VIII-REFLEXÃO DOMINICAL II
30 de março – 4º DOMINGO DA QUARESMA
Por Junior Vasconcelos do Amaral*
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“Provai e vedequão
suave é o Senhor”
I. INTRODUÇÃO GERAL
A
liturgia deste domingo da alegria destaca a misericórdia, o rosto de Deus em
Cristo e o semblante de renovação que este tempo simboliza, como significou
para a primeira leitura e para o Evangelho. A Igreja nos brinda com textos
lindos e, ao mesmo tempo, significativos. Deus ama seu povo e lhe concede uma
segunda chance; infinitas são as oportunidades que ele nos dá, pois nos ama. O
Evangelho lucano destaca a terceira parábola da misericórdia, que coroa o
tríptico da misericórdia em Lucas com um final alegre, pois a alegria é um dos
sentimentos e experiências que invadem o coração do cristão, tema marcadamente
lucano. A primeira leitura evidencia em Josué, líder carismático do povo, um
paradigma de renovação. O ato de o povo comer dos frutos da terra é sinal de
superação do passado recente, vivido na travessia, experiência traumática de
dor e dissabores. A chegada a Guilgal e a celebração da Páscoa mostram que
Páscoa é passagem, um momento transitório, e celebrar em Jericó e lá permanecer
é sinal de recomeço. A segunda leitura reforça que Cristo é o sentido da vida
do cristão: quem está nele é nova criatura, as coisas antigas já se passaram,
pois Cristo é ministro supremo da reconciliação. No Evangelho de Lucas, a
reconciliação constitui o tema central, sendo a parábola do Pai misericordioso
sinal de que todos somos chamados a nos reconciliarmos com Deus, que é suave e
bondoso.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Js 5,9a.10-12)
Josué é
protagonista secundário do livro intitulado com seu nome. O protagonista
primeiro é Deus, que realiza na história feitos inesquecíveis, marcados de
forma indelével na memória de seu povo. Deus mesmo diz a Josué (v. 9a): “Hoje
tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”. Trata-se de uma ignomínia, de um
insulto vivido durante 430 anos, tempo em que o povo permaneceu no Egito, sendo
escravo e desprezado. Essa carga histórica e negativa, Deus a livrará das
costas e da consciência de seu povo. Ele o ama e o quer livre para servi-lo. O
v. 10 situa o povo acampado em Guilgal, a leste de Jericó, lugar onde foi
erigido um monumento de pedra em comemoração da passagem dos israelitas pelo
rio Jordão (Js 4,20).
Guilgal
tornou-se um santuário e serviu como base para a conquista da Palestina (Jz
2,1; 1Sm 10,8; 13,8-15). Os profetas, contudo, rejeitaram-no, por ter-se
tornado um centro de idolatria (Am 4,4; Os 4,15; Mq 6,5). Havia outra
Guilgal, nas montanhas de Efraim, perto de Betel (Dt 11,30; 2Rs 2,1). Lá
celebraram a Pessach, a Páscoa, no dia quatorze do mês. O v. 11 afirma que, no
dia seguinte, comeram produtos da terra e ázimos, pães sem fermento – matzah,
em hebraico –, e ainda grãos tostados naquele mesmo dia. O v. 12 conclui
dizendo que, quando comeram produtos da terra, o maná cessou de cair. O maná
era dado cotidianamente por Deus, como dom de sua providência. Agora a maior
providência são os dons da terra, da liberdade, da graça, do amor
misericordioso de Deus. Naquele ano, o povo comeu do fruto da terra de Canaã.
O
teólogo por trás desse texto, ligado à teologia deuteronomista, quer dizer nas
entrelinhas que, se o povo se mantiver fiel, poderá fazer sua terra gerar vida,
pois é este o dom de Deus: conceder ao povo a terra da liberdade, da bondade e
do amor.
