9- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
CONTRADIÇÕES,
PARADOXOS E AMBIGUIDADES
[01]
Pense bem: fomos ensinados, custe o que custar, a jamais desistir dos nossos
sonhos. Raras vezes, porém, alguém nos advertiu de que o sonho que tanto nos
esforçamos por realizar pode não ser nosso e sim de outras pessoas. Nem toda
desistência, portanto, deve ser considerada uma perda, e muito menos um
fracasso. Difícil é saber até quando vale a pena continuar tentando, e a partir
de que momento é hora de ir em busca de outro sonho.
[02]
Pense bem: nosso passado é uma preciosa fonte de experiência e aprendizado
pronto a nos impulsionar rumo ao futuro. Mas ele também pode nos impedir de
viver plenamente o presente quando fazemos dele um refúgio permanente. Difícil
é entender como a mesma força que nos conduz rumo ao futuro também pode, no
presente, minar nossa coragem de seguir em frente.
[03]
Pense bem: a bebida está entre os hábitos humanos que mais provocam danos à
saúde e problemas de relacionamento. Ainda assim, ela continua desfilando
livremente nos encontros, celebrações e momentos de confraternização. Difícil é
entender como um vício que tanto dano e prejuízo tem causado ao ser humano
continue recebendo passe livre no nosso cotidiano.
[04]
Pense bem: acumulamos frenética e compulsivamente aquilo que sequer nos damos
ao luxo de retirar do guarda-roupa ou da despensa. Enquanto isso, milhões de
pessoas dariam tudo para ter com que cobrir o próprio corpo e não precisar
passar fome. Difícil é compreender como o ser humano pode ser tão preocupado
consigo mesmo, e ao mesmo tempo ignorar as dores e sofrimentos do seu
semelhante.
[05]
Pense bem: tanto podemos manter um vínculo por amor sincero e verdadeiro, como
podemos continuar presos a esse mesmo vínculo pelo simples medo de encarar seu
rompimento. Como se isso não bastasse, o medo que paralisa e amplia o
sofrimento pode ser ainda mais intenso do que o amor que motiva a convivência.
Difícil é entender como a decisão de continuar mantendo um vínculo pode nascer
tanto da vontade determinada e sadia quanto da insegurança temerosa e doentia.
[06]
Pense bem: a solidão tanto pode ser dolorosa e angustiante quando nos é imposta
pelos condicionamentos e pelas circunstâncias, como pode ser nossa melhor
companhia quando abraçada livre e voluntariamente. Há momentos em que estar
sozinho é a regra do jogo, e é nessas horas que podemos avaliar a quantas anda
nosso amor próprio. Difícil é entender como, para diferentes pessoas e
diferentes momentos, nossa própria companhia pode ser tanto um precioso conforto
quanto um árduo sofrimento.
[07]
Pense bem: costumamos cobrar dos outros uma sinceridade que julgamos
inegociável, sobretudo quando acreditamos que a franqueza pode nos ajudar a
enxergar aquilo que não conseguimos perceber por conta própria. Mas nem sempre
estamos preparados para aceitar a sinceridade que reivindicamos, sobretudo
quando ela contraria a imagem que temos de nós mesmos. Difícil é entender como
podemos reivindicar sinceridade e ao mesmo tempo sermos incapazes de assumir as
consequências.
[
08]
Pense bem: é preciso ter cuidado com o que pedimos em nossas orações, pois
podemos acabar recebendo exatamente aquilo que pedimos. Com frequência
repetimos: “perdoai-nos, ó Pai, as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem
nos ofendeu”. Difícil é entender como podemos suplicar com tanta insistência
justamente por aquilo que, por vezes, menos gostaríamos de ver atendido.
[09]
Pense bem: sabemos o quanto é importante sermos exemplos de coerência e
veracidade para nossos filhos e netos. Continuamente, entretanto, pedimos que
eles neguem coisas para nos proteger de certas situações e sustentem inverdades
para nos tirar de algum embaraço. Difícil é compreender como podemos ensinar
lições e virtudes àqueles que mais amamos, ao mesmo tempo em que insistimos
para que eles se comportem de maneira contrária ao que lhes ensinamos.
