4-REFLEXÕES PARA O 15.º DOMINGO DO TEMPO COMUM- A
4.1-12 de julho – 15° DOMINGO DO TEMPO COMUM-
UMA PALAVRA EFICAZ
Por Pe. Marcus Mareano*
INTRODUÇÃO
GERAL
A liturgia deste domingo
convida a comunidade à renovada compreensão da centralidade da Palavra de Deus.
A escuta e a acolhida dessa Palavra constituem o eixo estruturante da
experiência de fé em Cristo, pois é por meio dela que a pessoa entra em relação
com o mistério divino revelado na história.
A primeira leitura
sublinha o caráter eficaz e performativo da Palavra de Deus, que se manifesta
como princípio fecundo e criador de vida. A Palavra divina não é mero discurso,
mas ação salvífica que transforma a realidade, orienta os caminhos humanos e
sustenta a esperança do povo de Deus. Mesmo quando seus efeitos não coincidem
com as expectativas humanas, ela permanece eficaz, pois cumpre sempre o
desígnio salvador de Deus na história (Is 55,10-11).
O Evangelho propõe uma
reflexão sobre a atitude do ser humano diante dessa Palavra (Mt 13,1-23). A
parábola do semeador e da semente parece uma simples cena do campo, mas, por
trás da simplicidade da imagem, oculta-se uma mensagem misteriosa a ser
compreendida, como sempre ocorre com os ensinamentos de Jesus. O texto convida
a ser “terra boa”, isto é, a cultivar uma disposição interior aberta à escuta e
à prática da Palavra, de modo que esta produza frutos concretos na vida
cotidiana.
A segunda leitura
demonstra a eficácia da Palavra na vida da pessoa (Rm 8,18-23). Ela fornece os
critérios e a orientação ética para uma existência “segundo o Espírito”. É por
meio dessa conformação ao Espírito que o ser humano colabora na edificação do
“novo céu e da nova terra” (2Pd 3,13; Ap 21,1). Assim se efetivará a plena
comunhão entre Deus, a humanidade e toda a criação.
I COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 55,10-11)
Na primeira parte do
Dêutero-Isaías (Is 40-48), o profeta apresenta a iminente libertação do
cativeiro e proclama um “novo êxodo”, em que Deus conduzirá seu povo das terras
de escravidão para a Terra da Promessa. Na segunda parte (Is 49-55), a ênfase
recai sobre a restauração de Jerusalém, símbolo da presença divina e do
reencontro entre Deus e Israel.
É nesse contexto que se
situam os versículos propostos para a liturgia deste domingo. Após convidar o
povo exilado a buscar e invocar o Senhor (Is 55,6-9), o profeta recorda a força
eficaz e transformadora da Palavra divina que acaba de ser anunciada (v.
10-11).
Nesse momento histórico,
a comunidade israelita se encontra desanimada. As promessas de libertação
parecem demoradas demais, e a esperança começa a se esvair diante da dureza do
cotidiano. Crescem a impaciência, a dúvida e o questionamento: será que as
palavras do profeta se cumprirão? Deus não estaria tardando demais em agir? Ele
se esqueceu da dor do seu povo?
É precisamente diante
desse clima de desânimo que o Dêutero-Isaías reafirma, com vigor e ternura, a
fidelidade de Deus e o poder inquebrantável de sua Palavra, capaz de
transformar a história e devolver a vida àquilo que parecia perdido.
2. II leitura (Rm 8,18-23)
Paulo inicia esse trecho
da carta aos Romanos estabelecendo um contraste, fundamentado na afirmação de
que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de
ser revelada (v. 18). O sofrimento é visto como etapa transitória no processo
de revelação da glória divina, a qual se manifestará plenamente nos redimidos.
Essa perspectiva revela o caráter teleológico da história humana: o presente
encontra sentido apenas à luz do futuro prometido.
Em seguida, Paulo usa
uma linguagem metafórica para expressar a solidariedade cósmica entre o ser
humano e o universo criado (v. 19-22). O pecado humano introduziu desordem não
apenas na dimensão pessoal e social, mas também na ordem cósmica (Gn 3,17). Por
isso, a criação está sujeita à finitude e à caducidade. A partir do momento em
que o ser humano adere a Cristo e passa a viver “segundo o Espírito”, torna-se
capaz de superar o destino de morte e as consequências do pecado.
