sexta-feira, 14 de agosto de 2026

9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)


 9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)


CONTRADIÇÕES, PARADOXOS E AMBIGUIDADES

[01] Pense bem: fomos ensinados, custe o que custar, a jamais desistir dos nossos sonhos. Raras vezes, porém, alguém nos advertiu de que o sonho que tanto nos esforçamos por realizar pode não ser nosso e sim de outras pessoas. Nem toda desistência, portanto, deve ser considerada uma perda, e muito menos um fracasso. Difícil é saber até quando vale a pena continuar tentando, e a partir de que momento é hora de ir em busca de outro sonho.

 

[02] Pense bem: nosso passado é uma preciosa fonte de experiência e aprendizado pronto a nos impulsionar rumo ao futuro. Mas ele também pode nos impedir de viver plenamente o presente quando fazemos dele um refúgio permanente. Difícil é entender como a mesma força que nos conduz rumo ao futuro também pode, no presente, minar nossa coragem de seguir em frente.

 

[03] Pense bem: a bebida está entre os hábitos humanos que mais provocam danos à saúde e problemas de relacionamento. Ainda assim, ela continua desfilando livremente nos encontros, celebrações e momentos de confraternização. Difícil é entender como um vício que tanto dano e prejuízo tem causado ao ser humano continue recebendo passe livre no nosso cotidiano.

 

[04] Pense bem: acumulamos frenética e compulsivamente aquilo que sequer nos damos ao luxo de retirar do guarda-roupa ou da despensa. Enquanto isso, milhões de pessoas dariam tudo para ter com que cobrir o próprio corpo e não precisar passar fome. Difícil é compreender como o ser humano pode ser tão preocupado consigo mesmo, e ao mesmo tempo ignorar as dores e sofrimentos do seu semelhante.

 

[05] Pense bem: tanto podemos manter um vínculo por amor sincero e verdadeiro, como podemos continuar presos a esse mesmo vínculo pelo simples medo de encarar seu rompimento. Como se isso não bastasse, o medo que paralisa e amplia o sofrimento pode ser ainda mais intenso do que o amor que motiva a convivência. Difícil é entender como a decisão de continuar mantendo um vínculo pode nascer tanto da vontade determinada e sadia quanto da insegurança temerosa e doentia.

 

[06] Pense bem: a solidão tanto pode ser dolorosa e angustiante quando nos é imposta pelos condicionamentos e pelas circunstâncias, como pode ser nossa melhor companhia quando abraçada livre e voluntariamente. Há momentos em que estar sozinho é a regra do jogo, e é nessas horas que podemos avaliar a quantas anda nosso amor próprio. Difícil é entender como, para diferentes pessoas e diferentes momentos, nossa própria companhia pode ser tanto um precioso conforto quanto um árduo sofrimento.

 

[07] Pense bem: costumamos cobrar dos outros uma sinceridade que julgamos inegociável, sobretudo quando acreditamos que a franqueza pode nos ajudar a enxergar aquilo que não conseguimos perceber por conta própria. Mas nem sempre estamos preparados para aceitar a sinceridade que reivindicamos, sobretudo quando ela contraria a imagem que temos de nós mesmos. Difícil é entender como podemos reivindicar sinceridade e ao mesmo tempo sermos incapazes de assumir as consequências.

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08] Pense bem: é preciso ter cuidado com o que pedimos em nossas orações, pois podemos acabar recebendo exatamente aquilo que pedimos. Com frequência repetimos: “perdoai-nos, ó Pai, as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos ofendeu”. Difícil é entender como podemos suplicar com tanta insistência justamente por aquilo que, por vezes, menos gostaríamos de ver atendido.

 

[09] Pense bem: sabemos o quanto é importante sermos exemplos de coerência e veracidade para nossos filhos e netos. Continuamente, entretanto, pedimos que eles neguem coisas para nos proteger de certas situações e sustentem inverdades para nos tirar de algum embaraço. Difícil é compreender como podemos ensinar lições e virtudes àqueles que mais amamos, ao mesmo tempo em que insistimos para que eles se comportem de maneira contrária ao que lhes ensinamos.

 

[10] Pense bem: o silêncio tanto pode expressar respeito, solidariedade e presença, como pode comunicar frieza, indiferença e ausência. O mesmo silêncio que acolhe em determinadas circunstâncias pode ferir em outras quando queremos punir pessoas. Difícil é compreender como a ausência das palavras pode carregar significados tão distintos, e como podemos lançar mão dessa ambivalência para fazer prevalecer nossos interesses.

 

[11] Pense bem: nem sempre filho de peixe peixinho é - em muitos casos, não é e jamais deveria ser. Ainda assim não são poucos os pais, mães e avós que, trabalhando como máquinas, acabam abarrotando o cotidiano de seus filhos e netos com tantas tarefas e atividades, que não lhes sobra tempo sequer para respirar direito. Difícil é compreender como, na ânsia de prepará-los para o futuro, não percebem que acabam sacrificando os sonhos de sua infância e o idealismo de sua juventude.

 

[12] Pense bem: ao contrário do que muitos insistem em nos fazer crer, o ciúme nada tem de saudável e desejável. Longe de ser expressão de amor e de afeto, como querem românticos e poetas, no fundo ele não passa de desconfiança travestida de cuidado e proteção. Difícil é suportar a farsa de quem insiste em nos convencer do contrário, quando na verdade só estão tentando mascarar seu controle doentio.

 

[13] Pense bem: pais são pais, avós são avós, babá é babá e creche é creche. E ponto. Exceto em situações absolutamente específicas e necessárias, essas funções jamais devem ser invertidas. Difícil é aceitar as justificativas escabrosas de quem decide transformar essa exceção em regra e essa regra em exceção, mais agravando o problema do que favorecendo a solução.

