04.0-
REFLETINDO A QUARTA-FEIRA DE CINZAS
4.1- FRATERNIDADE E CONVERSÃO
Beneficência e caridade não são necessariamente a mesma
coisa. São Paulo falou sobre isso quando escreveu aos Coríntios: “Ainda que
distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse
o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!” (1Cor
13,3). O bem realizado só se torna caridade, quando é realizado por quem seja
capaz de buscar a conversão e a bondade. Desse modo, a própria pessoa assume as
características do amor que pratica, conforme ensina o mesmo Paulo: “A caridade
é paciente, é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é
arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se
irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a
verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-7). É
por isso que não faz sentido pensar que o bem possa ser realizado por quem só
alimenta o ódio. E também é inconcebível que se fale de fraternidade sem que se
assuma a atitude fraterna que caracteriza quem quer construí-la. “A
fraternidade nasce de um dado profundamente humano. Somos capazes de relação e,
se quisermos, sabemos construir ligames autênticos entre nós. Sem relações, que
nos sustentam e que nos enriquecem desde o início da nossa vida, não poderemos
sobreviver, crescer e aprender. (...) Se somos inclinados sobre nós mesmos,
corremos o risco de adoecermos de solidão, e também de um narcisismo que só se
preocupa com os outros por interesse. O outro se reduz então a alguém do qual
se recebe, sem que nunca estejamos dispostos a dar, a doar- -nos. Sabemos bem
que também hoje a fraternidade não nasce sozinha, não é imediata. Muitos
conflitos, tantas guerras espalhadas pelo mundo, tensões sociais e sentimentos
de ódio parecem demonstrar o contrário. Todavia, a fraternidade não é só um
belo sonho impossível, não é um desejo de poucos iludidos. Mas, para superar as
sombras que a ameaçam, é necessário ir às fontes, e sobretudo encontrar luz e
força no único que nos liberta do veneno da inimizade” (Leão XIV, Audiência
Geral, 12.11.2025). “Porque Ele é a nossa paz, Ele que de dois povos fez um só,
destruindo o muro de inimizada que os separava” (Ef 2,14). É, portanto, de
nossa conversão a Cristo que nasce a verdadeira fraternidade e, sem essa
conversão, não é possível falar de Cristo. Por isso, Ele ensinou: “Quando deres
esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas
sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Em verdade vos digo:
eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, quando deres esmola, que a
tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, de modo que a tua
esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a
recompensa” (Mt 6,2-4). Mas, falando em conversão, não podemos pensar que se
trate de uma coisa íntima, que diga respeito só a nós mesmos, tal como ensina
São Tiago: “De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver
obras? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem
roupas e o alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: ‘Ide em paz,
aquecei-vos e fartai-vos’, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que
lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma”
(Tg 2, 14-17).
D. Rogério Augusto
das Neves Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal Região Sé
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