4.2- 23 de
agosto – 21° DOMINGO DO TEMPO COMUM- ESCOLHA DIVINA E DISPOSIÇÃO HUMANA
Por Pe. Marcus Mareano*
I
INTRODUÇÃO GERAL
Escutamos popularmente
que “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”. Essa máxima
encontra fundamento nas leituras da celebração deste domingo.
No texto da primeira
leitura (Is 22,19-23), o próprio Deus depõe Sobna e estabelece Eliacim,
conferindo-lhe autoridade, simbolizada pela “chave da casa de Davi”. O texto
sublinha que toda forma de poder legítimo não nasce da ambição humana, mas do
chamado e da iniciativa divina, que eleva e destitui segundo seus critérios de
justiça e fidelidade ao povo.
Essa mesma lógica é
aprofundada em Rm 11,33-36, passagem na qual Paulo irrompe num hino de louvor à
sabedoria e aos desígnios insondáveis de Deus. Após refletir sobre o mistério
da eleição e da salvação, o apóstolo reconhece que os caminhos de Deus
ultrapassam a compreensão humana e que tudo provém dele, por ele existe e para
ele converge. A leitura relativiza qualquer pretensão humana de domínio ou de
mérito absoluto, estabelecendo Deus como origem, sustentação e fim de toda a
realidade.
O Evangelho de Mt
16,13-20 mostra que essa iniciativa divina se manifesta na confissão de fé da
identidade de Jesus e na constituição de Pedro como referência visível da comunidade.
O reconhecimento de fé feito por Pedro não é fruto de uma percepção meramente
humana, mas resultado da revelação do Pai. Por conseguinte, a autoridade
confiada a Pedro, representada pelas “chaves do Reino dos Céus”, ratifica a
ideia de que a missão e a autoridade na comunidade são dons concedidos por Deus
para o serviço e a edificação do seu povo.
As leituras evidenciam
que Deus age na história escolhendo mediadores humanos, mas permanece sempre
como o verdadeiro protagonista. A autoridade, a fé e a missão das pessoas não
se baseiam nas próprias capacidades, mas na gratuidade divina, que elege essas
pessoas e conduz seus escolhidos para a realização de seu plano de amor.
II COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 22,19-23)
O oráculo de Isaías se
dirige a Sobna, apresentado como administrador do palácio, a quem é anunciada a
destituição do cargo e a consequente substituição por Eliacim (v. 19-20). Essa
ação divina representa a reprovação de Deus do mal exercício da função pública,
que estava centrada na autopromoção e não no bem comum.
O novo administrador
eleito será revestido, cingido e instituído para as funções junto ao povo. Sua
caracterização de pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá (v.
21) indica um exercício da autoridade marcado pela solicitude, pelo cuidado e
pela justiça. Do mesmo modo, a imagem da estaca firme (v. 23) sugere
estabilidade e segurança, revelando a esperança do profeta de que Eliacim
desempenharia suas funções com solidez e responsabilidade.
Entre as atribuições,
ele receberá o chamado “poder das chaves”. No contexto da corte real, o mordomo
era o guardião das chaves do palácio, responsável pela administração dos bens
do soberano, pelo controle da abertura e do fechamento das portas e pela
determinação de quem poderia ter acesso à presença do rei. O poder das chaves
designa uma autoridade delegada, exercida em nome de outrem e orientada para a
boa ordem da comunidade.
Isaías mostra que o
verdadeiro serviço das chaves não consiste em privilégios ou benefícios
pessoais, mas no exercício responsável da autoridade como serviço ao povo.
Eliacim deverá ser como um pai para aqueles que estão sob sua responsabilidade
e buscar, com solicitude, amor e justiça, o bem de todos.
2. II leitura (Rm 11,33-36)
Após refletir longamente
sobre o desígnio salvífico de Deus e procurar discernir o lugar de Israel nesse
projeto (Rm 11,1-32), Paulo apresenta uma irrupção contemplativa, marcada pelo
assombro diante da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus (v. 33). Essas
três prerrogativas divinas constituem o fundamento das exclamações e
interrogações retóricas que estruturam o restante do hino (v. 34-36),
conferindo-lhe um caráter doxológico que difere do estilo argumentativo
precedente.
