil de se conseguir quando a riqueza é o berço em que fomos
aninhados. Uma interpretação moderna é de que os homens só podem ser abençoados
por Deus quando diante dele se comportarem como mendigos às portas de sua
misericórdia. Vejamos duas interpretações:
1ª) Do ponto de vista católico e
fundamentada em Mateus: a) a primeira Bem-aventurança seria a bênção divina
para os que escolhem ser pobres, porque no lugar da riqueza, estes terão a Deus
por seu único Rei, que por sua parte escolhe os válidos e preferidos entre os
pobres e oprimidos. No texto de Mateus podemos interpretar pobres no espírito
como aqueles que não têm ambições de riqueza, que não se deixam levar pela
avareza. b) Finalmente, pobres no espírito podem significar aqueles que carecem
de qualidades humanas. c) Qual delas é a mais correta na interpretação das
palavras de Jesus? Segundo a maioria dos autores, Ptochoi traduz o
hebraico Anawim que Jesus explicará em Mateus 6, 19-21; 24 em que
Jesus rejeita o desejo das riquezas e as antepõe ao serviço devido a Deus, já
que não podemos servir a dois senhores. Quando da recusa do jovem a abandonar
suas riquezas, Jesus comentará que é difícil para um rico entrar no Reino, pois
na realidade ele está dominado pelo senhor contrário ao verdadeiro Senhor: Deus
(Mt 19, 16+). E é nesta última situação que as palavras de Lucas adquirem o
verdadeiro valor como Bem-aventurança. d) Um último comentário: Pelo que Mateus
nos dá a conhecer sobre o sermão da montanha parece que as bem-aventuranças
foram redigidas sobre a frase tão repetida neste capítulo V: Ouvistes que foi
dito aos antigos; eu, porém vos digo. Isto é: nas sinagogas vos foi ensinado;
porém, a verdade é outra diferente que eu vos declaro agora. Por isso a melhor
tradução, sob o ponto de vista exegético, seria: Ouvistes que vos foi ensinado
que os ricos eram benditos de Deus; eu porém, vos digo que são os mais pobres
os escolhidos e os que verdadeiramente são os benditos de Deus, que na terra
vão constituir seu Reino. De fato, Paulo dirá aos de Corinto: Não há entre vós
muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família
prestigiosa… Deus escolheu o que no mundo é vil e desprezado… a fim de que
aquele que se gloria, glorie no Senhor. (1 Cor 1, 26-31). A bênção era tão
inusitada para a época em que a pobreza era considerava pior que a lepra como
castigo divino, que Mateus ou o seu copiador, se sentiu obrigado a introduzir
um pequeno parêntese explicativo para restringir a pobreza a limites aceitáveis
pelos seus leitores e assim fala dos pobres de coração que hoje chamaríamos
pobres sem ambição, e que os evangélicos traduzem por humildes de espírito.
Porém, devemos manter o original de Lucas que fala dos simplesmente pobres,
indigentes, porque a bênção divina é tanto mais completa quanto mais miserável
aparecer a condição humana. Assim se cumpre o dito de Jesus que afirma ter
vindo salvar o aparentemente perdido. Como consequência, não devemos desprezar
esses mendigos que tratamos de vagabundos, porque eles merecem um lugar de
destaque no reino, e nosso amor para com eles só será um espelho do amor de
Deus exemplificado nesta bênção. Em termos gerais, podemos considerar que se
Lucas é o taquígrafo das palavras de Cristo, Mateus é seu intérprete e
catequista. Daí as diferenças. Segundo as palavras de Jesus, citando, em Lucas,
Isaías 61, 1: Ele me enviou a anunciar a boa nova aos pobres [anawim e ptochoi,
o latim mansueti, que traduz o italiano umili e a VA quebrantados] os
pobres poderiam ser os aflitos por suas necessidades materiais. De fato, as
classes inferiores, escravos e necessitados se beneficiaram do evangelho em
forma tal, que Jesus teve que afirmar que dificilmente um rico entraria dentro
do esquema do mesmo. Serão, pois, os pobres materiais os sujeitos da
bem-aventurança embora devam ser excluídos da mesma, os que se rebelam contra
sua pobreza e não a aceitando, rejeitam os planos de Deus que prefere os
deserdados aos ricos e opulentos.
