8-REFLETINDO COM LINDOLIVO
SOARES MOURA(*)
"DIA DAS MÃES E DAS "NANÃES":
RESPEITO, DIGNIDADE E DIREITOS IGUAIS PARA TODAS
"Por
mais que o ser humano seja
um ser
mesquinho, enquanto uma mãe cantar junto a um bercinho haverá
esperança para o mundo"[GiuseppeGhiaroni].
Se você recorreu ao
dicionário e não encontrou o que esperava, sem problemas; não fique chateado.
"Nanães" só existem de fato, no mundo real, não existindo ainda em
teoria, e menos ainda no dicionário, ao menos em nosso país. A maioria delas
sequer são conhecidas, quanto mais "reconhecidas". Na vida, por vezes
é exatamente assim que as coisas acontecem: você existe, mas não é
"percebido", e o que não é percebido, claro, é como se não existisse.
O grande mestre indiano Shankara permanecera dando voltas ao redor de si mesmo
por um bom tempo, literalmente sem saber o que fazer, quando retornando de um
banho nas águas do portentoso Ganges
esbarrou em um "dalit" - "intocável", para os indianos -
que cruzava seu caminho. "Não se incomode" - disse-lhe o dalit -
"eu não existo. Sou apenas uma 'ilusão' sua. Não é isso que você ensina?
Que o mundo e tudo que nele existe não passa de uma mera 'ilusão'? Não pode,
portanto, ter me tocado de fato!". A vida do grande Shankara mudaria para
sempre, não tanto por causa daquele encontro, como muitos pensam, mas sim por
causa daquelas palavras. Para ele e para muitos outros mestres "com"
ele e "depois" dele, a vida e a realidade não poderiam mais continuar
sendo vistas como uma simples "miragem" ou uma mera
"ilusão", tal como muitos acreditavam. "Dalits" também eram
gente de carne e osso, com afetos, sentimentos e emoções como qualquer pessoa.
Não podiam continuar sendo tratados como "invisíveis" e
"intocáveis", como sempre haviam sido. Com suas palavras, aquele
"desconhecido" em todos os sentidos da palavra, o havia trazido para
o princípio de realidade, onde as pessoas vivem, convivem, sobrevivem e se
relacionam. Não basta existir! Só o que é "percebido", pode de fato
ser "tocado"; e tocado de maneira diferente, não sob o impulso deste
estereótipo ou daquele preconceito. E ele, Shankara, que de tantos embates frente
a outros grandes mestres saíra vitorioso sem grandes dificuldades, agora se
encontrava ali, parado, sem saber o que fazer ou responder, tendo que se render
às palavras de um pária na pessoa de um dalit.
Assim como existe um dia
especial dedicado aos pais, existe também um dia igualmente especial dedicado
às mães. Mais do que justo, por sinal, e nem precisamos mencionar as razões
para que assim seja. Provavelmente todos, cem por cento dos filhos e filhas -
considerada aquela "margem de erro para mais e para menos", sempre apontada
pelos estatísticos - concordariam com isso. Aliás, poucas identidades, papéis e
personalidades parecem encontrar tanta unanimidade como esse ser que responde
pelo nome de "mãe", "mamãe", ser materno, ou simplesmente
maternidade. Alguns inclusive preferem falar em "maternagem", termo
sem dúvida mais rico e completo do que a maternidade "pura e
simples", se é que se pode falar dessa forma sem incorrer em erro ou
banalidade. O fato é que ser mãe - e seu correspondente necessário e imediato,
"ser filho" ou "ser filha" - é "tudo de bom",
expressão idiomática bem nossa, por sinal. Portanto, "long life, gratters
and congratulations to all the mothers around the world!" - " vida
longa, parabéns e congratulações a todas as mães ao redor do mundo!".
É possível que você esteja
ai, calado e pensando "com seus botões": "sim, parabéns a todas
as mães e mamães do mundo todo, mas e as 'nanães', afinal? Quem são e o que
houve com elas, que desapareceram assim do nada, repentinamente, como que por
encanto?". Ok!Tudo bem! Você tem razão. Acabamos deixando as
"nanães" no "stand by", por um momento, mas com certeza não
as deixamos no esquecimento; começar falando delas sem falar das mães e mamães
primeiramente, poderia parecer injusto, quase imperdoável, para muitos. Assim,
podemos agora começar a falar delas, das "nanães". Esse foi o termo
hipersimplificado que me veio à mente para falar de vários outros tipos de
"mães" diferentes, ou simplesmente de "não mães", como
parecer melhor. Em certo sentido esse novo termo ou neologismo pode ser
considerado a tradução literal do inglês "NoMo" -
"NoMother" - "não mãe", e que resolvi reduzir para
"nanãe" em meu dicionário mental; uma
espécie de síntese do advérbio "não" com o substantivo
feminino "mãe". Em alguns países, como nos Estados Unidos, por
exemplo, "NoMothers" identifica toda uma geração, a geração
"NoMo" costumam dizer por lá, assim como no Brasil temos por exemplo
os "nem-nens" - "nem estudam e nem trabalham", que também identifica
toda uma geração de jovens e adolescentes por aqui. O que eu gostaria de deixar
bem claro, entretanto, é que não faço uso desse termo, "nanães", para
caracterizar geração nenhuma, e muito menos levantar qualquer bandeira de
"contestação" que eventualmente se imagine possa o uso desse termo
carregar consigo; sequer pensei nisso, na verdade. O que gostaria com essa
espécie de "neologismo", como já disse, lançado em pleno "dia
das mães", é o que a seguir passo a explicar.