 

[14] Pense bem: fórum por vezes parece teatro: “Meu cliente matou por amor”, proclama gesticulando em altos brados o renomado advogado. Infeliz do Magistrado que se deixa convencer por tamanho engodo. Por amor a gente vive, deixa viver e é capaz de doar a própria vida. Matar, com certeza não; não faz parte dessa lista. Difícil é compreender como fica confusa a razão humana quando é ela o alvo de nossos sentimentos e emoções.

 

[15] Pense bem: por vezes acabamos mentindo tanto, que terminamos perdendo a noção da verdade. Perdemos a conta de quantas vezes esbanjamos delicadeza ao responder a uma simples saudação: “tudo bem, obrigado, tudo bem, obrigado, tudo bem, obrigado... Que saco!”, quando na verdade nossa vida vai de mal a pior, ou quem sabe já segue rolando ladeira abaixo. Difícil é saber distinguir a hora certa de dizer uma mentirinha santa - se é que isso existe - daquele momento em que é preferível dizer a verdade e... seja lá o que Deus quiser.

 

────────── PAUSA PARA O MERECIDÍSSIMO COFFEE BREAK ─────────

[16] Pense bem: há pouca ou nenhuma sabedoria quando se nos quer fazer crer que atingir a meta é mais importante do que o esforço empreendido. A grande maioria das competições valoriza mais o resultado do que o caminho percorrido, e isso pouco ou nada tem de instrutivo. Difícil é extrair lições relevantes quando o “competicionalismo”

segue sendo um vilão disfarçado de virtude, transformando a vida numa competição permanente.

 

[17] Pense bem: reclamamos da rotina estressante que nos persegue como um raivoso e enfurecido cão, porque ela nos faz sentir que os dias passam sempre iguais, indiferentes e previsíveis. Mas, quando alguma mudança ameaça alterar o ritmo com o qual já estamos mais do que acostumados, somos os primeiros a sair rezando para que tudo volte a ser como antes. Difícil é entender como podemos almejar uma vida nova e diferente, se nos recusamos a abrir mão da duvidosa segurança que a rotina nos proporciona.

 

[18] Pense bem: a vida nos ensina que nossos filhos não são nossos filhos. São filhos e filhas da vida por si mesma. Eles vêm através de nós, mas depois precisam alçar voo para construir seus próprios ninhos e realizar seus próprios sonhos. Difícil é aceitar que as mesmas asas que se fecham para protegê-los no início precisam se abrir mais tarde para permitir que decolem livremente quando já se sentem seguros.

 

[19] Pense bem: faz parte do desejo humano deixar uma marca no mundo e querer ser lembrado por isso. Mas a busca por validação e reconhecimento pode acabar se transformando em ansiedade e obsessão, causando mais dor e sofrimento do que paz e realização. Difícil é identificar o limite entre aquilo que nos chega naturalmente, como consequência, e aquilo que insistimos em forjar a ferro e fogo, à custa de nossa teimosia e impaciência.

 

[20] Pense bem: quando passamos a maior parte do tempo comparando aquilo que temos - independentemente do quanto possamos ter - com aquilo que estamos sempre sonhando em possuir, a ansiedade nos alcança. A vida ensina que quem não se sente feliz com o que tem, dificilmente estará satisfeito com o que venha a ter. Difícil é aceitar que o ter seja finito, ao passo que o desejo jamais se satisfaz com absolutamente nada.

 

[21] Pense bem: com frequência justificamos nossa falta de coragem e ousadia alegando que as coisas estão cada vez mais difíceis - e como estão! Deus que nos livre! Faria muito mais sentido acreditar que as coisas se tornam cada vez mais difíceis quando sobra reclamação e falta ousadia. Difícil é compreender o raciocínio de quem prefere não tentar por medo de errar, sem conseguir perceber que o maior erro é deixar de tentar.

 

[22] Pense bem: desejamos uma vida longa e empreendemos nossos melhores esforços para prolongá-la cada vez mais. Porém, nem sempre dedicamos o mesmo empenho para tornar cada vez mais preciosa e dotada de sentido a vida que seguimos vivendo. Difícil é entender a lógica que nos leva a querer prolongar a vida, sem nos empenharmos, na mesma medida, em torná-la cada vez mais preciosa e digna de ser vivida.

 

[23] Pense bem: nossa concepção de justiça ficou ancorada no Velho Testamento - "cada um tem exatamente aquilo que merece" - e se esqueceu de que um Novo foi concebido para torná-la menos mesquinha e mais humana. Um olhar sincero e coerente é suficiente para se perceber que as condições e oportunidades entre nós são profundamente diferentes. Difícil é compreender como se pode defender uma visão de mundo chamada “meritocracia” sem reconhecer as gritantes desigualdades que acompanham nossas vidas.

 

[24] Pense bem: muitos exigem que se prove a existência de Deus para que assim - e só assim - se disponham a acreditar nele. Ora, se a fé é justamente crer que Deus existe sem que se tenha evidência dessa existência, exigir tal prova não passa de uma gritante incoerência. Difícil é convencer um racionalista de que a razão tem razões que ela mesma desconhece.

 

[25] Pense bem: falamos de uma vida futura como se fosse quase uma certeza, mas consideramos absurdo falar de uma ou mais vidas passadas, ainda que por hipótese. O que importa é o que vem depois da morte; sobre o que pode vir antes dela, melhor manter silêncio. Difícil é compreender por que razão a mesma morte capaz de abrir uma porta para o futuro não é capaz de abrir sequer uma janelinha - quem sabe, uma frestazinha – para o passado.

 

“Na ausência da certeza, nada há de errado com a esperança” [Carl Simonton].

 

(*) Texto enviado pelo autor, via Whatsapp de Vitória (ES).

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