1.1-12 de
abril – 2º DOMINGO DA PÁSCOA (LASR)*
Por Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco Cornélio Freire
Rodrigues**
Igreja: comunidade de vida
I.INTRODUÇÃO GERAL
A Igreja deve sempre ser
pensada como uma comunidade de vida. Um lugar em que homens e mulheres vivam o
discipulado em sua plenitude. Uma comunidade naturalmente terapêutica,
missionária, fraterna e reflexiva. Uma comunidade que impacta a vida tanto
daqueles que estão dentro quanto dos que se encontram fora. Por isso, a
comunidade é geradora de nova realidade de fé. No entanto, não se trata de uma
fé passiva ou que produza alienação. Ao contrário, estamos diante de uma
expressão de fé que conduz a comunidade a ser missionária e a anunciar a todos
o projeto transformador de Jesus.
II. COMENTÁRIOS AOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 2,42-47)
A leitura traz o
primeiro sumário do que podemos considerar uma comunidade-modelo. Cumpre pensar
uma comunidade-modelo não como isenta de erros e inadequações, mas como aquela
que deseja ser sinal autêntico de Jesus nas estruturas da sociedade, bem como
na forma de viver comunitária. Desse modo, a comunidade de Atos, com suas
características, pode ser compreendida como o contraponto da sociedade que
circundava o povo de Deus. A comunidade-modelo de Atos é fundamentada em quatro
pilares, a saber: catequese, vida comunitária, Eucaristia e oração. Os quatro
pilares agem tanto internamente quanto externamente. Trazem, assim, duplo
impacto: no interior da comunidade, produzem a construção de nova realidade à
luz do projeto de Jesus – novas relações interpessoais, novas relações
econômicas, novas relações de ensino, novo relacionamento com Deus;
externamente, por causa da prática interna, angariam a estima de todo o povo. O
jeito de ser do povo de Deus impactava diretamente aqueles e aquelas que ainda
não haviam aderido a Jesus. Por conta disso, a primeira comunidade-modelo pode
também ser considerada uma comunidade missionária.
2. II leitura (1Pd 1,3-9)
Deus, por meio da
ressurreição de Jesus Cristo, fez-nos renascer para uma esperança viva. Assim,
para o autor da carta, a ressurreição de Jesus atinge plenamente o ser humano,
retirando-o de uma vida sem esperança e sem sentido, e conduzindo-o para a
plenitude da vida. No entanto, não se deve pensar que a herança no céu se
refira a uma forma escapista de viver ou mesmo fatalista e conformista.
Trata-se, isso sim, da afirmação de que, embora os fiéis vivam entre “diversas
provações” (v. 6), Deus assume, com seu poder, a cada um deles, seus filhos e
filhas. O sofrimento, nesse sentido, pode ser compreendido como purificador e,
dessa forma, a esperança ganha relevância no texto. A fé também é mostrada em
sua essencialidade. Ela é mais preciosa do que o ouro. Mediante a fé,
alcançamos a salvação de nossa vida, pois com ela podemos amar Jesus mesmo que
jamais o tenhamos visto; não o vemos, e cremos profundamente nele. Além disso, por
conta da presença dele, extravasa-se uma alegria contagiante, que não se pode
explicar.
3. Evangelho (Jo 20,19-31)
A repreensão dirigida a
Tomé é um convite a diferenciar entre a prova e o sinal. A fé, em si, não
admite nenhuma demonstração. Ela não pode fazer mais do que surgir livremente
dos sinais que são propostos. Contemporaneamente, parece que tudo é reduzido a
provas. Até mesmo canonizamos a prova em detrimento do sinal. Por que não dizer
que a fé somente pode nascer do único lugar capaz de ler os sinais, isto é, do
coração? Tomé sente a dúvida crescer quanto mais se afasta da comunidade.
