4.2- HOMILIA DO 23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A
A
CARIDADE É O PLENO CUMPRIMENTO DA PALAVRA DE DEUS
“Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão”. (Mt.
18,15)
Amados(as) irmãos e irmãs.
A liturgia deste domingo nos convida a refletir sobre a nossa responsabilidade
diante dos irmãos com os quais partilhamos a fé. Pois na fidelidade à Palavra e
na coerência da fé, percebemos que não podemos ficar indiferentes diante
daquilo que ameaça a vida e a felicidade de um irmão e que todos somos
responsáveis uns pelos outros.
No evangelho de hoje, Mateus apresenta uma catequese de Jesus sobre a
experiência de vida em comunidade. Às vezes nos perguntamos se as primeiras
comunidades cristãs eram perfeitas ou tinham tantos problemas como nossas
comunidades atuais. A esta nossa inquietação, o evangelho responde mostrando
que a comunidade de Mateus era normal e muito parecida com as nossas. Nas
primeiras comunidades existiam conflitos entre os grupos e movimentos e também
problemas de convivência: existiam irmãos que se julgam superiores aos outros e
que buscavam ocupar os primeiros lugares; irmãos que tinham atitudes
prepotentes e que escandalizam e humilhavam os pobres e os fracos; irmãos que
magoavam e ofendiam outros membros da comunidade e que tinham dificuldade de
perdoar as falhas dos outros. Preocupado com isto, Mateus convida os
cristãos viver com simplicidade e humildade, promovendo o acolhimento dos
pequenos, dos pobres e dos excluídos, o perdão e o amor.
A catequese de Jesus apresentada hoje, deseja responder estas perguntas: Como é
que os irmãos da comunidade devem agir diante de quem errou e causou conflito?
Quem pecou ou errou deve rapidamente ser condenado e excluído? Os ensinamentos
dados por Jesus, mostram que decisões apressadas e radicais não devem fazer
parte de sua comunidade. A comunidade cristã é uma família, por isto sempre
será preciso resolver o problema usando prudência, bom senso, maturidade,
moderação, complacência e principalmente, com amor.
A primeira
leitura (Ez. 33,7-9) nos apresenta o profeta Ezequiel como
responsável pela comunidade de Israel. Ele é um guardião, uma sentinela, que
Deus colocou para vigiar a cidade dos homens. Sendo chamado a ser responsável,
o profeta deve estar atento a tudo que pode atrapalhar os planos de Deus. Como
sentinela, prudentemente deve alertar, então, a comunidade sobre os perigos.
Caso seja omisso e prefira silenciar fingindo não perceber a presença do pecado
no seio da comunidade, o profeta correrá o perigo de perder sua vocação e se
tornará ele também sinal do pecado e do desvio. Pelo Batismo, todos nós somos
profetas. Recebemos do nosso Deus a missão de denunciar que certos caminhos e
contravalores que o mundo apresenta são prejudiciais para a humanidade. Como o
profeta, não podemos nos acomodar, pois o nosso silêncio diante do pecado e das
situações de injustiça nos tornará cúmplices daqueles que destroem o mundo e
que condenam ao sofrimento e à miséria os mais fracos e oprimidos.
Todavia, o desejo de ser fiel a nossa vocação profética, não deve nos tornar
legalistas ou radicais no sentido de colocar as regras e normas acima de Deus e
dos próprios seres humanos. Ser responsável não significa ser a régua ou o
chicote do mundo sempre pronto a agir bruscamente para reconduzir o coração do
outro como quem conduz um animal a chicotadas. Em nossos dias proliferam
“influencers digitais cristãos” que vivem comodamente em seus estúdios de
gravação enquanto vomitam ferozmente regras e mandamentos. Tais intervenções
destes influencers carecem da verdadeira força motriz cristã, pois suas
exortações são sempre guiadas por ameaça de condenação ao inferno e não pelo
receio de perder a graça de Deus. Suas orientações ainda que bem intencionadas,
por não serem imbuídas de Caridade, acabam por afastar quem já está perdido
pelo meio do caminho da salvação. Quem nos salvou na Cruz foi o amor de Cristo,
não o medo do inferno.
Devemos também evitar cair nas mesmas
atitudes hipócritas dos fariseus que se julgavam superiores por terem as leis
decoradas na cabeça, mas não praticavam nada. Por conseguinte, São Paulo, na segunda leitura (Rm. 13,8-10),
ensina que quem deseja cumprir plenamente a Lei deve construir toda a sua vida
alicerçada no Amor/Caridade. O cristianismo sem amor se torna uma mentira. A
doutrina sem a Caridade se torna um fardo pesado. Os cristãos não podem nunca
deixar de amar os seus irmãos. No mandamento do amor, resume-se toda a Lei. Já
dizia Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se
gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares,
perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o
amor serão os teus frutos”.
