quinta-feira, 1 de outubro de 2026

11- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*) (**)

 11-  REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*) (**)


"PEQUENO TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES, DOS PIORES VÍCIOS,

E DOS DESLIZES MENOS GRAVES"

                        [Parte I]

[|||] A VIRTUDE: O BEM. Simplificadamente, o bem é aquilo que reputamos como valioso para nós e para os demais. Acredita-se que possa existir um bem absoluto, ou apenas bens que dependem de diferentes culturas, épocas pessoas e circunstâncias. O problema começa quando se insiste em transformar um bem particular, ou o bem de um grupo, em medida universal. Quando isso acontece, esse bem pode acabar se transformando em mal, o mal em maldade, e a maldade em barbárie universal.

O VÍCIO: O MAL. Se o mal é a simples ausência do bem, ou algo bem pior do que imaginamos, não se sabe ao certo. O que com certeza se sabe é que quando o mal se traveste de bem, e consegue arrastar e enganar multidões se passando por bem supremo, só Deus para reverter essa espécie de adoração sem pé nem cabeça. Com o mal não se brinca. Nem de esconde-esconde nem de queimada. De matança, então, nem pensar. Esquece!

O DESLIZE MENOS GRAVE: O EGOCENTRISMO MODERADO. Às vezes fazemos o bem porque fazer o bem também nos faz bem. Gostar de reconhecimento, admiração, ou simplesmente da agradável sensação de ter feito algo bom, de forma alguma invalida o bem realizado. Talvez até o transforme em um bem ainda maior. O bem que se faz, faz muito bem. Amplifica a virtuosidade e se aproxima da bem-aventurança. Se o sermão é o da montanha ou o da planície, que diferença isso faz? Diferença alguma! Desde que haja teleférico à disposição de quem já está mais pra baixo do que pra cima.

[|||] A VIRTUDE: A PRUDÊNCIA. Prudência não é exatamente o temor ou o medo de agir, como se poderia pensar, mas sabedoria para saber quando, como e por que agir, ou, se a situação assim o sugerir, aguardar pela melhor hora e a melhor oportunidade. A prudência não elimina o risco; apenas procura avaliá-lo como convém e minimizá-lo quando possível. Na vida, nem toda decisão precisa ser imediata e nem toda oportunidade precisa ser aproveitada. “Vou deixar passar, ok!? Mesmo assim, obrigado!”. E pronto! Caso encerrado.

O VÍCIO: A TEMERIDADE. A coragem muda de figura quando a impulsividade toma o lugar da racionalidade e o risco deixa de ser avaliado. Ousadia sem controle pode acabar transformando a prudência em imprudência, a imprudência em temeridade, e a temeridade em fracasso. Geração Fast é foda. É ansiedade e compulsividade que não acabam mais. Haja Prozac!

O DESLIZE MENOS GRAVE: A HESITAÇÃO. Às vezes pensamos tanto, mas tanto, antes de tomar uma decisão, que a própria escolha começa a passar da validade por decurso de prazo. Mas, na medida certa, voltar atrás e colher sugestões diversas pode contribuir para não transformar a hesitação em precipitação. De precipitar, vem precipício. Sabia disso? Se beber, não dirija. Se dirigir, não beba. Na dúvida, não ultrapasse.

[|||] A VIRTUDE: A CORAGEM. Coragem não é necessariamente ausência de medo, como se costuma pensar, mas disposição para agir mesmo quando – e sobretudo – o medo está presente. Muitas vezes ninguém percebe o medo que precisou ser vencido para que alguém fizesse o que precisava ser feito. Digamos que essa é uma espécie de “medo subliminar”. Já ouviu falar!? Não!? Nem eu! Para que serve!? Deve servir para enfrentar algum tipo de perigo da mesma natureza: perigo subliminar.

O VÍCIO: A COVARDIA. O medo nos protege, na medida em que nos põe em retirada quando o melhor é cair fora, dar no pé o quanto antes. Mas, quando esse mesmo medo assume as rédeas que deveriam permanecer em mãos da razão, ele passa a decidir por nós sem nos dar a mínima bola ou explicação. Diante do medo inventamos desculpas para justificar nossa procrastinação, e permanecemos empacados como um burro preso no atoleiro. “Pode parar de empurrar! Parece que o burro emburrou e atolou de vez!”. Dizem que burro é um cavalo que nunca foi na escola. Será mesmo!?

O DESLIZE MENOS GRAVE: A CAUTELA. Há momentos em que recuar significa reconhecer que nem toda discussão merece ser comprada e nem toda batalha merece ser travada. Nessas horas, retroceder pode ser a melhor estratégia de se preparar para o próximo passo. Sun Tzu sabia disso. "A Arte da Guerra", tá lembrado? Ouro e prata são preciosos!? A cautela é ainda mais. Acautelai-vos, meu povo! Acautelai-vos. Ei, ei! Eu disse "acautelai-vos"; e não, "aquartelai-vos". Fala sério! Só me faltava essa!

