sexta-feira, 5 de maio de 2023

A questão Mariológica (I)

 

 

A questão Mariológica (I)

Por Pe. João Rezende Costa

 

INTRODUÇÃO

Em dois números da Vida Pastoral, neste e no próximo, pretendo expor aos leitores como anda a questão mariológica na teologia. Com certeza, apenas em suas grandes linhas.

Antes de tudo, convém distinguir acurada­mente entre “questão mariológica” ou simples­mente “mariologia” e “devoção mariana”. É da primeira que trato e não da segunda. “Mariologia” é parte da teologia — o esforço da razão para entender a fé — que considera eventuais afirmações de fé referentes a Maria: trata-se nela do momento intelectual-reflexivo e metodologicamente controlado das afirmações sobre Maria, que, em consequência, pretende ser responsável e bem fundado nas fontes adequadamente conhecidas e bem interpretadas; e que por isso não pode deixar tais afirmações ao léu de impulsos voluntaristas ou de meros sentimentalismos. A “devoção mariana” consiste nas atitudes e relacionamentos pessoais de piedade, devotamento e preces dirigidos a Maria, que, com efeito, podem nascer de puro sentimentalismo estéril e até mesmo de neuroses, psicoses e frustrações dos envolvidos, como também podem fundar-se em boa mariologia como justa consequência dela.

J. Moltmann[1]afirma judiciosamente: “As múltiplas formas de veneração a Maria avançam na maioria das vezes para além da mariologia aceita pela Igreja”. Por isso, a “figura de Maria” da chamada “devoção popular mariana” pode muito bem referir-se apenas na intenção subjetiva das pessoas à verdadeira Maria atualmente gloriosa no céu ou à Maria real de Nazaré de outrora. Pode, na verdade, acolher anseios, valores e frustrações do povo, que é interessante estudar sob o prisma de outras disciplinas, como a sociologia, a sociologia do conhecimento ou a psicossociologia, mas a referência das constatações e afirmações não será à Maria real, e, portanto, não poderão fazer parte da mariologia teológica. É à Maria real que a mariologia pretende e deve referir-se com interesse intelectual e teórico. Contudo, também essa teoria mariana, contemplando-a em retrospectiva histórica, não deixa de se nos apresentar hoje como socioculturalmente situada, limitada e marcada por ideologias, da mesma forma que as “devoções marianas” podem delas estar imbuídas.

Somos filhos do nosso passado, até que nos demos conta de seus limites e penosamente vamos eliminando seus estorvos para o presente que nos fecham para o futuro. Assim em tudo, assim em mariologia. Entre os estorvos está o “finca-pé” voluntarista e teimoso, não fundado racionalmente, em formas de devo­ção caducas e na respectiva “mariologia” fundante delas.

De 1854 (data-símbolo por causa da proclamação do dogma da Imaculada Conceição) até 1950 (também simbólica pela proclamação da Assunção de Maria aos céus em corpo e alma), vivemos na Igreja Católica período que podemos dizer marcado por uma espécie de maximalismo mariano, que ainda continua a nos influenciar como herança persistente (e penosa?). Somos recém-chegados de um século de hábitos e perspectivas de pensar sobre Maria e é difícil deles fugir, pois tendem a pré-conformar a si a recepção de todo novo conteúdo e conceito vazado sob novos prismas. Tanto em outros tratados teológicos como em mariologia, mas muito mais em mariologia.

Assim sendo, cabe-nos entrar nos meandros e tendências deste “maximalismo mariano” católico, o que faremos agora, deixando pa­ra um próximo artigo especificamente a visão crítica da mariologia deste período, na inten­ção de detectar os rumos para onde caminha ou deve caminhar. Daí, nosso esquema: um século de “maximalismo mariano” na Igreja Católica, a ser tratado neste número; e num próximo trataremos da maneira como fomos (e vamos) fugindo do “maximalismo mariano” e vergando os rumos da mariologia, vendo muito mais a problemática e tentativas de soluções do que soluções acabadas, uma vez que tudo está em processo neste campo.

II. UM SÉCULO DE MAXIMALISMO MARIANO NA IGREJA CATÓLICA

Chamo de “maximalismo mariano”, que não deixou de fazer-se acompanhar também de um “maximalismo mariológico”, a acentuação fortíssima da referência a Maria, uma exuberância fora do comum alcançada pelos temas marianos e mariológicos na Igreja Católica nos cem anos que antecederam ao Vaticano II. Passo a enumerar algumas das características que o configuram.

1. Veneração a Maria

Houve grande insistência dos Papas, com inúmeras Encíclicas, na veneração a Maria. Também elas estiveram marcadas pelo método teológico escolástico que exporemos abaixo (e solidárias de suas excrescências e defeitos). Quase todos os Papas houveram por bem escrever sobre Maria para a Igreja toda. As Encíclicas parecem pleito da devoção pessoal dos Papas a Maria, muitas vezes parecendo forma própria de eles exercerem essa devoção, precisamente usando de sua autoridade para promovê-la.

2. Os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção

O período como que se enquadra entre a proclamação do dogma da Imaculada Conceição e da Assunção (1854 e 1950 respectivamente), os únicos dogmas de interesse diretamente marianos, uma vez que os outros dogmas marianos e toda a reflexão teológica anterior de modo geral buscavam ser funcionais com referência à cristologia e à eclesiologia, sem o matiz de interesse imediato por Maria. Ela entrava no discurso como parte do quadro global do mistério da salvação, enquanto a ele servia em sua centralidade, permanecendo quase que como periferia voltada para este centro.

3. Profusão de congressos e escritos sobre Maria

Houve uma multidão de congressos marianos e mariológicos de todo nível: regional, nacional e internacional. Nada menos do que doze congressos internacionais desde 1902 (Friburgo) até 1967 (Fátima). Frisem-se, ademais, os jubileus de cinquenta anos (1904) e cem anos (1954) do dogma da Imaculada Conceição, mariana­mente comemorados com triunfo, por ordens hierárquicas de cima, e acompanhados de in­tensas e extensas reflexões teológicas nas várias línguas. Ao mesmo tempo, surgiu uma profusão de periódicos e revistas e grupos de teólogos em vários países com a finalidade de promover de forma específica os estudos mariológicos. Estes trabalhos de reflexão foram feitos, nos inícios dos cem anos de “maximalismo mariano”, cada vez mais sob o signo do método teológico escolástico, passando pouco a pouco a assumir as perspectivas novas, bíblicas, patrísticas, metodológicas, ecumênicas — que foram se impondo ao decorrer dos decênios, principalmente nos últimos cinquenta anos antes do Vaticano II. Talvez se tenha escrito mais sobre Maria nesse período do que sobre qualquer outro tema.

4. A perspectiva ecumênica esteve ausente

A maioria dessa literatura esteve marcada pelo enclausuramento dentro dos muros da Igreja Católica, pois pouca atenção se dava às outras Igrejas cristãs, que em seu gaba­rito de verdadeiras Igrejas ou comunidades eclesiais só foram reconhecidas no Vaticano II, sendo antes postas sob o signo da heresia e apostasia da fé. O período caracterizou-se em suas reflexões pelo descuido, no campo específico de que tratamos, a mariologia, pelo ecumenismo, movimento que eclodiu e veio a influenciar a reflexão teológica somente mais tardiamente, depois dos anos 1930. Necessariamente, na renovação da mariologia posterior, a perspectiva e o diálogo ecumênicos se impuseram como dever.

5. As aparições de Nossa Senhora

Uma série de aparições, supostamente de Maria (Catarina de Labouré em 1830, La Salette em 1846, Lourdes em 1854, e Fátima em 1917), atribuem-se a este período. Foram tidas oficial ou oficiosamente como autênticas e credíveis por autoridades eclesiásticas, até papais, chegando a denominar uma multidão de instituições e paróquias pelo mundo afora, enchendo a fantasia dos fiéis dessas imagens. Não teria bastado a operação salvífica de Jesus e o seu Evangelho para salvar o mundo? Foi preciso Maria vir dar mais um alerta, ou alertas, alguns marcados por tons ameaçadores e catastróficos? Este interesse já não envolve em si um tom antidogmático e antiecumênico? Não está aberto à mera credulidade, uma vez que não recai sob a fé divina?

