8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)
Parte 1
[✓] A ausência mais
sentida não é aquela de quem está longe ou de quem já partiu para sempre de
nossa vida, e sim a de quem está perto, compartilhando o mesmo teto, sem que
sua presença sequer seja percebida. De pouco ou nada adianta a presença física
e perceptível, se ela não vem acompanhada da presença amorosa e afetiva. Não
vale um grão de pipoca que sequer pipocar pipocou direito. Vê se mexe mais da
próxima vez. Milho ruim, esse! Ainda por cima, pipoca salgada! Pega a panela,
frita outra panelada, e... Que venha o panelaço!
[✓] Família é
família, amigo é amigo, vizinho é vizinho, colega é colega, conhecido é
conhecido, estranho é estranho... – "Nossa! Quase acabei cochilando!"
– e segue o cacarejar da curriola. Lidar com qualquer desses vínculos, da mesma
forma como se lida com qualquer um dos demais, é confusão na certa. Mas se se
quer confusão maior ainda, basta colorir a amizade, e pronto! De cara, ela muda
de classificação. Aí o circo pega fogo de vez. Para piorar ainda mais a
situação, o pãozinho subiu ontem e os fuzileiros e bombeiros entraram em greve
na semana passada. Pega balde aí, gente, anda logo. Que lerdeza é essa!?
[✓] Há pessoas que
são literalmente viciadas em cuidar dos outros. Uma espécie de “careaholic”
desenfreada, que mais parece obsessão compulsiva e dependência afetiva. Até
quando estão dormindo, parecem escutar seus sonhos pedindo: “E aí, meu arcanjo,
que tal me dar uma mãozinha!?”. Até aí, tudo bem. O problema é que tais pessoas
insistem em cuidar de Deus e todo mundo, mas não aceitam ser cuidadas por
ninguém; nem por si mesmas. "Pera lá, isso existe!?". E como! Mais do
que a gente imagina. Aí você, que sendo ou não sendo cristão, fez questão de ir
à missa de corpo presente do finado seu João, deve estar lembrado do que disse
o celebrante: “Meus queridos e amados irmãos, e minhas irmãs muitíssimo mais
amadas e mais desejadas ainda... Me corrijo: mais queridas ainda! Amai o vosso
próximo como amais a vós mesmos; ou se preferirdes, como amais as vossas
próprias vidas. Isso não é egoísmo nem maldade; é simetria afetiva. Traz a água
benta, um salzinho e uma folha de urtiga, que agora eu vou benzer o seu João.
Chega o caixão um pouquinho pra frente. Isso!”. Dali em diante você ficou com
aquela simetria na cabeça: simetria afetiva, simetria afetiva, simetria...
Chega! É suficiente! Para bom entendedor, quanto menos palavras, melhor. E
então? Conseguiu ou não entender qual o sentido daquela bendita simetria
afetiva? Se não entendeu, paciência. Haverá outras celebrações de corpo
presente, sétimo e trigésimo dia pela frente. Agora, se entendeu mas não
pratica, com todo respeito: tem certeza de que você ainda continua passando bem
da cabeça?
[✓] Não faz nenhum
sentido afirmar que de boa-fé e de boa intenção o inferno está cheio. Se está
ou não está, só Deus sabe – e suponho que o demônio também; mas, caso esteja,
com certeza será de gente de absoluta má fé e demoniacamente mal-intencionada,
e não o contrário, como afirma o ditado. Portanto, sem essa de ficar mandando
tudo que é gente boa para o inferno e superlotando o paraíso de gente que não
mereceria sequer uma vaguinha no purgatório. De má intenção e má-fé, isso sim,
certamente o inferno anda cheio. Cheio, não, lotado! Lotado, não, lotadinho!
Lotadinho, não, lotadíssimo! Lotadíssimo, não, lotadaço! Shiii!!! Alguém
poderia me dar uma mãozinha? Não consegui achar nada que superasse o aço!
[✓] O melhor de uma
pessoa não é o que esperamos que ela possa ou deva fazer por cada um de nós. O
melhor de uma pessoa está naquilo que, dentro de suas condições – circunstâncias,
possibilidades e limitações – ela efetivamente consegue fazer de melhor. E
ponto. Deixe de se fazer de vítima e de choramingar feito uma criança. Tire
logo essa chupeta da boca e calce essa meia direito! Olha aí o tamanho do
buraco! Coisa feia!
[✓] Se a condição
para se conceder o perdão é que o ofensor mereça ser perdoado, o círculo
vicioso fica cada vez mais estreito e o coração cada vez mais fechado. E
pronto! O perdão continua sendo negado. “Aqui você não entra. Nem por decreto.
Rua! E não me apareça nunca mais por esses lados!". Veja bem: quem mais
necessita do perdão é justamente quem menos merece ser perdoado. Perdão não é
quitação da dívida, e sim remissão do débito. Ou será que você virou acumulador
compulsivo e só pensa em continuar acumulando cada vez mais? Só faltava essa!
Tem gente que acumula na bolsa, no sapato, e até na cueca. Ou na calcinha, caso
tenha sido feita mudança de sexo.
[✓] Por que
continuar usando e abusando da palavra culpa, se foi justamente ela que levou
Judas primeiro ao remorso e depois ao suicídio? Arrependimento basta. É mais do
que suficiente. Melhora a autoestima, aprimora a conduta e favorece o
crescimento. Seus filhos e netos merecem ser educados no sublime temor do
Senhor, e não no medo que fragiliza, paralisa e assusta. E vê se muda logo essa
sua maneira culpênica de falar e essa forma bicho-papônica de educar. Pra hoje!