O mundo criado e a
humanidade estão vinculados no mesmo drama da queda e da redenção. O Espírito
Santo é o princípio vital que sustenta essa esperança e garante a comunhão
final entre Deus, o ser humano e toda a criação (v. 23). Paulo projeta, assim,
uma visão relacional e integradora da salvação. Não se trata apenas da salvação
individual, mas de uma restauração cósmica que abrange toda a realidade.
3. Evangelho (Mt 13,1-23)
O texto possui três
momentos distintos: a parábola em si (v. 1-9), a reflexão de Jesus sobre o
sentido das parábolas (v. 10-17) e, por fim, a explicação dirigida aos
discípulos (v. 18-23).
Na primeira parte, Jesus
fala levando em conta a vida concreta do povo. Na Palestina de então, o
semeador lançava as sementes antes de arar o campo. Por isso, parte delas caía
à beira do caminho, outra parte em terreno pedregoso e outra entre espinhos. É
uma imagem realista, mas Jesus a transforma em uma parábola do Reino dos Céus.
De todo modo, o acento da mensagem não está na fragilidade dos terrenos, e sim
na força fecunda da semente. Quando ela encontra terra boa, produz frutos em
abundância e uma colheita inimaginável para os agricultores da época.
Na segunda parte, Jesus
reflete sobre o porquê de falar em parábolas. Elas são como um espelho que
mostra o coração de quem escuta: quem tem o coração aberto, compreende e se
deixa transformar; quem tem o coração fechado, escuta sem entender e olha sem
perceber. Por isso Jesus proclama bem-aventurados os discípulos, porque seus
olhos veem e seus ouvidos ouvem. Eles acolheram a Palavra e já participam do
Reino que nasce no meio deles.
Por fim, a terceira
parte traz a explicação da parábola. A semente é sempre boa; o semeador é o
próprio Cristo; o fruto, porém, depende de como cada um acolhe a Palavra.
Alguns têm o coração endurecido, como terra batida: a Palavra não consegue
penetrar. Outros são superficiais: recebem com entusiasmo, mas desanimam nas
dificuldades. Outros ainda são sufocados pelas preocupações e pelas riquezas,
então a Palavra se perde entre tantos ruídos. Contudo, há também aqueles cujo
coração é aberto, acolhedor e fiel: neles a Palavra germina, cresce e dá muito
fruto.
Essa parábola é um
convite à esperança e à conversão. Esperança, porque a mensagem do Evangelho
está crescendo e se espalhando, mesmo quando não o percebemos; e conversão,
porque somos chamados a preparar o terreno do nosso coração para acolher a
Palavra com generosidade. Mesmo que muito pareça se perder, o Reino de Deus
frutificará de modo surpreendente.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
A liturgia chama a
atenção para a ação transformadora da Palavra de Deus proclamada e celebrada.
Essa Palavra deve gerar transformação sincera nas pessoas, conforme afirma a
profecia de Isaías. Quando se crê, não se pode sair da Eucaristia da mesma
forma como se chegou.
O Senhor continua a
semear todos os dias, em cada celebração, em cada gesto de amor, em cada
encontro com o próximo. Que não deixemos a semente cair à beira do caminho. Que
removamos as pedras da indiferença e arranquemos os espinhos do egoísmo. E que
nosso coração, purificado e disponível, se torne terra boa, onde a Palavra de
Deus possa germinar e produzir frutos de fé, de amor e de justiça para o mundo.
Essa Palavra,
sedimentada no interior humano, permanece e gera perseverança. As tribulações e
adversidades não podem nos separar do amor de Deus semeado em nosso coração.
Por mais que os tempos pareçam difíceis, pode-se esperar um novo tempo de
experiência da glória dos filhos e filhas de Deus.
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia
pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela
Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica,
com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na
Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de
Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo
(Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG.
E-mail: marcusmareano@gmail.com
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/12-de-julho-15-domingo-do-tempo-comum/
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