4.2-Solenidade
de Pentecostes
.
Meus
amados Irmãos,
Nesta
solenidade de Pentecostes, celebramos o grande mistério de nossa fé em que a
Paz anunciada pelo Ressuscitado, Ascenso ao céu, retorna ao Cenáculo para impor
os dons do Espírito Santo sobre os seus Apóstolos, na presença da
Bem-aventurada Virgem Maria, como havia prometido: “Se me amais, guardareis os meus
mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que
fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode
receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque
permanecerá convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós”
(Jo 14,15-18).
A
Solenidade de Pentecostes é, pois, a plenificação do mistério pascal. A
comunhão com o Ressuscitado só é completa pelo dom do Espírito Santo, o “outro Paráclito”,
que continua em nós a obra do Cristo e a sua presença gloriosa.
A
liturgia desta festa acentua menos, no entanto, este lado teológico, insistindo
mais na manifestação histórica do Espírito Santo, no milagre de Pentecostes,
conforme nos ensina a Primeira Leitura(cf. At 2,1-11), e nos carismas da
Igreja, de acordo com o relato da Segunda Leitura(cf. 1Cor 12, 3b-7.12-13),
sinais de unidade e de paz que o Cristo veio trazer.
A
Igreja, sacramento da unidade, nos relembra que a pregação dos apóstolos,
anunciando o Cristo Ressuscitado, supera a divisão de raças e línguas e a
diversidade de dons na Igreja serve para a edificação do povo unido, o Corpo do
qual Cristo é a cabeça.
Caros
fiéis,
A
Primeira Leitura apresenta o milagre das línguas (cf. At 2,1-11). A Solenidade
de Pentecostes é interpretado como o acontecimento escatológico a partir da
profecia de Joel. Mas, sobretudo, é o cumprimento da palavra do Cristo. Passa
como um vendaval ao ouvido, como fogo aos olhos; mas permanece como transformação
do pequeno rebanho em Igreja Missionária. Também hoje a Igreja de Cristo se
reconhece pelo espaço que dá ao Espírito e pela capacidade de proclamar a sua
mensagem.
São
Lucas coloca a experiência do Espírito no dia de Pentecostes. O Pentecostes era
uma festa judaica, celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Originariamente, era
uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do
trigo; mas, no séc. I, tornou-se a festa histórica que celebrava a aliança, o
dom da Lei no Sinai e a constituição do Povo de Deus. Ao situar neste dia o dom
do Espírito, São Lucas sugere que o Espírito é a lei da nova aliança (pois é
Ele que, no tempo da Igreja, dinamiza a vida dos crentes) e que, por Ele, se
constitui a nova comunidade do Povo de Deus – a comunidade messiânica, que
viverá da lei inscrita, pelo Espírito, no coração de cada discípulo (cf. Ez
36,26-28).
Vem,
depois, a narrativa da manifestação do Espírito (At 2,2-4). O Espírito é
apresentado como “a força de Deus”, através de dois símbolos: o vento de
tempestade e o fogo. São os símbolos da revelação de Deus no Sinai, quando Deus
deu ao Povo a Lei e constituiu Israel como Povo de Deus (cf. Ex 19,16.18; Dt
4,36). Estes símbolos evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro
do homem, comunica com o homem e que, dando ao homem o Espírito, constitui a
comunidade de Deus. O Espírito (força de Deus) é apresentado em forma de língua
de fogo. A língua não é somente a expressão da identidade cultural de um grupo
humano, mas é também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros
entre as pessoas, de criar comunidade. “Falar outras línguas” é criar relações,
é a possibilidade de superar o gueto, o egoísmo, a divisão, o racismo, a
marginalização. Aqui, temos o reverso de Babel (cf. Gn 11,1-9): lá, os homens
escolheram o orgulho, a ambição desmedida que conduziu à separação e ao
desentendimento; aqui, regressa-se à unidade, à relação, à construção de uma
comunidade capaz do diálogo, do entendimento, da comunicação. É o surgimento de
uma humanidade unida, não pela força, mas pela partilha da mesma experiência
interior, fonte de liberdade, de comunhão, de amor. A comunidade messiânica é a
comunidade onde a ação de Deus (pelo Espírito) modifica profundamente as
relações humanas, levando à partilha, à relação, ao amor. É neste enquadramento
que devemos entender os efeitos da manifestação do Espírito (cf. At 2,5-13):
todos “os ouviam proclamar na sua própria língua as maravilhas de Deus”. O
elenco dos povos convocados e unidos pelo Espírito atinge representantes de
todo o mundo antigo, desde a Mesopotâmia, passando por Canaã, pela Ásia Menor,
pelo norte de África, até Roma: a todos deve chegar a proposta libertadora de
Jesus, que faz de todos os povos uma comunidade de amor e de partilha. A comunidade
de Jesus é assim capacitada pelo Espírito para criar a nova humanidade, a
anti-Babel.
