8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (*)
"PEQUENO TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES, DOS PIORES
VÍCIOS,E DOS DESLIZES MENOS GRAVES"
[Parte
II]
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A VIRTUDE: A TEMPERANÇA. Temperança, em tradução livre, pode ser definida como
a dança dos temperos. Trata-se menos de abrir mão desta ou daquela emoção e
mais de saber fazer uso de cada uma delas oportuna e adequadamente. O prazer,
por exemplo, tem sido exorcizado por algumas religiões na proporção inversa à
valorização do sofrimento, que só falta ser beatificado. Claro que o prazer
transformado em senhor absoluto deixa de ser virtude e passa a ser vício.
Luxúria é o nome disso. Mas as coisas boas da vida continuarão sendo boas se
soubermos identificar seu alcance e respeitar seus limites. Seja quando se
trata do apetite sexual – a que chamamos libido – seja quando se refere a outros
apetites. Não sem razão Platão deu a um de seus grandes tratados sobre o amor o
nome de “O Banquete”. Respeitadas e assumidas as consequências que requerem seu
exercício, o prazer sexual precisa começar a ser tratado como qualquer outro
tipo de prazer. Vocacionados e celibatários também precisam saber disso.
O
VÍCIO: A GULA. A gula começa quando o suficiente deixa de ser o bastante. Pode
aparecer na comida, no consumo, no trabalho, nas experiências ou na acumulação
de prazeres de todo tipo. Gula é excesso e, sem a intervenção da vontade
consciente a compulsão tem passe livre. Para se transformar em “gulão”, o
guloso precisa abrir mão da razão. Quando isso acontece, não resta outra saída
senão enfiar o dedo goela abaixo. Se o chamado “vomitório”, pelos romanos, se
prestava também a essa sessão de descarrego alimentício, é provável. Mas há
controvérsias. Coisa feia! Eu, hein!
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A PRIVAÇÃO. Na busca pelo controle da gula e da compulsão,
por vezes exageramos na contenção. Recusamos um prazer válido e legítimo em
nome da disciplina e do autocontrole. Até aí, tudo bem. Mas, quando a restrição
excessiva e até a recusa alimentar entram em cena, a privação se distancia da
virtude e se aproxima do vício. Perigo à vista! Benditos modelos sem pé nem
cabeça do corpo e da beleza! Bem-aventurados profetas do fisiculturismo e do
perfeccionismo! Recusa o que é bom, ingere o que é mal e injeta o que não
presta. Estrupício!
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A VIRTUDE: A SIMPLICIDADE. “Nada há de mais extraordinário do que ser simples”,
ensinam os grandes mestres orientais, notadamente os chineses. Ser simples
significa não complicar desnecessariamente aquilo que pode ser facilmente
compreendido e vivido com naturalidade. O princípio parece simples: quem
simplifica fala e age com a emoção e o coração; quem complica fala e age com o
pensamento e a razão. O complicador nada mais é do que um sujeito complicado e
mal resolvido. Consegue complicar até letra de médico e bula de remédio. Você
pede opinião sobre um versículo bíblico e ele lhe oferece um tratado de
teologia. Completo e com apêndice anexo.
O
VÍCIO: A OSTENTAÇÃO. A ostentação é uma viagem do ego. Em megalomaníacos, do
superego. Ela ocorre quando aquilo que sabemos, temos ou somos precisa ser
exibido para adquirir valor, ser validado, ou ambas as coisas. O ser e o ter já
não bastam. Deixam de ser suficientes. Ter em excesso é como ostentar a si próprio,
tendo o mundo como palco. Deixar de ter – ou, no limite, perder tudo – é o
mesmo que deixar de ser. Não exatamente quem se é, mas quem se julga ser.
Lógica perversa, essa. E meio maluca.
