4.3- 10 de maio – 6º DOMINGO DA PÁSCOA
“Se me
amais, guardareis os meus mandamentos”
Por Pe. Gustavo César
dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**
I. INTRODUÇÃO
GERAL
A liturgia deste domingo
nos convida a viver o mandamento por excelência: o amor. Se amamos a Cristo,
guardamos (pomos em prática) seus mandamentos. Viver o mandamento do amor só é
possível com a ajuda do pedagogo divino, o Espírito Santo. Ele é o elo de amor
entre o Pai e o Filho, a unção que nos foi dada no batismo e nos será ofertada
novamente, em breve, na solenidade de Pentecostes, daqui a dois domingos. Hoje,
a primeira leitura nos fala sobre a ação missionária de Filipe, que, descendo
de Jerusalém à Samaria, anunciou ali a Jesus de Nazaré, o Ressuscitado. O
anúncio de Jesus ressuscitado gera vida para os que estão aprisionados no
pecado e no sofrimento corporal. Na segunda leitura, Pedro convida à
santificação da vida, no coração, por meio de Cristo. Essa santificação leva o
cristão a dar razão (logos: palavra) da esperança, que nasce de um coração
confiante, que ama. A ação do discípulo de Jesus, o amor, gera dissonâncias e
muitas vezes perseguição, mas é preferível sofrer por testemunhar a Cristo a
sofrer sem testemunhá-lo. No Evangelho, Jesus nos convida ao amor, guardando
seus mandamentos, que podem ser resumidos na tarefa fundamental de amar. Todo o
testemunho cristão só é possível e frutuoso à luz do Espírito Santo, dado ao
coração do cristão, o qual não é deixado na orfandade. É o Espírito que
continua a inspirar a vida da Igreja, das comunidades de fé e de todos os
servidores do Evangelho.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 8,5-8.14-17)
Em relato emblemático
sobre a taumaturgia dos apóstolos, especialmente de Filipe, na Samaria, o autor
dos Atos aponta, teologicamente, que, na Igreja primitiva, é Jesus ressuscitado
quem continua a agir, por meio do Espírito que inspira e assiste os enviados
(apóstolos). A ação missionária e evangelizadora de Filipe concede aos ouvintes
saúde corporal e espiritual (v. 7). Muitos foram curados. Essa ação
taumatúrgica, endereçada aos da Samaria por intermédio do evangelizador, é a
contínua ação de Jesus na vida dos que creem. É preciso, porém, haver quem
anuncie Jesus ao mundo, essa é a missão de todo cristão. A narrativa se divide
em dois momentos: a ação evangelizadora de Filipe em um lugar da Samaria (v.
5-8) e os apóstolos que, em Jerusalém, ficam sabendo do que aconteceu e enviam
para lá Pedro e João, os quais fazem a oração de epiclese (invocação do
Espírito Santo) sobre os samaritanos, pois estes ainda não haviam recebido o
Espírito (v. 14-17), mas apenas o batismo em nome de Jesus. Pedro e João impõem
as mãos e eles recebem o Espírito Santo. O livro dos Atos dos Apóstolos
apresenta à Igreja seu autorretrato, sua eclesiologia, que tem como figura
primordial o pedagogo, o Espírito Santo. Trata-se de uma pneumatologia
requintada que Lucas, o autor dos Atos, elabora. É o tempo do Espírito Santo,
que atuou e atua na Igreja para que ela seja santa e consiga santificar as
pessoas, realidades e coisas. A presença do Espírito é a presença mesma do
Ressuscitado no nosso meio, a qual nos inspira e fortalece na comunhão, na
participação e na missão.
2. II leitura (1Pd 3,15-18)
Pedro inicia essa
leitura com o verbo no imperativo, como ordem: “Santificai (em grego,
águiásate) vossos corações”. O coração do cristão é morada de Cristo. No
original grego, o v. 15 começa desta forma: “Como o Senhor, Cristo, santificai
em vossos corações”, dando-nos a entender que é Cristo, presente em cada
coração, que nos santifica para as obras de justiça e misericórdia, a fim de
vivermos segundo a vontade de Deus. O apóstolo Pedro nos convida a estar
atentos (em sentido de defesa: apologian) e prontos para darmos razão (lógon)
de nossa esperança (elpídos). Tudo isso seja realizado com mansidão, temor e
boa consciência, e, se houver difamação, serão essas virtudes que envergonharão
os difamadores, pois mais vale, segundo o apóstolo, o bom procedimento do
cristão, a sensação de que está realizando o bem (v. 16). No versículo
seguinte, Pedro justifica: pois é melhor sofrer praticando o bem que praticando
o mal, pois o bem é vontade de Deus e o mal é recusar-se a realizar a vontade
de Deus, indo na contramão de seu Reino (sua vontade). O v. 18 conclui,
dizendo, explicativamente, que uma vez por todas (como diz Hebreus) Cristo
morreu por causa dos pecados; o justo (dikaiós) pelos injustos (adíkon), para
nos conduzir a Deus. Cristo morreu na carne, mas vivendo no Espírito. Se, por
um lado, Cristo sofreu a injustiça da insensatez humana, por outro, saboreou a
graça restauradora de Deus, que o resgatou da morte para a vida da
ressurreição. É nessa experiência vivida por Cristo que temos garantida a vida
nova, pois só quem assumiu a condição humana pode redimir tal condição.
