quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

08-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )

  

08-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA( * )

 


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

 

                 [Parte VIII-02]

 

 

             "Onde  houver desespero,  que eu leve a esperança"

                [Atribuída a  São Francisco de Assis]

 

 

ONDE HOUVER DESESPERO, QUE EU LEVE A ESPERANÇA!

 

"¡Anda, cómprale una rosita!", sugeriu gentilmente a velha senhora, de ascendência claramente indígena, quando nosso trem fazia uma rápida parada durante o percurso de volta entre Machu Picchu e Águas Calientes, no Peru. Aceitei prontamente a sugestão e delicadamente entreguei a rosa à minha companheira, que respondeu com um gracioso sorriso, sentada bem à minha frente. Para nossa surpresa, o vagão inteiro irrompeu em uma estonteante salva de palmas. Senti-me como se fosse um Dom Juan protagonizando uma de suas melhores cenas. Ainda alguns minutos e o trem apitava, sinalizando a retomada da viagem.

 

Aquele momento permaneceria gravado em minha memóriapara sempre. Não apenas pela inesperada reação que aquele gesto acabara suscitando, mas sobretudo, pela lição que, em eloquente silêncio, ele acabou nos deixando: mesmo quando, pressionados pela liquidez que avança cada vez mais implacavelmente, com a pressa, a insensibilidade e a indiferença ameaçando nos dominar, atenção, delicadeza e ternura insistem em permanecer. Já no hotel, um copo improvisado acabou servindo como jarro; um pouco de água, e aquela bela rosa permaneceu ali, por um bom tempo, embelezando o ambiente e servindo de colírio para nossos olhos. Ao partirmos, fiquei a imaginar se alguém - que talvez também amasse rosas e flores - continuaria a repor a água, a cuidar daquela rosa, ou se simplesmente a ignoraria e descartaria no lixo ou lançaria pela janela. Não sei.

 

O que sei - porque isso a gente aprende e a vida ensina - é que, assim como as flores, o amor requer atenção e cuidado para poder continuar sobrevivendo. Não necessariamente regado a gestos raros e grandiosos, muitas vezes fora do nosso alcance, mas com atenções mínimas e constantes; não com promessas esparafatosas, mas com presença real e edificante; não com palavras bonitas, mas vazias, e sim com cuidados discretos e silenciosos, cujo valor somente quem os recebe consegue avaliar em sua real medida. O amor que sustenta o vínculo conjugal não morre de repente; vai se apagando aos poucos: na presença que se afasta, na atenção que se dilui, no cuidado que se retrai, ou simplesmente quando se crê que o vínculo é capaz de se manter sozinho, em condições de dispensar a atenção e o cuidado que lhe conferem dignidade.

 

Curioso é que o desencadeamento desse processo de adoecimento  ocorre sem culpa, sem dolo e sem intenção premeditada - ao menos na maioria das vezes - e ainda assim ele segue seu curso, corroendo justamente o que deveria sustentar. Mas afirmar que esse adoecimento não é intencional, de forma alguma autoriza presumir que ele ocorra de modo espontâneo e natural, sem causa alguma que o impulsione. Minha hipótese é a seguinte: a razão maior desse adoecimento - quando ele ocorre, naturalmente - está relacionada a uma "expectativa-mãe" que acaba atuando como matriz - conceito usado com frequência, pelo Psicodrama - para todas as demais crenças e percepções, e que raramente se confirma. Refiro-me ao fato de que muitas pessoas se casam, presumindo que o casamento não vai além de um prolongamento dos paradisíacos tempos do namoro - ainda que nem todo namoro, claro, seja uma experiência paradisíaca. Em razão do notório desconhecimento e do despreparo com que a maioria dos casais inicia essa nova etapa do percurso - o matrimônio - tal presunção quase sempre resulta caro para ambos os parceiros.

 

Namoro é namoro, casamento é casamento. Enquanto o primeiro se nutre da leveza, das promessas, das expectativas e dos sonhos, o segundo sobrevive inevitavelmente à custa de altas doses de exigências, compromissos e sacrifício. A passagem de um nível ao outro não ocorre da noite para o dia, e raramente acontece sem tensão e conflito, só vindo a ser percebida depois de certo tempo. Na experiência concreta de grande parte dos casais, essa transição se revela paradoxal: o novo patamar - incomparavelmente menos romântico e mais realista - demanda justamente aquilo que não foi, ainda, suficientemente adquirido; ou seja: experiência. Embora o aprendizado proporcionado pelo namoro se mostre imprescindível, para o matrimônio ele é, indiscutivelmente, insuficiente. O paradoxo pode ser comparado àquele de quem busca o primeiro emprego, e logo descobre que lhe é exigido exatamente aquilo que só pode ser obtido com a contratação e o efetivo exercício da função; uma vez mais - experiência. Quando, no casamento, os parceiros não têm consciência dessa insuficiência - inexperiência talvez seja o termo mais preciso - a travessia não se completa. E é justamente nessa espécie de “limbo de transição” entre o namoro e o matrimônio que o vínculo começa a perder força e vitalidade, dando início ao seu processo de adoecimento e instaurando seu próprio purgatório.