[10]
Pense bem: o silêncio tanto pode expressar respeito, solidariedade e presença,
como pode comunicar frieza, indiferença e ausência. O mesmo silêncio que acolhe
em determinadas circunstâncias pode ferir em outras quando queremos punir
pessoas. Difícil é compreender como a ausência das palavras pode carregar
significados tão distintos, e como podemos lançar mão dessa ambivalência para
fazer prevalecer nossos interesses.
[11]
Pense bem: nem sempre filho de peixe peixinho é - em muitos casos, não é e
jamais deveria ser. Ainda assim não são poucos os pais, mães e avós que,
trabalhando como máquinas, acabam abarrotando o cotidiano de seus filhos e
netos com tantas tarefas e atividades, que não lhes sobra tempo sequer para
respirar direito. Difícil é compreender como, na ânsia de prepará-los para o
futuro, não percebem que acabam sacrificando os sonhos de sua infância e o
idealismo de sua juventude.
[12]
Pense bem: ao contrário do que muitos insistem em nos fazer crer, o ciúme nada
tem de saudável e desejável. Longe de ser expressão de amor e de afeto, como
querem românticos e poetas, no fundo ele não passa de desconfiança travestida
de cuidado e proteção. Difícil é suportar a farsa de quem insiste em nos
convencer do contrário, quando na verdade só estão tentando mascarar seu
controle doentio.
[13]
Pense bem: pais são pais, avós são avós, babá é babá e creche é creche. E
ponto. Exceto em situações absolutamente específicas e necessárias, essas
funções jamais devem ser invertidas. Difícil é aceitar as justificativas
escabrosas de quem decide transformar essa exceção em regra e essa regra em
exceção, mais agravando o problema do que favorecendo a solução.
[14]
Pense bem: fórum por vezes parece teatro: “Meu cliente matou por amor”,
proclama gesticulando em altos brados o renomado advogado. Infeliz do
Magistrado que se deixa convencer por tamanho engodo. Por amor a gente vive,
deixa viver e é capaz de doar a própria vida. Matar, com certeza não; não faz
parte dessa lista. Difícil é compreender como fica confusa a razão humana
quando é ela o alvo de nossos sentimentos e emoções.
[15]
Pense bem: por vezes acabamos mentindo tanto, que terminamos perdendo a noção
da verdade. Perdemos a conta de quantas vezes esbanjamos delicadeza ao
responder a uma simples saudação: “tudo bem, obrigado, tudo bem, obrigado, tudo
bem, obrigado... Que saco!”, quando na verdade nossa vida vai de mal a pior, ou
quem sabe já segue rolando ladeira abaixo. Difícil é saber distinguir a hora
certa de dizer uma mentirinha santa - se é que isso existe - daquele momento em
que é preferível dizer a verdade e... seja lá o que Deus quiser.
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PAUSA PARA O MERECIDÍSSIMO COFFEE BREAK
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[16]
Pense bem: há pouca ou nenhuma sabedoria quando se nos quer fazer crer que
atingir a meta é mais importante do que o esforço empreendido. A grande maioria
das competições valoriza mais o resultado do que o caminho percorrido, e isso
pouco ou nada tem de instrutivo. Difícil é extrair lições relevantes quando o
“competicionalismo”
segue
sendo um vilão disfarçado de virtude, transformando a vida numa competição
permanente.
[17]
Pense bem: reclamamos da rotina estressante que nos persegue como um raivoso e
enfurecido cão, porque ela nos faz sentir que os dias passam sempre iguais,
indiferentes e previsíveis. Mas, quando alguma mudança ameaça alterar o ritmo
com o qual já estamos mais do que acostumados, somos os primeiros a sair
rezando para que tudo volte a ser como antes. Difícil é entender como podemos
almejar uma vida nova e diferente, se nos recusamos a abrir mão da duvidosa
segurança que a rotina nos proporciona.