3. Evangelho (Jo 14,15-21)
Ainda em tom de
despedida, Jo 14,15-21 nos põe diante do enunciado condicional: “Se me amais,
guardareis meus mandamentos”. Para Jesus, nessa cena de adeus, em preparação
para a morte, deixar aos seus discípulos um legado, o mandamento do amor, é
fundamental. Não apenas deixar um legado é importante, mas também que este seja
posto em prática. Jesus, embora digno de confiança para seus discípulos-apóstolos,
também confia neles e sabe que podem dar continuidade à missão: amar e servir o
mundo pelo amor. Jesus não abandona seus discípulos, mas rogará ao Pai que
envie o Defensor (parákleton), a fim de que esteja presente continuamente junto
aos seus discípulos-apóstolos. Trata-se do Espírito da verdade (pneuma tés
aletheías), o qual o mundo não pode receber, pois não o vê nem o conhece. Para
João, é necessária a fé (pístis). Na perspectiva do Quarto Evangelho, o
elemento da fé, crer, acreditar, não é simples confiança, mas adesão de vida,
compromissada com a mensagem de Jesus. “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5).
Não é sem sentido que a palavra “fé”, em grego pístis, aparece em João uma
centena de vezes. Trata-se do Evangelho da fé (fidelidade) e do amor, da
expressão bela da Aliança Nova com Deus, em Cristo. Para Jesus, em João, os
discípulos conhecem (gnóskete) o Espírito, pois ele vive no meio da comunidade.
O Espírito é o elo entre Jesus e seus discípulos. Por isso, quando, já
ressuscitado, Jesus aparece aos discípulos, envia, reenvia, sobre eles o
Espírito Santo (Jo 20,22), para dizer que estará, pelo Espírito, continuamente
e ainda hoje com a comunidade discipular. O v. 18 confirma essa adoção de
Jesus: “Não vos deixarei órfãos”. Ele vem para nós, está no meio de nós, como
dizemos na liturgia eucarística dominical (ou diária). No v. 19, Jesus, num
trocadilho, diz que o mundo não o verá mais, mas eles, seus discípulos, o
verão, pela graça santificante do Espírito, em um contínuo e eterno Pentecostes.
Jesus estará no Pai e nos discípulos pelo Espírito (v. 19). Essa dupla morada
de Jesus garante que ele não deixa sua Igreja órfã, mas a acompanha pelas
estradas da vida (v. 20). Estar em Jesus e Jesus estar nos discípulos é
promessa cumprida na vida cotidiana dos que estão irmanados e unidos pelos
laços do Espírito Santo. Da mesma forma que começou o Evangelho deste domingo,
o v. 21 fala do amor: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me
ama”. E quem ama a Jesus é amado pelo Pai, pois é para reconciliar a humanidade
com o Pai que Jesus se ofereceu ao mundo como vítima de resgate, a fim de
tornar a todos filhos e filhas.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Convidar os fiéis à
missão de evangelizar: anunciar a mensagem da Boa-nova de Jesus a quem necessita,
sobretudo a quem está adoecido e a todos os que estão sem esperança. Orientar a
reflexão para a pneumatologia, para a ação do Espírito Santo na vida da Igreja,
sobretudo para o que o Espírito vem realizando em prol da comunidade e de seus
fiéis. Destacar a importância dos que são perseguidos por causa da fidelidade
ao Evangelho, percebendo que todos nós, se fiéis à mensagem de Jesus, teremos
de lidar com tais perseguições, mas sempre com mansidão, sem perder a
tenacidade da fé.
Pe. Gustavo
César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**
*é presbítero da diocese
de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia
pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão
Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: gustavocesar339@gmail.com
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da
Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade
Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na
modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve,
Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/10-de-maio-6o-domingo-da-pascoa-2/
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