 

Chega a ser no mínimo curioso que as pessoas, provavelmente a maioria delas, se preparem e se capacitem para quase tudo o que consideram importante em suas vidas, e justamente quando se trata de uma mudança tão radical, como é a vida matrimonial, prefiram acreditar que bastam “cara e coragem” e um “seja o que Deus quiser” - nível de confiança que não passa de conformismo travestido de fé - para que seu grande sonho se realize. A linha fronteiriça entre romantismo e ingenuidade é tênue, e justamente por isso fácil de ser ultrapassada. Não se trata de abrir mão daquela dose de romantismo com a qual o amor se completa e se enriquece, e sim de não se deixar levar por um otimismo ingênuo e exacerbado, a ponto de ignorar as exigências e os sacrifícios que a convivência conjugal impõe a quem nela se entrega.

 

Não faltou quem reprovasse Suassuna por afirmar que o otimista é um tolo. Mas como deixar de sê-lo, quando esse otimismo por vezes se revela tão ilusório, a ponto de ignorar a dimensão dramática e mesmo traumática que permeia o percurso dessa "viagem", ao mesmo tempo tão fascinante e tão espinhosa. Como alternativa, Suassuna propôs o que chamou de “realismo esperançoso”. Poderia ter optado por “esperança realista”, é verdade; seria dizer quase a mesma coisa, com diferentes palavras.  Todavia, sua escolha ressoa em perfeito alinhamento com o realismo contundente da existência, tal como Francisco, que preferiu apontar o desespero antes que a desesperança, pelas mesmas razões, ou, quando não, por razões semelhantes.

 

Na medida em que a convivência conjugal segue seu curso, o quadro de adoecimento tende a se agravar - sempre convém lembrar: esse adoecimento não é regra, ainda que tampouco se reduza a mera exceção. O que antes era mero desconforto relacional, pouco a pouco se transforma em isolamento emocional; o diálogo que fluía leve e espontâneo, agora cede lugar a ironias e cobranças; a intimidade que antes era calorosa e intensa, agora se retrai, tímida e temerosa, ameaçada de desaparecer para sempre. E assim o vínculo passa a funcionar segundo uma lógica minimalista: como o ar rarefeito, o afeto definha nos vários campos da convivência, já não conseguindo espaço para respirar confortavelmente. Cada um passa a cuidar das próprias dores sozinho, à parte, enquanto a relação passa a sobreviver mais do passado do que do presente. Em certos casos, eventos súbitos - doenças, acidentes, crises financeiras ou perdas significativas - atuam como elementos “descompensadores”. E, como todos sabemos, pessoas descompensadas enfrentam enorme dificuldade tanto para amar quanto para se permitirem ser amadas, fazendo com que o relacionamento se transforme em um autêntico fardo. A essa altura, o vínculo passa a sustentar-se em função de obrigações, filhos, convenções sociais ou, simplesmente, movido pelo pavor do grande fantasma: a solidão. Tudo isso aciona o sinal vermelho, sinalizando que o vínculo se encontra perigosamente à beira do colapso.

 

Alguns casamentos atravessam esse processo e sobrevivem. Não retornam ao estado inicial - porque obviamente isso é impossível - mas renascem mais sóbrios, menos idealizados e mais autênticos. Outros, apesar de todos os esforços, sucumbem; nem sempre por indisposição deliberada de amar, e muito mais por incapacidade de ambos os parceiros de identificar o processo de adoecimento e intervir a tempo. Sem essa percepção, não há como aceitar qualquer oferta de ajuda, e menos ainda abrir-se a qualquer tipo de tratamento. Mesmo quando essa percepção é alcançada, corre-se ainda o risco de que a negação acabe entrando em cena, sempre acompanhada de sua irmã gêmea, a racionalização.

 

Ainda assim, mesmo nos casos em que a situação possa parecer desesperadora, a esperança não se extingue por completo. Se somos de fato "imagem e semelhança de nosso Criador" como nos foi ensinado - Criador cujo limite do amor não é senão o amor sem limites, como ensina Aurélio Agostinho - nenhum ser humano está autorizado a prognosticar a recuperação do vínculo como irreversível. Nesse sentido levar esperança onde há desespero é manter a lucidez e a esperança quando o encanto se vai, a paixão se retrai, e continuar acreditando enquanto  enquanto houver vida - ou vidas - a ser cuidada. Amar é compromisso, não sentimento, e muito menos sentimentalismo; é sustentar a relação mesmo quando tudo parece desmoronar. Nas pegadas de Francisco, ser instrumento de paz é agir com fé e confiança, fazendo do desespero ponto de virada e oportunidade de crescimento.

 

Muitos advertirão que isso sim, não passa de romantismo exacerbado. Para nós, não. Tudo depende da interpretação que se dê. Como muito bem deixou escrito Bill Jhonson, "às vezes Deus acalma a tempestade; outras vezes ele permite a tempestade e acalma você".

 

Obs.: esta oitava parte será complementada pelas partes posteriores de mesmo título.

 

          (* ) Reflexão enviada por WhatsApp pelo autor, de Vitoria (ES).

Nenhum comentário:

Postar um comentário