4.3-XV
Domingo do Tempo Comum – Ano A
Disposições Para Acolher
a Palavra de Deus!
Dom José Maria Pereira
O poder e a eficácia da Palavra de Deus constituem o
argumento central da reflexão de hoje. “Assim como a chuva e a neve descem do
céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la
germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra
que sair da minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que
for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la” (Is 55,
10 -11).
O Evangelho de São Mateus (13, 1-23) narra que Jesus,
diante das multidões que se aproximaram dele, sentou-se na barca, começou a
ensinar-lhes: Saiu o semeador a semear, e as sementes caíram em terrenos muito
diversos. Ou seja, a eficácia da Palavra, no coração do homem, depende de suas
disposições. Nem todos a aceitam porque não deixam a Palavra de Deus penetrar
fundo em suas vidas. As provações, as riquezas, os prazeres da vida impedem que
produza fruto.
A parábola do semeador é muito útil para entendermos a força
vital da Palavra de Deus e a necessidade de ter boas disposições para abrir as
portas de nossa vida a essa força vital. A atuação da graça e as disposições de
cada um em receber a graça divina, ou seja, a graça não violenta a atitude com
relação à Palavra de Deus fazem parte da vida do cristão. Precisamos ser
receptivos para dar frutos e ter a alegria e a paz que Jesus deixou ao nosso
alcance.
A falta de acolhida provoca a esterilidade da graça de Deus em
nós. O dom de Deus é rechaçado.
O Semeador, que saiu para semear, é precisamente Jesus, e a
semente, que espalha, “é a Palavra de Deus” (Lc 8, 11). O semeador espalha a
sua semente aos quatro ventos, e, assim, explica-se que uma parte caía no
caminho. A semente caiu em vários tipos de terras diferentes: terreno
pedregoso, entre espinhos; outras sementes caíram em terra boa. O terreno, onde
cai a boa semente, é o mundo inteiro, cada homem. Trata-se de uma página de
certo modo “autobiográfica”, porque reflete a própria experiência de Jesus, da
sua pregação: Ele se identifica com o semeador, que difunde a boa semente da
Palavra de Deus, e dá-se conta dos vários efeitos que ela alcança, segundo o
tipo de acolhimento reservado ao anúncio. Há quem ouve superficialmente a
Palavra, mas não a acolhe; há outros que a recebem no momento, mas não têm
constância e perdem tudo; há, depois, aqueles que são dominados pelas
preocupações e seduções do mundo; e há, enfim, quantos ouvem de modo receptivo,
como o terreno bom: aqui a Palavra produz fruto em abundância.
A mesma semente produz muito fruto numa classe de terreno e, em
outros, não produz nada. Isso significa o mistério da liberdade do homem
perante o dom de Deus. Jesus semeia, em qualquer parte, a Palavra: nem sequer a
nega aos pecadores, à gente superficial e distraída, aos homens imersos nos prazeres
ou ocupados em negócios, comparando-os na parábola, à que cai à beira do
caminho, em terrenos pedregosos, ou entre espinhos; isso significa a grande
misericórdia do Senhor! Com efeito, em sentido espiritual, ensina São João
Crisóstomo, “é possível que a rocha se transforme em boa terra; que o caminho
deixe de ser pisado e se converta também em terra fértil, e que os espinhos
desapareçam e deixem crescer exuberantemente as sementes. E, se essa
transformação não acontece em todos, não é, certamente, por culpa do semeador,
mas daqueles que não querem mudar”. Isto é terrível, mas acontece: o homem pode
fechar-se à Palavra de Deus, recusá-la e, consequentemente, torná-la ineficaz.
Aos discípulos que perguntam a Jesus: “Por que falas ao povo em
parábolas?”; responde-lhes: “Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e
terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem”
(Mt 13, 12). O Senhor explica aos seus discípulos que eles, justamente porque
têm fé nEle e desejam conhecer mais a fundo a Sua doutrina, ser-lhes-á dado um
conhecimento mais profundo das verdades divinas. Mas os que não O seguem,
depois de O terem conhecido, perdem o interesse pelas coisas de Deus e estarão
cada dia mais cegos, e é como se lhes fosse tirado o pouco que tinham. O Senhor
exorta-nos, sem tirar a nossa liberdade, à responsabilidade de sermos fiéis:
devemos fazer frutificar os dons que Deus nos vai enviando e aproveitar as
ocasiões de santificação cristã que nos são oferecidas ao longo da nossa vida.
Ainda, respondendo à pergunta dos discípulos, “Por que lhes falas
mediante parábolas?”, Jesus responde, apresentando uma distinção entre eles e a
multidão: aos discípulos, isto é, àqueles que já se decidiram a segui-Lo, Ele
pode falar do Reino de Deus abertamente, mas, aos demais, ao contrário, deve
anunciá-lo com parábolas, precisamente para estimular a decisão, a conversão do
coração; com efeito, pela sua própria natureza, as parábolas exigem um esforço
de interpretação, interpelam a inteligência, mas, também, a liberdade. São João
Crisóstomo explica: “Jesus pronunciou estas palavras com a intenção de atrair a
Si os seus ouvintes e de os estimular, assegurando que, se O procurarem, Ele
curá-los-á” (Comentário ao Evangelho de Mateus, 45, 1-2). No fundo, a verdadeira
“Parábola” de Deus é o próprio Jesus, a sua Pessoa que, no sinal da humanidade,
esconde e, ao mesmo tempo, revela a divindade. Desse modo, Deus não nos obriga
a crer n’Ele, mas atrai-nos a Si com a verdade e a bondade do seu Filho
encarnado: Com efeito, o amor respeita sempre a liberdade.
