4.3-HOMILIA DO 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A
DEVOLVAMOS PARA DEUS O NOSSO CORAÇÃO
“Então, daí a
César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mt. 22,21)
Amados irmãos e
amadas irmãs.
A liturgia deste Domingo convida-nos a refletir acerca da forma como pesamos a relação
entre as realidades de Deus e as realidades do mundo. A Palavra então nos
revela que Deus é e deve permanecer sendo a nossa prioridade e que é a Ele que
devemos submeter toda a nossa existência. Vivendo deste modo, nossa consciência
despertará para a certeza de que Deus nos convida a um compromisso coerente com
a construção de um mundo mais fraterno e justo.
O Evangelho de hoje (Mt. 22,15-21) nos ensina que o ser humano
deve cumprir as suas obrigações com a sociedade, mas deve priorizar Deus e deve
entregar toda a sua existência nas mãos divinas. Todo o resto deve ser
relativizado, inclusive a submissão ao poder político. O texto situa-nos em Jerusalém,
a poucos dias confronto final entre Jesus e seus opositores. Enquanto os
líderes religiosos permanecem obcecados em suas próprias certezas, Jesus se
esforça para fazê-los perceber que ao recusar o Reino, estão a recusar a oferta
de salvação que Deus lhes traz. Jesus conta-lhes três parábolas (que nos foram
apresentadas nos últimos três domingos) e eles buscam uma oportunidade para
acusar publicamente Jesus de desrespeito à Lei e levá-lo ao tribunal.
A questão que os fariseus levam a Jesus é muito delicada. Diz respeito à
obrigação de pagar os impostos e tributos ao imperador de Roma. Se trata também
de uma armadilha. Se Jesus se pronunciasse a favor do pagamento do imposto,
seria acusado de colaborar com a dominação do poder romano. E se, se declarasse
contra o pagamento do imposto, seria acusado de colocar o povo contra o
imperador. Jesus pega uma moeda e convida os seus acusadores a reconhecerem a
imagem gravada na moeda (a imagem do imperador César) e depois concluiu: “dai
a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Qual o significado
desta expressão?
Na primeira parte da frase (“dai a César o que é de César”) Jesus quis
sugerir que o ser humano não pode nem deve fugir das suas obrigações para com a
sociedade. Todos os serviços públicos que temos – eficientes ou não – somente
são possíveis graças a captação dos impostos. Sendo assim o cristão não pode
isentar-se de pagar o que é dever perante a sociedade. Em qualquer
circunstância, deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o bem comum
pagando seus impostos. No entanto, o que é mais importante é que o ser humano
reconheça a Deus como o seu único Senhor. As moedas podem ter a imagem de
César. O ser humano, possui a imagem de Deus em sua alma e em seu coração. Encontramos
esta certeza já no início da Palavra de Deus quando ouvimos: “Deus disse:
façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança.” (cf. Gn.
1,26-27). Portanto, o homem pertence somente a Deus, deve entregar-se a Ele
e reconhecê-lO como o seu único Senhor. Sabemos desde os tempos áureos de nossa
catequese infantil que o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus. E
este lembrete se torna cada dia mais necessário uma vez que formamos uma
sociedade tecnológica e vazia de sentido que deseja usurpar para si o direito
de “coisificar” o ser humano, o tratando como objeto que pode ser usado,
explorado e descartado. É preciso reconhecer também como tarefa de nossa fé
anunciar que todo ser humano é revestido de uma suprema dignidade, de uma
dignidade divina obtida na Cruz de Cristo. Em vista disto, nestes dias rezemos
também pela Terra Santa novamente maculada por uma guerra sangrenta e sem
sentido. Quantas vidas inocentes ceifadas para que os novos imperadores “Cesar”
consumam e recebam suas “moedas”!!
Na primeira leitura (Is. 45,1.4-60), o profeta Isaías,
anuncia que Deus é o verdadeiro Senhor da história e que Ele conduz a caminhada
do seu Povo rumo à felicidade. Ao citar o Edito de Ciro que devolveu a
liberdade ao povo de Israel e os liberou para retornar a Terra Prometida, o
profeta manifesta que os homens que atuam na história são apenas os
instrumentos de que Deus se serve para realizar o seu plano de salvação. Na
verdade, Ciro mesmo sendo governante político do mundo, ao conceder permissão para
retorno à Terra Prometida, está devolvendo a Deus aquilo que pertence somente a
Ele: seu Povo Eleito.
Ao se recusar ser manipulado num debate de caráter político, Jesus transforma a
questão em algo mais profundo. Assim, a questão deixa de ser uma discussão
acerca do pagamento ou não de um imposto, para se tornar uma intimação para que
o homem reconheça Deus como o seu Senhor e realize a sua vocação essencial de
colaborar com plano de salvação de Deus. Esta reflexão deve nos ajudar a
analisar nossa própria realidade atual onde vivemos muito tendenciosos a
atribuir aos governantes passageiros aquilo que pertence somente a Deus,
enquanto vemos estes próprios governantes se fazerem emissários de valores
morais que eles próprios não vivem.
Na segunda leitura (1Ts. 1,1-5b), São Paulo citando os
Tessalonicenses, apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã que colocou
Deus no centro de sua vida e que, apesar das dificuldades e desafios de viver
num mundo pagão, se comprometeu de forma corajosa com os valores de Deus. Isto
deve nos levar as seguintes perguntas: “A nossa vida traduz-se em
atitudes concretas de partilha, de doação, de solidariedade, próprias de quem
carrega em si a imagem e semelhança do Criador?” “Como é que nos
posicionamos diante do poder político e das instituições civis? Com dependência
cega e idolátrica ou com atitude crítica?”
Numa sociedade cada vez mais paganizada e vazia espiritualidade encarnada, Deus
tem sido substituído por verdadeiros ídolos: o dinheiro, o poder, o sucesso, a
fama, a realização profissional, a ascensão social, o clube de futebol, o
político de estimação. Às vezes tudo parece estar sendo priorizado acima de
Deus e Ele parece ser nossa última escolha quando não temos nada mais interessante
para escolher. Para o cristão, Deus é e deve ser sempre a referência
fundamental e está sempre em primeiro lugar.
Estamos vivendo o Mês Missionário e ao mesmo tempo nossas cidades também já se
preparam para um novo período eleitoral a realizar-se no ano que vem. Que nossa
consciência cristã nos ajude a anunciar o Evangelho com nossa vida e em
atitudes concretas de partilha e de solidariedade. E que nossas escolhas
políticas sejam também expressão dos valores do Reino de Deus que buscamos edificar
com nossa fé. Que as ideologias partidárias que tanto causam desunião e divisão
não estejam acima daquilo que verdadeiramente nos une: a Filiação
Divina.
Encerremos com
nosso salmo de hoje: “Ó família das nações, dai ao Senhor, ó nações, dai ao
Senhor poder e glória! Dai-lhe a glória que é devida ao seu nome”!
Pe. Paulo Sérgio
Silva
Paróquia Nossa
Senhora da Conceição – Farias Brito.
https://diocesedecrato.org/homilia-do-29o-domingo-do-tempo-comum-ano-a/

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