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REFLEXÕES DO 24.º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A
5.1- PERDOAR DE CORAÇÃO
PARA VIVER COMO FILHOS DO DEUS DA MISERICÓRDIA
O perdão é, na vida humana e na dinâmica de
nossos relacionamentos, um dos maiores desafios. Também o foi no tempo de
Jesus, que responde à pergunta de Pedro sobre quantas vezes se deve perdoar o
irmão que peca contra nós, afirmando que é preciso perdoar sempre e perdoar “de
coração”. O rancor e a raiva são prisões que nos afastam de Deus e adoecem a
alma. Quem guarda ódio fecha-se à graça e impede que a cura divina alcance o
seu interior. Por isso, a sabedoria bíblica nos convida a lembrar nossa
fragilidade, nosso fim, e a reconhecer que todos dependemos da misericórdia do
Altíssimo. Perdoar não é fraqueza; é maturidade espiritual. É permitir que Deus
seja Deus em nossa vida. A Sagrada Escritura nos revela um Deus bondoso,
compassivo e carinhoso, que não guarda rancor e afasta para longe nossos
pecados. Contemplar essa misericórdia nos ajuda a compreender que o perdão que
oferecemos aos outros nasce do perdão que recebemos de Deus. Só quem
experimenta a ternura divina pode aprender a ser misericordioso. O cristão não
perdoa porque o outro merece, mas porque ele mesmo foi alcançado pela compaixão
de Deus. O Apóstolo Paulo nos recorda uma verdade decisiva: não vivemos para
nós mesmos. Vivemos e morremos para o Senhor; pertencemos a Ele. Essa pertença
deve nos conduzir à prática frequente do perdão. Se Cristo é o Senhor da nossa
vida, nossas atitudes devem refletir o modo como Ele viveu e amou. Não podemos
seguir a lógica da vingança, da retaliação ou do ressentimento, porque isso
contradiz nossa identidade cristã. O perdão não é apenas um gesto moral, mas um
modo de viver em Cristo, que morreu e ressuscitou para reconciliar todas as
coisas. Jesus rompe com nossa lógica humana e limitada diante do perdão — “até
sete vezes?” — e responde: “setenta vezes sete”, isto é, sempre. Santo
Agostinho, comentando o Evangelho, afirma: “Assim como Deus te perdoou o muito,
tu deves perdoar o pouco ao teu irmão”. O perdão que Deus nos concede é sempre
maior do que qualquer ofensa que alguém possa nos fazer. A Palavra de Deus nos
oferece sempre um caminho viável para olharmos nossas relações e perguntarmos
com sinceridade: onde ainda guardo mágoas? Quem precisa do meu perdão? De que
ressentimentos preciso me libertar? O perdão não apaga a memória da dor, mas cura
o coração ferido. É um processo, às vezes lento, mas sempre possível com a
graça de Deus. Perdoar é deixar que Cristo seja o Senhor da nossa história, e
não as feridas que carregamos. Em nossa sociedade, marcada por tensões,
polarizações, violência e desigualdades, o perdão cristão tem força
transformadora. Ele rompe ciclos de ódio, abre caminhos de diálogo e reconstrói
vínculos. No cotidiano, perdoar significa renunciar à vingança, tratar o outro
com dignidade, buscar reconciliação nas famílias, cultivar paciência no
trânsito, no trabalho, na comunidade. É escolher a paz quando o mundo escolhe o
conflito.
Dom Márcio Antonio Vidal
de Negreiros, OSA Bispo Auxiliar de São Paulo Vigário Episcopal para a Região
Santana
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