2ª) A evangélica de Robert H Mounce;
em resumo será: Jesus exclama que não são os ricos e poderosos, mas os pobres e
humildes de quem se pode dizer, na verdade, que são bem-aventurados. A
apreciação de Jesus das coisas que constituem a vida, como deve ser vivida,
ressalta em forte contraste com a sabedoria convencional… Na linguagem
hebraica, pobre não era apenas a pessoa em desvantagem econômica, mas todos
quantos, em sua necessidade, apelam a Deus em busca de ajuda ( Sl 69, 32 e Is
81, 11). Estes são os anawim, “os humildes pobres que confiam na ajuda de
Deus”. Pobre de espírito significa depender totalmente de Deus para ajuda
segundo o Salmo 34, 6: Clamou este pobre e o Senhor o ouviu; salvou-o de todas
as suas angústias.
REINO DOS CÉUS: A promessa
mais explícita, como esperança de cada Bem-aventurança, é a entrada no Reino,
que Mateus chama dos céus, especialmente explicitada na primeira e na última,
oitava e final, da lista por ele apresentada. Mateus é praticamente o único
evangelista que chama reino dos céus [15 vezes] enquanto os outros dois
denominam Reino do (sic) Deus. Em que consiste esse Reino que parece ser a base
da pregação de Jesus? Nas suas parábolas Jesus o descreve como um banquete
nupcial (Mt 22,1+), como um precioso tesouro (Mt 13, 44). Mas, em que consiste?
No AT só encontramos uma vez e em grego a frase Reino de Deus [basiléia theou]
no livro da Sabedoria que não é admitido como canônico pelos evangélicos: Ela
[a sabedoria] guiou por sendas retas o justo [Jacó], que fugia da ira de seu
irmão [Esaú], lhe mostrou o reino de Deus e deu-lhe o conhecimento das
coisas santas [significando o governo do mundo por meio de seus anjos e em
particular a bondade de Deus para com o patriarca] (Sb 10, 10). Por
Daniel, especialmente no capítulo 7, sabemos que os quatro reinos procedentes
do mar [do abismo, símbolo do mal] foram substituídos pelo reino que procedia
das nuvens do céu [de Deus]. Era o Reino dos céus segundo Mateus ou Reino de
Deus do qual Jesus se diz representante, assumindo a figura de Filho do Homem
(Dn 7, 13). Das palavras de Jesus dificilmente saberemos a resposta positiva;
sabemos quais são as pessoas que entram facilmente [pobres, crianças] (Mt 5,3 e
19, 14) e quais as que têm dificuldade [ricos, autoridades religiosas] (Mt 19,
23 e 21, 31) . Sabemos que o Reino exige uma honestidade própria [mais estrita
que a dos escribas e fariseus] ( Mt 5, 20). Que para um escriba era necessária
uma espécie de renovação como novo nascimento, que é da água e do espírito ( Jo
3,5). Um reino que implica uma nova relação com Deus, não em forma aparente e
externa, mas interior (Lc 17, 21). Um reino que consiste essencialmente em que
a vontade divina seja a norma indispensável da vida (Mt 6, 10). Um reino que se
mostrará patente após a morte de Cristo porque muitos dos ouvintes de Jesus
estarão presentes a seu início visível (Lc 9, 27) para o qual haverá sinais
prévios (Lc 21, 31). Reino que terá Pedro como supremo supervisor (Mt 16, 19).