6. Insistência nos privilégios e louvores a Maria

Há nesse período também uma insistência forte e unilateral nos privilégios e “glórias de Maria Santíssima”, no que ela apresentaria de singular e especial, fazendo-a emergir do simplesmente humano, como se dele não tivesse participado, em uma espécie de “mariologia de cima para baixo”: a partir de sua “maternidade divina”, pela qual Maria como que teria sido elevada a uma ordem superior de existir, quase que à altura da união hipostática do seu Filho. E este fato justificaria a devoção dos encômios e louvores de toda ordem, e da mais alta ordem, dirigidos a Maria (encômios que, afinal, em nada redundavam em benefício da conversão e vida cristã!). Chegou-se a cunhar motes como “De Maria nunquam satis” (“Sobre Maria nunca se consegue dizer o bastante”), e o silogismo escolástico: “Decuit, potuit, ergo fecit” (“Foi conveniente, Deus podia, logo fez”); que parece uma presunção e pretensão de sondar por dentro no segredo e mistério das conveniências do próprio Deus, somente dele conhecidos, para sacar cada vez mais conclusões laudatórias e mais privilégios e glórias para Maria. E tudo por via dedutiva, e não pela consideração da sua singularidade histórica ou a partir de sérios e fundados estudos bíblicos.

 

7. O método teológico neoescolástico como matriz da mariologia

O que sobretudo marcou o “maximalismo mariano” foi o peculiar método de produzir teologia, de que lançou mão: o método especulativo neoescolástico, aplicado com profusão principalmente em mariologia (devido à escassez e obscuridade dos dados bíblicos sobre Maria?). Caducando este método, caducará também o seu produto, evidenciando seus limites evidenciará também os limites do produto.

Tentemos delineá-lo em seus principais contornos, correndo o risco de caricaturizá-lo ao simplificá-lo em sua exposição.

a) Método neoescolástico

O método teológico neoescolástico agia a partir da perspectiva da busca da mera compreensão de verdades no quadro dos pressupostos da filosofia aristotélico-tomista. Quer dizer que o seu interesse voltava-se para obter ideias claras e bem sistematizadas, colimando o aumento quantitativo de verdades reveladas, e os moldes, nos quais tentava vazar a compreensão, eram as ideias pré-concebidas de uma filosofia humana determinada, que se julgava a mais apta a colher, acolher e ilustrar os dados da fé (sempre sob o ponto de vista da intelecção ou compreensão conceptual).

b) Silogismo dedutivo

O meio de aumentar o depósito das verdades reveladas era o silogismo dedutivo. Daí, o interesse acentuado em se buscar um princípio primeiro ou fundamental, que já contivesse em si explícita ou implicitamente todo o conteúdo de um tratado ou tema teológico. Em nosso caso, da mariologia. Em consequência, chegou-se a um peculiar uso da Escritura como prova de teses já estabelecidas, bem como a deduções (“verdades reveladas” ou “contidas nas verdades reveladas” ou “pressupostos das verdades reveladas”) — as mais variadas e de cunho ontológico-coisístíco (trans­feridas e tiradas do seu habitat bíblico original, ou seja, do seu enfoque funcional, histórico e processual, que caracteriza a Bíblia).

Ilustremos, por meio de exemplos adrede buscados na mariologia, cada uma dessas afirmações teóricas e com razão incompreensíveis para o não iniciado em filosofia e teologia aristotélico-tomista.

c) Busca de um princípio

Antes de tudo, vai a questão da busca de um princípio primeiro ou fundamental, que contenha como que em semente e síntese concentrada de todas as afirmações mariológicas. Este princípio, segundo a teoria, haveria de ser um axioma aceito por si e evidente, deveria conter em si implicitamente todos os dogmas e todas as doutrinas marianas, bem como possibilitar que fossem logicamente deduzidas. E, assim sendo, este princípio atuaria como fator unificante de toda a mariologia e desta com as outras doutrinas reveladas, marcando para ela seu devido e equilibrado lugar em toda a sistemática teológica.

Cada mariólogo apresentava sua variedade específica de proposta de um princípio primeiro-fundamental e sob ele tramava toda a distribuição do material respectivo, o que já acusa a intromissão nas “doutrinas” das pré-compreensões e interesses de cada autor, o que também relativizava o próprio dado dogmático, quando dele se tratava. Assim, houve tratações diversas, travadas, cada uma por sua vez, sob os mais diferentes axiomas tidos como primeiros princípios. Por exemplo:

— Maria, mãe do Cristo total, Cabeça e membros do Corpo místico.

— Maria, mãe do Redentor.

— A maternidade divina tomada concreta e historicamente.

— A mãe do Verbo divino encarnado entre nós para salvar a humanidade pela sua vida de renúncia expiatória e pela associação das almas redimidas a essa forma de vida.

— Matrimônio divino.

Essas propostas acima baseiam-se na “maternidade divina” de Maria acrescida de sua como que quase-extensão na “maternidade espiritual” para com os homens como consequência lógica daquela.

Ao passo que estes primeiros princípios em oferta apresentam a vertente da referência cristológica de Maria, outros primeiros princípios propostos tendiam a enxergar mais a referência eclesiológica ou eclesiotípica de Maria, como:

— Maria, a nova Eva, imagem original e típica da Igreja.

— Maria, a redimida de forma perfeita pela graça, que realizou e representa da forma mais plena o que pode operar a graça de Deus no seio da humanidade e da Igreja.

— Maria, aquela que obteve a maior participação na humanidade de Cristo.

Todos estes ensaios e outros pretendiam ser o desaguadouro lógico e legítima expressão da revelação original bíblica ou de Magistério: “Maria, aquela que gerou a Deus” (linguagem dos Concílios cristológicos dos primeiros séculos), ou “Maria, mãe de Jesus” (linguagem bíblica geral do Novo Testamento), e “Maria, cheia de graça” (linguagem bíblica lucânica em Lc 1,28: texto usado para confirmar a tese da plenitude da graça em Maria).

 

d) O uso da Bíblia

Em segundo lugar, vejamos o uso que se costumava fazer da Bíblia. A Sagrada Escritura era usada como fonte de provas para teses posteriores, com frequência já vazadas em categorias fortemente escolasticizadas. Com isso, tomava-se um evento singular retirado ao contexto e perspectiva redacionais dos evangelistas — conceitos expressos nos moldes de pensar funcional, processual e histórico, ou nas categorias delicadas do simbolismo, tão frequente nos autores bíblicos — e passava-se a entender tudo em categorias metafísicas e ontológicas de naturezas, substâncias e acidentes, e, por meio de silogismos dedutivos, chegava-se a conclusões também elas de alcance e conteúdo ontológicos, a que se atribuía coerência, cogência e premência lógicas optimais. Demos um exemplo de raciocínio silogístico no campo da mariologia nesse sentido:

— Maria é a mãe do Redentor de todos os homens;

— ora, a maternidade divina implica causalidade com referência a todas as qualidades essenciais do Filho;

— ora, o Filho é causa da Salvação;

— logo, Maria é mãe de todos os homens.

Tal inferência, consideramo-la hoje de infantilismo gritante, mas atente-se para o fato de que na verdade era feita e facilmente se encontra ainda hoje em literatura mariana de divulgação produzida por desinformados em mariologia e em homilias marianas.

E daí se salta para a busca de fundamento bíblico para as afirmações assim produzidas sob pressupostos totalmente estranhos à Bíblia. E o processo implica como que em arrancar a golpes e garras de fórceps o dado novo (com novo conteúdo, posterior, carregado de matiz ontológico e pressuposta coerência lógica) do texto antigo. De tal forma viu-se a mariologia marcada por linguagem e dados tão estranhos, distanciados e distorcidos da Bíblia, que se sentiu grande mal-estar neste campo, passando-se a uma espécie de “silêncio mariano” na reflexão teológica após o Vaticano II. Veio-se a perceber que estávamos pensando um pensamento segundo (de Tomás de Aquino ou de um neoescolástico qualquer) sobre um pensamento primeiro (o da Bíblia ou fonte da revelação) muito mais do que o pensamento primeiro, sobrepondo-se o pensa­mento segundo ao primeiro.

Para exemplificar o trato dado à Sagrada Escritura, apresentemos dois casos.

O primeiro refere-se à fundamentação do item da maternidade espiritual de Maria para com os homens (que se estabelecera pelo silogismo escolástico tal como foi apresentado acima). Buscava-se, e ainda se busca, pelos desinformados da complexidade do texto bíblico, a base ou o argumento bíblico em Jo 19, 25-27 (“… disse à sua mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’…”).

