sábado, 11 de julho de 2026

8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)

 8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)


 "ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

[Parte XIV - 01]

              "Ó Mestre,  fazei que  eu  procure mais  consolar que  ser  consolado,  compreender que ser compreendido, amar que  ser  amado” [Atribuída a São Francisco de Assis].

No estado atual em que se encontram as pesquisas, a questão relativa à autoria da Oração pela Paz pode ser considerada pacificada: as evidências históricas disponíveis são suficientes para se concluir que seu autor permanece desconhecido e que sua composição não pode ser atribuída a Francisco de Assis. Surgida anonimamente na França, em 1912, ela ganhou enorme divulgação e repercussão durante a Primeira Guerra Mundial em razão de seu vigoroso apelo à paz. Como seu conteúdo sintetiza, com rara felicidade, os ideais franciscanos de amor, perdão, humildade e reconciliação, acabou sendo amplamente atribuída a São Francisco, como continua a acontecer até hoje. O mérito de Francisco está em ter sido escolhido para a paternidade espiritual de uma oração de caráter arquetípico, de alcance praticamente universal. Respeitadas as devidas proporções, pode-se afirmar que o Sermão da Montanha está para Jesus de Nazaré assim como a Oração pela Paz está para Francisco de Assis.

Talvez não seja mera casualidade o fato de que, entre tantos e diferentes bens espirituais evocados por essa inspiradora oração, a paz tenha sido escolhida para seu título, título este que, curiosamente, não constava do texto original; foi-lhe atribuído posteriormente pela tradição, que reconheceu nele a expressão mais fiel de sua mensagem central: o convite para que cada pessoa se torne instrumento e semeadora da paz no mundo. A atribuição da paternidade franciscana ao texto denota uma clara opção da tradição por conferir-lhe uma conotação eminentemente espiritual, quiçá de matriz católica. Nossa opção por analisar o vínculo conjugal e familiar à luz de seu conteúdo não desconsidera, e menos ainda ignora, essa intencionalidade. Ao contrário, reconhece-a como ponto de partida e amplia o diálogo com o perspectivismo nietzscheano anteriormente mencionado. Abordar uma questão sob diversos prismas amplia significativamente seu horizonte de compreensão e enriquece suas possibilidades de interpretação e aplicação.

A propósito do perspectivismo, vale a pena revisitar a seguinte afirmação de Nietzsche, registrada em "Para Além do Bem e do Mal", obra que o próprio autor não hesitava em situar entre as mais importantes de sua produção filosófica: "... a religião - ele afirma - pode ser usada inclusive como meio de obter paz frente ao barulho e à fadiga de modos mais grosseiros de governo, e como limpeza frente à necessária sujeira de toda política". Esqueçamos, ao menos por enquanto, "a necessária sujeira de toda política"; isso nos permitirá redirecionar e ampliar nosso foco para o que mais nos interessa: o vínculo conjugal e familiar. Seria a afirmação nietzscheana aplicável a esse universo específico da convivência humana? Se sim, o que seriam exatamente, nesse contexto, o barulho e a fadiga, - a sujeira merecerá um tópico à parte - forças perturbadoras capazes de comprometer a paz e, em certos casos, até mesmo solapá-la no interior de um relacionamento como o matrimônio?

Aristóteles talvez não utilizasse a expressão "formas mais grosseiras de governo". Provavelmente, diria formas de governo e de administração que exigem maior prudência, cuidado e discernimento. Ao estabelecer um paralelo entre a administração da "res publica" - o Estado ou a polis - e a "res privata" - a família e, por acréscimo nosso, o vínculo conjugal - ele afirma que, embora a "res publica", por sua extensão e complexidade, pareça mais difícil de administrar, a governança doméstica é ainda mais desafiadora, por lidar diretamente com vínculos humanos altamente complexos, ambivalentes e em contínua tensão. Se Nietzsche associa o barulho e a fadiga a formas mais grosseiras de governo, Aristóteles provavelmente não hesitaria em reconhecer que tais tensões não se limitam ao âmbito da política em geral e das políticas públicas em particular. Elas também atravessam, com frequência de forma ainda mais intensa e desafiadora, o cotidiano do vínculo conjugal e familiar. Talvez por isso ele conclua que a administração da família exige uma habilidade diferenciada e uma prudência prática constante, sobretudo quando comparada ao governo do Estado ou da República.

