09-MENSAGEM DO PAPA PARA A QUARESMA
Escutar e jejuar.
Quaresma como tempo de
conversão
Queridos irmãos e irmãs!
A Quaresma é o tempo em
que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de
Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o
coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano.
Todo o caminho de
conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com
docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de
Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por
isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à
voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o
caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e
ressurreição.
Escutar
Este ano gostaria de
chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra
através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro
sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.
O próprio Deus, revelando-se
a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva
do seu ser: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu
clamor» (Ex 3, 7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma
história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a
abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.
É um Deus que nos envolve
e, hoje, também vem até nós com os pensamentos que fazem vibrar o seu coração.
Por isso, escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais
verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida
pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer
aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta.
Entrar nesta disposição interior de recetividade significa deixar-se instruir
hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a
condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade,
interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas
políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja». [1]
Jejuar
Se a Quaresma é um tempo
de escuta, o jejum constitui uma prática concreta que nos
predispõe a acolher a Palavra de Deus. Na verdade, a abstinência de alimentos é
um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão.
Precisamente porque implica o corpo, torna mais evidente aquilo de que temos
“fome” e o que consideramos essencial para o nosso sustento. Portanto, é útil
para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede
de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração
e responsabilidade para com o próximo.
Com grande sensibilidade
espiritual, Santo Agostinho deixa transparecer a tensão entre o tempo presente
e a realização futura que atravessa esta salvaguarda do coração, quando observa
que: «Ao longo da vida terrena, cabe aos homens ter fome e sede de justiça, mas
ser saciados pertence à outra vida. Os anjos saciam-se deste pão, deste
alimento. Os homens, pelo contrário, sentem fome dele, estão inclinados ao seu
desejo. Esta inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua
capacidade». [2] Compreendido neste sentido, o jejum
permite-nos não só disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, mas
também ampliá-lo, de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no
bem.
No entanto, para que o
jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer
o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade. Ele exige um permanente
enraizar-se na comunhão com o Senhor, porque «não jejua verdadeiramente quem
não sabe alimentar-se da Palavra de Deus». [3] Como sinal visível do nosso
compromisso interior de, com o apoio da graça, nos afastarmos do pecado e do
mal, o jejum deve incluir também outras formas de privação destinadas a
fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois «só a austeridade torna
forte e autêntica a vida cristã». [4]
Por isso, gostaria de vos
convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco
apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso
próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes,
ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender,
às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a
cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas
redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas
comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de
esperança e paz.
Juntos
Por fim, a Quaresma realça
a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum. A Escritura
sublinha também este aspeto de várias maneiras. Por exemplo, ao narrar no livro
de Neemias que o povo se reuniu para escutar a leitura pública do livro da Lei
e, praticando o jejum, se dispôs à confissão de fé e à adoração, a fim de
renovar a aliança com Deus (cf. Ne 9, 1-3).
Do mesmo modo, as nossas
paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a
percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da
Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de
vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento. Neste contexto, a
conversão diz respeito não só à consciência do indivíduo, mas também ao estilo
das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela
realidade e de reconhecer o que realmente orienta o desejo, tanto nas nossas
comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação.
Caríssimos, peçamos a
graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos
últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que
diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E
comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem
sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais
disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.
De coração, abençoo todos
vós e o vosso caminho quaresmal.
Vaticano, na Memória de
Santa Ágata, virgem e mártir, 5 de fevereiro de 2026
LEÃO PP.
XIV
_________________________________
[1] Exort.
ap. Dilexi
te (4 de outubro de 2025), 9.
[2] Santo
Agostinho, A utilidade do jejum, 1, 1.
[3] Bento
XVI, Catequese (9
de março de 2011).
[4] São
Paulo VI, Catequese (8 de fevereiro de 1978).
https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/lent/documents/20260205-messaggio-quaresima.html
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