Se nos deixarmos levar pelo pensar costumeiro e vezeiro, parece estar na letra desse texto bíblico a alusão à maternidade espiritual universal de Maria, baseada na palavra mesma de Jesus, donde adquiriria foros dogmáticos. Mas isso é correto? Funda-se biblicamente? Em que termos?

Só o fato de o Evangelho de João se distinguir pelo emprego exuberante de símbolos e sinais, já nos deveria levar a ser cautos. Há exegeses diferenciadas do texto, por si muito opaco. Uma delas nos vem dizer que o discípulo mencionado não representaria a humanidade, mas a nova aliança que se baseia no sangue de Jesus e na fé daquele que nele crê, e Maria não representaria a maternidade espiritual para com o discípulo, mas simplesmente a antiga aliança que então é recebida na “casa” da nova. Maria seria, em consequência, o símbolo da antiga aliança e não a mãe de todos os homens[2].

Um segundo exemplo, agora para fundar biblicamente o que se veio a chamar de dogma da plenitude de graça de Maria: Citava-se Lc 1,26, um texto que, levados pela tradução latina antiquíssima por “gratia plena”, traduzimos literalmente para o português por “cheia de graça”, parece nos sugerir a doutrina naqueles termos. Aliás, desse texto já se concluiu tudo sobre Maria, inclusive os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção de Maria. Mas a questão adquire feição bem diversa já pelo simples fato de termos no grego original o particípio passado em uma só palavra, ou seja, “kecharitoméne”, que literalmente se deve traduzir por “agraciada”, “alcançada pelo favor e benevolência divina”, que retira ao texto toda conotação de “plenitude” já por força vocabular (além de existirem outras razões de ordem contextual e redacional do evangelista, que não permitem vergar o termo para produzir o sentido escolástico ontologizado de “graça” como participação subjetiva em alguma coisa da parte de Maria, pois a “graça” aí é atributo e atitude de Deus para com Maria, o agrado de Deus por ela).

Grande problema na teologia e na Igreja, que continua ainda hoje a produzir efeitos malsãos, é que o próprio magistério da Igreja, em suas mais altas instâncias, embarcou neste método por inteiro; método que se comprovou inadequado e ilegítimo para se fazer teologia, tendo operado (e ainda hoje muitas vezes) com categorias ontológico-escolásticas, do que pode resultar que os dados obtidos — linguagem e conteúdos — não passem de algaravia de afirmações; algumas talvez contendo algo da fé genuína, mas embrulhadas em conteúdos de pensar provenientes da filosofia em uso, sem que sequer se percebesse este amálgama ideológico, pensando-se que se tratasse de definições indestrutíveis no seu todo, sem se perceber que a alma da teologia era este método, e até da interpretação da Escritura, e não a Escritura mesma. E, com toda evidência, não se pode apelar para o magistério infalível para dar razão e justeza para essa maneira de proceder, ainda não epistemologicamente sob suspeita nem testado. E não é justo confundir o magistério da Igreja, um dado teológico, com um método filosófico e racional de reflexão humana, que não pode reivindicar a autoridade daquele somente por que os detentores do magistério dele se serviram acriticamente durante determinado período, e até mesmo se identificando com ele, fato que tornou moroso o acesso a outros métodos que se tentaram aplicar e vieram a ser vitoriosos e amplamente usados nos últimos cinquenta anos antes do Vaticano II.

 

III. CONCLUINDO ESTA PARTE I

O “maximalismo mariológico” e mariano trouxe à luz uma superprodução de escritos sobre Maria (milhares e milhares de títulos), vazados na maioria nos moldes neoescolásticos preconizados por Leão XIII, com busca frenética de sistematização e primeiros princípios sistematizantes, com a independização do tratado da mariologia como tratado específico fazendo corpo à parte dos outros, vindo a se expressar em linguagem eivada de ontologismo e distante da linguagem bíblica e patrística sobre Maria, quase sempre trabalhando no sentido de exaltar as glórias e deslindar privilégios de Maria e esquecendo-se da mulher humilde e humilhada (pois que participou e terá sofrido da marginalização que recaía sobre as mulheres do seu tempo e meio ambiente), da mulher discípula de Jesus, cuja fé é muito mais de se exaltar do que sua maternidade física, fato que a situa muito mais do nosso lado juntamente com o Verbo que se fez carne (o lado frágil do nosso ser humano) e armou sua tenda entre nós (cf. Jo 1,14).

Após a Primeira Guerra Mundial, notando-se o mal-estar de uma linguagem e das afirmações sobre Maria provenientes de uma teologia correndo nos trilhos de uma epistemologia falha, a teologia católica ocidental, passo a passo com a mariologia, começou a entender­-se como o final esclerosado de uma evolução que se comprovou em suas fraquezas como grande distância dos inícios bíblicos e patrísticos, que era necessário recuperar. A reflexão humana de determinados teólogos e da Escolástica ficara mais pensada e falada do que a origem dada por Deus, a fé objetiva (as verdades e fórmulas de fé) mais acentuada do que a fé subjetiva (a vivência da fé). Evidenciou-se a necessidade de aplicar novas epistemologias, novas perspectivas impostas pelos tempos modernos com suas novas interrogações e interesses, bem como mais acurado retorno à Sagrada Escritura, agora estudada de forma renovada com novos métodos de pesquisa, devendo tornar-se ela mesma a alma de toda teologia. Destas tentativas falaremos no próximo número de Vida Pastoral.


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[1] Concilium, n. 188, p. 922.

[2] Sobre a complexidade do argumento bíblico, cf. R. Brown; K. L. Donfried; J. A. Fitzmyer; J. Reumann. Maria en el Nuevo Testamento. Salamanca: Sígueme, 1982, pp. 175-­210.

 

Pe. João Rezende Costa

 

https://www.vidapastoral.com.br/artigos/mariologia/a-questao-mariologica-i/

ESPIRITUALIDADE Como acolher Maria em sua casa neste mês de maio

 

 

ESPIRITUALIDADE

Como acolher Maria em sua casa neste mês de maio

 

Hozana 

Não se trata de ter Maria como uma pessoa simplesmente próxima, mas como uma Mãe que ama, cuida, corrige, intercede, protege, limpa, dá sustento, amparo, carinho...

Sobre Maria, Santa Teresinha do Menino Jesus nos diz o seguinte:

“Sabemos muito bem que a Virgem Santíssima é a Rainha do céu e da terra, mas ela é mais Mãe do que Rainha”.

De fato, Santa Teresinha percebe a real vocação da Santíssima Virgem: ser Mãe! É essa mesma percepção que você precisa ter hoje: Ela é Mãe!

Cada um de nós tem uma missão. Um chamado específico de Deus. Um plano de amor que Deus sonhou pra nós. Com Maria não foi diferente. Deus também sonhou planos para Ela! 

Quando Deus pensou Maria, pensou uma Mãe! Quando Deus pensou uma Mãe para o seu Filho, pensou Maria, a cheia de graça!

“Para vir a ser Mãe do Salvador, Maria ‘foi adornada por Deus com dons dignos de uma tão grande missão’. O anjo Gabriel, no momento da Anunciação, saúda-a como ‘cheia de graça’. Efetivamente, para poder dar o assentimento livre da sua fé ao anúncio da sua vocação, era necessário que Ela fosse totalmente movida pela graça de Deus.”

(CIC, §490)

Maria modelada pelo Espírito Santo

Ela foi modelada pelo Espírito Santo, mais que toda e qualquer outra pessoa criada, o Pai a “encheu de toda a espécie de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo” (Ef 1, 3). “N’Ele a escolheu antes da criação do mundo, para ser, na caridade, santa e irrepreensível na sua presença” (Ef 1, 4).

Vocacionada a ser Mãe, Deus enriqueceu Maria para isso! Se achamos nossa mãe “a melhor mãe do mundo”, o que dizer de Maria, feita Mãe de Deus?!

Ter mãe é algo tão bom que o próprio Deus, criador da maternidade, quis experimentar o quanto é bom ter uma mãe! Ele quis sentir os carinhos, os cuidados, o amor gratuito de uma Mãe e pôde experimentar isso da forma mais perfeita, pois perfeito é o amor de Maria!

O amor mais excelso de toda a terra

Dizem que o amor de mãe é o amor mais próximo do amor de Deus, aquele que está imediatamente abaixo do amor divino! Se pensarmos assim, podemos dizer que o amor maternal de Maria é o amor mais excelso de toda a terra e que seu amor de Mãe é mais forte e mais ativo que a soma de todo o amor dos corações maternos do mundo inteiro!