Tendo o Amor – apresentado e vivido em perfeição por Jesus Cristo – , como base
para sua decisão e ação, o cristão será capaz de seguir os passos que o Mestre
apresenta na catequese do Evangelho de hoje (Mt. 18,15-20). Como proceder quando
alguém da comunidade vacila e cai no pecado? O caminho
certo não é falar mal por trás, comentar a falha do outro e nem espalhar
boatos, Fake News (mentiras, notícias falsas) ou caluniar e difamar. A decisão
certa é um encontro honesto, sereno e compreensivo com o irmão que pecou ou lhe
ofendeu. Caso esta tentativa de reconciliação falhe, deve ser feita uma segunda
tentativa. Essa nova tentativa deve contar com o auxílio de outros irmãos (“toma contigo uma ou duas
pessoas” (Mt. 18,16) que, com serenidade e prudência,
sejam capazes de fazer o desobediente perceber que seu comportamento prejudica
a comunidade. Se não obtiver ainda a reconciliação, a comunidade será então
chamada a confrontar o irmão desobediente, para lhe recordar as exigências da
fé cristã e a pedir-lhe uma decisão. Se mesmo assim, o irmão insistir no
seu comportamento errado, a comunidade terá que reconhecer, com dor, que este
irmão está decidido a não mais fazer parte da Unidade, da Comunhão que
constitui a comunidade.
O evangelho de hoje tem muito a ensinar a nossa sociedade atual que prefere
julgar e condenar apressadamente tendo como base, muitas vezes, boatos
infundados, mentiras e notícias falsas. Também tem muito a ensinar as famílias
atuais que pensam que amar significa se calar ou esconder o erro ou pecado de
nossos filhos. Isto pode levar eles a crescer achando que os erros cometidos
não fizeram mal nenhum. Lembramos aqui novamente Santo Agostinho que nos exorta
dizendo que “a
Verdade deve ser dita com Amor, mas o Amor nunca pode impedir a Verdade de ser
dita”. Deste modo percebemos a nossa responsabilidade em ajudar
cada irmão a tomar consciência dos seus erros.
Assim, somos convidados a respeitar o nosso irmão, mas não a ficar calados com
as atitudes erradas. Amar alguém significa não ficar indiferente quando ele
está fazendo mal a si próprio e a comunidade. Significa, muitas vezes,
corrigir, aconselhar, questionar, discordar etc. Na nossa vida precisamos amar
e respeitar o outro, mas amar não exige que concordemos em tudo com ele, pois
uma hora iremos lhe fazer observações que o irão magoar. No entanto, trata-se
de uma exigência que resulta do mandamento do amor.
Novamente lembramos que não somos fariseus, logo a nossa intercessão junto do
nosso irmão não deve ser guiada pelo ódio ou rivalidade, pela vingança, pelo
ciúme ou pela inveja, mas deve ser unicamente guiada e alimentada pelo amor.
Normalmente os momentos de correção podem ser permeados por emoções como
nervosismo, tensão, receio ou temor. Tais emoções podem dificultar ou
atrapalhar o bom resultado do encontro. Todavia, os últimos versículos do
evangelho de hoje lançam uma luz que pode iluminar a condução deste momento e
pavimentar o recomeço da relação fraterna que havia sido fraturada pelo
desentendimento. Não importam onde estejamos ou quantos formos, se nos
reunirmos guiados pela Caridade, Jesus Cristo se fará presente em nosso meio e
haverá a comunidade novamente a Unidade do seu amor.
Rezemos: Nós Te damos graças,
Deus de amor, pela Lei viva que nos deste em Jesus Cristos e pelos teus
profetas enviados em todo o tempo como sentinelas, para vigiar o nosso caminho
e para nos guiar. Nós Te pedimos por todas as nossas comunidades cristãs, que a
tua Palavra, fruto do teu Espírito Santo, nos purifique das más condutas que
prejudicam nosso testemunho e ferem a dignidade humana. Amém.
Pe. Paulo Sérgio Silva
Paróquia Nossa Senhora da
Conceição – Farias Brito.
https://diocesedecrato.org/homilia-do-23o-domingo-do-tempo-comum-ano-a/
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