7-Maternidade: A Modernidade e o Desafio de Ser Mãe no Brasil Atual
Natalia
Marques
Psicóloga, Coach,
Mentora e Palestrante
http://www.nataliamantunes.com.br/
Descubra como as desigualdades sociais moldam a experiência de ser mãe
no Brasil, afetando escolhas, oportunidades e perpetuando ciclos entre
gerações. Entenda por que transformar essa realidade é urgente para garantir
justiça social e um futuro mais humano.
A maternidade, enquanto experiência humana universal, é vivida
de formas profundamente distintas de acordo com o contexto socioeconômico em
que as mulheres estão inseridas.
No Brasil, as desigualdades sociais impactam diretamente o
momento, as condições e o significado da maternidade.
Se analisarmos comparativamente como as mulheres das classes
menos favorecidas e das classes mais altas vivenciam a maternidade, temos que
considerar fatores como planejamento reprodutivo, acesso à saúde, apoio
institucional, construção de identidade materna e da sociedade.
Entre as mulheres de baixa renda, a maternidade costuma ocorrer
de forma precoce, muitas vezes ainda na adolescência. Esse fenômeno está
relacionado à falta de acesso a informações sobre sexualidade e contracepção, à
precariedade dos serviços de saúde reprodutiva e à influência de normas
culturais que associam o valor feminino à maternidade. Em muitos casos, a gravidez
não é uma escolha deliberada, mas resultado de um contexto marcado pela
ausência de oportunidades educacionais e profissionais.
Além disso, o suporte do Estado é frequentemente insuficiente
para atender às necessidades dessas mães, que enfrentam dificuldades para
concluir os estudos, inserir-se no mercado de trabalho e garantir o bem-estar
de seus filhos. A maternidade, nesse cenário, pode representar tanto uma
sobrecarga quanto uma forma de status social e pertencimento comunitário.
Por outro lado, pode trazer no seu bojo famílias disfuncionais,
mães com filhos de diferentes pais, que não assumem a paternidade. Filhos que,
se não desenvolverem a resiliência com os constantes desalentos da vida, podem
se conduzir por caminhos tortuosos, de muito sofrimento, poucas oportunidades e
repetir a história dos seus progenitores.
Ainda vemos, nas classes menos favorecidas socioeconomicamente,
mães que assumem toda a responsabilidade na criação de seus filhos e transmitem
valores, que produzem cidadãos que avançam em níveis de educação e trabalho
nunca alcançados pela progenitora. Vemos muitos exemplos de profissionais que
se formaram em universidades, com mães de instrução básica e empregos menos
valorizados pela sociedade (mesmo que sejam fundamentais).
Verifica-se que as mulheres das classes menos favorecidas
enfrentam obstáculos que as expõem a riscos físicos, emocionais e sociais. Por
outro lado, mulheres de classes altas acumulam condições favoráveis para
exercer a maternidade de forma planejada e assistida.
A diferença não está apenas no momento da gravidez, mas em todo
o processo de ser mãe. Ela se manifesta no acesso ao pré-natal, no tipo de
parto, na possibilidade de amamentação, no tempo dedicado aos filhos e nos
recursos disponíveis para garantir seu desenvolvimento. Assim, a maternidade
funciona, muitas vezes, como um mecanismo de perpetuação da desigualdade social
entre gerações.
O acesso ampliado à educação superior fez com que as mulheres
passassem mais tempo estudando, independentemente do nível socioeconômico. Faz
com que elas priorizem a carreira, ter estabilidade financeira antes de pensar
em ter filhos, o que naturalmente atrasa planos familiares.
Geralmente, nas classes média e alta, observa-se um aumento
da maternidade tardia.
Trata-se de um tema cada vez mais relevante nas sociedades
contemporâneas, especialmente em países onde o acesso à educação e ao mercado
de trabalho pelas mulheres aumentou significativamente.
O termo se refere, geralmente, à escolha (ou condição) de engravidar
após os 35 anos. Essa é uma fase da vida em que, tradicionalmente, a
fertilidade começa a declinar. Ainda assim, muitas mulheres optam por viver a
maternidade devido a diversos fatores.
Os casamentos e uniões estáveis estão ocorrendo mais tarde, com
o adiamento dos relacionamentos duradouros, a maternidade também é adiada.
Algumas mulheres escolhem não ter um parceiro ou optam por
produzir uma maternidade solo e planejada.
A natureza é sabia: a quantidade e qualidade dos óvulos diminuem
com o tempo. Mulheres entre 35 e 39 anos já enfrentam maior dificuldade para
engravidar espontaneamente. Depois dos 40 anos, as chances de engravidar
diminuem e os riscos aumentam. A ciência surge como aliada para que as mulheres
possam optar por uma maternidade tardia. Já existe a opção de congelamento de
óvulos, banco de espermas e a inseminação artificial.
A opção pela adoção envolve compreender que se trata de uma
forma legítima, consciente e, muitas vezes, transformadora de exercer a
maternidade. O vínculo entre mãe e filho não nasce da gestação biológica, mas
da decisão voluntária de acolher e cuidar. Além disso, pode estar
associada a uma realização planejada. A adoção pode ser exercida por qualquer
pessoa, independentemente da sua orientação sexual.
A forma como uma empresa trata a maternidade de suas
colaboradoras é um indicativo direto de sua maturidade social.
Embora existam avanços, ainda há uma cultura corporativa
resistente (discriminação velada, assédio moral, estigma) à ideia de que as
mulheres podem ser excelentes profissionais e mães ao mesmo tempo. Mudar essa
mentalidade não é apenas uma questão de justiça de gênero. Trata-se também de
estratégia empresarial: ambientes inclusivos retêm talentos, aumentam a
produtividade e refletem valores humanos essenciais.
Um relatório da GPTW (Great Place to Work) de 2022 apontou que
apenas cerca de 30% das empresas brasileiras oferecem políticas de apoio
ampliado à maternidade, como licença-maternidade estendida, sala de amamentação
ou flexibilidade de horário.
No mundo, segundo dados da OIT (Organização Internacional do
Trabalho), cerca de 40% das empresas em países desenvolvidos oferecem algum
tipo de apoio além do mínimo legal. Esse número é bem menor em países em
desenvolvimento, muitas vezes abaixo de 20%.
Licença parental igualitária ainda é raro.
Menos de 10% das empresas globais têm políticas de licença igual
para mães e pais, algo que favoreceria a igualdade de gênero no trabalho e
reduziria o estigma da maternidade.
Na modernidade em que vivemos, ainda compreender as distintas
realidades da maternidade no Brasil exige sensibilidade para as desigualdades
que atravessam o corpo e a vida das mulheres. A construção de políticas
públicas efetivas passa por garantir o direito ao planejamento reprodutivo, à
informação, à saúde de qualidade e ao suporte social, permitindo que toda
mulher — independentemente de sua classe social — possa exercer a maternidade
como um ato de escolha, e não de imposição. Reduzir o abismo entre essas
experiências maternas é, portanto, uma tarefa urgente para a justiça social e a
equidade de gênero.
A maternidade tem uma relação direta com a perfeição da criação:
nada existe no mundo sem a fecundação, nós não existiríamos sem ela. O vinho só
existe, porque uma semente foi plantada, uma fruta foi colhida e trabalhada.
Isso significa que a maternidade é o princípio básico da sociedade humana.
Valorizar uma mãe é se importar com o futuro de todos.
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