Pra Jesus esse amor de Maria Mãe foi tão caro e precioso que diz a Palavra de Deus que Ele era submisso à sua Mãe (Lc 2, 51) e assim o foi até o início de seu ministério, escondido no cuidado de Maria até sua idade adulta.

E a amou tanto que no momento mais dramático de sua vida, a beira da morte, fez questão de entregá-la aos cuidados do discípulo que mais amava!

Gesto de amor

É nesse gesto de amor que Jesus estabelece Maria como nossa Mãe:

“Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.” (Jo 19, 25-27).

Esse trecho do Evangelho de João foi escrito na língua grega e o texto original não fala que o discípulo amado levou Maria para casa, oíkos, mas o termo usado significa que ele levou Maria para si próprio, ou seja, para sua intimidade, para viver no coração.

Isso nos revela que o verdadeiro discípulo amado não tem Maria só em sua casa, mas a tem na intimidade do seu coração! Toda mãe possui intimidade com o filho desde a gestação e mesmo nascendo, crescendo e saindo de casa, jamais os laços maternos se desatam!

Quando Jesus dá essa ordem à Maria, sua Mãe: “Mulher, eis aí teu filho”, sem dúvida alguma Ela não somente obedece ao Senhor, como leva a finco suas palavras, pois estas expressam o último desejo do Seu Coração sofrido e ultrajado. 

Jesus nos deu a Sua Mãe!

Contemplando essa maternidade espiritual de Maria, que Santa Maravilhas de Jesus afirma: “Bendito seja o nosso Deus que nos deu a sua Mãe por nossa Mãe.” Sim, Jesus no-la deu como Mãe, não como rainha, ou intercessora, por mais que Ela seja tudo isso. Se não a acolhemos como nossa Mãe, estamos desobedecendo a última ordem do Crucificado e estamos perdendo essa dádiva de Deus de ter a sua Mãe como nossa, de receber seu colo e seus cuidados maternos!

Não esqueçamos que Maria Santíssima é vocacionada a ser Mãe e foi uma perfeita Mãe para Jesus e este estendeu sua maternidade para nós! Ela saberá cuidar de nós como nossa Mãe! Se o próprio Deus confiou seu Filho aos cuidados de Maria, porque não imitamos Deus nos confiando também à maternidade de Maria?

Diz a Serva de Deus, Madre Maria José de Jesus, carmelita brasileira:

“Não te iludas: precisas de amparo. E esse amparo é a humilde Virgem Maria, posta por Deus para ser esteio de nossa fragilidade, como outrora para sustento, defesa e guarda da infância do Verbo Encarnado”.

Acolha a Mãe de Deus em sua casa

É impossível ser íntimo de Nossa Senhora sem passar pelo seu colo materno! Faça hoje, em oração, uma experiência de amor com Maria que muito nos ama e quer participar da nossas vidas! Não se trata de ter Maria como uma pessoa simplesmente próxima, mas como uma Mãe que ama, cuida, corrige, intercede, protege, limpa, dá sustento, amparo, carinho, tudo isso!

Por isso quero te fazer dois convites! Venha durante sete dias estreitar os laços de intimidade com a Mãe de Deus. Deixe que ela visite a casa que é o teu coração, e com ela aprenda a fazer do Senhor o centro da tua vida.

Faremos isso em um retiro on-line a partir da leitura e meditação dos trechos da Encíclica REDEMPTORIS MATER, escrita por São João Paulo II. Clique aqui para participar do retiro A Doce Mãe de Deus Visita sua casa!

Durante o mês de maio a Igreja volta o olhar para a Virgem Maria, aquela que tem um lugar especial no plano da salvação, que com docilidade disse Sim a Deus, gerando em seu ventre o Salvador. Venha então, durante este mês de maio, meditar os mistérios da Igreja na companhia de nossa Mãe, Mestra e Modelo. Venha Caminhar um mês com Maria! Clique aqui e faça parte deste retiro on-line

Desejo você cresça na intimidade e no amor a Nossa Senhora, de quem você é verdadeiro filho muito amado.

Tenha um abençoado mês de Maria!

Diácono Felipe Zanotto, do Hozana

 

https://pt.aleteia.org/2021/05/14/como-acolher-maria-em-sua-casa-neste-mes-de-maio/

NOSSA SENHORA TEVE APENAS UM FILHO ! Pe Zezinho scj

 

 

NOSSA SENHORA TEVE APENAS UM FILHO !

 Pe Zezinho scj


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O FAMOSO PASTOR GARANTIU QUE MARIA NÃO PERMANECEU VIRGEM ! AFIRMOU CONVICTO QUE MARIA TEVE OUTROS FILHOS E FILHAS. Opinião dele !…

 

Não aprendemos com os mesmos livros !

Citou os trechos que lhe serviam e ignorou outros que não lhe serviam !

A ira fictícia do famoso e engraçado pastor esconde seu erro de protestante que aceita a virgindade de Maria , mas só antes do casamento . Depois , não !

Nem ele nem eu estávamos lá . E São Jose não nos apareceu para dizer como foi depois do nascimento de Jesus. E nossas apologéticas e aprofundamentos de leituras da Bíblia não são as mesmas .

Mt 12,46-50 ; Mt 13,55 ; Mc 6,3 ; Lc 8,19 ; Jo 2,12; Jo 5,7-10; Jo 20,17; At 1,14; Jo 21,23 ; At 12,17

É conveniente para certos pregadores misturar tudo. A Bíblia chama de irmãos até quem não tem a mesma mãe ! A palavra “ irmão” quase sempre é usada como convém ao pregador e não ao sentido do texto!!!

Na mesma Bíblia fala-se de outra mãe e outro pai para os mencionados “ irmãos” de Jesus .

Thiago , José, Judas e Simão não são citados como filhos de Maria. Nos evangelhos há mais de seis Marias . Uma delas é citada como a outra Maria . ( Mt 28,1) A Maria, mãe de Thiago e José ( Mt 27,56) não é citada como mãe de Jesus.

Quem segue este pregadores teatrais nunca vai conhecer os outros trechos da Bíblia . Não os citam !

Quem estudou a Bíblia sabe o que significa o termo “ Irmãos “. Nem sempre era parentesco de sangue !

*****
Mas reflitamos sem paixão nem de católico , nem de evangélico, nem de pentecostal .

1- Será que Jesus teria entregue sua mãe a “João filho de Zebedeu “
que não era filho dela ? Se houvesse mais seis filhos e filhas de Maria além dele , será Jesus entregaria sua mãe a cuidados de João ! Não era mais correto e certo que ele a confiasse aos outros “ irmãos “, isto , se Maria tivesse outros filhos e Jesus tivesse outros irmãos de sangue ? Pense comigo sobre este argumento !

2- E onde estavam estes “irmãos” aos pés da cruz ? Onde estavam na viagem ao Templo aos doze anos dele. ? Será que por acidente ou esquecimento estes irmãos ficaram em Nazaré ? Eram seis irmãos mais novos ! Maria e José não levariam os outros filhos ?

3- Se você fosse a mãe não levaria os outros filhos ao grande Templo ? Imagine vc , mãe católica , indo em romaria só com o filho de doze anos , por quase uma semana ? Naquela época ? Nunca !

4- E, na morte dele , por que nenhum dos irmãos reclamou seu corpo ? Porque será que foi gente estranha que enterrou Jesus na tumba? Nenhum dos irmãos de sangue foi lá ? Só a mãe ? Não é estranho ? Seis irmãos judeus de sangue judeu fariam isto ? Não seriam amaldiçoados por isto em Nazaré e Cafarnaum ?

5- Ora, os fictícios “irmãos” já tinham , no mínimo 25 a 30 anos quando Jesus morreu ! Tinham vergonha de Jesus ? Ou não eram irmãos de sangue ?

6- Parentes costumam dar pitaco quando um parente se torna famoso . Mas , se são primos eles , ele dão pitaco ! Mas irmãos de sangue podem até discordar, mas nunca o abandonam irmão de sangue na hora da morte ! Segundo a Bíblia e naquele tempo , estes “ irmãos” de sangue seriam amaldiçoados por abandonar pai, mãe e irmão na hora da Cruz .

7- Irmão que é irmão de sangue faz isso ? Parentes fazem, mas irmãos de sangue não !

8-E que educação Maria teria dado a tais filhos , a ponto de nenhum deles ou delas estar lá quando ele morreu ? Não estavam no Cairo nem em Roma. Estavam perto !

9- E por que será que quando Jesus se mudou para Cafarnaum , ele só levou sua mãe ? Seus “irmãos” tinham mais de 25 anos . Já eram casados ? Moravam onde ?… Os evangelhos não se ocupam disso.

