4.2-
8 de novembro – 32º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Ir. Dra. Izabel Patuzzo*
Vigiai
e estai preparados!
INTRODUÇÃO
GERAL
Em sintonia com a
proximidade da conclusão do ano litúrgico, as leituras deste domingo nos
convidam à vigilância. O tema da segunda vinda do Senhor, que perpassa as
leituras, ressalta a importância de caminharmos sempre atentos às manifestações
de Deus em nossa vida. A primeira leitura nos apresenta o dom da sabedoria
divina, concedida ao ser humano como manifestação da gratuidade de Deus. O
Criador não guarda sua sabedoria para si, mas a compartilha com o ser humano, a
fim de iluminar sua vida e conduzi-lo ao caminho da felicidade. Na segunda
leitura, Paulo dirige-se à comunidade dos cristãos de Tessalônica, assegurando
que Cristo virá uma segunda vez para concluir sua obra redentora e inaugurar a
última e definitiva etapa da história da salvação. Aqueles que permanecerem
fiéis à fé cristã irão experimentar esse encontro definitivo com Ele. O
Evangelho nos recorda que somos convidados a estar sempre preparados para a
vinda do Senhor. O discípulo de Jesus é vigilante em sua fé, por isso está
atento às manifestações de Deus em sua vida.
1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Sb 6,12-16)
O livro da Sabedoria
pertence ao gênero da literatura sapiencial do Antigo Testamento, a qual forma
a última parte dos escritos veterotestamentários. A literatura sapiencial
reinterpreta a Lei mosaica com a sabedoria da longa tradição do povo de Deus,
que aprendeu a tomar lições da história. Esse livro nasce das comunidades dos
fiéis em situação de diáspora, convivendo com outras culturas. O contato com
outros povos, por um lado, ampliou a sabedoria, o conhecimento do povo judeu;
por outro, alertou-o sobre o perigo da idolatria, dos costumes que poderiam pôr
em risco sua identidade de povo escolhido, chamado a caminhar sob as diretivas
da Lei de Deus.
O texto proposto para a
liturgia deste domingo pertence à segunda parte do livro da Sabedoria,
atribuindo a Salomão um elogio à sabedoria. Evidentemente, na época em que o
livro foi composto, por volta do século I a.C., o reinado de Salomão já era
conservado apenas na memória, por vários séculos. A sabedoria desse rei foi
apenas superficial, pois se deixou levar pela idolatria e se distanciou da Lei
de Deus. Por isso, o autor do livro da Sabedoria faz um convite à comunidade
dos fiéis a tirar lições da história e buscar a arte do bem viver. A sabedoria,
na visão bíblica, consiste em adotar um conjunto de princípios práticos, uma
conduta ético-moral deduzida da longa experiência como povo consagrado a Deus.
Os Mandamentos precisaram ser atualizados e ampliados em um conjunto de leis
que respondessem aos novos desafios, mas, em sua essência, tinham como objetivo
proporcionar à comunidade dos fiéis uma vida ordenada, justa, equilibrada,
garantindo o futuro de Israel. Para o povo escolhido, as diretivas divinas são
a fonte de toda sabedoria. Portanto, é sábio todo aquele que põe em prática a
Lei de Deus, enriquecida com a experiência de vida preservada na tradição.
2. II leitura (1Ts 4,13-18)
Segundo os relatos
apresentados no livro dos Atos dos Apóstolos, a permanência de Paulo em
Tessalônica foi muito breve. Contudo, a comunidade local acolheu o anúncio da
Boa Notícia com grande prontidão, respondeu com grande fervor e entusiasmo ao
Evangelho pregado por Paulo. Por isso, o apóstolo acompanha o crescimento espiritual
dos cristãos de Tessalônica com grande preocupação. Sentindo a necessidade de
um aprofundamento catequético, sobretudo porque foram postos à prova pela
sinagoga dos judeus, Paulo envia Timóteo para assistir pastoralmente os
tessalonicenses.
