9- SANTO AGOSTINHO E AS SAGRADAS ESCRITURAS
Como ler as escrituras: ensinamentos de Santo Agostinho
Quantas vezes você sentou para ler uma passagem da Escritura e
apenas se perdeu no que estava acontecendo? Ou, diante de uma passagem
polêmica, você já se perguntou como ela poderia ser inspirada por um bom e
amoroso Deus? Nós todos temos maus encontros com a Escritura, os quais não
fazem sentido ou parecem errados de alguma forma. E muitas pessoas rejeitam ou
fogem da fé devido a uma má experiência com a Escritura.
De fato, essa foi a experiência do Grande Santo Agostinho
(354-420), que celebramos no dia 28 de agosto. Agostinho lutou contra a
Escritura cedo em sua formação intelectual e inicialmente a rejeitou. E ele
teve uma redescoberta da Escritura por meio de outro santo que o levou a se
converter ao Cristianismo. As experiências e insights de Agostinho podem nos ajudar
hoje, já que ainda temos problemas para entender como a bíblia foi escrita e
como ela deve ser lida.
No Livro III das suas famosas Confissões, ele fala do tempo em
que era um estudante de 19 anos. Ele leu Hortênsio, uma das obras de Cícero,
que exaltou a perseguição da sabedoria por meio da filosofia. Isso mudou a sua
vida. Ele começou a procurar por conhecimento. E isso o levou a ler a Escritura
para ver se a sabedoria pela qual ele ansiava poderia ser encontrada lá.
Seja paciente
No entanto, Santo Agostinho saiu desse estudo inicial da
Escritura insatisfeito. Ele disse que, depois de ler as “dignas prosas” de
Cícero, o estilo simples e comum da bíblia ofendeu os seus gostos e pareceu
diminuir as afirmações de que a bíblia era intelectualmente sofisticada.
Agostinho esperava que a sabedoria de Deus Todo-Poderoso deveria ser
apresentada de uma forma eloquente e filosófica. O fato de que a bíblia foi
escrita com estilo e filosofia pobres pareceu para ele que não continha a
verdadeira sabedoria. Através da história, vários se sentiram da mesma forma.
Ainda, a Agostinho foi dada uma segunda chance e ele voltou à
Escritura por meio da pregação de Santo Ambrósio. Essa pregação o fez pensar
que haveria mais na bíblia do que sua aparência sugeria.
À medida que Agostinho refletia sobre sua experiência prévia,
ele atribuía sua rejeição à Escritura ao orgulho e ignorância, escrevendo: “meu
orgulho exacerbado me afastou do seu estilo (da bíblia) e minha inteligência
falhou em penetrar no seu sentido mais profundo”.
Ele observou que a
Escritura “não é acessível ao escrutínio do orgulhoso ou se expõe ao olhar do
imaturo”. Ainda, a Escritura é um texto que se apresenta como “pequeno” para
que possa ser lido pelos que possuem espírito de criança e os humildes. Ao longo do tempo,
sua profundidade se torna aparente àqueles que pacientemente estudam suas
páginas.
Seja humilde
Em algum ponto, ou talvez sempre, nós nos sentimos como
Agostinho quando leu a Escritura pela primeira vez. Nós chegamos à Escritura animados
para ler a Palavra de Deus, mas saímos sentindo que ela é “superestimada”. A
Escritura pode ser tão desapontante, tão frustrante, tão antiga, tão bizarra e
tão confusa. E nós nos perguntamos: é realmente a Palavra de Deus? Um livro
inspirado por Deus não deveria ser mais sofisticado, mais claro, mais animado,
mais interessante, mais convincente, mais fático, mais científico, mais
relevante?
Agostinho também nos dá um caminho para diagnosticar nosso
desapontamento. Ele nos diz que a Escritura é escrita de uma forma a
desencorajar ou frustrar os orgulhosos, ao mesmo tempo que é acessível a
pessoas comuns e deliciosa para os humildes e com espírito de criança. Se nós
refletirmos nessa observação, nós poderemos dizer algumas coisas que podem
melhorar como nos aproximamos das páginas sagradas.
Agostinho nos diz que, se nós abordarmos a Escritura com
orgulho, nós a rejeitaremos prematuramente, mas se nós a abordarmos com
humildade, nós a daremos o benefício da dúvida e, então, teremos tempo
suficiente para começar a ver a sua profunda integridade. Aqui, Agostinho nos
ajuda a ver que, enquanto nós temos várias expectativas sobre o que Deus é e
como Ele se comunica conosco, essas noções muito provavelmente foram
distorcidas pelo pecado. Nós podemos pensar que a revelação de Deus deve ser
elegante, sofisticada, e só entendida por acadêmicos que podem dissecar cada
palavra. Mas, Deus, com certeza, veio para a Terra como um bebê em uma humilde
manjedoura, nascido de pais pobres e camponeses. Se nós quisermos conhecer a Deus e
suas prioridades, nossa mente deve ser convertida da preocupação do mundo com o
sucesso, conveniência e prazer. A forma como Deus fala conosco na Escritura é
um dos caminhos que Deus tenta nos curar do nosso orgulho.
