10- SANTO AGOSTINHO E O PERDÃO
Quem nunca pede perdão não cabe na comunidade.
Santo
Agostinho é um profundo conhecedor da condição humana e aborda as questões numa
perspectiva essencial, o que faz com que suas ideias atravessem as épocas e
valham para todos os tempos e lugares. Sem dúvida, ele aprendeu muito bem a
frase tão famosa de Terêncio, que ele mesmo cita em suas obras:
“Homem
sou e nada do que é humano me é alheio”
Terêncio1,1,75-77
A
lei divina exige, deve o homem amar a Deus, a si mesmo e ao próximo.
Dentre
os elementos humanos próprios da vida, encontra-se o perdão. Santo Agostinho
tem plena consciência de que, na vida de todos os dias, podem dar-se conflitos
e desavenças entre os irmãos da comunidade. A matéria-prima da comunidade é
composta de seres humanos, e o ser humano, marcado pelo pecado original,
acha-se inclinado para o mal e é movido por suas próprias paixões.
“Não é senão a dissensão que produz a
divisão. A caridade, pelo contrário, aglutina, a aglutinação constitui a
unidade, a unidade mantém a caridade e a caridade conduz à claridade”.
en.Ps.30 (II),2,1.
Quem
nunca pede perdão não cabe na comunidade, pois não se pode viver numa Igreja
doméstica, como é a comunidade, se não se tem amor, e quem não tem amor
demonstra-o ao não poder perdoar, já que o perdão é fruto do amor. Quem ama a
unidade da comunidade, fruto do amor, deve estar disposto a tudo fazer para
mantê-la. Quem realmente tem amor não quebra a unidade de Cristo, representada
para Santo Agostinho na túnica de Cristo, que não foi rasgada pelos soldados,
significando que jamais se deve romper, pelo motivo que for a unidade da
Igreja.
Santo
Agostinho observa que Santa Mônica, sua mãe, possuía um grande dom: o de poder
reconciliar entre si as pessoas que se achavam brigadas, procurando tudo aquilo
que as pudesse aproximar uma da outra e reconciliá-las, e evitando as coisas
que as poderiam afastar ainda mais. Trata-se, como Santo Agostinho avalia de um
dom não pequeno:
Concedeste ainda, “ó meu Deus de minha
misericórdia”, um dia, um grande dom à aquela tua fiel serva, em cujo seio me
criaste. Sempre que havia discórdia entre pessoas, ela procurava, quando
possível, mostrar-se conciliadora, a ponto de nada referir de uma a outra,
senão o que podia levá-las a se reconciliarem. E isso fazia, depois de ter
ouvido de um lado e de outro, as queixas amargas que costumam surgir nos casos
de forte antipatia, quando o rancor provoca as mais ásperas acusações contra as
amigas ausentes.
conf.9,9,21
Santo
Agostinho afirma ainda que a ira, que pode nascer de uma situação cotidiana,
chega a crescer até converter-se em trave porque se deixa e, apesar de ter sido
bem mais fácil extirpá-la no princípio, será posteriormente muito mais difícil
fazê-lo:
“A palha é o começo da trave. Com efeito,
quando a trave nasce, é inicialmente uma palha. Regando a palha, tu a convertes
em trave; alimentando a ira com suspeitas más, tu a levas ao ódio”.
s.82,1,1
Quem
realmente tem amor não quebra a unidade de Cristo, representada para Santo
Agostinho na túnica de Cristo, que não foi rasgada pelos soldados, significando
que jamais se deve romper, pelo motivo que for, a unidade da Igreja: portanto,
a caridade é o caminho mais excelente, é maior que a sabedoria e está sobre
todos os preceitos, com razão a veste que a representa diz-se tecida em peça
única de alto a baixo. Não tem costuras, não venha a acontecer que se descosa,
e cabe a um só levá-la porque a todos reúne em unidade.
Santo
Agostinho insiste em que é preciso empregar o remédio do perdão quanto antes,
para evitar que se dê, no coração do religioso e no da comunidade, um processo
de degradação espiritual e de morte da caridade.