2. II leitura (2Cor 5,17-21)
A
segunda leitura estabelece conexão tanto com a primeira leitura, em relação à
liberdade verdadeira, como com o Evangelho, que traduz, nas palavras de Jesus
Cristo, a ação misericordiosa de Deus, sempre pronto para acolher e amar seu
povo, agora simbolizado no filho pródigo, reintroduzindo-o em sua morada
eterna, a qual será habitada por nós se vivermos, como esse filho, a
reconciliação para a qual o Senhor nos destinou. Essa reconciliação começa com
metanoia, com a mudança de pensamento, de atitudes.
Para
Paulo, a reconciliação consiste na nova realidade vivida e experimentada à luz
da nova criaturalidade, só alcançada por quem está em Cristo (v. 17). Viver em
Cristo constitui o “novo estado de vida”, a nova condição, a realidade renovada
e renovadora. Toda realidade, tanto humana como cósmica, é renovada: o mundo
antigo desapareceu. Para Paulo (v. 18), toda essa nova realidade nos vem de
Cristo, que reconciliou em si todas as coisas e conferiu a seu apóstolo o
ministério da reconciliação, do perdão e da paz.
O v. 19
é o ponto de convergência do antigo e do novo: “em Cristo, Deus reconciliou o
mundo consigo, não imputando aos homens sua falta”. Os v. 20-21 podem ser
considerados conclusivos: “Somos embaixadores de Cristo” e “Deus exorta por nós
mesmos [...]: deixai-vos reconciliar com Deus”; e ainda: “Aquele que não
cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós”. Para Paulo, a morte era
considerada remédio para o pecado e, desse modo, Cristo, morrendo por nós,
seria considerado um pecador, sem mesmo ter vivido essa nossa condição, por
acidente, de pecado. O termo final do v. 21 é que, em Cristo, somos todos
justificados, ou seja, alcançamos a justiça de Deus (em grego, dikaiosyne tou
Theou).
3. Evangelho (Lc 15,1-3.11-32)
A
narrativa do Evangelho deste dia constitui uma matéria redacional própria de
Lucas, não encontrada em nenhum outro Evangelho sinótico nem no Quarto
Evangelho (Jo). O fio condutor da parábola está ligado à temática da
misericórdia de Deus para com a humanidade, traduzida no binômio perda e
encontro, que as outras duas primeiras parábolas compreendem (Lc 15,4-7: ovelha
perdida/encontrada; 8-10: moeda perdida/encontrada). Em essência, o que esse
relato nos provoca é um desejo ardente de voltarmos nossa vida para Deus, nossa
origem, aquele que nos fortalece e é nosso destino (escatológico), por ser um
Pai pleno de misericórdia (em grego, splanchiniste).
As três
parábolas da misericórdia estão alinhavadas pelos v. 1-2, que contextualizam
quem são os ouvintes de Jesus, sejam os próximos a ele, sejam os que lhe são
antipáticos. Há um misto sentimento de hostilidade e de hospitalidade que se
contrapõe nesse cenário: os publicanos e pecadores se aproximam de Jesus para
escutá-lo (v. 1) e, em contrapartida, os fariseus e mestres da Lei só sabem
criticá-lo (v. 2): “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com
eles”.
O v. 3
afirma que Jesus contou a parábola, e o v. 11 a inicia, anunciando que um homem
tinha dois filhos. Então três são os principais personagens dessa parábola: o
primogênito, o irmão caçula e o pai. O v. 12 apresenta um problema, um nó: o
filho mais novo demanda sua parte da herança ao pai, que, então, dividiu os
bens entre eles. Não é um cenário tipicamente hebraico, pois, para o mundo
semita, o filho primogênito é sempre aquele que, após a morte de seu pai, herda
grande parte dos espólios. Trata-se de uma parábola, e o poder criativo é
daquele que a propõe, o narrador, que, nesse exato momento, é Jesus. O v. 13
afirma que, dias depois, esse filho jovem juntou o que era seu e foi para um
lugar distante. Lá ele esbanjou tudo em uma vida desregrada (em grego, zon
asótos), entendida como pródiga, de gastos desenfreados. O v. 14 frisa que,
depois de ter gasto tudo o que possuía, houve fome em sua região, e ele começou
a sentir fome, que em grego é o termo ustereisthai, traduzido por necessidade.