Concluindo: não é mais lógico pensar que Maria realmente só teve este filho e que os outros “ irmãos e irmãs se Jesus “ não eram irmãos e irmãs de sangue ?

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O assunto sempre rendeu discussões acaloradas entre católicos e evangélicos.

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No meio da discussão sempre entra a virgindade de Maria. Onde estava o pai São José e quem eram os “ irmãos “ . Que irmãos dele eram apóstolos ? Quem não era ?

O fato é que vários fundadores de outras igrejas , ex católicos, tiveram , ou muitas esposas , ou muitos filhos . Lutero, era ex monge católico . Ele casou com uma freira e teve cerca de 6 filhos . Nada mais lógico que ele exaltasse o casamento e diminuíssem o celibato e a virgindade . E o rei Henrique VIII brigou contra o Papa por causa da lei do divórcio e de segundos casamentos . … Na sua igreja era natural que sobrevalorizassem o casamento !

Ainda hoje vemos isto em pregações de outras igrejas !… Esquecem que , se o casamento é sagrado, a virgindade e o celibato também são ! Não se desvaloriza um sacramento para ressaltar o outro . Deus chama para o celibato, para a virgindade e para um santo matrimônio . Todos estes caminhos levam à santidade !

Por que se tornou tão difícil aceitar que Maria só teve Jesus ?…

Quem arranca alguma página da Bíblia para ensinar só isto, esquece que há outras páginas na mesma Bíblia dizendo que foi isto mesmo !… Na Bíblia “ Irmão” não tem ter o DNA da mãe ! Às vezes é primo !

SANTO AGOSTINHO E O SERMÃO DOS PASTORES (II)

 

SANTO AGOSTINHO E O SERMÃO DOS PASTORES (II)


VII, 14 - «Não reconduzis as ovelhas que se desgarraram, não procurais as que andam perdidas». Encontramo-nos neste mundo entre as mãos de ladrões e os dentes de lobos furiosos; por isso, ante estes perigos vos pedimos que não deixeis de orar. Além disso, há ovelhas que são rebeldes. Se procuramos os que se extraviaram por sua culpa e para sua perdição, dizem que nada temos com isso e respondem-nos: «Que quereis de nós? Porque nos procurais»? E não compreendem que a razão por que os procuramos e queremos salvar é precisamente o fato de andarem errantes e perdidos. «Se estou no erro — dizem-nos — se me perco, que te importa a ti; porque me procuras»? Justamente por que estás no erro, quero levar-te ao bom caminho; porque andas perdido, quero encontrar-te.


«Eu quero andar assim errante — replicam — quero andar assim perdido». Queres andar assim errante, assim perdido? Mas, com mais força ainda, não o quero eu. Digo-te claramente: quero ser importuno. Porque ressoam aos meus ouvidos as palavras do Apóstolo: «Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente». Oportunamente para quem? Inoportunamente para quem? Oportunamente para quem quer ouvir, inoportunamente par quem não quer ouvir. Porque quero ser inoportuno, não hesito em dizer-te: «Tu queres errar, tu queres perder-te, mas não o quero eu. Não o quer principalmente Aquele que me faz tremer. Se eu quisesse também o teu erro e perdição, repara no que Ele diz, ouve como Ele me adverte: “Não reconduzis as ovelhas que se desgarraram, não procurais as que andam perdidas”. Hei-de ter mais medo de ti do que d'Ele? «Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo». Não tenho medo de ti. Não podes derrubar o tribunal de Cristo e erigir o tribunal de Donato.


Hei-de reconduzir quem se extravia, hei-de procurar quem anda perdido. Quer queiras quer não, é isso que farei. E ainda que, ao procurar-te, os espinhos das silvas me rasguem a pele, passarei pelas veredas mais estreitas, saltarei todas as sebes e correrei por toda a parte, enquanto me der forças o Senhor que me faz tremer. Hei-de reconduzir quem se extravia, hei-de procurar quem anda perdido. Se não queres que eu sofra, não te extravies, não andes perdido.


15 - E não basta quanto sofro ao ver-te errante e perdido. Muito temo que venha a chegar a matar as ovelhas fortes e sadias se te abandono a ti. Repara no que se segue: «E matais as ovelhas fortes e sadias». Se eu for negligente em procurar o que se extravia e perde, também o que é forte e sadio sentirá a tentação de se extraviar e perder. Desejo lucros exteriores, mas temo mais os danos interiores. Se me mostrasse indiferente perante o teu extravio, o que é forte, ao ver isto, pensará que é uma coisa sem importância passar à heresia. Se não te procuro a ti que te perdeste, quando aparecer alguma comodidade no mundo que justifique a mudança, dir-me-á a ovelha forte que está perto de se perder: «Deus está aqui e está ali; que mais faz? Isto é obra de homens conflituosos; Deus pode adorar-se em toda a parte». Se por acaso lhe disser algum donatista: «Não te darei a minha filha se não tomas o meu partido», será necessário que ele pense e diga: «Se nada houvesse de mal em pertencer ao partido destes, os nossos pastores não diriam tantas coisas contra eles, não se preocupariam tanto com o seu extravio». Mas se deixamos de o dizer e nos calamos, dirá o contrário: «Certamente, se fosse coisa reprovável pertencer ao partido de Donato, falariam contra ele, refutá-lo-iam, esforçar-se-iam por os vencer. Se estivessem transviados, reconduzi-los-iam; se se perdessem, buscá-los-iam». Não é por acaso, pois, que depois de ter dito: «matastes a ovelha gorda», acrescenta concluindo: «acabastes com a forte». Isto seria uma repetição senão fosse pelo que antes dissemos: «Não reconduzistes a extraviada, e não procurastes a que estava perdida», e assim fazendo «matastes a forte».


VIII, 16 — Portanto, escutai o que se diz de seguida acerca destes pastores negligentes e maus: «As minhas ovelhas dispersaram-se por falta de pastor, convertendo-se em presa para todos os animais do campo». Os lobos devoram-nas, arrebatam-nas os leões rugindo, quando as ovelhas não estão unidas ao seu pastor. Mesmo que o pastor esteja presente, se este age mal não é verdadeiro pastor. Assim se juntam a pastores que não são pastores, que se apascentam a si mesmos, não as ovelhas. A consequência disto é um desvio mortal, pois entregam-se a animais predadores que desejam saciar-se com a sua morte. Assim são os que se alegram com os extravios de outros: animais que se alimentam de mortos.


17 - «Espalharam-se por todos os montes e colinas». Os animais que procedem dos montes e das colinas são o orgulho terreno e a soberba do mundo. Exaltou-se a soberba de Donato e criou um partido. Parmeniano, que o seguiu, consolidou o erro. O primeiro é o monte, o segundo a colina. Qualquer autor de um erro, inchando com a soberba da terra, promete a todas as ovelhas um repouso e bons pastos. E às vezes encontram ali as ovelhas pastos que têm a sua origem na chuva divina, não na dureza do monte. Também eles têm Escrituras e Sacramentos, mas estes não pertencem ao monte; e mesmo que se encontrem nele, é mau permanecer ali. Espalhados por montes e colinas, abandonam o rebanho, abandonam a unidade e os redis defendidos contra lobos e leões. Que Deus as chame para que saiam dali, que Ele próprio as chame. E agora mesmo O ouvistes chamar: «Espalharam-se por todos os montes e colinas», quer dizer, por causa de estarem cheias da soberba terrena.


Há também montes bons: «Levanto os meus olhos para os montes, donde me virá o auxílio». Mas percebe que a tua esperança não está nos montes: «O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra». Não penses que ofendes os montes santos quando dizes: «o meu auxílio vem para mim, não dos montes, mas do Senhor que fez o céu e a terra». Isto também to dizem os próprios montes, pois era como um monte aquele que clamava: «Ouvi que há cismas entre vós, e que cada um de vós diz: “Sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Cefas, eu de Cristo». Levanta os olhos para este monte, escuta o que diz, mas não te deixes ficar nele; senão, escuta o que diz em seguida: «Acaso foi Paulo que foi crucificado por vós»? Portanto, depois de teres levantado os olhos para os montes, donde te vem o auxílio, quer dizer, para os escritores das Escrituras Sagradas, põe a tua atenção naquele que, com todas as suas forças, com todos os seus ossos, clama: «Senhor, quem é semelhante a Vós»? E assim poderás dizer tranquilo, sem ofensa alguma aos montes, que «o meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra»; então não só te corroborarão os montes, mas também te amarão e fortalecerão mais; se tornares a por neles a tua esperança, entristecer-se-ão. Um anjo, que mostrava ao homem muitas coisas divinas e maravilhosas, foi adorado por este, como que elevando os olhos para o monte; mas o anjo, orientando-o para Deus, disse: «Não faças isso! Adora a Deus, pois eu sou Seu servo como tu e os teus irmãos».