[|||] A VIRTUDE: A JUSTIÇA. Justiça não é apenas dar a cada um o que é seu, ou, na contrapartida, receber de volta o que é nosso. O Direito pode até estabelecer regras gerais e normas necessárias, mas cabe à consciência, em última instância, indagar do que é justo e do que pode demandar equidade. Nesse sentido, justiça é muito mais uma questão de ética e de princípios, do que de leis e judicialismo. “Com todo respeito, Kelsen, com toda admiração e respeito pela Teoria Pura do Direito! Mas sou mais Miguel Reale, com a alternativa da tridimensionalidade: o Direito como norma, fato e valor”.

O VÍCIO: A INJUSTIÇA. Todos somos, de algum modo e em certa medida, julgadores e juízes "ad hoc" ou ocasionais da vida do outro. Da própria, então, nem se diga. Bendita consciência! Nessas horas, a boa intenção pode não bastar para impedir uma injustiça, mas julgar sem ela já é começar julgando injustamente. Agora, se o inferno está ou não, cheio de reta ou boa intenção, isso já não é comigo. Não me diz respeito. Tô fora! Tanto do inferno, quanto dessa maledetta confusão.

O DESLIZE MENOS GRAVE: A PARCIALIDADE AFETIVA. É humano, e humanamente compreensível, olhar com mais benevolência para quem amamos, admiramos ou para com quem nos identificamos. Mas esse olhar começa a ser problemático quando a proximidade afetiva passa a ser o principal peso no prato da balança. A boa intenção pode ser absolutamente boa, como já foi dito e queria Kant,  mas ainda assim pode ser absolutamente insuficiente. Se é suficiente para manter a gente fora do inferno, provavelmente. Já para entrar no céu, há quem diga que é exigido senha, credencial e passaporte.

[|||] A VIRTUDE: A GENEROSIDADE. Entre tantas outras definições, generosidade pode ser entendida como a disposição em compartilhar tempo, conhecimento, atenção, afeto e presença, para citar apenas alguns dos bens mais preciosos. A excelência da generosidade – ou, se se preferir, sua virtuosidade – consiste em dividir ou compartilhar sem transformar o receptor em um potencial devedor. Ou seja, compartilhar porque podemos e desejamos fazê-lo, e não porque talvez possamos precisar e cobrar tempo depois. Sinceramente!? Aquela passagem bíblica do administrador infiel e desonesto é difícil de digerir. Engolir, então, mais ainda. Com todo respeito e reverência para com as Escrituras consideradas Sagradas, claro. Quem sou eu para questionar a Palavra de Deus! Resposta do Criador: "Imagem e semelhança minha, por um lado, um cabeça de bagre, por outro".

O VÍCIO: A AVAREZA. Avareza não diz respeito apenas a dinheiro, herança e riqueza, como comumente poderia se pensar. O avarento pode ser excessivamente econômico em quase tudo: no tempo, na atenção, nos elogios, no afeto e sei lá mais em quê, incluindo, claro, no soldo. Soldo, de dinheiro, e não soldo de solda nem de soldado. No frigir dos ovos, o avarento experimenta um paradoxo dramático: quanto mais ele acumula, menos disposição para compartilhar ele demonstra. Mas talvez seu maior entrave seja mesmo com a morte: além de levar tudo, ainda leva junto o dito cujo. E não adianta tentar negociar. Sem chance. Para piorar, leva tudo cobrando juros, dividendos e correção monetária. Todo avarento deve ter um parafuso avariado. Ou meio solto. Só pode!

O DESLIZE MENOS GRAVE: A COMPLACÊNCIA. Às vezes oferecemos mais do que deveríamos oferecer, avançamos quando deveríamos recuar, dizemos sim quando o não seria o melhor a ser dito. Tudo em nome do bom entendimento e da sagrada comunhão de vontades. Isso pode até ser compreensível em determinadas situações. O erro se instaura quando se começa a transformar a exceção em regra e a regra em princípio. Aí o boi acaba indo para o brejo. E quando o boi vai para o brejo, como reza o ditado, a vaca e a boiada toda vão atrás.

[|||] A VIRTUDE: A COMPAIXÃO. Compaixão é reconhecer que a perda, a dor e o sofrimento do outro também nos dizem respeito. O pó do qual um foi feito, é o mesmo pó do qual foi feito o outro. Até que se prove o contrário, Deus não cria lixo. Quem recicla sabe disso. Mas classificar como lixo o que foi criado à imagem e semelhança do Criador pode acabar sendo um tiro pela culatra: desclassifica o próprio classificador.

O VÍCIO: A CRUELDADE. Em sentido inverso à compaixão, a crueldade começa quando a dor, o sofrimento e a perda do outro deixam de ter qualquer relação comigo, contigo e conosco. Com vós, convosco e com vocês também. Não nos toca. Não nos diz respeito. Tô nem aí! Vá se danar! Desse “nada tenho a ver com isso” para a indiferença, e da indiferença para o desprezo, costuma ser um passo. Detalhezinho de nada: a crueldade nem sempre grita, mas ainda assim pode ser gritante. Por vezes, simplesmente passa ao largo, desviando o olhar como se fosse um cego que só enxerga o que quer enxergar e o que lhe diz respeito. Não um cego de nascença, mas um cego da indiferença. Lente de quarenta e cinco graus, com cegueira térmica chegando a cinquenta. Lupão!

