4.3- 2 de
novembro – TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS
Por Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito
Rins cingidos e lâmpadas
acesas!
INTRODUÇÃO GERAL
A celebração de Finados
não é um culto à morte nem uma exaltação da saudade pela saudade. Para a
Igreja, essa comemoração é uma proclamação da vitória de Cristo sobre o abismo
da morte. Ao visitarmos os cemitérios ou nos reunirmos em oração por nossos
irmãos e irmãs falecidos, fazemos um exercício profundo de comunhão dos santos,
como rezamos no credo. Reconhecemos que o amor é a única força capaz de
atravessar a fronteira do tempo e do espaço.
O mistério da morte é,
humanamente falando, a maior das incógnitas. Ela interrompe diálogos, quebra
projetos e impõe o silêncio. Contudo, a liturgia deste dia nos convida a olhar
para esse “muro” e enxergar nele uma porta. A celebração aponta para a
esperança escatológica: não rezamos pelos mortos como se estivessem perdidos,
mas como quem acompanha, com a prece, aqueles que nos precederam na travessia
para a eternidade.
Nossa meditação é guiada
pela confiança inabalável de Jó, pela lógica da ressurreição de Paulo e pela
exortação à vigilância de Lucas. Juntos, esses textos formam um mosaico que
responde à pergunta fundamental do coração humano: “Para onde vamos?”. A resposta
não é só um lugar, mas sobretudo uma Pessoa: Jesus Cristo, o primogênito dos
mortos.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS
BÍBLICOS
1. I leitura (Jó 19,1.23-27a)
O livro de Jó é o grito
da humanidade sofredora que se recusa a abandonar a Deus, mesmo quando o
silêncio divino parece ensurdecedor. No trecho proposto, Jó atinge o ápice de
sua jornada espiritual. Ele perdeu tudo: bens, filhos e a própria saúde.
Sentado sobre as cinzas, não busca uma explicação filosófica para seu mal, mas
faz uma confissão de fé que ecoa no tempo.
O redentor vivo. A palavra hebraica
utilizada por Jó é Go’el. No contexto
jurídico de Israel, Go’el era o
parente próximo que resgatava a honra, a liberdade ou a propriedade de um
familiar caído. Ao dizer: “Eu sei que o meu redentor está vivo”, Jó afirma que
Deus é seu parente mais próximo, aquele que não o deixará no esquecimento.
A visão beatífica. Jó declara que,
mesmo após a destruição de sua carne, ele verá a Deus. Isso é revolucionário
para a época. Ele antecipa a intuição cristã de que a identidade da pessoa – o
seu “eu” – não se dissolve na morte. A esperança de Jó é corporal: “meus
próprios olhos o verão”. É a afirmação de que a redenção não é apenas
espiritual, mas atinge a totalidade do ser humano.
Para a homilia, esse
texto serve para validar a dor de quem sofre (Jó está sofrendo), mas também
para oferecer o “porto seguro” da fé: a certeza de que nossa vida tem um
Defensor que sobrevive à nossa morte biológica.
2. II leitura (1Cor
15,20-24a.25-28)
São Paulo apresenta em
Coríntios a fundamentação lógica e teológica da nossa esperança. Ele não fala
da ressurreição como um evento restrito à vida de Jesus, mas como o início de
um “efeito dominó” que transformará toda a realidade.
As primícias. No antigo Israel,
as primícias eram os primeiros frutos da colheita, oferecidos a Deus como sinal
de que toda a safra lhe pertencia. Cristo é a primícia. Se ele ressuscitou, a
“safra” (a humanidade unida a ele) necessariamente ressuscitará. A sorte da
Cabeça é a sorte dos membros do Corpo.
A vitória sobre o último
inimigo. Paulo
personifica a morte como um “inimigo”. Ele não romantiza o fim da vida. A morte
é uma intrusa no projeto original de Deus. No entanto, o apóstolo garante que
Cristo está reinando e a morte será o último poder a ser destruído.
Deus tudo em todos. O objetivo final
da ressurreição não é apenas a sobrevivência individual, mas também a
restauração da harmonia cósmica. Quando a morte for vencida, o Reino será
entregue ao Pai. Isso significa que a finalidade da nossa vida é a imersão
total na vida divina. O dia de Finados é, portanto, a ocasião de celebrar o
destino de glória que nos aguarda.
3. Evangelho (Lc 12,35-40)
O Evangelho de Lucas
traz uma dimensão prática e existencial para este dia. Se Jó nos dá a esperança
e Paulo nos dá a teologia, Jesus nos dá a atitude: a vigilância.
Rins cingidos e lâmpadas
acesas. Na cultura bíblica, cingir os rins significa estar pronto para a
ação, para a caminhada (como no Êxodo). As lâmpadas acesas representam a fé e a
caridade, que não podem se apagar na noite deste mundo. A morte não deve ser
vista como uma fatalidade que nos pega de surpresa para o julgamento, e sim
como o momento em que o Senhor da casa retorna.
O Deus que serve. Há um detalhe
surpreendente no texto desse Evangelho: Jesus diz que, ao chegar, o senhor fará
os servos se sentarem à mesa, cingirá sua própria veste e passará a servi-los.
Isso inverte toda a lógica humana de poder. A morte, para o cristão vigilante,
é o encontro com o Deus que se faz servo para nos introduzir no banquete
eterno.
A imprevisibilidade. “O Filho do Homem
chegará na hora em que menos pensardes.” Esta não é uma ameaça, para causar
medo, mas um convite a vivermos cada dia com significado. Se a morte pode
chegar a qualquer momento, então cada momento é oportunidade de amar e de estar
em Deus. A morte não é o fim da vigilância, mas seu prêmio.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
A morte não é a última
palavra de Deus sobre o ser humano, mas o último suspiro da nossa limitação,
antes do abraço da eternidade. Recordar os mortos é atualizar a certeza de que
o amor que dedicamos a eles aqui na terra é um vínculo que Deus preserva para
sempre. O cristão não encara o cemitério como um depósito de corpos, mas como
um campo semeado de esperança, aguardando a colheita da ressurreição final.
Viver bem este dia significa reconciliar-nos com a própria finitude, sabendo
que nossa vida está “escondida, com Cristo, em Deus”. A vigilância que o
Evangelho pede é, em última análise, a prontidão de quem sabe que o Senhor não
vem como um juiz severo, mas como o anfitrião que nos preparou um lugar à mesa.
Pe. Antonio Iraildo Alves de
Brito
Religioso
da Pia Sociedade de São Paulo (Paulinos), é doutor em Comunicação e Semiótica
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, jornalista de formação,
professor na Fapcom (Faculdade Paulus de Comunicação) e editor de Vida
Pastoral. E-mail: iraildo@paulus.com.br.
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/2-de-novembro-todos-os-fieis-defuntos-3/