18 - «Espalharam-se por todos os montes e colinas, dispersaram-se por toda a face da terra». Que significa: «Dispersaram-se por toda face da terra»? Quer dizer que se deixaram atrair pelas coisas terrenas, por tudo o que brilha à face da terra; e só isso amam e procuram. Não querem morrer, não querem aquela morte em que a sua vida se esconde em Cristo. «Dispersaram-se por toda a face da terra» porque amam os bens terrenos e andam errantes por toda a face da terra. Nem todos os hereges estão em toda a terra, mas em toda ela há hereges; uns aqui, outros ali, mas não faltam em nenhum lugar. Nem eles mesmos se conhecem: há uma seita em África, outra heresia no Oriente, outra no Egito, outra na Mesopotâmia, para dar alguns exemplos. Encontram-se em diversos lugares; uma só mãe, a soberba, os gerou a todos, como também uma só mãe, a nossa Igreja Católica, gerou todos os fiéis cristãos, que vivem no mundo inteiro.


Não é de admirar que a soberba gere a divisão, como a caridade gera a unidade. A nossa mãe, a Igreja Católica, com o Pastor que nela vive, procura por toda a parte os que andam errantes, fortalece os débeis, cura os doentes, trata os feridos. Vela por todos, embora os hereges não se conheçam diretamente uns aos outros; mas ela conhece-os a todos, porque está junto de todos. Por exemplo, em África existe o partido de Donato, não o dos eunomianos, e juntamente com eles está ali a Igreja Católica.


Ela é como a videira que foi crescendo e se propagou por toda a parte; aqueles hereges, porém, são como sarmentos inúteis, que a foice do agricultor tem de cortar por causa da sua esterilidade, não para amputar a videira mas apenas para a podar. Aqueles sarmentos ficam no mesmo lugar onde caíram ao serem cortados. A videira, porém, vai crescendo por todo o lado e conhece não só os sarmentos que nela permaneceram, mas também os que foram cortados e ficaram junto dela. Ela reconduz os extraviados, pois referindo-se aos sarmentos cortados, também diz o Apóstolo: «Poderoso é Deus para os enxertar de novo». Portanto, quer lhes chames ovelhas que se desgarraram do rebanho, quer lhes chames sarmentos que foram cortados da videira, Deus é tão poderoso para reconduzir as ovelhas como para enxertar de novo os sarmentos, porque Ele é o Pastor supremo e o verdadeiro Agricultor. «Dispersaram-se por toda face da terra, e ninguém se interessa por elas, ninguém as procura», quer dizer, nenhum daqueles meus pastores se interessa por elas, nenhum pastor humano as procura.


IX, 19 — «Por isso, pastores, escutai a palavra do Senhor: pela Minha vida, diz o Senhor Deus». Vede como começa. É como um juramento que faz o próprio Deus, tomando a Sua vida por testemunho: «Pela Minha vida, diz o Senhor». Os pastores morreram mas as ovelhas estão seguras, pela vida do Senhor. «Pela Minha vida, diz o Senhor Deus». Quais foram os pastores que morreram? Os que procuravam os seus interesses e não os de Jesus Cristo. Mas haverá outros pastores, que não procurem os seus interesses mas os de Jesus Cristo? Há certamente. Eles encontram-se e não faltam nem faltarão.


Vejamos o que diz o Senhor quando jura pela Sua vida; talvez diga que há-de tirar as ovelhas aos maus pastores, que se apascentam a si mesmos e não as ovelhas, e dar-lhes-á bons pastores, que apascentem as ovelhas e não a si mesmos. «Pela Minha vida, diz o Senhor Deus; as minhas ovelhas converteram-se presa para todos os animais ferozes, porque não têm pastor». De novo fala do Pastor, antes e agora; não diz: «porque não há pastores». Para tais ovelhas, que andam extraviadas para seu mal e para seu mal perdidas, não há Pastor, e mesmo que esteja presente (visto que, se estiver presente, há luz) não é luz para os cegos. «E os pastores não procuraram as minhas ovelhas; alimentaram-se a si mesmos e não as minhas ovelhas».


20 - «Por isso, pastores, escutai a palavra do Senhor». Mas que escutais, pastores? «Diz o Senhor: Eu enfrentarei os pastores e reclamarei as minhas ovelhas das suas mãos».


Ouvi e aprendei, ovelhas de Deus: Deus reclama as Suas ovelhas aos maus pastores e pede contas de as terem levado à morte. Com efeito, Ele diz noutro lugar por meio do mesmo Profeta: «Filho do homem, eu te constituí sentinela na casa de Israel. Quando ouvires a palavra da Minha boca, hás-de adverti-los da Minha parte. Se Eu disser ao pecador: “Vais morrer”, e tu não lhe falares para que ele se afaste do mau caminho, ele morrerá por causa da sua maldade, mas Eu perdir-te-ei contas do seu sangue. Mas se advertires o pecador para que se afaste do seu caminho e ele não se converter, ele morrerá por causa do seu pecado, mas tu salvarás a tua alma». Que é isto, irmãos? Vedes como é perigoso calar? O pecador morre e morre justamente; morre na sua impiedade e no seu pecado, a negligência o levou à morte. De facto, ele poderia ter encontrado o Pastor da vida, que diz: «Pela Minha vida, diz o Senhor». Mas não o fez, porque não foi advertido pela voz daquele que foi constituído chefe e sentinela precisamente para o advertir. Por isso aquele morrerá com toda a justiça, mas também este será condenado com toda a justiça. Se, porém — continua o Senhor — tu disseres ao pecador: «vais morrer, porque te ameaça a espada do Senhor», e ele nada fizer por evitar a espada que está iminente, e a espada realmente cair sobre ele e o matar, morrerá ele no seu pecado, mas tu salvarás a tua alma. Por isso, a nossa obrigação é advertir e não nos calarmos; vós, porém, ainda que nos calássemos, tendes o dever de ouvir as palavras do Pastor na Santa Escritura.


X, 21 — Vejamos agora, como era minha intenção, se Ele retira as ovelhas aos maus pastores e as confia aos bons pastores. Vejo, de fato, que Ele retira as ovelhas aos maus pastores, quando diz: «Eu enfrentarei os pastores e reclamarei as minhas ovelhas das suas mãos; não permitirei que apascentem mais as Minhas ovelhas e lese deixarão de ser pastores que se apascentam a si mesmos». Eu disse-lhes que apascentassem as Minhas ovelhas, mas eles apascentam-se a si mesmos e não as Minhas ovelhas. Por isso, «não permitirei que apascentem mais as Minhas ovelhas».


Como os afasta Ele, para que não apascentem mais as Suas ovelhas? Afasta-os quando diz: «Fazei o que eles dizem, mas não o que eles fazem», que é como se dissesse: «Dizem as Minhas palavras, mas procedem segundo os seus interesses». Podia ter dito: «Fazei tranquilamente o que fazem; a eles condená-los-ei por viverem mal, mas a vós perdoar-vos-ei, porque seguistes os vossos chefes». Se tivesse dito isto, repito, teria aterrorizado os maus pastores, que se apascentam a si mesmos e não as ovelhas. Mas Ele infunde assim temor não só ao cego que guia, mas também ao cego que o segue; não é dito que cai na fossa apenas o cego que conduz, e não aquele que o segue, mas sim que «se um cego guia outro cego, ambos caem na fossa». Por isso adverte as ovelhas, dizendo-lhes: «”Fazei o que eles dizem mas não o que eles fazem”. E assim, quando não fazeis o que fazem os maus pastores, não são eles que vos apascentam; quando fazeis o que eles dizem, sou Eu que vos apascento. Proclamam os Meus preceitos e não os cumprem».