Os apóstolos, seguindo esta linha de Jesus, nos dizem que o Reino consiste em
honestidade, paz e alegria no E. Santo (Rm 14, 17), não em palavras, mas em
poder (1 Cor 4, 20). Não em comilanças e bebedeiras, mas em honestidade, paz e
gozo no Espírito Santo; que nem luxuriosos, nem idólatras, nem adúlteros, nem
depravados, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem
bêbados, nem injuriosos herdarão o mesmo (1 Cor 6, 9-10); coisa que repetirá
Paulo em Gl 5, 21. Trabalham pelo reino os apóstolos e com eles os que os
ajudam (Cl 4, 11). Deste reino, que podemos chamar na sua face terrena,
chegamos ao definitivo ao eschaton do qual temos a palavra de Jesus que beberá
do fruto da vide quando chegar o Reino de Deus (Lc 22, 18). Este é o reino que
Jesus admite como próprio e do qual, como gozo definitivo, promete participar
aos que nele confiam (Lc 23, 42-43). Podemos, pois, responder à pergunta qual é
esse reino que a eles é prometido? Sem dúvida, que eles serão a maior e melhor
parte desse novo povo de Deus que constitui o Reino por Cristo fundado e do
qual ele era Senhor. Não é sem uma idéia proposta e preconcebida que Mateus
escolhe no monte onde pronuncia a novidade do reino: os doze que deveriam ser
os novos pais das novas tribos do novo Israel, não como genitores materiais mas
como pais espirituais, dos quais todos nós recebemos a nova vida no Espírito.
TÊM A DEUS POR REI: Esta é a
tradução preferida pelos modernos intérpretes. Assim, o grego Basileia não
significa aqui reino mas ‘reinado’. “Seu é o reinado de Deus” quer dizer que
esse reinado se exerce sobre eles, que somente sobre eles age Deus como rei. A
pobreza a que Jesus convida é a renúncia a acumular e reter bens, a considerar
algo como exclusivamente próprio; esses pobres estarão sempre dispostos a
compartilhar o que têm. A opção final que Jesus propõe, realiza o prescrito
pelo primeiro mandamento de Moisés: Não terás outros deuses diante de mim (Dt
5, 7). A idolatria concretizava-se na posse da riqueza (6, 24); por isso o
enunciado desta bem-aventurança é porque estes e não outros, têm a Deus
por Rei. A opção proposta pela primeira bem-aventurança leva à sua perfeição a
metânoia ou emenda, pois quem escolhe ser pobre, renunciando a
monopolizar riquezas, e com isso, à posição social e ao domínio, exclui de sua
vida a possibilidade de injustiça. É a visão da teologia da libertação.
CONCLUSÃO: As palavras de Jesus são um convite a refletir de forma
nova sobre fatos que consideramos desafortunados, mas que o evangelho torna
afortunados. Entre eles a pobreza, considerada como um castigo divino, mas que
agora devemos ver como uma circunstância providencial, uma verdadeira bênção do
céu, porque facilitará a entrada no reino dos que a sofrem.
OS QUE CHORAM: Ditosos os
que pranteiam. Eles serão consolados(4). Beati qui lugent quoniam ipsi
consolabuntur. O latim e a maioria das traduções modernas modificam a ordem
desta bem-aventurança colocando-a em terceiro lugar. Mas que significa o verbo
grego penthountes<3996>? Ele significa propriamente lamentar os mortos ou
seja prantear, derramar lágrimas por alguém, estar de luto. Precisamente a
palavra luto deriva do latim lugere de onde luctus.O grego pentheö [lugere
latino] sai 4 vezes nos evangelhos: Duas em Mateus e uma em Marcos e Lucas. É
traduzido por lugere, enquanto o pranto ou choro como o de um menino é klaiö.
Pedro chorou [eklausen, ploravit] amargamente após suas negações (Mt 26,
75). As carpideiras, ou pranteadeiras, choravam [klaiontas, flentes] na casa de
Jairo por causa da morte da filha (Mc 5, 38). Lucas, neste lugar paralelo, usa
klaiö em vez de pentheö de Mateus (Lc 5, 21). Sobre pentheö temos Mt 9,
15 que diz que os amigos do noivo não podem estar de luto no dia da boda do
mesmo. Marcos diz que a Madalena anunciou a Ressurreição aos que estavam
lamentando [penthosin, lugentibis] e chorando [klaiousin, flentibus]. Os mesmos
dois verbos sucessivos usa Lucas em 6, 25. Também o grego admite como
tradução os que se lamentam ou estão afligidos, como aceitam traduções
modernas. Poderíamos traduzir por os que sofrem. A razão que motiva esta
bem-aventurança é a de que encontrarão consolação a sua dor. Logicamente o
pranto não é devido a uma dor física mas a uma perda de uma pessoa amada ou de
bens estimados necessários para a vida: um infortúnio, uma desgraça. Alguns
traduzem: os que sabem o que significa a tristeza. É o próprio Deus que será
seu consolo, segundo Is 61, 2: A consolar todos os que choram. Lucas, como a
vulgata de Mateus, traz esta bem-aventurança em terceiro lugar e a palavra
usada é Klaiontes [o latim flentes, derramando lágrimas] que como sempre traduz
muito literalmente o grego. O texto não diz as razões que motivaram as
lágrimas. Mas no texto de Isaías, citado por Jesus quando do início de sua
missão, encontramos: que foi enviado a consolar [parakalesai] os que estão
tristes [penthountas]. Usa, pois, Mateus os dois verbos que a setenta, a
bíblia-guia dos primitivos cristãos, emprega. Poderíamos afirmar que o
consolador é o próprio Jesus na sua função de Messias Salvador, ou Cristo. Ele
toma as funções divinas atribuídas a Deus na passiva do verbo correspondente.