Somente no meio da comunidade é que podemos crescer no amor e na unidade, fazer
a experiência de fé que nos leva ao coração do Ressuscitado. Tomé não tinha uma
fé amadurecida. Sua fé se encontrava em processo de maturidade. O texto do
Evangelho não chega a dizer se Tomé tocou Jesus. Em compensação, traz uma
declaração pública de fé, pois, a partir daquele momento, Tomé passou a
acreditar de todo o coração. No entanto, não podemos nos esquecer de que Jesus
também dirige a cada um de nós uma palavra importante, como a que segue:
“Felizes os que creem sem ter visto” (v. 29). Essa palavra nos retira da zona
de conforto e nos leva a exercitar uma fé amadurecida e sincera. A experiência
do Ressuscitado nos transforma em verdadeiros anunciadores da maior força que
já existiu em toda a história humana, isto é, a única força capaz de vencer a
morte!
Tomé quer acreditar, mas
do jeito dele. Querendo acreditar, faz o caminho inverso. Parece um discípulo
mesquinho que se afasta do testemunho da comunidade. Ele somente acreditava
segundo seus padrões já estabelecidos. Ao desejar uma manifestação pessoal e
especial de Jesus ressuscitado, talvez estivesse desejando controlá-lo e manipulá-lo.
Tomé possivelmente quisesse um Ressuscitado à sua imagem e semelhança. Ele
individualiza a experiência comunitária ao dizer por três vezes: “Se eu não
ouvir... se eu não colocar... se eu não colocar...” (v. 25). Egoisticamente,
reduz a experiência coletiva do Ressuscitado à sua própria experiência. Portas
fechadas indicam medo e insegurança. Pois é exatamente nesse ambiente marcado
pelo medo que Jesus aparece, se coloca bem no meio dos discípulos e os saúda
com a paz. O Cordeiro que havia vencido a própria morte se apresenta com os
sinais da vitória. Há comunhão e alegria no ar – uma demonstração de todos
aqueles que se encontram com Jesus. A partir do encontro, a comunidade se
fortalece para a missão. Não se fazem discípulos sem missão. Ser discípulo é
assumir responsabilidades, e não privilégios. Jesus bem sabia disso e,
portanto, disse enfaticamente: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio
vocês” (Jo 20,21). Fortalecidos pela presença do Espírito, eles poderão
estabelecer novas formas de convivência com base nas quais o pecado que
separava uns dos outros cederá lugar ao Reino do perdão e do amor mútuos.
Jesus chega trazendo paz
ao coração daqueles que estavam perturbados. Ele é o doador da paz. Se tirarmos
Jesus do centro de nossa vida, teremos o caos inevitável. Ele não somente traz
a paz, mas também pede que essa mesma paz seja levada a outras pessoas. Quem
vai garantir a missão da comunidade é o Espírito Santo, que gera força e
relembra simbolicamente a ação de Javé quando criou o ser humano. Jesus, entre
os seus, é o próprio criador da comunidade. Se a comunidade tem medo, agora ela
passa a se guiar pela presença de Jesus ressurrecto. Já não há espaço para o
medo no coração, pois este está totalmente ocupado com a presença de Jesus.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
1) A experiência do
Ressuscitado nos transforma em verdadeiros anunciadores da maior força que já
existiu em toda a história humana, a única força capaz de vencer a morte! Como
viver a ressurreição de Jesus em meio às múltiplas faces da morte presentes em
nossa sociedade?
2) Em que medida as
características da comunidade primitiva se manifestam em nossa comunidade
atual? Relações de comparação poderiam ser feitas com objetivo pedagógico. O
objetivo seria perceber se a comunidade atual está próxima ou distante das
características da comunidade primitiva.
Luiz Alexandre Solano Rossi*; Pe. Francisco
Cornélio Freire Rodrigues**
*é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de
São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia,
EUA). É professor no programa de mestrado e doutorado em Teologia da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e no Centro Universitário Internacional
(Uninter).
**é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica
pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É
licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife)
e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma).
Professor na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN), é autor do
roteiro do 4º Domingo da Páscoa.
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/12-de-abril-2o-domingo-da-pascoa-lasr/