A primeira associação, que
com muita rapidez e falta de sensibilidade, costuma ser feita para com a mulher
que não abraça a maternidade, é a de estéril, incapaz e outras variantes do
gênero. No passado chegou-se a estabelecer uma correlação entre esterilidade ou
incapacidade física de procriação com maldição e pecado. Tempos tristes devem
ter sido aqueles! Tristes, difíceis, discriminadores, de excludência e de
exclusão indiscriminada. Mas pensar que essa mentalidade tenha mudado
radicalmente com o passar do tempo, é um
erro tão grande quanto aquele que no passado impulsionava toda uma
geração a agir de forma ultrajante e humilhante para com a mulher infértil.
Mudar um juízo ou julgamento sobre algo ou alguém, a princípio pode não ser tão
difícil quanto pareça, mas mudar toda uma mentalidade é coisa muito, muito
diferente e muito mais complicada. Mentalidades "migram" com
facilidade, e migrar não é exatamente o mesmo que "mudar"
radicalmente. A mentalidade preconceituosa, discriminadora e excludente, que no
passado julgava e condenava a esterilidade ou a incapacidade de gerar filhos,
apenas segue migrando ou "redirecionando" seu olhar e se juízo no
tempo presente: mães "adotivas", mães "solteiras", mães que
adotam filhos e filhas de uma "cor diferente" da cor da adotante,
mães "homoafetivas" e suas variantes, mães por "inseminação
artificial", mães por gestação em "um ventre de uma outra mãe",
todas essas - dentre outras, naturalmente
- são mães que de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente,
continuam sendo alvo de uma "mentalidade migratória" persecutória,
preconceituosa, excludente e condenatória. No mínimo, no mínimo, vítimas de um
olhar vesgo e atravessado: mental, afetiva e emocionalmente. Nenhuma cultura,
seja ela religiosa ou não, parece conseguir sobreviver sem os seus
"dalits" - os intocáveis e excluídos de todos os tempos.
"Migrar" de alvo, sempre que necessário, ou por simples
"conveniência", conforme o caso, tem sido a principal estratégia da
qual essa mentalidade deturpante, excludente e discriminatória tem lançado mão
ao longo da história, não só para perpetuar como também, sempre que possível,
ampliar seu campo e raio de ação. "As ideias e as crenças - dizia certo
autor desconhecido - movem o mundo com seus pezinhos de lãs". Ideias,
percepções e crenças, por sua vez, forjam ideologias e mentalidades, e estas
não mudam senão sob o impulso de muito esforço e muita determinação. A
tendência natural é manter o "status quo": para com o diferente
aplica-se a marca "preconceito" - leia-se: "não é dos
nossos!" - assim como se marca a ferro e fogo cada cabeça de gado, e
pronto! Está feito! Exige muito menos. Daí para frente, na melhor das hipóteses
, "dane-se!". Na pior delas, "dane-se!"; não é mais
problema nosso!
Associar com "egoísmo
puro" a opção ou decisão por não ser mãe, tem sido, por outro lado, uma
das formas mais cruéis e desumanas que o discurso cultural tem assumido, ora de
forma discreta e sorrateira, ora explícita e escancaradamente aberta. Muitas
vezes esse discurso se origina na mentalidade religiosa - como é triste
reconhecê-lo! - reforçando-a, e ao mesmo
tempo sendo por ela reforçado. Isso chega a ser no mínimo curioso e estranho,
visto que sacerdotes, frades e freiras se dizem "celibatários" -
abrindo mão, portanto, da paternidade e da maternidade - "POR CAUSA DO
REINO DE DEUS " - ou em razão da missão e do serviço a esse mesmo reino,
dá no mesmo. A pergunta que fica por ser respondida - pois sempre resvala em
discursos tendenciosos e insuficientes - não poderia ser outra: seria a
modalidade de atuação dos frades, freiras e sacerdotes, a única forma aceitável
e nobre de se poder servir a Deus ou de se colocar a serviço de seu reino?
Servir aos homens não seria também uma forma igualmente legítima e virtuosa?