Recorda a passagem: Vinde a mim todos vós que estais cansados…e eu vos aliviarei(Mt
11, 28).
OS MANSOS: Ditosos os
mansos porque eles herdarão a terra (5). Beati mites quoniam ipsi possidebunt
terram. PRAEYS <4239>: é palavra própria dos mansos, benignos, não
violentos, o mites ou mansuetus latino, que aceitam sua fragilidade e sua situação
social sem revolta, mas com a confiança em Deus que será o último fautor da
História. É uma imagem tomada do Salmo 37, 11: Pois os mansos herdarão a terra
e se deleitarão na abundância da paz. É notável como as palavras prays e
klëronomeö são também as usadas pelo salmista. O sentido claro é que
definitivamente o Reino é um reino de paz e que os não violentos são os
herdeiros desse reino que substitui o antigo Israel, a verdadeira terra
bíblica. Por isso, Jesus afirma que os contrários do Reino são os violentos que
estão a destruí-lo (Mt 11, 12). No tempo de Jesus os Zelotas pensavam fosse a
terra [nome dado à Palestina pelos israelitas] matéria de conquista e guerra.
Jesus, porém, toma a palavra do profeta no salmo 37, 8-9 para indicar que não é
a violência que conquista a terra. Deixa a violência, abandona o furor, não te
inflames: só farias o mal; porque os maus vão ser extirpados e os que aguardam
o Senhor possuirão a terra. De Si mesmo dirá que devemos aprender porque é
manso [prays] e humilde [tapeinos] de coração (Mt 11, 29). De novo temos a
presença de Jesus nesta bem-aventurança, agora como modelo humano e não como
Deus que cumpre uma promessa. Esta bem-aventurança é uma antecipação da número
7: os fazedores da paz. Só que neste último caso a situação é ativa e na nossa
3a bem-aventurança o sujeito é passivo: pacífico. Terra [gë] era o termo com o
qual declaravam os judeus a porção geográfica que Jahweh tinha dado a eles por
herança (Dt 1, 36 e Nm 26, 53) que Dt 9, 29 identifica com o povo de Israel, de
modo que podemos afirmar que unicamente os pacíficos ocuparão o espaço dos que
pertencem ao Reino.
FOME E SEDE DE JUSTIÇA: Ditosos os
famintos e sedentos de justiça, porque serão saciados (6).Beati qui esuriunt et
sitiunt iustitiam quoniam ipsi saturabuntur. Esta bem-aventurança está
refletida, mas de modo material, na segunda de Lucas: Os famintos [peinontes]
agora, pois serão saciados. Esta oposição à materialidade de Lucas nos descobre
uma interpretação espiritualista de Mateus das palavras de Jesus. Ao mesmo
tempo, Mateus conecta com o AT segundo sua proposição de que Jesus veio não
para revogar a Lei mas para completá-la (Mt 5, 17). São duas as passagens de
Isaías que falam sobre sede e fome: 55, 1 e 65, 13. Especialmente nesta última
Jahweh se refere a seus servos que terão comida e bebida em abundância. Mas que
significa a justiça que é a fonte ou motivo de sede e fome? Em grego dikaiosyne
significa: 1) Justiça divina que premia o bem e castiga o mal. 2) Justiça
humana equivalente a santidade moral. Homem justo é um homem virtuoso. 3)
Fidelidade divina que cumpre sempre suas promessas, que vem ser sinônimo de
salvação. 4) Justiça distributiva humana que respeita o direito e defende em
nome de Deus os mais necessitados. Qual delas é a justiça de nosso versículo?
