4.2-18 de
fevereiro – QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Por Junior Vasconcelos do Amaral*
Misericórdia, ó Senhor, pois
pecamos!
I.
INTRODUÇÃO GERAL
Iniciamos neste dia nossos exercícios quaresmais, tempo de
reflexão e silêncio, penitência e conversão, fraternidade e comunhão. A
Quaresma, à luz da Palavra de Deus, inspira-nos a vivenciar, na Igreja no
Brasil, a Campanha da Fraternidade (CF), com o tema “Fraternidade e moradia” e
com o lema bíblico inspirado por Jo 1,14: “Ele veio morar entre nós”. O tema
desta CF nos faz pensar que todo ser humano deseja moradia digna e tem direito
a ela; que temos de buscar políticas públicas que garantam esse direito a todo
povo. Na primeira leitura, o profeta Joel nos convida ao arrependimento. Não
bastam gestos proféticos de rasgar as vestes, mas é preciso haver gestos
existenciais, rasgando o coração e livrando-o de idiossincrasias e egoísmos. Na
segunda leitura, Paulo nos convida a ser embaixadores da ação salvífica de
Cristo, unindo as pessoas a Deus. Na perspectiva do apóstolo das gentes, o dia
da salvação é o hoje de Deus, garantindo-nos a vivência de nossa vocação à
santidade. No Evangelho, Jesus nos ensina as práticas de piedade: a verdadeira
esmola, a oração sincera e o agradável jejum. As práticas penitenciais da
Quaresma nos purificam para o kairós da
Páscoa, a fim de nos associarmos um dia à Páscoa eterna.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Jl 2,12-18)
A situação de injustiça
social denunciada pelo profeta Joel é alarmante, por isso é necessário
arrependimento e conversão: “Voltai para mim com todo vosso coração, com
jejuns, lágrimas e gemidos” (v. 12). Jejuar, chorar e gemer são atos de quem
está arrependido pelo mal cometido. O v. 13a diz: “Rasgai o coração, e não as
vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus”, o que consiste em gesto profético
de ira, de não contentamento com as próprias atitudes. Em seguida, o v. 13b apresenta
os atributos de Deus: “benigno, compassivo, paciente, cheio de misericórdia e
inclinado a perdoar o castigo”.
Em momento algum Joel desaprova o culto, mas o vê acompanhado de
uma convocação para a interioridade. O resultado esperado do arrependimento é
que talvez Adonai, o Senhor, agirá de acordo com os atributos listados em 13b.
O povo é chamado a se arrepender duas vezes (v. 12-13). Assim, Adonai voltará a
ter misericórdia. Tocar a trombeta em Sião (v. 15-17) é chamamento não apenas
para ocasiões militares, mas também para o culto (Lv 25,9;Sl 81,4; 150,3), por
ocasião da Pessach e do Sukkot. Há
um detalhe acerca dos convidados ao jejum: fala-se em anciãos e infantes, noivo
e noiva, mas faltam o rei e os governantes, o que pode nos levar a supor que
essa profecia seja pós-exílica. Também os ministros sagrados choram em
lamentos: “Onde seu Deus está?”, fazendo recordar Sl 42,4.11, Mq 7,10 e Ml
2,17. O v. 18 conclui esperançosamente, dizendo: “o Senhor encheu-se de zelo
por sua terra e perdoou ao seu povo”.
O profeta Joel é um
mensageiro de esperança para um tempo de desesperança; de conversão para um
tempo de pecado; de justiça para um tempo no qual as injustiças estavam
pululando. Enfim, um profeta de vida para um tempo de morte, um antítipo do que
Jesus representa para nós, cristãos.
2. II leitura (2Cor 5,20-6,2)
Paulo entende a vocação
do cristão no mundo, não fora dele. Exercer a função de “embaixadores”
significa prolongar a missão salvífica de Cristo no mundo onde habitamos. “Deus
mesmo vos exorta” (v. 20a) significa o respeito de Deus pela liberdade de suas
criaturas. “Reconciliai-vos” (v. 20b) é um imperativo. Paulo exorta a
comunidade de Corinto à reconciliação com Deus. A comunidade é chamada a
superar as barreiras, intrigas e divisões e tornar-se ponte entre os irmãos e
Deus.
O v. 21 expande o
sentido do papel de Cristo na reconciliação: “Aquele que não conhecera o
pecado, Deus o fez pecado”. Cristo é reconhecido em Hb 4,15 sem pecado (cf. 1Pd
2,22; Jo 8,46; 1Jo 3,5), mas, por opção de Deus (Rm 8,3), ele passou a estar
naquela relação com Deus que normalmente é resultado do pecado. Cristo se
tornou parte da humanidade pecadora (cf. Gl 3,23), a fim de que, por ele, nos
tornássemos justiça de Deus.
Em 2Cor 6,1 somos chamados a colaborar com Paulo, Timóteo e
Apolo na missão que estes receberam de Cristo, por comunhão. Paulo estimula os
líderes da comunidade de Corinto a colaborar com a obra salvífica de Cristo. O
dia da salvação se aproxima, o tempo da graça de Deus, o kairós. Dessa
forma, Paulo envolve-nos a todos na missão salvífica de Cristo; por isso, tal
missão é extensiva ao nosso tempo, quando assumimos o trabalho pastoral na vida
da comunidade e promovemos comunhão, participação e missão, na vivência da
sinodalidade – o modo próprio de ser da Igreja –, percorrendo todos unidos o
mesmo caminho.
