4.2- 11 de
outubro – 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
Um
banquete para todos!
1.
INTRODUÇÃO GERAL
O banquete que perpassa
a primeira leitura e o Evangelho deste domingo é uma parábola da alegria, da
festa, do Reinado de Deus. O banquete é manifestação do céu, que já começa
aqui, agora, no espaço e no tempo. A mesa da eternidade deve ser antecipada por
relações verdadeiramente humanas, fundadas na justiça e no amor. O profeta
Isaías apresenta o banquete como promessa divina, como desejo futuro. O
Evangelho de Mateus mostra o banquete se realizando, as núpcias acontecendo, e
também o convite destinado a todas as pessoas, especialmente àquelas que
habitam as “encruzilhadas do mundo”. Mais do que permanecer focado na rejeição
de muitos dos convidados, o fundamental é perceber o convite do Pai: “Vinde
para a festa”. É nas contradições das experiências da vida, testemunha Paulo,
que se pode viver uma confiança sem limites: “Tudo posso naquele que me dá
força”.
1.
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 25,6-10a)
O profeta Isaías anuncia
um grande banquete que será preparado pelo Senhor: “de ricas iguarias, regado
com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos” (v. 6).
Ao contrário dos banquetes dos soberanos, que escolhiam a dedo quem deles
poderia participar, geralmente os organizando para reforçar o poder político e
manter os privilégios, o banquete do Senhor é destinado “para todos os povos”
(v. 6). Ninguém ficará de fora!
A imagem de uma grande
mesa, na qual há lugar para todas as pessoas, é emblemática. Trata-se de uma
representação da eternidade, antecipada na fraternidade dos povos, na comunhão
entre os irmãos e irmãs, na experiência comunitária de cada dia. Aquilo que
Deus vai realizar no banquete revelado pelo profeta, no fundo, é o sonho de uma
vida cheia de sentido: “O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará
as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a
terra” (v. 8). O ministério público de Jesus, o Filho de Deus, pôs o sofrimento
das pessoas no centro da sua ação. Sua sensibilidade pela vida fez que nenhuma
lágrima passasse despercebida, nenhum marginalizado fosse indigno de atenção,
nenhum pecador tivesse trancada a oportunidade de um novo começo.
O banquete encontra seu
ápice na comunhão total com Deus. Não se trata de uma refeição isolada ou
fadada a ter um fim em si mesma, mas destinada à alegria eterna de permanecermos
bem próximos do Senhor: “vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvo” (v. 9).
2. II leitura (Fl 4,12-14.19-20)
São Paulo testemunha sua
confiança total no Senhor, não obstante as contrariedades que a vida
apresentou: “Tudo posso naquele que me dá força” (v. 13). Tal intimidade com
Deus, que Paulo experimentou desde sua conversão, fez que ele vivesse
intensamente: na miséria e na abundância, na fome e na fartura, na sobra e na
necessidade. O apóstolo viveu tudo por causa de Jesus Cristo e assumiu tudo
como uma escola para seguir mais fielmente seu Mestre.
As poucas linhas dessa
leitura ajudam a compreender a gratidão com que Paulo acolheu a manifestação e
os presentes recebidos da comunidade de Filipos enquanto estava na prisão. O
gesto comunitário é como um remédio para amenizar a dor e o isolamento vividos
no cárcere. Por um lado, os seguidores de Jesus e pregadores do Evangelho são
desprezados e aniquilados em razão do apostolado que realizam; por outro, são
presenteados com o amor e a atenção de muitos que foram gerados por eles na
vida cristã. Paulo agradeceu tamanha generosidade: “fizestes bem em
compartilhar as minhas dificuldades” (v. 14).
3. Evangelho (Mt 22,1-14)
“A Igreja tem de ser um
espelho das encruzilhadas do mundo”, dizia o Pe. José Tolentino Mendonça, na
capela do Rato, em Lisboa, antes de ser eleito cardeal. Na mesma Lisboa, em
julho de 2023, o refrão do papa Francisco, durante a Jornada Mundial da
Juventude, ressoava: “A Igreja é de todos, todos, todos!” De fato, no Evangelho,
acolhemos mais uma parábola de Jesus: um rei preparou uma grande festa de
casamento para seu filho. Com a recusa de todos os convidados, o rei disse aos
empregados: “ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa
todos os que encontrardes” (v. 9). Todos foram convidados, bons e maus; a única
exigência do rei era “o traje de festa”.
A imagem da festa, do
banquete, da comida, da bebida, da mesa, de pessoas reunidas, atravessa toda a
liturgia da Palavra deste domingo. São desenhos do cotidiano que formam a
cartografia de Deus. Christoph Theobald, um dos maiores teólogos do nosso
tempo, refletiu sobre o conceito do “cristianismo como estilo”, segundo o qual
ser cristão é uma forma de habitar o mundo, uma maneira de viver o cotidiano,
um conteúdo que se vive na prática, no jeito de ser. A festa de Deus é para
todos, é a festa da terra e do céu. O “traje” exigido pelo rei não é uma
máscara, uma fantasia, senão que a capacidade de ser livre no amor, tal como a
experiência nupcial.
“Vinde para a festa” (v.
4) é o convite sagrado! O rei não faz um catálogo de puros e impuros, mas chama
a todos, todos, todos! Mais importante do que a resposta de cada convidado –
muitos não quiseram ir – é o convite do rei. Esse convite dá a mesma dignidade
a cada convidado: todos são importantes, todos são únicos, todos cabem no amor.
Deve ser esta a tarefa da comunidade cristã: nunca separar, nunca dispersar,
sempre abrir, sempre ser espaço da alegria de Deus.
Nestes dias tão
difíceis, em que a humanidade experimenta uma sensação de impotência,
encontrando-se sufocada por guerras atravessadas por discursos religiosos, é
importante pedir a graça do discernimento e do compromisso de não reproduzir
separações, não alimentar o ódio, não propagar disputas, mas “habitar” a veste
da humanização, o estilo da reconciliação, que é o melhor caminho para a vida
divina, para a vida realmente nova.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
O banquete de Deus deve ser antecipado pela decisão de viver
relações novas, fundadas na fraternidade e no amor. O papa Francisco recordava,
na Carta Encíclica Fratelli
Tutti, que
a vida subsiste onde há
vínculo, comunhão, fraternidade; e é uma vida mais forte do que a morte,
quando se constrói sobre verdadeiras relações e vínculos de fidelidade. Pelo
contrário, não há vida quando se tem a pretensão de pertencer apenas a si
mesmo e de viver como ilhas: nestas atitudes prevalece a morte (n. 87).
Na contramão da mesa
solitária, Francisco convidava a sonhar juntos: “Sonhemos como uma única
humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma
terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas
convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (n. 8).
Pe. Ms. Maicon André Malacarne*
*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS,
pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na
Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela
Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: maiconmalacarne@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/11-de-outubro-28o-domingo-do-tempo-comum-2/