Provavelmente, a terceira. A justiça bíblica é sinônimo de santidade ou
correção de vida em conformidade com a vontade divina. Não é a justiça
comutativa mas a essencial da qual nos fala Paulo e que em certo modo se
identifica com salvação e santidade. O lugar paralelo é Mt 6, 33 no qual a
justiça está unida ao Reino. Justos eram aqueles cujo sangue foi derramado
desde Abel até o último profeta (Mt 23, 33). Uma salvação que inclui também o
primeiro significado. Era o desejo manifestado por Simeão: Meus olhos viram a
tua salvação (Lc 2, 30) porque essa salvação foi comparada a um banquete no
qual todos podiam entrar, ricos e pobres, sãos e aleijados, bons e maus. A
entrada é livre, pois a justiça divina se transformou em misericórdia. Unicamente
os convivas deveriam ter uma veste limpa: não buscar a própria exaltação como
os fariseus, mas revestidos de Cristo (Rm 13, 14) de sentimentos de compaixão,
benevolência, humildade, doçura, paciência (Cl 3, 12).
OS MISERICORDIOSOS: Ditosos os
misericordiosos porque serão tratados com misericórdia (7). Beati misericordes
quia ipsi misericordiam consequentur. Eleëmones<1655> é o termo grego
significando que tem compaixão. Eles alcançarão essa mesma compaixão que têm
com os homens, mas da parte de Deus. Eleemones só sai esta vez nos evangelhos.
A palavra que é usada da mesma raiz é eleeö, <1653>[miserere, ter
compaixão]. É o verbo usado pelos pedintes para uma cura de Jesus, como os
cegos, a mulher cananéia, o pai do filho epiléptico, etc. É o verbo usado por
Jesus na parábola do servo devedor, a palavra que usa o rico para pedir de
Abraão uma gota d’água. É a compaixão para com aquele que está necessitado ou
pede perdão de uma dívida impagável. O próprio Lucas traduz a perfeição cristã
por misericórdia: sede misericordiosos como vosso Pai (Lc 6, 36). A palavra
usada por Lucas oiktirmon <3629> [misericors, que tem pena de] é
mais próxima de compaixão que de misericórdia. Precisamente a eleëmosunë
<1654> eleemosina latina [esmola portuguesa] provém dessa raiz grega. Daí
o grande motivo para dar esmolas entre os cristãos.
LIMPOS DE CORAÇÃO: Ditosos os
limpos no coração porque eles verão a Deus(8). Beati mundo corde quoniam ipsi
Deum videbunt. KATHAROI <2513> [mundi, limpos]. Na verdade, o latim
com mundo corde diria: ditosos (aqueles) com coração limpo. O coração limpo,
por outros traduzido por os puros de coração nada tem a ver com a castidade,
mas visa os de intenções limpas, os não malvados, nem torcidos em seu íntimo
entre pensamento, palavra e ação por terem o pensamento diverso de sua palavra
mentirosa. Ou seja, os não hipócritas, os que só pensam em fazer o bem, sem
outras intenções espúrias ou indignas por segundos interesses. Limpos de
coração é tomado do Salmo 24, 4: Quem é limpo de mãos e puro de coração, que
não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente. O salmo 15, 2
fala de quem vive com integridade e pratica a justiça, e, de coração, fala a
verdade, o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo nem lança
injúria contra seu vizinho. Esta é a limpeza do coração, mente, ou intenção
diríamos hoje. O prêmio desta vez é que verão [opsontai] a Deus. Quando?
