quinta-feira, 15 de outubro de 2026

8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (*)

 8-REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (*)


"PEQUENO TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES, DOS PIORES VÍCIOS,E DOS DESLIZES MENOS GRAVES"

[Parte II]

 

[|||] A VIRTUDE: A TEMPERANÇA. Temperança, em tradução livre, pode ser definida como a dança dos temperos. Trata-se menos de abrir mão desta ou daquela emoção e mais de saber fazer uso de cada uma delas oportuna e adequadamente. O prazer, por exemplo, tem sido exorcizado por algumas religiões na proporção inversa à valorização do sofrimento, que só falta ser beatificado. Claro que o prazer transformado em senhor absoluto deixa de ser virtude e passa a ser vício. Luxúria é o nome disso. Mas as coisas boas da vida continuarão sendo boas se soubermos identificar seu alcance e respeitar seus limites. Seja quando se trata do apetite sexual – a que chamamos libido – seja quando se refere a outros apetites. Não sem razão Platão deu a um de seus grandes tratados sobre o amor o nome de “O Banquete”. Respeitadas e assumidas as consequências que requerem seu exercício, o prazer sexual precisa começar a ser tratado como qualquer outro tipo de prazer. Vocacionados e celibatários também precisam saber disso.

 

O VÍCIO: A GULA. A gula começa quando o suficiente deixa de ser o bastante. Pode aparecer na comida, no consumo, no trabalho, nas experiências ou na acumulação de prazeres de todo tipo. Gula é excesso e, sem a intervenção da vontade consciente a compulsão tem passe livre. Para se transformar em “gulão”, o guloso precisa abrir mão da razão. Quando isso acontece, não resta outra saída senão enfiar o dedo goela abaixo. Se o chamado “vomitório”, pelos romanos, se prestava também a essa sessão de descarrego alimentício, é provável. Mas há controvérsias. Coisa feia! Eu, hein!

 

O DESLIZE MENOS GRAVE: A PRIVAÇÃO. Na busca pelo controle da gula e da compulsão, por vezes exageramos na contenção. Recusamos um prazer válido e legítimo em nome da disciplina e do autocontrole. Até aí, tudo bem. Mas, quando a restrição excessiva e até a recusa alimentar entram em cena, a privação se distancia da virtude e se aproxima do vício. Perigo à vista! Benditos modelos sem pé nem cabeça do corpo e da beleza! Bem-aventurados profetas do fisiculturismo e do perfeccionismo! Recusa o que é bom, ingere o que é mal e injeta o que não presta. Estrupício!

 

[|||] A VIRTUDE: A SIMPLICIDADE. “Nada há de mais extraordinário do que ser simples”, ensinam os grandes mestres orientais, notadamente os chineses. Ser simples significa não complicar desnecessariamente aquilo que pode ser facilmente compreendido e vivido com naturalidade. O princípio parece simples: quem simplifica fala e age com a emoção e o coração; quem complica fala e age com o pensamento e a razão. O complicador nada mais é do que um sujeito complicado e mal resolvido. Consegue complicar até letra de médico e bula de remédio. Você pede opinião sobre um versículo bíblico e ele lhe oferece um tratado de teologia. Completo e com apêndice anexo.

 

O VÍCIO: A OSTENTAÇÃO. A ostentação é uma viagem do ego. Em megalomaníacos, do superego. Ela ocorre quando aquilo que sabemos, temos ou somos precisa ser exibido para adquirir valor, ser validado, ou ambas as coisas. O ser e o ter já não bastam. Deixam de ser suficientes. Ter em excesso é como ostentar a si próprio, tendo o mundo como palco. Deixar de ter – ou, no limite, perder tudo – é o mesmo que deixar de ser. Não exatamente quem se é, mas quem se julga ser. Lógica perversa, essa. E meio maluca.

 

O DESLIZE MENOS GRAVE: O DESPOJAMENTO EXCESSIVO. “Menos é mais, mais é menos”, afirma a lógica minimalista. Pode ser. E isso é bom. Mas às vezes abrimos mão não só do excesso como também do necessário, buscando transformar o despojamento em simplicidade e a simplicidade em uma espécie de identidade única. Simplificando ou trocando em miúdos: por trás do excesso de simplicidade também pode haver muita ostentação camuflada. Desconfie de quem se gaba com frequência: “Minha maior virtude é a humildade!”. Se é, já era! Deixou de ser. Não é mais.

 

[|||] A VIRTUDE: A TOLERÂNCIA. A rigor, só quem pode proibir pode, em regime de exceção, tolerar ou permitir o que está proibido. Quem não tem poder para isso, tolera apenas por delegação ou quando revestido de autoridade para abrir exceção. A princípio, uma religião não tem que tolerar nenhuma outra, pois estão todas em pé de igualdade entre si. Têm que respeitar, e isso basta. Onde existe respeito, a tolerância torna-se desnecessária. Por via inversa, quem tolera é porque não respeita. O respeito vem antes; só depois vem a tolerância, como uma espécie de apêndice ou corolário. E, como se sabe, certos apêndices são doentios. Requerem antídotos e, conforme o caso, cirurgia para serem extirpados. Nada contra a tolerância. Mas confundi-la com respeito é doença grave. Grave, não; gravíssima!