“A ira, quando envelhece, converte-se em ódio
e, convertida em ódio, é homicida”.
en.Ps. 25,2,3
Santo
Agostinho sabe que quem permitiu que um mau hóspede como o ódio se abrigasse em
seu coração, converte-se numa pessoa amarga e amargurada, que não pode amar,
pois o próprio rancor e o ressentimento a impedem de fazê-lo. A comparação que
Santo Agostinho nos oferece a respeito é sumamente gráfica. Para ele, o coração
do homem é como um copo feito de madeira. Santo Agostinho observa que, se for
derramado nesse copo um pouco de vinagre e não for imediatamente tirado, o
vinagre impregna de tal maneira o copo, que posteriormente, por mais que já se
tenha despejado o vinagre, qualquer outro líquido que for depositado nele terá
gosto de vinagre, pois o amargor do mesmo o terá impregnado completamente.
Quando uma pessoa dá abrigo ao rancor e ao ressentimento em seu coração,
amarga-se de tal forma que se incapacita para receber e comunicar a doçura do
amor; será uma pessoa amarga, incapaz de transmitir o amor de Deus:
“Ponde maior empenho em fomentar a concórdia
do que em lançar-vos reprimendas uns aos outros. Porque, como o vinagre
corrompe o copo se permanecer muito tempo nele, assim a cólera corrompe o
coração se nele permanecer até o dia seguinte”.
ep.210,2
Todo
ser humano é chamado a viver plenamente reconciliado. Em primeiro lugar, com
seu próprio passado e com sua própria pessoa, posteriormente também com Deus e
com seus irmãos.
Santo
Agostinho, nas suas Confissões, declara-nos que e quem guiou seu processo de
reconciliação interior e exterior foi Deus.
Santo
Agostinho diz-nos que dera as costas a si mesmo para não ver-se, embora Deus
fizesse por meio dos diversos acontecimentos de sua vida, que ele se pusesse
outra vez diante de si, para que se visse como era:
“E tu, Senhor, me fazias refletir sobre mim
mesmo, tirando-me da posição de costas, em que eu me havia colocado para não me
enxergar a mim mesmo, e me colocavas diante de minha própria face, para que eu
visse quanto era indigno, disforme e sórdido, coberto de manchas e de chagas”.
Conf.8,7,16.
Essa
auto reconciliação é necessária, antes de qualquer outra coisa, pois uma pessoa
que não é em si mesma, una, que não forma uma unidade consigo mesma, mas se
encontra partida, dividida por dentro por muitos rancores, ressentimentos,
ódios, nunca poderá formar uma só realidade com os que querem viver com uma só
alma e um só coração dirigidos para Deus.
“Cubra Deus as feridas, não tu, porque se tu
quiseres cobri-las, envergonhando-te, o médico não te curará. Cubra-as e
cure-as o médico, pois as cobre com um emplastro. Sob a bandagem do médico, a
ferida se cura; sob a bandagem do ferido, oculta-se. De quem a ocultas?
D’Aquele que tudo conhece.”
en.Ps.31,2,12.
Só
a partir da cura interior, precedida pela humildade e seguida por um processo
de forte oração, súplica e acompanhamento, poderá se voltar à unidade, como
fruto da reconciliação interior e pelo reflorescimento do amor. Santo Agostinho
testemunha-o por experiência própria. Seu processo interior de unificação foi
um caminho de humildade, de oração e de súplica, durante o qual não lhe faltou
o acompanhamento de pessoas adequadas, no caso, através das diretrizes gerais
de Santo Ambrósio e da companhia e o diálogo mais pessoal de São Simpliciano.
Quem
já se reconciliou consigo mesmo por meio da cura de Deus, pode começar o
caminho de reconciliação com os irmãos, entrando no processo do perdão e da
cura interior. A isso deve movê-lo a Palavra de Deus e a diária oração do
Pai-nosso, pela qual pedimos o perdão dos nossos pecados, sob condição de que
nós também perdoemos os que nos ofenderam.
Digamos,
pois, a cada dia:
“Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós
perdoamos a quem nos tem ofendido; digamo-lo com um coração sincero e façamos o
que dizemos. É um compromisso que fazemos com Deus, um pacto e um agrado. O
Senhor teu Deus te diz: Perdoa e eu perdoo. Não perdoaste? Tu te voltas contra
ti mesmo, não eu”. S.56,9,13
Santo
Agostinho convida-nos a perdoar, a jogar fora todo tipo de ódio e de ira. O
fiel, o religioso, deve limpar o seu coração de ódios e ressentimentos, pois
seu coração é a casa de Deus. Por isso, é preciso perdoar sempre.
Exercícios Espirituais
Agostinianos – Reflexões – vol. 1
Fonte:Paróquia Santa Mônica – Rio de
Janeiro / RJ
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