8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
"ATÉ QUE A MORTE NOS
SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO
FRANCISCO"
[Parte
XIV - 01]
"Ó Mestre, fazei que
eu procure mais consolar que
ser consolado, compreender que ser compreendido, amar
que ser
amado” [Atribuída a São Francisco de Assis].
No
estado atual em que se encontram as pesquisas, a questão relativa à autoria da
Oração pela Paz pode ser considerada pacificada: as evidências históricas
disponíveis são suficientes para se concluir que seu autor permanece
desconhecido e que sua composição não pode ser atribuída a Francisco de Assis.
Surgida anonimamente na França, em 1912, ela ganhou enorme divulgação e
repercussão durante a Primeira Guerra Mundial em razão de seu vigoroso apelo à
paz. Como seu conteúdo sintetiza, com rara felicidade, os ideais franciscanos
de amor, perdão, humildade e reconciliação, acabou sendo amplamente atribuída a
São Francisco, como continua a acontecer até hoje. O mérito de Francisco está
em ter sido escolhido para a paternidade espiritual de uma oração de caráter
arquetípico, de alcance praticamente universal. Respeitadas as devidas
proporções, pode-se afirmar que o Sermão da Montanha está para Jesus de Nazaré
assim como a Oração pela Paz está para Francisco de Assis.
Talvez
não seja mera casualidade o fato de que, entre tantos e diferentes bens
espirituais evocados por essa inspiradora oração, a paz tenha sido escolhida
para seu título, título este que, curiosamente, não constava do texto original;
foi-lhe atribuído posteriormente pela tradição, que reconheceu nele a expressão
mais fiel de sua mensagem central: o convite para que cada pessoa se torne
instrumento e semeadora da paz no mundo. A atribuição da paternidade
franciscana ao texto denota uma clara opção da tradição por conferir-lhe uma
conotação eminentemente espiritual, quiçá de matriz católica. Nossa opção por analisar
o vínculo conjugal e familiar à luz de seu conteúdo não desconsidera, e menos
ainda ignora, essa intencionalidade. Ao contrário, reconhece-a como ponto de
partida e amplia o diálogo com o perspectivismo nietzscheano anteriormente
mencionado. Abordar uma questão sob diversos prismas amplia significativamente
seu horizonte de compreensão e enriquece suas possibilidades de interpretação e
aplicação.
A
propósito do perspectivismo, vale a pena revisitar a seguinte afirmação de
Nietzsche, registrada em "Para Além do Bem e do Mal", obra que o
próprio autor não hesitava em situar entre as mais importantes de sua produção
filosófica: "... a religião - ele afirma - pode ser usada inclusive como
meio de obter paz frente ao barulho e à fadiga de modos mais grosseiros de
governo, e como limpeza frente à necessária sujeira de toda política".
Esqueçamos, ao menos por enquanto, "a necessária sujeira de toda
política"; isso nos permitirá redirecionar e ampliar nosso foco para o que
mais nos interessa: o vínculo conjugal e familiar. Seria a afirmação
nietzscheana aplicável a esse universo específico da convivência humana? Se
sim, o que seriam exatamente, nesse contexto, o barulho e a fadiga, - a sujeira
merecerá um tópico à parte - forças perturbadoras capazes de comprometer a paz
e, em certos casos, até mesmo solapá-la no interior de um relacionamento como o
matrimônio?
Aristóteles
talvez não utilizasse a expressão "formas mais grosseiras de
governo". Provavelmente, diria formas de governo e de administração que
exigem maior prudência, cuidado e discernimento. Ao estabelecer um paralelo
entre a administração da "res publica" - o Estado ou a polis - e a
"res privata" - a família e, por acréscimo nosso, o vínculo conjugal
- ele afirma que, embora a "res publica", por sua extensão e
complexidade, pareça mais difícil de administrar, a governança doméstica é
ainda mais desafiadora, por lidar diretamente com vínculos humanos altamente
complexos, ambivalentes e em contínua tensão. Se Nietzsche associa o barulho e
a fadiga a formas mais grosseiras de governo, Aristóteles provavelmente não
hesitaria em reconhecer que tais tensões não se limitam ao âmbito da política
em geral e das políticas públicas em particular. Elas também atravessam, com
frequência de forma ainda mais intensa e desafiadora, o cotidiano do vínculo
conjugal e familiar. Talvez por isso ele conclua que a administração da família
exige uma habilidade diferenciada e uma prudência prática constante, sobretudo
quando comparada ao governo do Estado ou da República.