Nietzsche, sem dúvida mais arguto analista da alma humana que Aristóteles, desloca o eixo da questão para dentro do próprio sujeito. Para ele, o casamento é o lugar onde forças instintivas e impulsivas, capitaneadas pela vontade de poder - no sentido de "empoderamento", e não necessariamente de "domínio", como comumente se interpreta - se entrechocam em permanente disputa por hegemonia. Duas pessoas, cada uma com sua história e sua necessidade de autoafirmação, buscando construir e compartilhar uma vida em comum. Tudo isso produz, inevitavelmente, atritos, disputas de poder, frustrações e desgaste, visto que o casamento tende a concentrar, em escala reduzida, praticamente todos os conflitos da convivência humana, além de acrescentar aqueles que lhe são peculiares. Sem dúvida, um cenário como esse aproxima-se muito daquele em que, de acordo com Nietzsche, o barulho, o cansaço e a fadiga assumem o protagonismo e passam a reger a dinâmica da convivência.

Se essa leitura inspirada em Nietzsche parecer plausível, o casamento, o vínculo conjugal e a família podem ser concebidos como uma espécie de microcosmo político, onde as tensões inerentes à convivência tornam praticamente inevitável o exercício cotidiano de governar e de aceitar ser governado, numa alternância constante entre esses dois papéis. Cada divergência, cada necessidade de negociar, ceder, renunciar ou afirmar convicções expõe o vínculo ao risco permanente de transformar cooperação em disputa, diálogo em confronto e autoridade em imposição. É precisamente nesse ponto que a analogia com as "formas mais grosseiras de governo" mencionadas por Nietzsche ganha ainda mais força. Assim como regimes marcados por rivalidades, jogos de poder, imposições e conflitos incessantes, produzem barulho, fadiga e desgaste coletivo constante, também a convivência conjugal e familiar, quando dominada por esses mesmos mecanismos - ou por mecanismos semelhantes - converte-se em um ambiente emocionalmente ruidoso, psicologicamente desgastante, fisicamente cansativo e progressivamente comprometedor do equilíbrio e da paz. Esta - a paz - deixa de ser a tônica da relação para tornar-se apenas uma trégua - não raro em benefício dos filhos, mas em prejuízo do casal - entre sucessivas batalhas ora silenciosas, ora explícitas, pela prevalência da vontade própria, dos projetos pessoais e dos interesses individuais.

Sob esse prisma, a perspectiva de Nietzsche mostra-se particularmente fecunda para a análise das relações conjugais e familiares. A religião pode surgir como uma tentativa plenamente válida de recuperar interiormente a serenidade e a harmonia - em última instância, a paz - que um tal modo de convivência, a essa altura, já não consegue oferecer. Mas esse propósito corre o sério risco de se ver comprometido quando a religião ou a espiritualidade romantizam e idealizam em excesso a convivência conjugal - no catolicismo, é frequente o recurso à "Família de Nazaré" como modelo para as famílias humanas - relegando a segundo plano os conflitos e a dramaticidade inerentes ao realismo do cotidiano. Tal como frequentemente é representada, a Família de Nazaré - Jesus, Maria e José - dificilmente precisaria recorrer à terapia, caso vivesse nos dias de hoje.

Que um matrimônio seja permeado por barulho, fadiga e desgaste capazes de corroer a paz que nele deveria reinar, pode não ser tão difícil de admitir. Mas o que dizer da "sujeira" que, segundo Nietzsche, é necessária a toda política? Seria a convivência conjugal e familiar, também ela, vulnerável à politicagem e suas mazelas? Se formos humildes o suficiente para reconhecer e coerentes para admitir que sim, de que tipo de sujeira estamos tratando? E em que sentido ela pode comprometer severamente a paz que se espera ser a tônica de um matrimônio? Pela sua delicadeza e complexidade, esse tema merece um tópico à parte.

Obs.: o presente tópico 01 terá sequência e será finalizado com os tópicos seguintes de mesmo título

(*) Psicólogo e Professor Universitário - Consultório de Psicologia-

Vila Velha, Espírito Santo, Brasil

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