O
DESLIZE MENOS GRAVE: O DESPOJAMENTO EXCESSIVO. “Menos é mais, mais é menos”,
afirma a lógica minimalista. Pode ser. E isso é bom. Mas às vezes abrimos mão
não só do excesso como também do necessário, buscando transformar o
despojamento em simplicidade e a simplicidade em uma espécie de identidade
única. Simplificando ou trocando em miúdos: por trás do excesso de simplicidade
também pode haver muita ostentação camuflada. Desconfie de quem se gaba com
frequência: “Minha maior virtude é a humildade!”. Se é, já era! Deixou de ser.
Não é mais.
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A VIRTUDE: A TOLERÂNCIA. A rigor, só quem pode proibir pode, em regime de
exceção, tolerar ou permitir o que está proibido. Quem não tem poder para isso,
tolera apenas por delegação ou quando revestido de autoridade para abrir
exceção. A princípio, uma religião não tem que tolerar nenhuma outra, pois
estão todas em pé de igualdade entre si. Têm que respeitar, e isso basta. Onde
existe respeito, a tolerância torna-se desnecessária. Por via inversa, quem
tolera é porque não respeita. O respeito vem antes; só depois vem a tolerância,
como uma espécie de apêndice ou corolário. E, como se sabe, certos apêndices
são doentios. Requerem antídotos e, conforme o caso, cirurgia para serem
extirpados. Nada contra a tolerância. Mas confundi-la com respeito é doença
grave. Grave, não; gravíssima!
O
VÍCIO: O FANATISMO. Fanatismo, extremismo e intransigência são trigêmeos uni.
Univitelinos. Não praticam a tolerância e muito menos o respeito pelo simples
fato de não reconhecerem nem um nem outro. Quando uma crença é transformada em
certeza, a certeza em verdade, e a verdade é dogmatizada, o diferente passa a
ser demonizado e precisa ser exorcizado a qualquer preço. Fanático é um demônio
que incorporou a mente de um crente. Qualquer crente. Se for a mente de toda
uma instituição, aí já é legião. Só o divino abraçando a causa e tomando a
frente. E haja porcos para realizar esse exorcismo e levar a cabo essa
purificação!
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A CONCESSÃO. Às vezes cedemos com facilidade com o intuito
de evitar discussão e preservar a paz. Evitamos confrontar, deixamos passar sem
reclamar, concordamos para não criar problemas desnecessários. Exatamente do
que não é capaz o fanático. Há ocasiões em que abrir mão da razão – e até da
verdade, quando absolutamente necessário – pode ser sintoma de sabedoria.
Afinal, o amor é mais importante que a verdade, como nos lembra São Paulo. Mas
cuidado: até o bem em excesso pode acabar se transformando em mal. No presente
caso, no mal da ingenuidade, irmã mais nova da estrupicidade.
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A VIRTUDE: A BOA-FÉ. Boa-fé é a disposição de não presumir que o outro esteja
tentando nos enganar ou passar a perna. E claro, nem o braço nem o resto do
corpo. Até que se prove o contrário, nada tem a ver com bobeira ou ingenuidade.
A boa-fé costuma andar acompanhada sua irmã gêmea, a prudência. Mas se a
prudência se afasta, aí sim, a boa-fé pode se transformar em ingenuidade. Ou
estrupicidade, dá no mesmo. Simples como pombas, prudentes como serpentes, tá
lembrado? Mas nada de sair por aí agindo e reagindo como se tivesse sangue de
barata.
O
VÍCIO: A MÁ-FÉ. A má-fé entra em cena quando a inteligência se coloca a serviço
da malandragem e da manipulação. A pessoa não apenas oculta a verdade.
Seleciona, distorce ou simplesmente apresenta uma parte como se fosse o todo.
Sempre em benefício próprio ou de alguém próximo. Sua irmã gêmea é a má
intenção. Quando juntas, só Deus pra prever o tamanho do estrago.
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A INGENUIDADE. Às vezes acreditamos mais do que sugere a
prudência e o bom senso. Oferecemos uma segunda chance sem ser solicitada,
aceitamos uma explicação improvável, demoramos a perceber uma intenção menos
nobre, e por aí segue o andar da carruagem. É um deslize compreensível, mas
que, no limite, pode se tornar perigoso. Sem a prudência, fede mais. Tipo discurso
de político politiqueiro: “Com a minha fé, e as fezes de vocês, podemos salvar
o mundo!”. Salvá-lo, não sei! Sujá-lo, com certeza!