Nietzsche,
sem dúvida mais arguto analista da alma humana que Aristóteles, desloca o eixo
da questão para dentro do próprio sujeito. Para ele, o casamento é o lugar onde
forças instintivas e impulsivas, capitaneadas pela vontade de poder - no
sentido de "empoderamento", e não necessariamente de
"domínio", como comumente se interpreta - se entrechocam em
permanente disputa por hegemonia. Duas pessoas, cada uma com sua história e sua
necessidade de autoafirmação, buscando construir e compartilhar uma vida em
comum. Tudo isso produz, inevitavelmente, atritos, disputas de poder,
frustrações e desgaste, visto que o casamento tende a concentrar, em escala
reduzida, praticamente todos os conflitos da convivência humana, além de
acrescentar aqueles que lhe são peculiares. Sem dúvida, um cenário como esse
aproxima-se muito daquele em que, de acordo com Nietzsche, o barulho, o cansaço
e a fadiga assumem o protagonismo e passam a reger a dinâmica da convivência.
Se
essa leitura inspirada em Nietzsche parecer plausível, o casamento, o vínculo
conjugal e a família podem ser concebidos como uma espécie de microcosmo
político, onde as tensões inerentes à convivência tornam praticamente
inevitável o exercício cotidiano de governar e de aceitar ser governado, numa
alternância constante entre esses dois papéis. Cada divergência, cada
necessidade de negociar, ceder, renunciar ou afirmar convicções expõe o vínculo
ao risco permanente de transformar cooperação em disputa, diálogo em confronto
e autoridade em imposição. É precisamente nesse ponto que a analogia com as
"formas mais grosseiras de governo" mencionadas por Nietzsche ganha
ainda mais força. Assim como regimes marcados por rivalidades, jogos de poder,
imposições e conflitos incessantes, produzem barulho, fadiga e desgaste coletivo
constante, também a convivência conjugal e familiar, quando dominada por esses
mesmos mecanismos - ou por mecanismos semelhantes - converte-se em um ambiente
emocionalmente ruidoso, psicologicamente desgastante, fisicamente cansativo e
progressivamente comprometedor do equilíbrio e da paz. Esta - a paz - deixa de
ser a tônica da relação para tornar-se apenas uma trégua - não raro em
benefício dos filhos, mas em prejuízo do casal - entre sucessivas batalhas ora
silenciosas, ora explícitas, pela prevalência da vontade própria, dos projetos
pessoais e dos interesses individuais.
Sob
esse prisma, a perspectiva de Nietzsche mostra-se particularmente fecunda para
a análise das relações conjugais e familiares. A religião pode surgir como uma
tentativa plenamente válida de recuperar interiormente a serenidade e a
harmonia - em última instância, a paz - que um tal modo de convivência, a essa
altura, já não consegue oferecer. Mas esse propósito corre o sério risco de se
ver comprometido quando a religião ou a espiritualidade romantizam e idealizam
em excesso a convivência conjugal - no catolicismo, é frequente o recurso à
"Família de Nazaré" como modelo para as famílias humanas - relegando
a segundo plano os conflitos e a dramaticidade inerentes ao realismo do cotidiano.
Tal como frequentemente é representada, a Família de Nazaré - Jesus, Maria e
José - dificilmente precisaria recorrer à terapia, caso vivesse nos dias de
hoje.
Que
um matrimônio seja permeado por barulho, fadiga e desgaste capazes de corroer a
paz que nele deveria reinar, pode não ser tão difícil de admitir. Mas o que
dizer da "sujeira" que, segundo Nietzsche, é necessária a toda
política? Seria a convivência conjugal e familiar, também ela, vulnerável à
politicagem e suas mazelas? Se formos humildes o suficiente para reconhecer e
coerentes para admitir que sim, de que tipo de sujeira estamos tratando? E em
que sentido ela pode comprometer severamente a paz que se espera ser a tônica
de um matrimônio? Pela sua delicadeza e complexidade, esse tema merece um
tópico à parte.
Obs.: o presente tópico 01 terá sequência e será
finalizado com os tópicos seguintes de mesmo título
(*)
Psicólogo e Professor Universitário - Consultório
de Psicologia-
Vila Velha, Espírito Santo, Brasil
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