Dizem alguns: «Seguimos os nossos bispos tranquilamente»; é algo que costumam dizer frequentemente os hereges, quando são convencidos pela verdade manifesta: «Nós somos ovelhas; eles darão conta de nós». Certamente darão má conta da vossa morte. O mau pastor dará má conta da morte da ovelha maligna. Porventura vive a ovelha quando se apresenta a sua pele? Recrimina-se o pastor por ter descuidado a ovelha transviada, devido ao que caiu nos dentes do lobo e foi devorada. De que lhe aproveita mostrar a pele marcada? O pai de família reclama a vida da ovelha, e é nesta ocasião que o mau pastor lhe apresenta a pele, dando conta somente da pele. Poderá mentir o pastor? Via-o desde o alto Quem depressa o julgará: contar-lhe-á as palavras e os atos, e vê também os seus pensamentos. O mau pastor apresenta a pele da ovelha morta: «Anunciei-lhe as Tuas palavras, mas não quis seguí-las; esforcei-me para que não se desviasse do rebanho, mas não me obedeceu». Se diz isto proferindo a verdade — e Deus sabe se diz a verdade — dá boa conta da ovelha má; se, pelo contrário, Deus vê que descuidou a ovelha desviada, que não procurou a que estava perdida, de que lhe serve ter encontrado a pele para a apresentar? Devia tê-la reconduzido ao rebanho, para não ter que mostrar a pele da ovelha morta. Se, pois, não deu boa conta quem a procurou quando estava extraviada, que contas dará quem a extraviou? Isto é aquilo que ouço: se o bispo da Igreja Católica não dá boa conta da ovelha, se não a procurou quando se desviou do rebanho de Deus, que contas há-de dar o bispo herege que não só não a reconduziu do extravio, mas antes o impulsionou?


22 — Mas vejamos, segundo disse, de que forma aparta Deus as ovelhas dos maus pastores. Já o disse antes: «Fazei o que dizem, mas não façais o que fazem». Não eles que vos apascentam, mas Deus; queiram ou não os pastores, para chegar ao leite e à lã, têm de anunciar a palavra de Deus. Diz o Apóstolo àqueles que dizem coisas boas e praticam o mal: «Tu que pregas que não se deve roubar, roubas». Escuta aquilo que é pregado, não roubes; não imites o que rouba. Se quiseres imitar o ladrão, ele te ultrapassará com a sua manha; dá-te veneno e não alimento. Mas se escutas que diz algo, não da sua colheita, mas da de Deus, vê bem, pois também o Senhor diz que «não se podem colher uvas das silvas nem figos dos abrolhos»; mas não deves, de certa maneira, caluniá-l'O, dizendo: «Senhor, não me amparaste, porque não se podem colher uvas das silvas, e noutro lugar me disseste a propósito de alguns: “Fazei o que dizem mas não façais o que fazem”; ora, isto quer dizer que os que agem mal são silvas; como queres então que colha a uva da palavra destas silvas»? Ele responderá: «Aquela uva não é produto das silvas; o que acontece é que, por vezes, o sarmento se enrola na sebe, brotando as uvas no meio das silvas espessas; mas a sua raiz não está na raiz daquelas. Se tens fome e não tens de onde as tirar, mete a mão com cuidado para não te ferires nas silvas, quer dizer, para não imitar as acções dos maus; colhe assim a uva que jaz no meio das silvas, mas que é fruto da videira. O alimento abundante virá até ti, mas para as silvas está reservado o tormento do fogo».


XI, 23 - «Arrancarei de suas mãos e de seus dentes as minhas ovelhas, e não serão mais pasto seu». O mesmo é dito no Salmo: «Não sabem todos os que praticam a iniquidade que devoram o Meu povo como quem come pão»? «Já não serão mais pasto seu, porque isto diz o Senhor Deus: Eis-Me aqui Eu mesmo». Afastei as ovelhas dos maus pastores intimando-as a que não façam o que eles fazem, que não ajam as incautas e despreocupadas ovelhas como eles, maus pastores. Que dizer? A quem se dará o que aos maus se retirou? Aos pastores bons, talvez? Não é isso que está dito. Que diremos, irmãos? Será que não há pastores bons? Não se diz noutro lugar das Escrituras: «Dar-lhes-ei pastores segundo o Meu coração, que as apascentarão com disciplina»? Assim como não dá aos bons pastores as ovelhas que tira aos maus — como se não houvessem pastores bons — assim diz: «Aceitá-las-ei Eu»? Ele tinha dito a Pedro: «Apascenta as Minhas ovelhas». Que pensar então? Quando se entregaram a Pedro as ovelhas, o Senhor não disse: «Eu apascentarei as Minhas ovelhas, pelo que não o deves fazer», mas pelo contrário, foi dito: «Pedro, amas-Me? Apascenta as Minhas ovelhas». Porventura porque agora já não temos Pedro entre nós — já foi recebido no descanso dos apóstolos e dos mártires - não há ninguém a quem o Senhor das ovelhas possa dizer com confiança: «Apascenta as Minhas ovelhas»? Talvez, obrigado pela necessidade, desça do céu para exercer o ofício de apascentar as suas ovelhas, por não ter a quem as entregar e por não as querer deixar abandonadas? Assim parece, pois é dito: «Isto diz o Senhor Deus: “Eis-Me aqui Eu mesmo”», quer dizer, Aquele a Quem dizíamos: «Vós que conduzis José como um rebanho», o povo estabelecido no Egito. Israel, espalhado já entre os povos, é o próprio José, do qual sabeis que foi levado para o Egito, vendido pelos irmãos. Cristo também foi vendido pelos judeus: dentre os apóstolos, foi Judas quem O vendeu. Começando Cristo a estar entre os gentios, ali foi honrado, ali cresceu o Seu povo, não o abandonando o seu Pastor. Está dito: «Despertai o Vosso poder e vinde salvar-nos»; Ele faz isto agora e continuará a fazê-lo, e diz: «Eu mesmo procurarei as Minhas ovelhas, e as visitarei, como um pastor visita o seu rebanho». Os maus pastores não se preocuparam, não as resgataram com o seu sangue. «Como um pastor visita o seu rebanho durante o dia»; em que dia? «Quando hajam tempestades e nuvens», isto é, chuvas e trevas. As chuvas e as trevas são o extravio no mundo, uma grande obscuridade que surge dos apetites dos homens e uma grande névoa que cobra a terra. É difícil que no meio destas trevas se não extraviem as ovelhas, mas o Pastor não as abandona, antes as procurando através das trevas com Seu olhar aguçado, sem que a obscuridade O impeça de as ver. Ele vê-as, e chama a ovelha transviada em qualquer lugar onde ela esteja, para que se cumpra o que diz o Evangelho: «As Minhas ovelhas escutam a Minha voz e seguem-Me; entre todas procurarei as que são Minhas, reuni-las-ei de todos os lugares onde se desgarraram no dia das chuvas e da tempestade». Justamente quando for mais difícil encontrá-las é que Eu as encontrarei.


24 - «Arrancá-las-ei de entre os povos e as reunirei dos vários países; hei-de reconduzi-las à sua terra e apascentá-las nas montanhas de Israel». As montanhas de Israel são as páginas da Escritura divina. Apascentai-vos nela se quereis apascentar-vos em segurança. Tudo quanto nela encontrais, saboreai-o bem; tudo o que encontrais fora dela, rejeitai-o. Para não vos perderdes no meio do nevoeiro, ouvi a voz do Pastor, e reuni-vos nos montes da Santa Escritura. Aí estão as delícias do vosso coração, aí nada é venenoso, nada é prejudicial; são as pastagens fertilíssimas dos montes de Israel. Vinde, ovelhas sãs, vinde vós somente, e apascentais-vos nas pastagens sadias dos montes de Israel.


«E ao longo das ribeiras e em todos os prados da terra». Dos montes que vos mostramos brotaram os rios da pregação evangélica, quando «a Sua voz se fez ouvir por toda a terra» e, através destes rios da pregação evangélica, espalharam-se por toda a terra os prados férteis e abundantes, onde podem apascentar-se os rebanhos do Senhor.


«Apascentá-las-ei em boas pastagens e terão o seu redil nos altos montes de Israel», isto é, encontrarão um lugar onde possam descansar e dizer: «Estamos bem aqui; é verdade o que nos disseram, não nos enganaram». E descansarão na glória de Deus, que será o seu redil. «E dormirão», isto é, «descansarão em agradáveis delícias».


25 — «E terão abundantes pastagens nos montes de Israel». Já vos falei dos montes de Israel, que são aqueles montes benéficos para onde levantamos os olhos e donde nos vem o auxílio. Mas «o nosso auxílio vem do Senhor que fez o céu e a terra». Por isso, para que não puséssemos toda a nossa esperança naqueles montes, depois de dizer: «Apascentarei as Minhas ovelhas nos montes de Israel», acrescentou imediatamente: «Eu mesmo apascentarei as Minhas ovelhas». Por conseguinte, levanta os teus olhos para os montes, donde te virá o auxílio, mas espera somente n'Aquele que diz: «Eu mesmo apascentarei», porque o teu auxílio «vem do Senhor que fez o céu e a terra».


