4.3- HOMILIA DA SOLENIDADE DA
ASSUNÇÃO DE MARIA- ANO A
BEM-AVENTURADA É MARIA PORQUE ACREDITOU NA
MISERICÓRDIA DE DEUS
“Porque
o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é Santo”
(Lc.1,49).
Iniciamos a semana de Oração pela Vocação a Vida
Consagrada e Religiosa ao mesmo tempo que festejamos a Solenidade da Assunção de
Nossa Senhora. Maria une na sua vida a vocação matrimonial e a vida
consagrada. Assumiu as duas vocações sem menosprezar nenhuma: foi esposa
exemplar e ao mesmo tempo consagrou inteiramente sua vida através da castidade,
humildade, pobreza e obediência. Assim, pelo seu exemplo, compreendemos não
apenas que a vocação à vida consagrada exige abertura e docilidade a voz
divina, acolhida aos seus apelos, doação, coragem e força para enfrentar as
dores e os sacrifícios, mas também que estas renúncias e sacrifícios feitos em
oblação trazem alegria a vida doada e consagrada. Não é atoa que o Papa
Francisco afirmou: “Onde há os consagrados, há alegria”.
Neste dia trazemos na memória e no coração a proclamação do
dogma por Pio XII em 1º de novembro de 1950. A Constituição Apostólica Munificentissimus Deus afirma: “A imaculada Mãe de Deus, a sempre
virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma
à glória celestial”. A solenidade de hoje deseja nos revelar que
aquilo que Deus realizou em Maria é a conclusão de tudo que Ele deseja realizar
com e em toda a humanidade. Deste modo, compreendemos que na conclusão da vida
e missão de Maria realizou-se o que acontecerá conosco caso também se
participarmos da vida de Jesus e formos discípulos fiéis. Tendo realizada
plenamente a vontade divina em sua vida, ela foi ressuscitada por Deus, ou
seja, foi assumida de corpo e alma, em sua totalidade, por Ele.
A primeira leitura (Ap.11,19a; 12,1.3-6a.10ab) narra a visão da
abertura do santuário de Deus no céu. Essas visões repletas de fenômenos
naturais eram comuns também nas teofanias[1] no
Antigo Testamento. A Mulher mencionada, na Tradição, tanto pode ser a
representação de Maria como da própria Igreja, pois Maria gerou a Jesus Cristo
e a Igreja gera os discípulos de Jesus por meio do sacramento do Batismo. O
dragão que a persegue representa não apenas o diabo, mas todo e qualquer ser
que se oponha a salvação e busca destruir os planos de Deus para a humanidade.
A ação de Deus que protege o seu Filho do ataque do dragão revela que o poder
do mal nunca terá a última palavra. Com a figura do Filho que ocupa seu lugar
no trono no céu, compreendemos e reconhecemos que, no seguimento de Jesus e na
pessoa de Maria, a nova humanidade já é acolhida junto de Deus.
Na segunda leitura (1Cor. 15,20-27a), o Apóstolo afirma que
ser cristão significa acreditar que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos
mortos. Toda a nossa fé se baseia nesta verdade fundamental. No contexto da
solenidade, a Assunção é entendida como antecipação da ressurreição final dos
fiéis, que serão ressuscitados em Cristo. Ao ser glorificada por Deus, Maria
não é transformada em um anjo, não é separada de nossa natureza, mas é unida
ainda mais intimamente a nossa humanidade. Como primeira cristã, tornou-se,
assim, a primeira na fé a ser elevada à glória do céu em corpo e alma, graça
que foi oferecida e alcançada pela Ressurreição de Jesus. Maria, como Mãe e
discípula, seguira nosso Mestre fielmente durante toda a sua vida, assim é
justo e necessário, que ela tenha entrado com Ele na vida eterna na Casa do
Pai.
O Evangelho (Lc.1-39-56) nos apresenta o encontro de duas mães
que se preparam para trazer vida nova ao mundo: um filho traz a renovação da
esperança da promessa messiânica. O outro Filho é a esperança encarnada; é o
próprio Deus feito Homem. Neste encontro jubiloso somos convidados a entoar
dois cânticos que são uma mescla de regozijo, gratidão e ação de graças: o
cântico de Isabel lembra os louvores da profetiza Débora diante de uma
vitória (Jz.5,24) e também a matriarca Judite que agiu para salvar seu povo (Jt.13,18). E o Magnificat: É o
cântico da esperança que relembra a oração de Ana, mãe do profeta e sacerdote,
Samuel (1Sm. 2, 1-10) e também o salmo 113. Nele, Maria, jubilosa e exultante pela salvação que se aproxima
com ela e nela, dá voz ao Povo de Deus em peregrinação aqui na Terra, que mesmo
experimentando a luta cotidiana entre a vida e a morte, entre o bem e o mal,
permanece crendo na Ressurreição de Cristo e na vitória do Amor Divino. A
preocupação e zelo que leva Maria a ir em socorro de Isabel demonstra que a
santidade cristã, longe de nos colocar em lugar de observador do sofrimento
diário, nos impulsiona a ir ao encontro dos sofredores para ajudá-los na
caridade. Deste modo compreendemos que a missão dos consagrados passa pela
incondicional pertença a Deus, mas também passa pela caridade pastoral que cura
as dores dos homens e mulheres que buscam a Deus.
Acompanhar nossa Mãe em seu cântico é reconhecer que Deus fez
grandes coisas em Maria e com Maria. Concebida sem pecado e unindo sua
liberdade plenamente a Graça, permanecendo fiel a Deus e ao seu projeto de
salvação, Maria transformou sua vida em comunhão perfeita e eterna com a
Trindade Santíssima. A sua Assunção é efeito desta vida toda entregue a Deus.
Nela, Deus realizou em plenitude tudo aquilo que desejou para a humanidade. Com
a assunção de Maria, Deus Pai pode afinal “descansar” (Gn.2,2-3), pois, viu enfim a
humanidade redimida pelo seu Filho assumir o lugar que Ele sempre desejou em
seu plano salvífico. A Criação está completa e terminada.
Maria elevada ao céu pela Graça de Deus, permanece com o coração
unido a humanidade. O Papa Francisco, rezando sobre a Assunção de Maria, fala:
“Maria, a mãe que cuidou de
Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim
como chorou, com o coração trespassado, a morte de Jesus, assim também agora se
compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo
exterminadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, completamente
transfigurada, e todas as criaturas cantam sua beleza” (Laudato
Si’, n. 241).
Pe. Paulo Sérgio Silva
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito
_______________
[1] Teofania
é uma manifestação visível do próprio Deus. A palavra teofania tem origem na
combinação de duas palavras gregas, theos, que significa “Deus”, e phainein,
que significa “mostrar” ou “manifestar”. Portanto, literalmente teofania
significa “manifestação de
Deus”.
https://diocesedecrato.org/homilia-da-solenidade-da-assuncao-de-maria-ano-a/
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