O DESLIZE MENOS GRAVE: A PIEDADE SENTIMENTALISTA. Podemos sentir pena, nos comover e até morrer de comiseração diante da dor e do sofrimento do outro. Isso é bom. Nada contra. Talvez até haja uma centelha do divino nesse impulso para o bem bem intencionado. Mas é pouco. Sinto muito! Muito pouco. Absurdamente necessário, mas absolutamente insuficiente.

[|||] A VIRTUDE: A HUMILDADE. Humildade é reconhecer que não sabemos tudo, não podemos tudo e, acima de tudo, que nem sempre temos razão em tudo. Ufa! Só um minuto! É possível, sim, como não!? – ser superior em alguma coisa sem se sentir superior a qualquer pessoa. Quem se julga um ser superior raramente trata o outro com o mesmo respeito e dignidade com que espera ser tratado. “Sabe com quem está falando!?”. “Sei sim! Com um cabeça de pudim metido a besta! Desculpe! Esqueci o vossa excelência!”. Supremo!

O VÍCIO: A SOBERBA. A soberba entra em cena quando o valor atribuído a si mesmo insiste em ocupar espaço além do necessário e do suficiente. Conhecimento vira superioridade, experiência vira autoridade e opinião vira certeza. Já não basta saber: é preciso estar acima. Custe o que custar. De tudo e de todos, de preferência. A soberba acaba transformando a sabedoria, que é um bem desejável, em um mal que acabou escapando da caixa de Pandora. Difícil é capturar e devolver esse bendito mal ao seu lugar, STF. Suprema Tribuna de Faraós.

O DESLIZE MENOS GRAVE: A MODÉSTIA EXCESSIVA. Às vezes diminuímos nossas qualidades e até nós mesmos, por pura educação, timidez, insegurança, ou pelo simples receio de parecermos arrogantes. Há certa elegância nesse modo de ser e de se comportar. Mas a modéstia se transforma em arapuca quando começa a cortejar a culpa como par da próxima dança. Mas a modéstia se transforma em arapuca quando começa a cortejar a culpa como par da próxima dança. Aí, não tem jeito! A emenda acaba ficando pior que o soneto. Dançou de vez.

[|||] A VIRTUDE: A TRANSPARÊNCIA. Na falta de uma melhor definição, transparência é a disposição de manter uma relação leal com a verdade, consigo mesmo e com os outros. Não significa necessariamente dizer tudo o que sabemos,y pensamos ou somos de uma só vez – há um tempo para cada coisa debaixo do céu. Antes, significa não construir deliberadamente uma realidade falsa para obter com ela ganho ou vantagem indevida. Para ser franco, sincero e transparente – e conseguir sobreviver dignamente –  pode até ser necessário ocultar certas coisas, em certas situações e em certos momentos. Só a boa intenção é sempre e absolutamente boa em toda e qualquer situação, segundo Kant. Ainda assim, há quem levante controvérsias. Controvertidamente.

O VÍCIO: A DISSIMULAÇÃO. Dissimulação não é apenas manter certa pose ou imagem com a intenção de ser bem visto por todos e sair bem na foto. Mais que isso, é construir uma aparência destinada a produzir no outro uma impressão falsa, objetivando não perder algo ou ganhar alguma coisa, ou ambas as coisas juntas. Ela pode ser discreta, elegante e até socialmente conveniente. Mas, quer queira quer não, continua sendo  enganação. Tal como engana a raposa e dissimula o camaleão. Tem gente que dissimula tanto, que no fim acaba enganando até o espelho. "Diz aí, meu irmão! Hoje eu tô ou não tô bonitão!?". Por questão de segurança, dessa vez vou deixar de fora a balança.

O DESLIZE MENOS GRAVE: A OMISSÃO PRECAVIDA. Nem tudo o que sabemos, pensamos ou sentimos precisa ser dito ou revelado seca e imediatamente. Às vezes, silenciar uma informação é apenas uma forma prudente de preservar a si mesmo, de preservar alguém, ou simplesmente aguardar o momento mais adequado para revelar o que precisa ser comunicado. O problema começa quando a precaução vira estratégia para esconder deliberadamente aquilo que o outro tem o direito de saber. Aí, a omissão deixa de ser precaução e começa a mudar de nome. Triadicamente:  negligência, irresponsabilidade e leviandade. O sujeito tanto se camuflou de árvore, que acabou virando poste no Alasca.

Obs.: Esta primeira parte continua e será completada pelas partes seguintes, de mesmo título.

(*) Texto enviado pelo autor, via Whatsapp de Vitória (ES).

 

(**)Possui graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES.Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente, cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental.

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