A
possibilidade de ouvir na própria língua “as maravilhas de Deus” outra coisa
não é do que a comunicação do Evangelho, que irá gerar uma comunidade
universal. Sem deixarem a sua cultura e as suas diferenças, todos os povos
escutarão a proposta de Jesus e terão a possibilidade de integrar a comunidade
da salvação, onde se fala a mesma língua e onde todos poderão experimentar esse
amor e essa comunhão que tornam povos tão diferentes, irmãos. O essencial passa
a ser a experiência do amor que, no respeito pela liberdade e pelas diferenças,
deve unir todas as nações da terra. O Pentecostes dos “Atos dos Apóstolos” é,
podemos dizê-lo, a página programática da Igreja e anuncia aquilo que será o
resultado da ação das “testemunhas” de Jesus: a humanidade nova, a anti-Babel,
nascida da ação do Espírito, onde todos serão capazes de comunicar e de se
relacionar como irmãos, porque o Espírito reside no coração de todos como lei suprema,
como fonte de amor e de liberdade.
Os
elementos essenciais que definem a Igreja: uma comunidade de irmãos reunidos
por causa de Jesus, animada pelo Espírito do Senhor ressuscitado e que
testemunha na história o projeto libertador de Jesus. Desse testemunho resulta
a comunidade universal da salvação, que vive no amor e na partilha, apesar das
diferenças culturais e étnicas. Nunca será demais realçar o papel do Espírito
na tomada de consciência da identidade e da missão da Igreja… Antes do
Pentecostes, tínhamos apenas um grupo fechado dentro de quatro paredes, incapaz
de superar o medo e de arriscar, sem a iniciativa nem a coragem do testemunho;
depois do Pentecostes, temos uma comunidade unida, que ultrapassa as suas
limitações humanas e se assume como comunidade de amor e de liberdade.
Meus
amigos,
Disse
o Apóstolo dos Gentios que “o amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito
Santo que nos foi dado” (Rom 4,5). Por isso, a celebração maior de
Pentecostes, a manifestação de Cristo Glorificado, é considerada a maior festa
da Igreja, em comum união com a festa da Páscoa.
Pentecostes
é a festa da plenitude dos tempos, predita pelos profetas. É a festa do início
dos tempos da Santa Igreja Católica, da nova e definitiva aliança, a que todos
somos convidados, a que todos somos vocacionados. É a festa da comunidade
cristã, da comunidade eclesial, da comunidade de fiéis, porque estas
comunidades não existem sem o Espírito Santo, que é a alma, que é a fonte de
vida para a Igreja. Pentecostes é a festa da unidade que dá o impulso
apostólico da pregação a todos os povos, para todas as línguas, para todas as
nações. A fé transcende os umbrais do povo hebreu, devendo ser anunciada a
todos sem distinção.
Com
Pentecostes, em que o Senhor desce na presença redentora do Cenáculo, os
discípulos, inundados com os sete dons do Espírito Santo, tornam-se APÓSTOLOS,
ou seja, passam a ser enviados em nome de Cristo, como Cristo, um dia, fora
enviado em nome do Pai.
A
presença da Bem-aventurada Virgem Maria tem um significado muito especial:
presente na Cruz, dada a João, o discípulo amado, a sua presença no meio dos
apóstolos a coloca como Mãe e Mestra da Igreja de Cristo.
Ali
em Pentecostes estava a Igreja nascente, o Corpo Místico de Cristo. Por isso,
os novos Apóstolos, hoje batizados no Espírito Santo, correrão mundo afora,
reunindo crentes e não crentes, para criar comunidades, animá-las e santificar
aqueles que aceitarem o nome glorioso do Senhor Jesus.
