3- CARTA ABERTA AOS INDECISOS, AOS NÃO POLARIZADOS, E AOS BEM-INTENCIONADOS
Lindolivo Soares Moura (*)
Nada!
Absolutamente nada contra você que há muito fez sua escolha e tem voto decidido
para esse ou aquele lado nessas próximas eleições. Ninguém, absolutamente
ninguém, pode afirmar que você não esteja bem-intencionado. E, ao contrário do
que diz a máxima – "De boa intenção, o inferno está cheio" – de
acordo com quem pensa com a razão e apenas com uma pitada de paixão, a única
coisa absolutamente boa é a boa intenção. Portanto fique tranquilo.
Impulsionado ou não pela paixão, a boa e reta intenção lhe garante "habeas
corpus", independentemente de em quem você já tenha investido seu voto.
Por conseguinte, se preferir, você pode parar por aqui. Provavelmente o
restante da reflexão pouco ou nada tem a acrescentar a você. Ao menos, no que
diga respeito à sua escolha, orientada pela polarização.
Talvez a
presente reflexão tenha algo a dizer a você, que ainda não tem seu voto
decidido nem direcionado para "A" ou para "B", nem para
nenhuma outra opção que o alfabeto lhe ofereça como alternativa. Você que ainda
não se permitiu ser unidirecionado nem pelas rédeas da razão nem pelo cabresto
da paixão. Você, enfim, que também age impulsionado pela boa e reta intenção.
Mas que ainda mantém dois pratos na balança, e não apenas um. Pratos que
oscilam, ora pendendo para um lado ora para o outro, porque você não se
permitiu ser contaminado pelo flagelo do extremismo nem intoxicado pelo
radicalismo da polarização. Se você se sente parte desse grupo de cabeças
livres e mentes abertas, pode fazer algum sentido continuar seguindo em frente
com a presente reflexão.
Se pensar
ainda continua sendo seu melhor recurso para discernir e decidir, sobretudo
quando a certeza passa ao largo e a dúvida se impõe, vou cometer o deslize de
presumir que você concorde que, a essa altura das eleições, salvo o imprevisto
ou a surpresa de um acontecimento absurdamente impactante, ela será decidida
entre os dois candidatos que no momento dominam amplamente as pesquisas,
somando aproximadamente oitenta por cento dos votos, sobrando próximo de vinte
por cento para todos os demais candidatos juntos. Ou seja: nosso país já tem um
novo presidente. Resta saber apenas qual dos dois, exatamente. Como disse, vou
presumir que isso é fato, e que você concorde com isso. A menos, como já foi
dito, que algo absolutamente relevante venha alterar substancialmente esse
quadro.
Se você
considera que o anteriormente afirmado faz sentido, podemos continuar
refletindo juntos. Caso contrário, também para você talvez não valha mais a
pena insistir em continuar refletindo por essa via. Mas se concorda, é possível
que sua dúvida esteja alicerçada em uma de duas convicções. Uma: a de que os
dois candidatos, dentre os quais muito provavelmente será eleito o próximo
presidente, são duas boas, ótimas, excelentes e dignas pessoas. A outra: que
nenhum dos dois postulantes tem histórico de vida ilibada o bastante que justifique
ser colocado, pelo nosso voto, no cargo que está pleiteando. Em ambos os casos,
veja bem, sua convicção pode, perfeitamente, estar sendo ainda amparada pela
boa e reta intenção.
Isso posto, a
questão que proponho é a seguinte: se consideramos ambos bons, ótimos,
excelentes e dignos, nossa decisão e nossa escolha estão sendo orientadas pois
dois bens. Cabe a cada um de nós avaliar qual dentre os dois nos parece o
melhor. Melhor, não para mim, nem para você, nem para quem quer que seja,
individual e pessoalmente, e sim para o país, para a nação como um todo, para o
bem-comum. Nesse caso, a dúvida não parece ser um bicho de sete cabeças. No
máximo, de duas, em razão dos motivos já apontados anteriormente.
Mas se você
considera que nenhum dos dois candidatos são merecedores do cargo que estão
postulando, por não serem bons, nem ótimos, e menos ainda excelentes ou dignos,
a dúvida deixa de ser simples e começa a se tornar complexa. Isso porque, nem a
você nem a mim, nem a nenhum brasileiro, estaria sendo oferecida a opção de
escolher entre um bem e um mal, mas única e exclusivamente entre dois males. O
próximo passo seria o seguinte: à consciência ética e moral impõe avaliar e
decidir se são dois males absolutamente iguais em magnitude, ou um mal maior e
mais grave, e um outro menor e menos grave.
No primeiro
caso, o voto meu, o seu, e o de quem quer que seja, teoricamente não alteram
nem comprometem absolutamente nada. O mesmo, porém, não ocorre no segundo caso.
Se nossa consciência distingue um mal do outro, considerando que um seja um mal
menor e menos grave, e o outro um mal maior e mais grave, então sinto muito:
quem assim conclui não tem opção. Ética e moralmente essa consciência está
comprometida com o mal menor e menos grave. A liberdade que norteia a escolha e
a autonomia que acompanha a decisão não autorizam, em hipótese alguma, entre um
bem e um mal, uma opção que não seja pelo bem. Da mesma forma, entre dois
males, em que um seja considerado menor e menos grave e outro maior e mais
grave, essa mesma consciência não autoriza outra opção que não o mal menor e
menos grave. Seria antiético e imoral qualquer escolha ou decisão em contrário.
Se sua
concordância ainda persiste, podemos seguir para as considerações finais. Vou
considerar, por questão de pertinência e relevância do argumento, apenas a
hipótese dos dois males e da diferença de graus entre eles. Nessa situação,
sugiro dois critérios – entre outros tantos possíveis e válidos – para nos
orientar nessa grave escolha e nessa crucial decisão. Um, relacionado à
seguinte pergunta: qual dos dois postulantes ao cargo é mais idôneo e digno, e
única e exclusivamente por esse critério, merecedor do nosso voto? Segundo:
qual dos dois candidatos, historica e concretamente, tem demonstrado maior
capacidade de gestão e mais competência para administrar um país e governar uma
nação? Isso, tanto "ad intra" como "ad extra", isto é,
política interna ou nacional, e política externa ou internacional.
Finalmente:
caso quem chegou até aqui e aceitou se defrontar com um teste tão curto e
aparentemente tão complexo, e eventualmente ainda continue em dúvida por ter
respondido candidato "A" para a primeira pergunta e candidato
"B" para a segunda, ou o inverso, isso provavelmente significa que
você está no caminho certo. Siga em frente. Você, eu, cada brasileiro decide!
Só não permita que a boa e reta intenção deixe de continuar guiando sua escolha
e orientando seus passos. Quem sabe um dia nossos filhos e netos sejam
abençoados com opções melhores. E quem sabe você ou um de seus entes queridos
não estejam entre as opções disponíveis. Quem sabe! E se me permite uma
sugestão, muito cuidado! Cuidado com o demônio do extremismo e com a desgraça
da polarização!
(*)Lindolivo
Soares Moura
Psicólogo e Professor Universitário na
Consultório de Psicologia
Vila Velha, Espírito Santo, Brasil
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