A raiz desse termo é usterei, donde vem o termo “histeria”, traduzido por “uma
grande falta”.
Os v.
15-16 expressam um problema, um nó, o que o filho mais novo teve de fazer para
sanar tal crise: procurar emprego, lidar com porcos (atividade proibida para um
judeu), a ponto de cogitar comer da comida dada a eles, mas até isso lhe era
negado. Os v. 17-19 apresentam uma ação transformadora: em resumo, lembrou-se
de como os servos de seu pai eram criados, caiu em si (tomou consciência de seu
erro: ter-se perdido) e propôs-se voltar (deixar-se reencontrar). Ele voltará e
dirá ao pai que já não merece ser seu filho, deixando ao pai uma decisão: o
reconhecimento da paternidade.
Os v.
20-21 tornam-se o clímax da narrativa: ele volta e o pai o avista de longe,
sente compaixão (splanchinistei) e corre (atitude atípica para um homem maior
de idade). O filho, em seguida, diz o porquê de seu retorno: ter pecado contra
Deus e contra seu pai. Ele mesmo se julga indigno de filiação. O desenlace da
narrativa é imediato: o pai concede ao filho uma resposta não verbal, expressa
em atitudes (v. 22): túnica, anel, sandálias novas, novilho gordo para a festa.
Em seguida, explica aos empregados (v. 24): “porque este meu filho estava morto
e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”, começando a festa.
Os v.
25-30 reapresentam um nó: o ciúme do filho primogênito, que se indigna com tal
situação, fica com raiva e não quer entrar para a festa (v. 28), embora o pai
insistisse com ele. O diálogo é intenso e difícil: na verdade, é mais esse
filho o acusador do caçula, a ponto de dizer que ele teria esbanjado seus bens
com as prostitutas (v. 30). O pai, em sua autoridade, conclui a cena, levando-o
a entender sua compaixão: em primeiro lugar, ele está sempre com seu pai; além
disso, deve saber que tudo o que é do pai é de seu primogênito também (v.
31-32). É deveras importante comemorar, pois esse “teu irmão estava morto e
tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (repetição do v. 24). A
reticência da compaixão vence a disputa de braço com o legalismo endurecido do
filho primogênito e o seu sentimento de não pertença ao pai. A misericórdia,
nessa parábola, é a graça do amor de Deus, que nos atrai novamente para ele: de
perdidos a encontrados, de mortos a ressuscitados.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Levar a
comunidade a compreender que o pecado é realidade que acidentalmente faz parte
de nossa condição: somos inclinados ao pecado, porém a graça salvífica de Deus
é muito superior. “Pecar é humano, perdoar é divino.” Perceber que a comunidade
cristã, a Igreja, é embaixadora de Cristo, que veio trazer a salvação, e não a
condenação à humanidade. Cabe-nos acolher os que pecam e ajudá-los a seguir no
caminho certo, pois também nós nos desviamos do caminho e outros já agiram com
misericórdia para conosco. Por fim, providenciar, em um momento da semana, um
momento penitencial, seja para confissões sacramentais, seja para celebrações
penitenciais, que ajudem no processo de conversão próprio deste tempo de
exercícios quaresmais.
Junior
Vasconcelos do Amaral*
*é presbítero da arquidiocese
de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da
Esperança (Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia
e Teologia (Faje), realizou parte de seu doutorado na modalidade “sanduíche”,
estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain
(Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor do Departamento de
Teologia e do Programa de Pós-Graduação “Mestrado Profissional em Teologia
Prática” na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisas sobre análise
narrativa, sobre Bíblia e psicanálise e sobre teologia pastoral. E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/30-de-marco-4o-domingo-da-quaresma-2/]