3. Evangelho (Mt 6,1-6.16-18)
Mateus convida sua comunidade à prática da atenção (em
grego, proséxete) com que
este tempo merece ser vivido: “Ficai atentos para não praticar vossa justiça na
frente dos homens só para serdes vistos por eles” (v. 1). Grosso modo, a
ética cristã, o modus vivendi ao
qual Jesus exorta seus seguidores neste primeiro discurso de Mateus, deve ser
superior à forma de viver dos seguidores da Lei. Jesus chama os discípulos e
seus ouvintes a segui-lo, ele que é a nova Lei. Por isso, Jesus está, como um
novo Moisés, sentado sobre a montanha e ensinando (cf. Mt 5,1). Sentado é o
modo como o mestre (didáskalo)
ensina.
O Evangelho deste dia
está inserido no Discurso da montanha (Mt 5-7). Do ponto de vista bíblico,
poderíamos considerá-lo como sabedoria escatológica, ética e legal ou como lei,
enquanto instrução (Torá), com vistas ao Reino vindouro, que não se impõe de
maneira coercitiva, mas escatológica e misteriosamente.
Mateus oferece a seus
ouvintes/leitores uma reforma nas obras de piedade: esmola (v. 1-4), oração (v.
5-15) e jejum (v. 16-18). Jesus, portanto, é o novo Moisés que reformula os
sistemas legais antigos com uma nova concepção, como se fosse vinho novo
colocado em odres novos (Mt 9,17). Para os novos seguidores, uma nova forma de
viver.
A esmola é uma forma de se relacionar com o outro que nada tem.
Contudo, não pode ser realizada da mesma maneira com que outros agiam: “Quando
deres esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas
sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens”. Jesus afirma: “Em
verdade vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Ao contrário, que a tua
mão esquerda não saiba o que faz a tua direita” (v. 2-3). Jesus os convida a
uma nova forma, gratuita e não retributiva, de viver a tsedaqah (termo
aramaico para “justiça”, que quer dizer “esmola”). Viver a nova justiça (dikaiosyne)
proposta por Jesus é viver com retidão e de forma justa, não hipócrita.
Hypókrites era um termo do teatro para designar o ator. Ele também é usado
em Mt 23 para designar os falsos intérpretes das Escrituras, os mestres
religiosos que falham em sua missão. Ser hipócrita significa fazer tudo para
aparecer, para tirar proveito da esmola dada. O cristão, pelo contrário, deve
fazer tudo em silêncio e de forma modesta.
A oração é uma forma de
se relacionar com Deus, pelo diálogo sincero e fiel (v. 5-6). Deve ser
espontânea comunhão pessoal com Deus, para nosso benefício. Deus sabe de que
necessitamos. A oração alimenta nossa fé e nos insere na missão. Em Mateus,
Jesus ensina, na sequência, a oração espontânea do pai-nosso (v. 7-15).
O jejum é a forma de nos
relacionarmos com nós mesmos, controlando nossos desejos e paixões (v. 16-18).
Novamente, Mateus utiliza o termo “hipócritas”, referindo-se aos “atores” que
se desfiguram histericamente, quando estão jejuando, só para mostrar que são
piedosos. Essa falsa piedade não agrada a Deus nem faz bem àquele que a
pratica. Pelo contrário, quando jejuar, o discípulo de Jesus deve lavar o rosto
e perfumar a cabeça, retratando a alegria. Todas essas práticas de piedade,
agora na perspectiva teológica de Jesus, terão sentido novo e serão
recompensadas por Deus, o Pai.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Perceber a relação teológica
entre as três leituras, que convidam à penitência, ao arrependimento e à
prática do amor cristão. Levar a comunidade cristã às verdadeiras práticas de
piedade: esmola, oração e jejum. A paróquia ou a comunidade eclesial podem
escolher uma entidade caritativa que promove o trabalho com o povo da rua, que
já realiza o bem em favor dos vulneráveis, e ajudá-la com uma campanha
solidária de alimentos ou de vestuário. Propor a leitura e a meditação do
texto-base da Campanha da Fraternidade, a qual visa à vida fraterna na
comunidade de fé, refletindo este ano sobre a necessidade de haver moradia para
todo ser humano. A moradia adequada foi reconhecida como um direito humano, em
1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Cabe a todos nós nos
empenharmos para que haja moradia digna a todo ser humano.
Junior Vasconcelos do Amaral*
*é presbítero da arquidiocese de Belo
Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança
(Rense). Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e
Teologia (Faje), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade
“sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain
(Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de Antigo e Novo
Testamentos na PUC-Minas, em Belo Horizonte, e desenvolve pesquisa sobre
psicanálise e Bíblia. É psicanalista clínico.
E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br
https://www.vidapastoral.com.br/roteiros/18-de-fevereiro-quarta-feira-de-cinzas/
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