Obstáculos à
humildade
Agostinho está ciente do fato de que o orgulhoso vai à Escritura
buscando uma auto-justificativa. Existem aqueles que pensam que Deus ou a fé
cristã é boba e lêem a Escritura para confirmar a sua suspeita. Com certeza,
eles vão encontrar aparentes inconsistências, falta de plausibilidade ou
absurdos. Eles vão rapidamente descartar a Escritura e perder a sua riqueza e
profunda coerência.
Outros, que são entusiastas para usar o Cristianismo como forma
de se sentir superior aos demais, vão à Escritura para serem vistos como
virtuosos ou como especialistas religiosos ou para encontrar um segredo que
apenas eles seriam inteligentes o suficiente para descobrir. Eles provavelmente
vão dispensar professores e formadores à medida que se sentirem capazes de
serem especialistas por conta própria. Eles vão usar a Escritura não como um
meio para encontrar Deus e crescer em santidade, mas como uma arma a ser usada
contra aqueles que querem desprezar e repreender. Mas a sua leitura da
Escritura vai ser superficial e eles também vão perder a profunda grandiosidade
da Escritura. Eventualmente, eles também se sentirão frustrados com a humildade
da Escritura.
Um humilde, com espírito de criança, no entanto, vai dar à
Escritura tempo. Ele ou ela vai ser paciente e agir como um aprendiz. Ele ou
ela vai enxergar as aparentes dificuldades da Escritura, não como um indicador
da sua inferioridade, mas como limitação do leitor. Leitores humildes vão
memorizar a Escritura, como Agostinho recomenda, e sua familiaridade vai
ajudá-lo a fazer conexões e detectar sutis padrões. Eles vão ver que o Espírito
Santo traz a Escritura à mente em tempos de tentação. Eles vão procurar
recolher tudo que puderem da Escritura, ao invés de usá-la como um inflamador
do seu ego.
Designada para
nos fazer santos
Aqui nós também devemos reconhecer o que Agostinho nos diz
no livro que se tornou o manual sobre como ler a Escritura na Idade Média.
Chamado “Ensinando o Cristianismo”, seu maior ponto é que o objetivo da Escritura é crescer em
amor a Deus e amor ao próximo, já que esses são os dois mandamentos que Jesus
diz que resumem toda a Escritura (Mt 22, 36-40). Deus
escreve a Escritura de uma forma a nos dar a opção de escolher se Ele vale ou
não o nosso tempo. Ele nos dá, nos quebra-cabeças da Escritura, a oportunidade
de confiar nEle e de desejar aprender dEle, nos Seus termos, mais do que
apressá-Lo e demandá-Lo a realizar nossas expectativas e responder às nossas
questões.
Além disso, nossa paciência com o texto bíblico se torna uma
forma de amar o nosso próximo, especificamente, os autores humanos da
Escritura. Nós podemos ter todas as razões para desprezá-los. Nós podemos ser
melhores escritores. Nós podemos ser mais educados. Nós podemos ter um
conhecimento científico do universo. Nós podemos ter todas as formas de
tecnologia para nos ajudar a guardar detalhes. Mas a humildade frente à
Escritura significa confiar nos autores humanos até na sua pobreza. Isso
significa estender a eles caridade e ser obedientes estudantes frente aos
professores escolhidos por Deus.
O que Santo Agostinho nos ajuda a entender é que ler a Escritura
é um exercício de caridade. A Escritura não é confusa e difícil acidentalmente.
Pelo contrário, é deliberadamente escrita de uma forma que requer que saiamos
de nós mesmos e aprendamos de Deus e seus profetas e apóstolos. Em relação à
pobreza do texto, também aprendemos a sermos pobres, aprendemos a sabedoria de
Deus, que a sabedoria do mundo considera loucura (veja 1 Cor 3, 18-23). Quando
nós lemos a Escritura e a achamos frustrante, nós devemos rezar para um
crescimento na fé e caridade. Nós devemos nos ligar à Escritura e continuar
dando o benefício da dúvida. Assim, como Santo Agostinho (e todos os santos)
descobriu, a Escritura tem camadas de significado e é útil para a santidade.
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Autor: Dr. James R. A.
Merricck
Diretor da Emmaus
Academic, além de servir na St. Paul Center for Biblical Theology e professor
no departamento de teologia da Franciscan University of Steubenville.
Fonte: Ascension
Press
Traduzido por Maria Augusta
Viegas – Membro da Rede
de Missão Campus Fidei.
https://campusfidei.org.br/blog/como-ler-as-escrituras-ensinamentos-de-santo-agostinho/
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