Pode-se amar a Deus, a quem não se vê, sem que se ame antes, e antes de tudo, o
irmão de carne e osso? É realmente necessária uma interpretação muito estreita
e ideologicamente arbitrária para que a não opção pela maternidade ou a
paternidade sejam consideradas "virtude" e "benção", por um
lado, e "egoísmo", "reprovação" e "condenação"
ainda que velada, por outro. O fato é que o discurso religioso se alia ao
discurso cultural reforçando-se mutuamente um ao outro, e culminando naquilo
que se poderia muito apropriadamente ser chamado de "caixa de
ressonância". Outra pergunta que não quer calar: se padres, frades e
freiras não se casam e consequentemente não têm filhos - ao menos é isso o que
se pressupõe - data venia, e com o devido respeito, convenhamos, - tomando
emprestada a expressão que pertence ao Direito - deveriam por lógica e
consequência ser os últimos a opinar e mais ainda a "legislar" sobre
o assunto: em causa própria não faria sentido algum, como se depreende da opção
celibatária que abraçaram; em favor da causa alheia, menos sentido ainda, já
que eles pouco ou nada entendem "de fato" do assunto. Se o discurso
for feito "ex cathedra", então, toda prudência resulta insuficiente.
Colocar a "infalibilidade" em jogo em tais questões pode ser uma
perigosa forma de se estar a "tentar o próprio Deus", coisa que até
Jesus, como é sabido, evitou por inúmeras vezes. Melhor nesse caso o silêncio;
"obsequioso silêncio", tal como era e suponho continuar sendo chamado
o silêncio imposto àqueles e aquelas que de algum modo discordam da
"sagrada, eterna e sã doutrina".
Para simplificar: a opção ou
decisão por não abraçar a maternidade - e por via de complemento, a paternidade
- deve ser considerada tão sagrada quanto aquela que a maternidade tenha
abraçado. Portanto é uma decisão que requer e exige "respeito", antes
que qualquer atitude ou discurso de "tolerância". A rigor, só quem
pode e detém autoridade para proibir ou interditar pode também
"tolerar" ou admitir em "regime de exceção". A um direito
inato ou adquirido cabe "respeitar", "defender" e
"celebrar", e não simplesmente "tolerar"; isso não basta,
visto que insuficiente. Diante da "'in'-tolerância" a
"tolerância" pode e até deve, claro, ser considerada uma virtude. Mas
quando comparada ao "respeito", ainda que sem deixar de ser virtude
deve ser considerada uma virtude de menor potencial, de menor calibre ou menos
nobre. Qualquer discurso condenatório, ou ainda que meramente
"reprobatório", para com a decisão ou opção pela não maternidade,
deve sempre ser precedido por uma espécie de "pente fino" -
"cinco vezes filtrado", como atestam certos tipos de azeite nos
supermercados - sob pena de produzirem consequências e frutos que estão muito
mais para joio do que para trigo. E isso, claro, não é nada bom.
Assim como muitos discursos
e falas "anti-racistas" são racistas sem sequer se darem conta disso
- como pode haver conflitos "entre" raças se só existe uma única e
mesma raça humana? - muitos discursos e falas sobre tolerância costumam
esconder desrespeito inaceitável e preconceitos gritantes para com minorias de
tipos diversos. As mulheres que não optam ou não optaram, não se se decidem e
não se decidiram pela maternidade, constituem apenas um desses grupos, que aqui
estamos chamando de "nanães" - NoMo, NoMothers, ou simplesmente
"não mães" em tradução livre. O princípio apontado pela própria
Igreja também pode e deve ser aqui aplicado, ainda que de forma análoga,
evidentemente. Eis o que ela afirma: "satisfaçam-se em primeiro lugar as
exigências da justiça, para que não se dê como caridade o que já é devido a
título de justiça. Eliminem-se as causas dos males e não só os seus efeitos
(...)" ("Sobre o Apostolado dos Leigos", Encíclica do Concílio
Vaticano II). E se no presente caso, o respeito é notória e declaradamente
devido, não se deve falar em tolerância. Isso seria um erro. E todo erro, como
se sabe, sempre que possível deve ser evitado.
Parabéns
a todas as mães, vivas e falecidas - estas continuam e
continuarão sempre vivas em seus filhos, filhas e netos.
Parabéns igualmente a todas
as mulheres que de maneira consciente e responsável, e não por pura leviandade
ou libertinagem, fizeram opção diversa ou diferente pela não maternidade.
"No interior da pessoa humana sequer a Igreja entra", afirma outro
princípio sustentado pela mesma Igreja. O chamado ou a vocação a ser mulher é
dirigido a todas! Já o chamado ou a
vocação a ser mãe, não a todas necessariamente!
O último e mais importante
lembrete fica por conta de Gibran Khalil Gibran, em "O Profeta":
"vossos filhos não são vossos filhos. São filhos e filhas da saudade da
vida por si mesma. Eles vêm através de vós, mas não de vós, e embora vivam
convosco não vos pertencem!".
Um feliz e abençoado
"dia das mães" para todas as mães e "nanães" desse
fantástico e lamentavelmente maltratado planeta!
( * ) Texto enviado pelo
autor, via WhatApp de Vitória(ES).
Nenhum comentário:
Postar um comentário