26 - «E fá-las-ei descansar, diz o Senhor Deus». Mas para as fazer descansar com o que é que Se preocupou antes? Eis que Ele o diz logo em seguida: «Isto diz o Senhor Deus: “Procurarei a que se perdeu, chamarei a que se desviou, ligarei a ferida, fortalecerei a débil e guardarei a que é forte”». Tudo coisas que não faziam os maus pastores, que se apascentavam a si mesmos, não as ovelhas. O Senhor não diz: «Estabelecerei outros pastores que façam isto», mas sim: «Eu mesmo o farei, pois não confiarei as Minhas ovelhas a nenhum outro». Estai tranquilos, irmãos; vós, que sois ovelhas, confiai. Somos nós os que temos de temer, como se nos faltasse o Bom Pastor.


XII, 27 — E termina assim: «Eu as apascentarei com justiça». Vede como só Ele pode apascentar o rebanho com justiça. De facto, qual é o homem que pode julgar o homem? A terra está cheia de juízos temerários. Aquele de quem perdêramos toda a esperança, de um momento para o outro converte-se e torna-se o melhor de todos. E aquele em quem tanto confiávamos, dum momento para o outro falha e torna-se o pior de todos. Nem o nosso temor é constante, nem o nosso amor é estável.


O que é hoje cada homem, dificilmente o sabe o próprio homem. E se de algum modo ele sabe o que é hoje, não sabe o que será amanhã. Só Deus apascenta com justiça, dando a cada um o que precisa: isto a uns, aquilo a outros, a cada qual o que lhe convém, porque Ele sabe o que deve fazer. Portanto, só Ele apascenta com justiça.


28 — Segundo o profeta Jeremias, «clamou a perdiz, reuniu ovos que não pôs, amontoando riquezas, mas sem juízo». Ao contrário desta perdiz que amontoou as suas riquezas sem juízo, este Pastor apascenta sabiamente. Porque foi a perdiz néscia? Porque reuniu aquilo que não gerou. Porque é sábio o Pastor? Porque cria o que Ele próprio gerou. Falo do Bom Pastor. Os pastores bons ou não existem ou estão ocultos. Se não os há, porque perdemos tempo? Se estão ocultos, porque não se fala deles? Na imagem daquela perdiz alguns dos nossos antecessores e comentadores da Escritura viram simbolizado o diabo, que reúne o que não gerou. Ele não é criador, mas imitador, amontoando nesciamente as suas riquezas. A ele não lhe importa se alguém se extravia desta ou daquela forma: quer é que todos se extraviem, seja por que erros forem. E quantas heresias, e tão diferentes, existem! E tantos erros! Ele deseja que os homens se percam em qualquer deles, não importa; o diabo não diz: «Sejam donatistas ou arianos». Seja aqui, seja ali, pertencem-lhe a ele, que reúne nesciamente: «Se adora aos ídolos, é meu; se permanece na superstição dos judeus, é meu; se abandona a unidade por esta ou aquela heresia, é meu». Reúne injustamente ao amontoar as suas riquezas.


E que se segue? «Na metade dos seus dias abandoná-la-ão, e no seu fim será néscia». Eis que chega Aquele que congrega de todas as pastes as Suas ovelhas; e eis que na metade dos seus dias, o mau pastor, antes do que esperava e pensava, vê-se abandonado pelas ovelhas, surgindo como um néscio no seu fim. Porque é que nos seus primeiros dias aparecia como sábio e nos últimos aparecerá como néscio? Escutai, irmãos. Por vezes, na Escritura, diz-se sabedoria em lugar de astúcia, num sentido figurado, não no próprio. É assim que se diz: «Onde está o sábio, onde está o douto, onde está o investigador das coisas deste mundo? Não tornou Deus néscia a sabedoria deste mundo»? Esta perdiz, este dragão, esta serpente mostrou-se aparentemente sábia quando, por meio de Eva, enganou Adão. Acreditou Adão que ela dizia a verdade, estimando que lhe dava um bom conselho; acreditou nela em vez de acreditar em Deus. Segundo o costume das Escrituras — pois não nos importa o que dizem os gramáticos deste mundo — fala-se da sabedoria em sentido abusivo e mau, e isso pode ser comprovado no mesmo livro: «Era a serpente a mais sábia de todos os animais». Este animal, o mais sábio de todos, é considerada astuta e hábil a enganar. Logo, já não se lhe dá crédito. Devemos dizer-lhe: «Renunciamos a ti; basta que, incautamente, nos tenhas enganado da primeira vez». Deste modo, pois, será néscia nos seus últimos dias; serão descobertas as suas fraudes, e por isso mesmo deixará de existir. Nos seus últimos dias será néscio quem reuniu o que não gerou e amontoou riquezas sem juízo. Ao contrário deste, o nosso Redentor apascenta sabiamente.


29 — Pensemos num herege qualquer. Ainda que não seja irmão do diabo, certamente que é seu ajudante e filho. Também a ele lhe chamamos perdiz e animal dado a contendas. Os caçadores sabem que esta ave pode ser caçada pela sua ânsia de lutar. Os hereges lutaram contra a verdade logo desde o momento em que se separaram. Agora dizem: «Não queremos lutar», porque já estão capturados. Não têm que mais dizer senão: «Não quero lutas». Oh cativo! Sem dúvida eras tu que nos primeiros tempos da tua separação nos acusavas de «traditores», condenavas os inocentes, procuravas o tribunal do Imperador, não te submetias ao juízo dos bispos, sempre que eras vencido voltavas a apelar, diante do próprio Imperador litigavas afanosamente! Reunias o que não havias gerado, Onde está agora a tua dura cerviz? Onde está a tua língua? Onde está o teu silvo, oh serpente? Certamente que nos teus últimos dias te tornaste néscio, te atemorizaste por não seres sábio. Já não queres julgar aquilo que está certo, nem sequer o teu erro, nem a verdade. Mas Cristo apascenta-te com justiça; Ele distingue as Suas ovelhas das que não são Suas. Diz o Senhor: «As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz e seguem-Me».


XIII, 30 - Aqui vejo todos os bons pastores identificados com o Bom Pastor. Não faltam pastores.

 

 

Fonte: http://patristicabrasil.blogspot.com.br

 

https://espelhodejustica.blogspot.com/2013/03/santo-agostinho-o-sermao-dos-pastores.html

 

SUGESTÃO DE LEITURAS

 

SUGESTÃO DE LEITURAS

01- A arte de dizer não: o não acelera propósitos!

– Amélia Corrêia

Diz aí, é ou não é um dilema aprender a dizer não? 

Pois bem, se você ainda sofre com isso, aprenda com a autora Amélia Corrêia a desmistificar essa sensação de negar a si mesmo para consentir a algo ou alguém. 

Um daquelas leituras de autoajuda que qualquer um deve ler sem medo de ser feliz!

https://editoratelha.com.br/indicacoes-de-leituras-para-maio/

 

02- Nunca desistas de ti

| Susana Teixeira |

Desenvolvimento Pessoal e Espiritual

Com mais de 80 mil seguidores nas redes sociais Nunca Desistas de Ti é um hino à vida e ao amor.



Num registro diário e intimista, Susana Teixeira escreve sobre os dias comuns de tantas pessoas, transforma episódios quotidianos em ensinamentos que devemos reter, fala do que sente construindo momentos únicos e especiais de entrega e partilha.



Com uma enorme coragem, a autora inspira-nos com as suas palavras, desafia-nos a acreditarmos todos os dias, ensina-nos que o amor suplanta tudo e que somos invencíveis.



Relembra-nos que a amizade é a semente que nos faz florescer, mesmo quando tudo nos pode parecer perdido, e que a vida nos abre sempre uma janela, mesmo quando todas as portas se fecham.

https://www.incomummagazine.com/pt/component/k2/sugestoes-de-leitura-para-o-mes-de-maio

 


SB SABENDO BEM DE 07 DE MAIO DE 2023

 




MÚSICA “MARIA DE NAZARÉ”(Pe. Zezinho, SCJ).

https://youtu.be/mjVtXi92Wq4

 

 

SEJA BEM-VINDO!               

 

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”(Jo 14,6).