Não pensemos que o não querer ouvir, nem ver, nem compreender,
foi coisa exclusiva daqueles homens contemporâneos de Jesus; cada um de nós
também tem as suas durezas de ouvido, de coração e de entendimento perante a Palavra
de Deus, perante a Sua graça. Além disso, não basta saber a doutrina da fé: é
absolutamente necessário vivê-la com todas as suas exigências morais e
ascéticas. Jesus foi pregado na Cruz não só pelos pregos e pelos pecados de
alguns judeus, mas também pelos nossos pecados, que iríamos cometer séculos
depois, mas que já atuavam sobre a Humanidade Santíssima de Jesus Cristo, que
carregava com nossos pecados.
“A alma que ama a Deus de verdade não deixa, por preguiça, de
fazer o que pode para encontrar o Filho de Deus, o seu Amado. E depois de ter
feito tudo o que pode, não fica satisfeita e pensa que não fez nada” (São. João
da Cruz).
“A semente que caiu no meio dos espinhos é aquele que ouve a
palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra,
e ele não dá fruto” (Mt 13, 22). Trata-se de almas obcecadas pelas coisas
materiais, envoltas numa “avareza de fundo que leva a apreciar apenas o que se
pode tocar: os olhos que parecem ter ficado colados às coisas terrenas, mas
também os olhos que, por isso mesmo, não sabem descobrir as realidades
sobrenaturais” (São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, nº 6). É como se
estivessem cegos para o que verdadeiramente importa.
Deixar que o coração se apegue ao dinheiro é um grave obstáculo
para que o amor de Deus crie raízes no coração. São Paulo ensina que quem
coloca o seu coração nos bens terrenos, como se fossem bens absolutos, comete
uma espécie de idolatria (Col 3, 5). Esta desordem da alma conduz com
frequência à falta de mortificação, à sensualidade, à fuga ou ao esquecimento
dos bens sobrenaturais, pois sempre se cumprem aquelas palavras do Senhor:
“onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12, 34).
Deus espera que sejamos um terreno que acolha a graça e dê fruto;
e produziremos mais e melhores frutos quanto maior for a nossa generosidade com
Deus.
“Além disso, o Senhor nos dá muito, tem direito à nossa mais
plena correspondência…, e é preciso caminhar ao seu passo” (Forja, 385).
Cabe – nos a pergunta: Que tipo de terreno sou eu? As quatro
qualidades de terra se encontram, mais ou menos, em cada um de nós! Esse
terreno é uma imagem do coração dos ouvintes, dos nossos corações! O anúncio da
Boa-Nova da salvação é o mesmo, mas uns acolhem e se convertem, outros rejeitam
e se fecham. Assim foi com a pregação de Jesus: os publicanos e pecadores
acolhiam; os fariseus e os escribas criticavam Jesus (Lc 15, 1-2); o mesmo
ocorreu com a pregação dos Apóstolos e, também hoje, com a pregação da Palavra
pela Igreja.
Em cada um de nós há espinhos, pedras, trilhos e terra de boa
qualidade. Trata-se de tomar consciência e de melhorar o terreno (que é o nosso
coração) para que a Palavra de Deus possa produzir frutos.
Gostaria de fixar-me sobre o lado positivo e encorajador do Evangelho
de hoje: a Palavra de Deus encontra também muitos corações disponíveis, muito
terreno bom. O terreno melhor foi aquele de Maria, que acolhia todas as
palavras e as guardava em seu coração ( Lc 2,19). Terreno bom foram os
apóstolos e os discípulos, que acolheram a Palavra e a pregaram ao mundo,
irrigando-a com o próprio sangue.
Quem é hoje o terreno bom que produz fruto? É o cristão que,
antes de tudo, tem sede da Palavra de Deus, que a ama, que se preocupa em
ouvi-La, compreendê-La, convicto de que não só de pão vive o homem, mas de toda
palavra que sai
da boca de Deus (Mt 4,4). É aquele que aplica a
Palavra à sua vida; dá-lhe forma e espaço, com a reflexão, de modo que possa
germinar, em seu coração, iluminar as intenções, fortificar os propósitos, de
modo que eles se transformem em obras evangélicas, isto é, nos cem por cento de
que fala Jesus no final de sua parábola.
A Palavra de Deus produz muitas graças de iluminação, de paz e
de alegria. Tem força capaz de nos mudar e mudar o mundo, se deixarmos penetrar
de maneira profunda em nossa mente e em nosso coração. Podemos ser o terreno
bom e dar muito fruto. Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em
prática. Felizes! Afinal, como bem afirmou São Paulo: “Quem poderá me separar
do amor de Deus?”.
Que a Virgem Maria nos ajude a ser “terra boa” onde a semente da
Palavra possa produzir muito fruto!
Dom José Maria Pereira
https://presbiteros.org.br/homilia-do-d-jose-maria-pereira-xv-domingo-do-tempo-comum-ano-a/
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