Evidentemente na figura de Jesus. Como exemplo: os fariseus viram o demônio
expulsando seu colega, quando a gente simples via o dedo de Deus na expulsão
do demônio feita por Jesus (Mt 12, 22-24). Por outro lado, eles, os
limpos de coração, são os que buscam a verdade e a encontrarão e por isso verão
a Deus em suas vidas porque Deus é a única verdade. Na epístola aos Hebreus se
afirma que sem a santificação é impossível ver a Deus (Hb 12, 14). Não se trata
unicamente do além, mas do tempo presente em que a premissa básica para
encontrar o verdadeiro Deus é a pureza de intenção. Precisamente Jesus dirá que
é no coração onde se prepara e cozinha a maldade (Mt 16, 19). A presença de
Deus era o Templo, onde Deus estava assentado sobre os querubins da arca (1 Sm
4, 4). Agora o verdadeiro templo é o crente (1 Cor 3, 16), e só se Deus é
adorado em verdade (Jo 4, 24) é que estará ali como estava sobre os querubins
no antigo Templo (1 Sm 4, 4). E nesse templo interior, Ele se manifestará.
OS QUE TRABALHAM PELA PAZ: Ditosos os
que trabalham pela paz porque eles serão chamados filhos de Deus(9). Beati
pacifici quoniam filii Dei vocabuntur. Os EIRËNOPOIOI <1518> grego [
pacifici latino], têm como tradução direta os que fabricam a paz, que
infelizmente o latim traduz impropriamente por pacifici e que a maioria das
bíblias adotou como pacífico; mas pacífico corresponde a 3a bem-aventurança com
o nome de praeis. Uma coisa é ser pacífico ou afável, e outra é trabalhar pela
paz. Um comentarista diz que um trabalhador pela paz é um homem que
experimentou a paz de Deus e pretende levar a mesma aos que com ele convivem.
De fato, esta é a única vez que é empregada no NT. SERÃO CHAMADOS FILHOS, está
no lugar de serão verdadeiros filhos de Deus. Precisamente, segundo Isaías, o
filho que nos foi dado, terá como nome Emanuel [Deus conosco] e será chamado
Príncipe da paz (9,5). Esse Jesus que, como rei da paz, entra em Jerusalém
montado num jumento e não num cavalo, montaria de guerra, para anunciar a paz
às nações (Zc 9, 9-10). Os pacificadores são os verdadeiros continuadores do
labor feito por Jesus, levam a paz entre os homens e a paz para com Deus. Trabalham
como Jesus trabalhou, com o mesmo objetivo e o mesmo motivo: reconciliação e
amor.
OS PERSEGUIDOS: Ditosos os
perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (10).
Beati qui persecutionem patiuntur propter iustitiam quoniam ipsorum est regnum
caelorum. PERSEGUIDOS [dediögmenoi <1377> =persecutionem patiuntur],
perseguidos é o particípio passado passivo do verbo Diökö <1377> buscar
ou acossar alguém de modo a ter que fugir por causa do acossamento. Esta
deveria ser a oitava e última bem-aventurança, mas nos encontramos com um
makarismo a mais, o nono. A justiça é, como temos explicado no parágrafo de
sede e fome de justiça, a correção de vida que se ajusta aos planos divinos, e
que no AT consistia no cumprimento exato dos preceitos da Lei, como era o caso
de José, esposo de Maria, que devia por lei denunciar Maria publicamente, mas
pensava em repudiá-la ao modo antigo, ou seja secretamente (Mt 1, 19). Jesus
claramente abona a idéia de que a moral entra dentro dos planos divinos.
A JUSTIÇA DO REINO: Ditosos sois
quando vos tenham reprovado e perseguido e dito palavra má contra vós, mentindo
por minha causa (11). Beati estis cum maledixerint vobis et persecuti vos
fuerint et dixerint omne malum adversum vos mentientes propter me. Parece que
este é o nono macarismo, porém os autores afirmam que ele é a explicação do
oitavo, indicando qual é a justiça e a perseguição dos justos. De fato, neste
último macarismo Jesus passa da terceira pessoa, em termos gerais, para a
segunda pessoa dirigindo-se a seus ouvintes: vós. A justiça é a que está
representada na pessoa de Jesus [por causa de mim]. A perseguição ou os
perseguidos, do verbo diökö, são os buscados ou acossados pelos inimigos de
Jesus, porque atrás deles está o Mestre, como Ele disse a Saulo,
perseguidor dos seus discípulos (At 9, 4): Saulo, Saulo, por que me persegues?