[18]
Pense bem: a vida nos ensina que nossos filhos não são nossos filhos. São
filhos e filhas da vida por si mesma. Eles vêm através de nós, mas depois
precisam alçar voo para construir seus próprios ninhos e realizar seus próprios
sonhos. Difícil é aceitar que as mesmas asas que se fecham para protegê-los no
início precisam se abrir mais tarde para permitir que decolem livremente quando
já se sentem seguros.
[19]
Pense bem: faz parte do desejo humano deixar uma marca no mundo e querer ser
lembrado por isso. Mas a busca por validação e reconhecimento pode acabar se
transformando em ansiedade e obsessão, causando mais dor e sofrimento do que
paz e realização. Difícil é identificar o limite entre aquilo que nos chega
naturalmente, como consequência, e aquilo que insistimos em forjar a ferro e
fogo, à custa de nossa teimosia e impaciência.
[20]
Pense bem: quando passamos a maior parte do tempo comparando aquilo que temos -
independentemente do quanto possamos ter - com aquilo que estamos sempre
sonhando em possuir, a ansiedade nos alcança. A vida ensina que quem não se
sente feliz com o que tem, dificilmente estará satisfeito com o que venha a
ter. Difícil é aceitar que o ter seja finito, ao passo que o desejo jamais se
satisfaz com absolutamente nada.
[21]
Pense bem: com frequência justificamos nossa falta de coragem e ousadia alegando
que as coisas estão cada vez mais difíceis - e como estão! Deus que nos livre!
Faria muito mais sentido acreditar que as coisas se tornam cada vez mais
difíceis quando sobra reclamação e falta ousadia. Difícil é compreender o
raciocínio de quem prefere não tentar por medo de errar, sem conseguir perceber
que o maior erro é deixar de tentar.
[22]
Pense bem: desejamos uma vida longa e empreendemos nossos melhores esforços
para prolongá-la cada vez mais. Porém, nem sempre dedicamos o mesmo empenho
para tornar cada vez mais preciosa e dotada de sentido a vida que seguimos
vivendo. Difícil é entender a lógica que nos leva a querer prolongar a vida,
sem nos empenharmos, na mesma medida, em torná-la cada vez mais preciosa e
digna de ser vivida.
[23]
Pense bem: nossa concepção de justiça ficou ancorada no Velho Testamento -
"cada um tem exatamente aquilo que merece" - e se esqueceu de que um
Novo foi concebido para torná-la menos mesquinha e mais humana. Um olhar
sincero e coerente é suficiente para se perceber que as condições e
oportunidades entre nós são profundamente diferentes. Difícil é compreender
como se pode defender uma visão de mundo chamada “meritocracia” sem reconhecer
as gritantes desigualdades que acompanham nossas vidas.
[24]
Pense bem: muitos exigem que se prove a existência de Deus para que assim - e
só assim - se disponham a acreditar nele. Ora, se a fé é justamente crer que
Deus existe sem que se tenha evidência dessa existência, exigir tal prova não
passa de uma gritante incoerência. Difícil é convencer um racionalista de que a
razão tem razões que ela mesma desconhece.
[25]
Pense bem: falamos de uma vida futura como se fosse quase uma certeza, mas
consideramos absurdo falar de uma ou mais vidas passadas, ainda que por
hipótese. O que importa é o que vem depois da morte; sobre o que pode vir antes
dela, melhor manter silêncio. Difícil é compreender por que razão a mesma morte
capaz de abrir uma porta para o futuro não é capaz de abrir sequer uma
janelinha - quem sabe, uma frestazinha – para o passado.
“Na ausência da certeza,
nada há de errado com a esperança” [Carl
Simonton].
(*)
Texto enviado pelo autor, via Whatsapp de Vitória (ES).
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