Irmãos
e irmãs,
A
festa de Pentecostes nos pede uma reflexão sobre a presença do Espírito Santo
na história da salvação. Não conhecido no Antigo Testamento, ou mesmo chamado
de Deus desconhecido por Paulo em Atenas, coube a Jesus revelar a existência de
um Deus único e verdadeiro em três pessoas distintas. É pelo Espírito Santo que
se abrem os horizontes pelos quais se movimentam e se compreendem todas as
verdades da fé cristã.
O
Espírito Santo é visível como o próprio Cristo. Representado por símbolos como
o vento, a pomba e as línguas de fogo elas não são uma espécie de encarnação do
Espírito Santo, mas figuras que nos ajudam a compreendê-lo em linguagem humana,
o quanto é possível entendê-lo e guardá-lo em nossos corações.
O
Espírito Santo Paráclito. O que é o Paráclito? Vem do grego que significa
“aquele que vem para nos ajudar”. O Espírito Santo pode ser considerado o nosso
ADVOGADO, o nosso CONSOLADOR ou, ainda, O ESPÍRITO DE VERDADE.
Orígenes
disse que o Espírito Santo é o beijo: o Pai beija, o Filho é beijado, o
Espírito Santo é o beijo. Uma figura bonita, assimilável ao homem moderno.
Outros dizem que o Espírito Santo é o abraço. O Pai abraça o Filho com todo
amor. Esse amor é o Espírito Santo. Ora, poderíamos dizer, a mãe abraça e beija
o filho com todo o amor de mãe, querendo dar-se inteiramente nesse beijo e
abraço. Nem por isso consegue dar-se totalmente.
O
rosto do Espírito Santo tem muitas maneiras de se mostrar. A mais significativa
figura do rosto do Santo Espírito é o AMOR, que se consubstancializa pela
proteção que Ele dá aos batizados e pelo auxílio de seus sete dons a todos os
homens e mulheres para sua santificação.
Meus
queridos irmãos,
A
segunda Leitura (1Cor 12,3b-7.12-13) mostra-nos a operação “intra-eclesial”
do Espírito: a multiformidade dos dons, dentro do mesmo Espírito, como as
múltiplas funções em um mesmo corpo. Paulo chama a multiformidade de dons de
CARISMAS, dons da graça de Deus. Sabemos muito bem que essa unidade na
diversidade não é algo que conseguimos na base de nosso empenho pessoal, é,
entretanto, o Espírito de amor de Deus que une tudo isso. Jesus é o Senhor é a
confissão que une a Igreja primeva. E esta confissão só se consegue manter na
força do Espírito. Como a unidade da confissão, o Espírito dá, também, a
multiformidade dos serviços na Igreja. Todos que pertencem a Cristo são membros
diversos do mesmo corpo.
São
Paulo acha que é preciso saber ajuizar da validade dos dons carismáticos, para
que não se fale em “carismas” a propósito de comportamentos que pretendem
apenas garantir os privilégios de certas figuras. Segundo São Paulo, o
verdadeiro “carisma” é o que leva a confessar que “Jesus é o Senhor” (pois não
pode haver oposição entre Cristo e o Espírito) e que é útil para o bem da
comunidade. De resto, é preciso que os membros da comunidade tenham consciência
de que, apesar da diversidade de dons espirituais, é o mesmo Espírito que atua
em todos; que apesar da diversidade de funções, é o mesmo Senhor Jesus que está
presente em todos; que apesar da diversidade de ações, é o mesmo Deus que age
em todos. Não há, portanto, “cristãos de primeira” e “cristãos de segunda”. O
que é importante é que os dons do Espírito resultem no bem de todos e sejam
usados – não para melhorar a própria posição ou o próprio “ego” – mas para o
bem de toda a comunidade.
São
Paulo conclui o seu raciocínio comparando a comunidade cristã a um “corpo” com
muitos membros. Apesar da diversidade de membros e de funções, o “corpo” é um
só. Em todos os membros circula a mesma vida, pois todos foram batizados num só
Espírito e “beberam” um único Espírito. O Espírito é, pois, apresentado como
Aquele que alimenta e que dá vida ao “corpo de Cristo”; dessa forma, Ele
fomenta a coesão, dinamiza a fraternidade e é o responsável pela unidade desses
diversos membros que formam a comunidade.