Uma questão teológica
que deixou muitas dúvidas nos cristãos da comunidade dizia respeito à segunda
vinda de Jesus Cristo, no fim dos tempos. Essa doutrina não havia sido bem
compreendida na primeira pregação de Paulo. Alguns acreditavam que tal vinda
era iminente, enquanto outros a concebiam como realidade de um futuro muito
distante. Essa dúvida teve impacto na vida dos cristãos. Paulo exorta a
comunidade a não se preocupar com o tempo da vinda do Senhor, e sim em viver
uma vida segundo o Evangelho, pois essa é condição fundamental para alcançar a
salvação.
3. Evangelho (Mt 25,1-13)
A parábola das dez
virgens aparece no contexto dos últimos ensinamentos de Jesus aos discípulos
antes de sua paixão, morte e ressurreição. O relato se insere no final da
caminhada para Jerusalém, quando Jesus está prestes a entrar na cidade, pouco
antes de seu julgamento. Todo o capítulo 25 de Mateus é chamado de o último
discurso escatológico. A narrativa apresenta o juízo final na perspectiva
teológica do evangelista e de sua comunidade. A atitude fundamental das
personagens é a preparação para a vinda do Senhor.
O Evangelho segundo
Mateus foi escrito depois dos meados do século I d.C. – portanto, quando os
cristãos já não esperavam a vinda iminente do Senhor. A comunidade seguia
despreocupada com uma possível segunda vinda de Jesus Cristo. Essa compreensão
escatológica do fim dos tempos contribuiu para a instauração de um espírito de
acomodação em muitos membros da comunidade. A parábola, então, chama a atenção
dos fiéis, pois, embora ninguém saiba quando o Senhor virá, é preciso que cada
um leve uma vida de compromisso, de vigilância, à espera do Senhor, como se ele
pudesse vir a qualquer momento.
O evangelista Mateus faz
verdadeira catequese com essa parábola, aludindo ao casamento, para recordar
aos discípulos e discípulas a Nova Aliança selada com Jesus. Por isso, o relato
apresenta um cenário de casamento, com rituais típicos dos costumes judaicos.
Segundo a cultura judaica daquele tempo, a cerimônia começava com a preparação
da noiva, que esperava a vinda do noivo para levá-la para a casa onde iriam
habitar juntos. Esses preparativos envolviam as famílias de ambos os noivos,
parentes e amigos. Desse modo, a preparação e o cumprimento dos papéis de cada
um no cerimonial eram extremamente importantes. Mateus usa dessa metáfora para
comparar como deve ser a preparação do(a) discípulo(a) para o encontro
definitivo com o Senhor. Esse encontro deve ser bem preparado, para se realizar
na alegria, como a de um casamento. A comunidade fiel espera pelo encontro com
o Senhor com muita expectativa, com ansiedade pela chegada do Messias. As
virgens imprudentes representam aquelas pessoas cuja fé e compromisso
esmoreceram, que perderam o entusiasmo, caíram no desânimo e já não têm
vivacidade para o encontro pessoal com Jesus no cotidiano.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Podemos nos interrogar:
que sentido ainda tem essa parábola para nós, em nossa vivência comunitária
atual? Nossa comunidade encontra-se em um contexto muito diferente do da
comunidade de Mateus, mas também experimentamos momentos de envolvimento
entusiasta e, às vezes, de desencantamento, sobretudo quando as dificuldades
nos levam a perder a alegria e a inspiração para um engajamento mais pleno. As
tribulações da caminhada, os atrativos de outras atividades fora da comunidade,
as preocupações familiares e de trabalho podem nos afastar do caminho de um
discipulado mais comprometido.
As leituras nos recordam
que os discípulos e discípulas sábios são aqueles que vivem na esperança, como
nos indica a segunda leitura. Atualizando a narrativa evangélica, são aqueles
que dão valor a cada oportunidade de preparar bem o encontro definitivo com
Deus, estabelecendo prioridades, fazendo tudo bem-feito, como as virgens que se
preparam bem para a chegada do noivo e para a celebração da festa do encontro.
Ir. Dra. Izabel Patuzzo*
*Ir. Izabel Patuzzo pertence à Congregação Missionárias da
Imaculada. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e
em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção.
Doutora em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
E-mail: isabellapatuzzo@hotmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/8-de-novembro-32o-domingo-do-tempo-comum-2/