quinta-feira, 1 de outubro de 2026

3- CARTA ABERTA AOS INDECISOS, AOS NÃO POLARIZADOS, E AOS BEM-INTENCIONADOS Lindolivo Soares Moura (*)

 3-  CARTA ABERTA AOS INDECISOS, AOS NÃO POLARIZADOS, E AOS BEM-INTENCIONADOS

 

Lindolivo Soares Moura (*)


 

Nada! Absolutamente nada contra você que há muito fez sua escolha e tem voto decidido para esse ou aquele lado nessas próximas eleições. Ninguém, absolutamente ninguém, pode afirmar que você não esteja bem-intencionado. E, ao contrário do que diz a máxima – "De boa intenção, o inferno está cheio" – de acordo com quem pensa com a razão e apenas com uma pitada de paixão, a única coisa absolutamente boa é a boa intenção. Portanto fique tranquilo. Impulsionado ou não pela paixão, a boa e reta intenção lhe garante "habeas corpus", independentemente de em quem você já tenha investido seu voto. Por conseguinte, se preferir, você pode parar por aqui. Provavelmente o restante da reflexão pouco ou nada tem a acrescentar a você. Ao menos, no que diga respeito à sua escolha, orientada pela polarização.

Talvez a presente reflexão tenha algo a dizer a você, que ainda não tem seu voto decidido nem direcionado para "A" ou para "B", nem para nenhuma outra opção que o alfabeto lhe ofereça como alternativa. Você que ainda não se permitiu ser unidirecionado nem pelas rédeas da razão nem pelo cabresto da paixão. Você, enfim, que também age impulsionado pela boa e reta intenção. Mas que ainda mantém dois pratos na balança, e não apenas um. Pratos que oscilam, ora pendendo para um lado ora para o outro, porque você não se permitiu ser contaminado pelo flagelo do extremismo nem intoxicado pelo radicalismo da polarização. Se você se sente parte desse grupo de cabeças livres e mentes abertas, pode fazer algum sentido continuar seguindo em frente com a presente reflexão.

Se pensar ainda continua sendo seu melhor recurso para discernir e decidir, sobretudo quando a certeza passa ao largo e a dúvida se impõe, vou cometer o deslize de presumir que você concorde que, a essa altura das eleições, salvo o imprevisto ou a surpresa de um acontecimento absurdamente impactante, ela será decidida entre os dois candidatos que no momento dominam amplamente as pesquisas, somando aproximadamente oitenta por cento dos votos, sobrando próximo de vinte por cento para todos os demais candidatos juntos. Ou seja: nosso país já tem um novo presidente. Resta saber apenas qual dos dois, exatamente. Como disse, vou presumir que isso é fato, e que você concorde com isso. A menos, como já foi dito, que algo absolutamente relevante venha alterar substancialmente esse quadro.

Se você considera que o anteriormente afirmado faz sentido, podemos continuar refletindo juntos. Caso contrário, também para você talvez não valha mais a pena insistir em continuar refletindo por essa via. Mas se concorda, é possível que sua dúvida esteja alicerçada em uma de duas convicções. Uma: a de que os dois candidatos, dentre os quais muito provavelmente será eleito o próximo presidente, são duas boas, ótimas, excelentes e dignas pessoas. A outra: que nenhum dos dois postulantes tem histórico de vida ilibada o bastante que justifique ser colocado, pelo nosso voto, no cargo que está pleiteando. Em ambos os casos, veja bem, sua convicção pode, perfeitamente, estar sendo ainda amparada pela boa e reta intenção.

Isso posto, a questão que proponho é a seguinte: se consideramos ambos bons, ótimos, excelentes e dignos, nossa decisão e nossa escolha estão sendo orientadas pois dois bens. Cabe a cada um de nós avaliar qual dentre os dois nos parece o melhor. Melhor, não para mim, nem para você, nem para quem quer que seja, individual e pessoalmente, e sim para o país, para a nação como um todo, para o bem-comum. Nesse caso, a dúvida não parece ser um bicho de sete cabeças. No máximo, de duas, em razão dos motivos já apontados anteriormente.

Mas se você considera que nenhum dos dois candidatos são merecedores do cargo que estão postulando, por não serem bons, nem ótimos, e menos ainda excelentes ou dignos, a dúvida deixa de ser simples e começa a se tornar complexa. Isso porque, nem a você nem a mim, nem a nenhum brasileiro, estaria sendo oferecida a opção de escolher entre um bem e um mal, mas única e exclusivamente entre dois males. O próximo passo seria o seguinte: à consciência ética e moral impõe avaliar e decidir se são dois males absolutamente iguais em magnitude, ou um mal maior e mais grave, e um outro menor e menos grave.

No primeiro caso, o voto meu, o seu, e o de quem quer que seja, teoricamente não alteram nem comprometem absolutamente nada. O mesmo, porém, não ocorre no segundo caso. Se nossa consciência distingue um mal do outro, considerando que um seja um mal menor e menos grave, e o outro um mal maior e mais grave, então sinto muito: quem assim conclui não tem opção. Ética e moralmente essa consciência está comprometida com o mal menor e menos grave. A liberdade que norteia a escolha e a autonomia que acompanha a decisão não autorizam, em hipótese alguma, entre um bem e um mal, uma opção que não seja pelo bem. Da mesma forma, entre dois males, em que um seja considerado menor e menos grave e outro maior e mais grave, essa mesma consciência não autoriza outra opção que não o mal menor e menos grave. Seria antiético e imoral qualquer escolha ou decisão em contrário.

Se sua concordância ainda persiste, podemos seguir para as considerações finais. Vou considerar, por questão de pertinência e relevância do argumento, apenas a hipótese dos dois males e da diferença de graus entre eles. Nessa situação, sugiro dois critérios – entre outros tantos possíveis e válidos – para nos orientar nessa grave escolha e nessa crucial decisão. Um, relacionado à seguinte pergunta: qual dos dois postulantes ao cargo é mais idôneo e digno, e única e exclusivamente por esse critério, merecedor do nosso voto? Segundo: qual dos dois candidatos, historica e concretamente, tem demonstrado maior capacidade de gestão e mais competência para administrar um país e governar uma nação? Isso, tanto "ad intra" como "ad extra", isto é, política interna ou nacional, e política externa ou internacional.

Finalmente: caso quem chegou até aqui e aceitou se defrontar com um teste tão curto e aparentemente tão complexo, e eventualmente ainda continue em dúvida por ter respondido candidato "A" para a primeira pergunta e candidato "B" para a segunda, ou o inverso, isso provavelmente significa que você está no caminho certo. Siga em frente. Você, eu, cada brasileiro decide! Só não permita que a boa e reta intenção deixe de continuar guiando sua escolha e orientando seus passos. Quem sabe um dia nossos filhos e netos sejam abençoados com opções melhores. E quem sabe você ou um de seus entes queridos não estejam entre as opções disponíveis. Quem sabe! E se me permite uma sugestão, muito cuidado! Cuidado com o demônio do extremismo e com a desgraça da polarização!

(*)Lindolivo Soares Moura

 

Psicólogo e Professor Universitário na Consultório de Psicologia

Vila Velha, Espírito Santo, Brasil

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