6-REFLEXÃO II- 1º de janeiro– SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS
Por
Junior Vasconcelos do Amaral*
Deus nos dê a
sua graça e sua bênção
I. INTRODUÇÃO GERAL
Na celebração deste 1º
de janeiro de 2026 desejamos a todos saúde e paz, pela intercessão da
Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus. Neste dia, o mundo celebra a
fraternidade universal e o dia mundial da paz. Pedimos que o Filho de Maria,
Jesus Cristo, o Príncipe da paz, nascido em Belém, possa fazer de nosso coração
uma manjedoura, para fazer nascer nele o amor e a paz.
As leituras deste primeiro dia do ano nos levam a acolher Maria
e considerá-la também nossa Mãe, por causa de nossa experiência de fé em seu
filho, Jesus. Na primeira leitura, ouvimos o relato da bênção sacerdotal que
faz brilhar sobre nossa face a luz de Deus, constituindo-nos homens e mulheres
de paz (shalom). Deus
propõe a seu povo uma bênção copiosa de graça e salvação.
O Evangelho nos convida
a olhar, neste Natal, para a manjedoura e vermos lá o Amor encarnado, habitando
entre nós e fazendo-nos participar da vida de Deus, assim como ele desejou
habitar nossa história. É esse Amor que a segunda leitura nos chama a
experimentar, a com ele nos relacionarmos, já não como escravos, mas livres, em
Cristo Jesus, o Filho de Deus. A liberdade é a expressão da graça e da bênção
de Deus, que criou o ser humano para a liberdade, para uma Páscoa definitiva
chamada de céu.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Nm 6,22-27)
A primeira leitura está inserida no fim do capítulo 6 do livro
dos Números, cuja temática central trata sobre o nazireato, o voto
realizado por um homem ou mulher em sua consagração a Deus. Nm 6,22-27
corresponde ao ritual de bênção sacerdotal. Grosso modo, o livro dos Números pertence à tradição
que conhecemos como Código Sacerdotal, Priestercodex.
Esse ritual de bênção se associa ao múnus santificante do povo de Deus rumo à
Terra Prometida, aludindo ao nosso múnus santificador da Igreja hoje, rumo à
Páscoa definitiva em Cristo. Também nós somos convidados à mesma prece neste primeiro
dia do ano. A fórmula da bênção remonta a Lv 9,22-23: o ato mesmo de Aarão, o
sacerdote e irmão de Moisés, que levanta as mãos e abençoa o povo. Esse rito
sacerdotal é também conhecido como cheirotonia (“ch”
tem som de “r”), usado pelo presbítero ou epíscopo que presidem a celebração
eucarística na epiclese sobre os dons do pão e do vinho e, no fim, para a
bênção de envio do povo à missão. Nm 6,22-27 reflete a resposta de Deus,
Adonai, à manutenção da pureza e à generosa dedicação voluntária em prol da
comunidade. O texto hebraico preserva a tradição oral do pré-exílio e mostra um
estilo poético como nos Salmos (cf. Sl 67,1). O direito de invocar o nome santo
do Senhor está reservado a Aarão e a seus filhos sacerdotes. Os conceitos do
guardião de Israel (v. 24), do resplandecimento do rosto de Deus ou de sua
presença mesma (v. 25) e sua benignidade, da face divina e da paz (v. 26,
o shalom), estão aqui
arquitetados e arrematados em uma bênção, que deverá ser dada aos israelitas, e
o Senhor os abençoará (v. 27), de modo confirmativo e afirmativo. Essa bênção
tem como elemento-chave a ideia, corrente em tempos de angústia, de que o
Senhor teria “escondido sua face” e abandonado seu povo (cf. Dt 31,18; Sl 30,8;
44,25; 104,29). O shalom,
nessa bênção, tem sentido mais amplo, refletindo a “inteireza” e o “bem-estar”.
2. II leitura (Gl 4, 4-7)
A carta aos Gálatas é polêmica no sentido de que Paulo escreve
aos irmãos e irmãs da Galácia a fim de evitarem os erros dos judaizantes: não
se apegarem veementemente à Lei, pois foi para a liberdade que Cristo nos
libertou (Gl 5,1). A passagem deste dia está inserida na temática da filiação
divina de nosso Senhor Jesus Cristo, “nascido de mulher, nascido sob a Lei” (v.