Paulo reconhece que os
desígnios divinos permanecem envoltos em mistério e excedem radicalmente as
capacidades humanas de compreensão e de explicação (v. 34-35). Deus se
apresenta sempre além de qualquer concepção humana. Diante dessa
transcendência, o ser humano reconhece a própria pequenez, os próprios limites
e finitude. Ainda assim, a pessoa é convidada a confiar, acolhendo com
humildade a Palavra de Deus e procurando seguir seus caminhos com simplicidade e
amor.
Desse modo, aquele que
crê se caracteriza pela entrega confiante à vontade de Deus. O espanto diante
do mistério, aliado ao reconhecimento da soberania divina, transforma-se então
em atitude de adoração e louvor, culminando na doxologia (v. 36).
3. Evangelho (Mt 16,13-20)
O episódio do Evangelho
versa sobre a fé dos discípulos em Jesus. Contudo, Simão se torna o porta-voz
do grupo para confessar a fé. Por conseguinte, Jesus o designa para uma missão,
demonstrando-lhe sua nova identidade.
A questão proposta em Mt
16,13-19 é fundamental para a compreensão da identidade de Jesus. Os discípulos
caminhavam com ele e ainda não sabiam tão bem quem ele era nem tinham certeza
da sua missão como Messias. Entusiasmados, eles o seguiam.
O destino final da
viagem é Jerusalém (onde se dará a crucificação e a ressurreição), mas no
caminho, passando pela região de Cesareia de Filipe, Jesus interpela os
discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v. 13). A questão era
acerca da percepção que os outros tinham de Jesus, qual ideia sobre ele
circulava entre as pessoas, o que achavam de tudo que era feito e dito. Os
discípulos respondem: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Jeremias
ou um dos profetas” (v. 14). A multidão percebia que Jesus falava em nome de
Deus, como um profeta, como alguém da parte de Deus, mas não reconhecia sua
identidade mais profunda.
Então, o questionamento
se transfere diretamente aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v.
15). Os discípulos já tinham uma caminhada com Jesus, conheciam-no mais do que
a multidão e podiam afirmar algo mais do que aquelas pessoas empolgadas, por
isso, Simão Pedro, como porta-voz dos outros, diz: “Tu és o Messias, o Filho do
Deus vivo” (v. 16). Eles reconhecem em Jesus o esperado pelo povo de Israel, um
revolucionário, alguém que fosse libertar os judeus da dominação romana.
A resposta acertada
causa admiração em Jesus. Pedro é bem-aventurado por reconhecer algo tão
valioso para o novo seguimento no qual o grupo se empenhava. No entanto, esse
entendimento tem origem em Deus, não é esforço da inteligência humana, não
foram a carne e o sangue que revelaram isso a Pedro (v. 17).
Por conseguinte, Jesus
dá uma nova identidade àquele companheiro. Ele é designado como pedra, como
rocha, representando o compromisso de manter-se firme e confirmar os outros do
grupo na fé professada.
Para isso, Pedro recebe
as chaves (Is 22,22) do Reino dos Céus e o poder de ligar e desligar as coisas
dos céus e da terra (v. 19). A descrição quer explicitar a missão da Igreja de
refletir o mistério do Reino anunciado por Cristo. O que for de acordo com o
que está no céu deve ser também na terra e vice-versa. O trecho se conclui com
a recomendação de que não se dissesse que Jesus era o Cristo.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
Essas leituras destacam
a iniciativa de Deus, que conduz a história e confia missões segundo seu
desígnio. Em Isaías, é Ele quem concede e retira a autoridade, simbolizada pela
chave da casa de Davi. Em Romanos, Paulo reconhece a profundidade e a incompreensibilidade
dos planos de Deus, de quem tudo procede e para quem tudo converge. Em Mateus,
a confissão de fé feita por Pedro e a autoridade que lhe é confiada revelam que
a fé e a missão na Igreja não nascem da iniciativa humana, mas da revelação e da
graça de Deus, postas a serviço do seu povo. No nosso tempo, como Deus continua
a escolher e a capacitar as pessoas?
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia
pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela
Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica,
com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na
Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de
Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo
(Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG.
E-mail: marcusmareano@gmail.com
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