O grego usa neste versículo o mesmo verbo diökö. Dentro da explicação, vemos
que a perseguição implica a injúria, o acossamento e a mentira. Todos eles, os
perseguidos, pertencerão ao Reino e são os verdadeiros membros do mesmo,
o constituem. A última bem-aventurança promete a mesma recompensa do que a
primeira: o Reino.
A RECOMPENSA: Ficai alegres
e exultai porque vossa recompensa (é) grande nos céus. Assim também perseguiram
os profetas, os anteriores vossos (12). Gaudete et exultate quoniam merces
vestra copiosa est in caelis sic enim persecuti sunt prophetas qui fuerunt ante
vos. A recompensa, ou melhor, o salário [misthós<3408>] é uma
remuneração que só Deus pode dar e que ninguém poderá diminuir ou anular, como
é o tesouro que as riquezas bem repartidas adquirem para os que delas se
desprendem. Assim podeis comparar-vos com os profetas que me precederam. A ação
profética é precisamente o testemunho de suas vidas, aparentemente
desperdiçadas inutilmente, maltratadas e vilipendiadas pelos que tinham a
obrigação de ouvir e respeitar seus testemunhos. É uma profecia do que
aconteceria após a morte e ressurreição de Jesus, do qual eles se tornariam
testemunhas e profetas.
PISTAS:
1) Jesus [ou a Igreja primitiva]
coloca as bem-aventuranças no início da sua atuação pública, imediatamente após
a escolha dos doze. Pelos detalhes de Mateus elas ocupam o lugar dos
mandamentos recebidos por Moisés no Sinai; ou seja, Jesus prega uma Boa Nova em
oposição a Moisés que proclama uma lei de servidão.
2) É um evangelho positivo no qual
Deus quer mostrar a sua face de bondade e salvação. E são precisamente esses
homens passivos da ação divina que o mundo pensaria serem os de pior sorte, os
que são beneficiados [makarioi, ditosos] pela riqueza e misericórdia de Deus.
3) Não se trata de uma moral nova a
ser cumprida –à parte o capítulo V- mas de umas circunstâncias nas quais Deus
quer se mostrar magnânimo e divinamente generoso. Por isso as Bem-aventuranças
estão sendo proclamadas a todos os que de alguma maneira encontram em Jesus o
seu Mestre e Salvador.
4) As bem-aventuranças resumem o
espírito evangélico, ou apresentam um modo novo de olhar para a realidade crua,
dos discípulos de Jesus? Antes parece um juízo feito pela sabedoria divina dos
momentos e das pessoas que nós consideramos desafortunados. Nessas situações
tão indesejáveis, a esperança provém do olhar para a verdadeira essência das
coisas: ver a realidade como Deus a vê.
5) As primeiras constituem a bênção
de circunstâncias que podemos chamar de infortúnio. Estar nas mesmas não é um
azar, mas uma sorte do ponto de vista da providência divina. As segundas
implicam uma recompensa para determinadas virtudes que são essencialmente cristãs.
Todas constituem a Boa Nova para necessitados ou almas de boa vontade. A Boa
Vontade divina agora inclui a boa vontade humana.
EXEMPLO: Um mestre
oriental contava de si mesmo: Na juventude, eu era um verdadeiro chefe
revolucionário e rezava assim: dá-me energia, ó Deus, para mudar o mundo! Mas
notei, ao chegar à meia-idade, que metade da vida já havia passado sem que eu
tivesse mudado homem algum. Então mudei a minha oração, dizendo a Deus: Dá-me a
graça, Senhor, de transformar os que vivem comigo, dia a dia, como os meus
familiares e os meus amigos. Com isto eu já fico satisfeito! Agora que sou
velho e com os dias contados, percebo bem o quanto fui tolo rezando assim. A
minha oração agora é apenas esta: Dá-me a graça, Senhor, de mudar a mim mesmo!
Se eu tivesse rezado assim desde o princípio, não teria esbanjado a minha vida
e o mundo seria bem melhor.
FRASE: Dos modernos,
que tanto confiam na ciência como verdade absoluta, podemos afirmar com o Papa:
apesar de terem deuses, estão sem Deus e, com muitas esperanças, falta-lhes a
suprema e última esperança.
http://npdbrasil.com.br/religiao/rel_hom_gotas0250.htm#msg01
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