4), para resgatar os que estavam sob a Lei, com a finalidade de que recebessem
a adoção filial (v. 5). É pelo Espírito de Cristo, que clama em nós, que
dizemos Abbá, traduzido por
“Pai” (v. 6). Nessa passagem, como em outras, Paulo resgata o caráter
pneumatológico da carta: é o Espírito Santo que vem em nosso socorro e nos
ajuda a viver como filhos de Deus; foi dessa mesma forma que o Filho Jesus
viveu, em toda a sua condição humana, exceto no pecado – que, infelizmente,
habita em nós pela liberdade que temos de escolher, pois às vezes escolhemos
errado. Paulo assim conclui: “porque sois filhos [...], somos também herdeiros”
da salvação de Deus (v. 7). Nesse sentido, a carta aos Gálatas se define como
uma espécie de “rascunho” da carta aos Romanos, pois somos todos justificados,
no Espírito que habita em nós, por Cristo, junto ao Pai, perfazendo assim o
mistério trinitário em nossa fé batismal.
3. Evangelho (Lc 2,16-21)
O Evangelho da infância, no qual o texto de hoje está inserido,
constitui um midrash, uma
forma rabínica de interpretar e escarafunchar, na história do povo, o sentido
do nascimento de Jesus. Belém – do hebraico, Bet Helem – é a “Casa do Pão” onde nasce o menino
Jesus, numa manjedoura. Os pastores (cf. Lc 2,15) vão até lá para ver o Senhor.
O verbo utilizado por Lucas é ídomen,
derivado de eidén, e traduz o
sentido de “identificar”, “conhecer”. Trata-se de verbo frequentemente
utilizado nos Evangelhos para traduzir essa relação estrita entre as pessoas
que se conhecem, se identificam umas com as outras e estabelecem amizade. É
interessante notar que esse verbo é o mesmo utilizado por Jesus quando olha
tanto para seus discípulos quanto para o povo que estava como ovelhas sem
pastor (Mc 6,34).
Os pastores chegam às pressas, a exemplo de Maria, que também
saiu apressadamente para visitar sua prima Isabel (Lc 1,39). Trata-se da
expectativa feliz por se encontrarem com o Messias. Lá eles encontram Maria,
José e o menino recém-nascido, deitado na manjedoura (v. 16). O verbo “ver”
aparece novamente no v. 17: ao verem o menino, contaram o que já haviam ouvido
sobre ele, desde os tempos antigos. Trata-se aqui de uma interpretação,
um DeRaSh, retirando
do passado as melhores recordações, aquilo que ficou na memória do povo. Os
pastores deixavam todos maravilhados com o que diziam (v. 18). Maria conservava
todas as coisas, misteriosamente, em seu coração e nelas meditava (v. 19). O
coração – em hebraico, lev –,
para os judeus, é lugar das decisões mais importantes, lugar onde se assentam a
Lei e o amor. Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o
que viram e ouviram, conforme lhes tinham dito (v. 20). O texto conclui com o
cumprimento ritual da Lei no oitavo dia, a circuncisão do menino e a
purificação da mãe. Foi dado ao menino o nome Jesus, que significa “Deus
salva”, conforme o anjo indicara anteriormente (v. 21).
Lucas assim entretece no
relato do nascimento de Jesus a tradição sobre os pastores, a visitação do anjo
e a alegria típica de seu Evangelho, como uma colcha de retalhos na qual se
destaca a maternidade de Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Mostrar a relação entre
as três leituras, destacando que a bênção do passado dada pelos sacerdotes
agora se traduz no nascimento de Jesus tanto para a vida de Maria e José quanto
para todos nós, que celebramos recentemente seu Natal. Destacar que Cristo nos
libertou para vivermos não um conglomerado de leis e rituais, mas o verdadeiro
amor a Deus e aos irmãos. Perceber que a maternidade de Maria foi anteriormente
vivida na fé, pois ela acolheu a Palavra de Deus pelo ouvido e agora essa
Palavra nasce entre nós, renovando nossa alegria, como outrora a alegria dos
pastores.
Junior Vasconcelos do
Amaral*
*é presbítero
da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal
Nossa Senhora da Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade
Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de
doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na
Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é
professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e
desenvolve pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
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