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A VIRTUDE: A POLIDEZ. A polidez talvez seja a forma mais simples e direta de
reconhecer a existência e a presença do outro. Um bom-dia, um muito obrigado,
um por favor e uma escuta atenta podem parecer pouca coisa, mas ajudam a
construir ambientes mais humanos e habitáveis. No adulto, a polidez pode ser
insuficiente, sobretudo quando divorciada da ética e dos princípios morais.
Mas, na criança, basta. Ela é a semente do que mais tarde será ético e
moralmente correto. Por isso mesmo precisa e deve ser ensinada.
O
VÍCIO: A GROSSERIA. A grosseria pode facilmente ser confundida com a
espontaneidade e a sinceridade. Mas quem disse que basta ser virtude para
transformar agressividade verbal em bem-aventurança? Firmeza e assertividade
são uma coisa; louváveis, com certeza. Outra, bem diferente, é a grosseria, que
de virtuosa ou bem-aventurada não tem absolutamente nada. Se você costuma ser
primário em suas ações e reações, melhor tomar cuidado: a linha fronteiriça
entre a franqueza e a grosseria é tênue como a casca de um ovo. Olha lá, sobre
quem você pode acabar arremessando sua gemada.
O
DESLIZE MENOS GRAVE: O FORMALISMO. Às vezes somos educados por força do hábito,
mero protocolo ou simples conveniência. Aprendemos a cumprir ritos e rituais
sem saber o que significam e sem sentir aquilo que expressam de verdade. Isso
não chega a ser um vício. Mas, se essa forma de educação nos acompanha até a
vida adulta, ela muda de nome. Passa a ser chamada de imaturidade. E
imaturidade não casa com autonomia. Muito menos com liberdade. Cresça e
apareça! De preferência em todos os sentidos, e não apenas fisicamente.
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A VIRTUDE: A MISERICÓRDIA. A misericórdia é, por excelência, a virtude do
perdão. Usar de misericórdia não significa negar responsabilidade nem fazer
vista grossa para com a justiça. Na verdade, a misericórdia triunfa sobre a
justiça como a bondade triunfa sobre a benevolência. Se a justiça já é boa, a
misericórdia é melhor ainda. Praticá-la é continuar acreditando na vida e
investindo no ser humano. E, como qualquer investimento, isso implica risco de
curto, médio e longo prazo. Aqui, a lógica se inverte: quanto maior o risco,
maior a possibilidade do ganho. Quem pouco ama, pouco perdoa. Quem muito
perdoa, muito ama.
O
VÍCIO: A VINGANÇA. Olho por olho, dente por dente: a vingança segue à risca a
implacável Lei do Talião. A força que a impulsiona chama-se ódio, o pior dos
vícios e o exato contrário do amor. A vingança pode ser confundida com a
justiça porque produz uma momentânea sensação de bem-estar, equilíbrio e até de
dever cumprido. Nesse sentido, vingança nada mais é do que ódio travestido de
justiça. "Máxima da misericórdia: se não podes amar, cessa ao menos de
odiar" – André Comte-Sponville. O resto já não é mais contigo.
O
DESLIZE MENOS GRAVE: A CONDESCENDÊNCIA. Às vezes, perdoamos em excesso e por
demais apressados. Minimizamos responsabilidades, deixamos de exigir o que
deveria ser cobrado, inviabilizamos a lição e o aprendizado. Pode haver bondade
e generosidade nesse gesto, mas também dificuldade de confrontar e lidar com
conflitos. Da misericórdia em excesso, sem razão maior que a justifique, até o
santo desconfia.
Obs.: Esta segunda parte continua com a terceira, de mesmo título.
(*) Reflexão enviada de Vitória (ES)
via Whatsapp.

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