quinta-feira, 10 de setembro de 2026

5- REFLEXÕES DO 24.º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A 5.1- PERDOAR DE CORAÇÃO PARA VIVER COMO FILHOS DO DEUS DA MISERICÓRDIA

 

 5- REFLEXÕES DO 24.º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

5.1- PERDOAR DE CORAÇÃO PARA VIVER COMO FILHOS DO DEUS DA MISERICÓRDIA

O perdão é, na vida humana e na dinâmica de nossos relacionamentos, um dos maiores desafios. Também o foi no tempo de Jesus, que responde à pergunta de Pedro sobre quantas vezes se deve perdoar o irmão que peca contra nós, afirmando que é preciso perdoar sempre e perdoar “de coração”. O rancor e a raiva são prisões que nos afastam de Deus e adoecem a alma. Quem guarda ódio fecha-se à graça e impede que a cura divina alcance o seu interior. Por isso, a sabedoria bíblica nos convida a lembrar nossa fragilidade, nosso fim, e a reconhecer que todos dependemos da misericórdia do Altíssimo. Perdoar não é fraqueza; é maturidade espiritual. É permitir que Deus seja Deus em nossa vida. A Sagrada Escritura nos revela um Deus bondoso, compassivo e carinhoso, que não guarda rancor e afasta para longe nossos pecados. Contemplar essa misericórdia nos ajuda a compreender que o perdão que oferecemos aos outros nasce do perdão que recebemos de Deus. Só quem experimenta a ternura divina pode aprender a ser misericordioso. O cristão não perdoa porque o outro merece, mas porque ele mesmo foi alcançado pela compaixão de Deus. O Apóstolo Paulo nos recorda uma verdade decisiva: não vivemos para nós mesmos. Vivemos e morremos para o Senhor; pertencemos a Ele. Essa pertença deve nos conduzir à prática frequente do perdão. Se Cristo é o Senhor da nossa vida, nossas atitudes devem refletir o modo como Ele viveu e amou. Não podemos seguir a lógica da vingança, da retaliação ou do ressentimento, porque isso contradiz nossa identidade cristã. O perdão não é apenas um gesto moral, mas um modo de viver em Cristo, que morreu e ressuscitou para reconciliar todas as coisas. Jesus rompe com nossa lógica humana e limitada diante do perdão — “até sete vezes?” — e responde: “setenta vezes sete”, isto é, sempre. Santo Agostinho, comentando o Evangelho, afirma: “Assim como Deus te perdoou o muito, tu deves perdoar o pouco ao teu irmão”. O perdão que Deus nos concede é sempre maior do que qualquer ofensa que alguém possa nos fazer. A Palavra de Deus nos oferece sempre um caminho viável para olharmos nossas relações e perguntarmos com sinceridade: onde ainda guardo mágoas? Quem precisa do meu perdão? De que ressentimentos preciso me libertar? O perdão não apaga a memória da dor, mas cura o coração ferido. É um processo, às vezes lento, mas sempre possível com a graça de Deus. Perdoar é deixar que Cristo seja o Senhor da nossa história, e não as feridas que carregamos. Em nossa sociedade, marcada por tensões, polarizações, violência e desigualdades, o perdão cristão tem força transformadora. Ele rompe ciclos de ódio, abre caminhos de diálogo e reconstrói vínculos. No cotidiano, perdoar significa renunciar à vingança, tratar o outro com dignidade, buscar reconciliação nas famílias, cultivar paciência no trânsito, no trabalho, na comunidade. É escolher a paz quando o mundo escolhe o conflito.

Dom Márcio Antonio Vidal de Negreiros, OSA Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a Região Santana

 

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