Pra hoje, não, de preferência pra ontem. Daqui a pouco vai acabar ficando
tarde.
[✓] Não se preocupe
se sua fé não for grande o bastante para remover uma montanha. Até porque você
dificilmente vai ter uma montanha precisando ser removida. Se sua fé for do
tamanho de um grãozinho de mostarda – mostardeira, para ser mais preciso –,
dê-se por grato e satisfeito. Mas nada de ficar convencido. O resto é por conta
daquele que criou a mostarda, a mostardeira, o mostardeiro e, de quebra, esse
mundão de Deus. Batizado ou não, você também é filho ou filha dele. Ou dela,
vai-se lá saber. E seja humilde. Nada de sair por aí se vangloriando disso!
Aleluia! Glória a Deus! Repita comigo: aleluia! Glória a Deus! Vamos, repita!
Fica com essa cara de quem acabou de sair de velório não.
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PAUSA PARA O MERECIDÍSSIMO COFFEE BREAK --------------------
[✓] Com frequência
ouvimos dizer que tornar-se idoso é como voltar a ser criança. Há muita verdade
nesse dito, mas também uma grande diferença: enquanto o idoso tem um longo
passado para trás, a criança tem um longo futuro pela frente. Jamais devemos
tratar um idoso como se ele fosse uma simples criança, sem estarmos atentos a
essa sutil diferença. No mais é beijin beijin, bracin bracin, e bola pra frente
que atrás vem gente. “Ei! Empurra não! Seu mal-educado! Nunca teve pai nem mãe
pra te educar não!?”.
[✓] Pais criam e
avós descriam: já ouviu antes esse ditado? Em muitos casos, porém, o que se vê
é exatamente o contrário: pais descriando e avós recriando, tendo que refazer
lições e revisitar ditados. Para não esticar a conversa: respeitada a diferença
de função e de papel, ser pai ou ser avô é indiferente quando se trata da
criação e formação de filhos e netos; são pessoas, e não funções, que criam bem
ou criam mal uma geração. “Agora, aqui entre nós: é cada dito popular, que,
pelo amor de Deus! O bom seria dar uma chacoalhada nessa carrocinha, pra ver se
as abobrinhas se ajeitam”.
[✓] Se na frente do
filho o pai diz uma coisa e a mãe diz outra, o filho fica em silêncio, mas logo
percebe a contradição. A lição que mãe e pai pretendiam ensinar vai por água
abaixo, o filho fica mais confuso do que já estava antes, e a autoridade dos
pais pode ficar tão comprometida quanto aquele tamborzão de couro que os monges
budistas enchem de pancada sem um pingo de dó nem um grama de piedade. Pobre
tamborzão! Vive sempre açoitado, é um pobre coitado, é mais um sofredô,ôô, como
canta o Veloso.
[✓] Se, numa mesma
situação, se pretende tecer um elogio e fazer uma correção, não há que pensar
duas vezes: primeiro o elogio e só depois a correção. Um coração que se sente
afagado e reconhecido está sempre mais aberto e receptivo ao aprendizado, seja
ele uma lição de vida ou uma correção mais severa. Atenção, portanto, com o que
você faz com o coração de seu neto, filho ou filha. Esse coração pode acabar se
tornando vagabundo e sofredor, como já disse o Caetano. “Como não conhece!? Não
sabe quem é Caetano Veloso!? Eita geração distraída e mal informada! De
celular, celulose e celulite, sabe tudo; de cultura, arte e literatura, pouco
ou nada!”.
[✓] Por vezes pode
acabar pairando dúvida se nós, pais ou avós, devemos ou não reconhecer uma
falha ou um erro nosso e pedir perdão por isso. Se a dúvida se refere a um
eventual risco de perda de autoridade, melhor apostar na primazia da coerência e
da humildade sobre a soberba e a arrogância. Não há como comprometer a
autoridade quando se faz uma escolha desse tipo. “E já pra cama, seu fujão!
Vai, vai logo! Tá esperando o que, seu pirralho!? A cama vir até você!?”.
[✓] O diálogo
termina quando o grito começa. Corre sério risco de perder a razão e ter sua
autoridade questionada quem faz uso do berro e da ameaça como instrumento de
persuasão e convencimento. Palavras requerem suavidade e serenidade, e não
descontrole e agitação, para poder exercer seu mágico poder de unir pessoas e
reconciliar corações. Faça o teste – "test-drive", não; só teste
mesmo" – e comprove. Mas não se esqueça de fazer um check-up do seu
próprio coração. Vai que ele já anda às tantas, cansado de tantas emoções, como
canta o Roberto, e pode acabar... “Santo Deus! Não falei!? Enfartou! Esse já
era! Escafedeu de vez!”.
[✓] O fato de não
conseguirmos apagar ou esquecer a ofensa não significa que o gesto não tenha
sido válido ou que o perdão não tenha sido concedido. Nem Deus, em sua infinita
onipotência, pode fazer com que aquilo que aconteceu não tenha acontecido.
Pense bem nisso. Depois, vá refletir melhor sobre o que você pede no Pai Nosso
com tanta insistência. “Eu, hein! Que gente esquisita! Esquisita ou esquizoide!
Nem sei o que fica melhor! Quem sabe, os dois!”.
(*) Texto enviado pelo autor, via
Whatsapp de Vitória (ES).
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