Somos
membros de um único “corpo” – o corpo de Cristo – e é o mesmo Espírito que nos
alimenta, embora desempenhemos funções diversas (não mais dignas ou mais
importantes, mas diversas). No entanto, encontramos, com alguma frequência,
cristãos com uma consciência viva da sua superioridade e da sua situação “à
parte” na comunidade (seja em razão da função que desempenham, seja em razão
das suas “qualidades” humanas), que gostam de mandar e de fazer-se notar. Os
“dons” que recebemos não podem gerar conflitos e divisões, mas devem servir
para o bem comum e para reforçar a vivência comunitária. É preciso ter
consciência da presença do Espírito: é Ele que alimenta, que dá vida, que
anima, que distribui os dons conforme as necessidades; é Ele que conduz as
comunidades na sua marcha pela história. Ele foi distribuído a todos os crentes
e reside na totalidade da comunidade.
Caros
irmãos,
Assim,
no Evangelho(cf. Jo 20,19-23) encontramos a visão de São João de “exaltação”
de Jesus: é a realidade única de sua morte, ressurreição e dom do Espírito,
pois sua morte é a obra em que Deus é glorificado, seu lado aberto é a fonte do
Espírito para os fiéis.
Portanto,
este Espírito do Senhor exaltado é o laço de amor divino que nos une, que
transforma o mundo em uma nova criação, sem mancha, nem pecado, na qual todos
entendem a voz de Deus. É esta a mensagem da liturgia de hoje. O mundo é
renovado conforme a obra de Cristo, que nós, no seu Espírito, levamos adiante.
Assim é a festa da Igreja que nasceu do lado aberto do Salvador e manifestou
sua missão no dia de Pentecostes.
A
comunidade cristã só existe de forma consistente, se está centrada em Jesus.
Jesus é a sua identidade e a sua razão de ser. É n’Ele que superamos os nossos
medos, as nossas incertezas, as nossas limitações, para partirmos à aventura de
testemunhar a vida nova do Homem Novo. Identificar-se como cristão significa
dar testemunho diante do mundo dos “sinais” que definem Jesus: a vida dada, o
amor partilhado. As comunidades construídas à volta de Jesus são animadas pelo
Espírito. O Espírito é esse sopro de vida que transforma o barro inerte numa
imagem de Deus, que transforma o egoísmo em amor partilhado, que transforma o
orgulho em serviço simples e humilde… É Ele que nos faz vencer os medos,
superar as cobardias e fracassos, derrotar o cepticismo e a desilusão,
reencontrar a orientação, readquirir a audácia profética, testemunhar o amor,
sonhar com um mundo novo. É preciso ter consciência da presença contínua do Espírito
em nós e nas nossas comunidades e estar atentos aos seus apelos, às suas
indicações, aos seus questionamentos.
Meus
irmãos,
Com
a missão da Igreja colocada em relevo no dia de hoje, devemos aprender a ver os
sinais da presença do Espírito Santo e a valorização dos diferentes dons que
ele confere a diferentes pessoas. Na Igreja, de muitas faces e facetas, de
grandes diversidades na eclesiologia, reside a única missão: anunciar a PÁSCOA
e vivenciar em nós a maior comunidade de amor a partir da visão Trinitária.
Pentecostes
é festa da paz. Mas, para ter essa paz é preciso estar em estado de graça. Pelo
perdão de nossos pecados e de nossas atitudes, o Espírito age. Na diferença de
pessoas, de carismas, de modos eclesiais, todos somos convidados a vivenciar o
perdão como remédio que não deve faltar ao cristão, convocado a carregá-lo para
aliviar as doenças deste mundo confuso e necessitado de paz.
Paz
é a palavra de hoje. Paz, primeiro, em nossas comunidades eclesiais, paz na
Igreja, paz no mundo. Paz de consciência para a construção do amor e da
concórdia.
Por
isso, cantemos a seqüência “Veni Sancte Spiritus”, pedindo paz ao mundo:
“Espírito de Deus, enviai
dos céus um raio de luz!
Vinde, Pai dos pobres, daí aos corações vossos sete dons.
Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alívio, vinde!
No labor descanso, na aflição remanso, no calor aragem.
Enchei, luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!
Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele.
Ao sujo lavai, ao seco regai, curai o doente.
Dobrai o que é duro, guiai o escuro, o frio aquecei.
Daí à vossa Igreja, que espera e deseja, vossos sete dons.
Daí em prêmio ao forte, uma santa morte, alegria eterna. Amém!”.
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