 

O VÍCIO: O FANATISMO. Fanatismo, extremismo e intransigência são trigêmeos uni. Univitelinos. Não praticam a tolerância e muito menos o respeito pelo simples fato de não reconhecerem nem um nem outro. Quando uma crença é transformada em certeza, a certeza em verdade, e a verdade é dogmatizada, o diferente passa a ser demonizado e precisa ser exorcizado a qualquer preço. Fanático é um demônio que incorporou a mente de um crente. Qualquer crente. Se for a mente de toda uma instituição, aí já é legião. Só o divino abraçando a causa e tomando a frente. E haja porcos para realizar esse exorcismo e levar a cabo essa purificação!

 

O DESLIZE MENOS GRAVE: A CONCESSÃO. Às vezes cedemos com facilidade com o intuito de evitar discussão e preservar a paz. Evitamos confrontar, deixamos passar sem reclamar, concordamos para não criar problemas desnecessários. Exatamente do que não é capaz o fanático. Há ocasiões em que abrir mão da razão – e até da verdade, quando absolutamente necessário – pode ser sintoma de sabedoria. Afinal, o amor é mais importante que a verdade, como nos lembra São Paulo. Mas cuidado: até o bem em excesso pode acabar se transformando em mal. No presente caso, no mal da ingenuidade, irmã mais nova da estrupicidade.

 

[|||] A VIRTUDE: A BOA-FÉ. Boa-fé é a disposição de não presumir que o outro esteja tentando nos enganar ou passar a perna. E claro, nem o braço nem o resto do corpo. Até que se prove o contrário, nada tem a ver com bobeira ou ingenuidade. A boa-fé costuma andar acompanhada sua irmã gêmea, a prudência. Mas se a prudência se afasta, aí sim, a boa-fé pode se transformar em ingenuidade. Ou estrupicidade, dá no mesmo. Simples como pombas, prudentes como serpentes, tá lembrado? Mas nada de sair por aí agindo e reagindo como se tivesse sangue de barata.

 

O VÍCIO: A MÁ-FÉ. A má-fé entra em cena quando a inteligência se coloca a serviço da malandragem e da manipulação. A pessoa não apenas oculta a verdade. Seleciona, distorce ou simplesmente apresenta uma parte como se fosse o todo. Sempre em benefício próprio ou de alguém próximo. Sua irmã gêmea é a má intenção. Quando juntas, só Deus pra prever o tamanho do estrago.

 

O DESLIZE MENOS GRAVE: A INGENUIDADE. Às vezes acreditamos mais do que sugere a prudência e o bom senso. Oferecemos uma segunda chance sem ser solicitada, aceitamos uma explicação improvável, demoramos a perceber uma intenção menos nobre, e por aí segue o andar da carruagem. É um deslize compreensível, mas que, no limite, pode se tornar perigoso. Sem a prudência, fede mais. Tipo discurso de político politiqueiro: “Com a minha fé, e as fezes de vocês, podemos salvar o mundo!”. Salvá-lo, não sei! Sujá-lo, com certeza!

 

[|||] A VIRTUDE: A POLIDEZ. A polidez talvez seja a forma mais simples e direta de reconhecer a existência e a presença do outro. Um bom-dia, um muito obrigado, um por favor e uma escuta atenta podem parecer pouca coisa, mas ajudam a construir ambientes mais humanos e habitáveis. No adulto, a polidez pode ser insuficiente, sobretudo quando divorciada da ética e dos princípios morais. Mas, na criança, basta. Ela é a semente do que mais tarde será ético e moralmente correto. Por isso mesmo precisa e deve ser ensinada.

 

O VÍCIO: A GROSSERIA. A grosseria pode facilmente ser confundida com a espontaneidade e a sinceridade. Mas quem disse que basta ser virtude para transformar agressividade verbal em bem-aventurança? Firmeza e assertividade são uma coisa; louváveis, com certeza. Outra, bem diferente, é a grosseria, que de virtuosa ou bem-aventurada não tem absolutamente nada. Se você costuma ser primário em suas ações e reações, melhor tomar cuidado: a linha fronteiriça entre a franqueza e a grosseria é tênue como a casca de um ovo. Olha lá, sobre quem você pode acabar arremessando sua gemada.

 

O DESLIZE MENOS GRAVE: O FORMALISMO. Às vezes somos educados por força do hábito, mero protocolo ou simples conveniência. Aprendemos a cumprir ritos e rituais sem saber o que significam e sem sentir aquilo que expressam de verdade. Isso não chega a ser um vício. Mas, se essa forma de educação nos acompanha até a vida adulta, ela muda de nome. Passa a ser chamada de imaturidade. E imaturidade não casa com autonomia. Muito menos com liberdade. Cresça e apareça! De preferência em todos os sentidos, e não apenas fisicamente.

 

[|||] A VIRTUDE: A MISERICÓRDIA. A misericórdia é, por excelência, a virtude do perdão. Usar de misericórdia não significa negar responsabilidade nem fazer vista grossa para com a justiça. Na verdade, a misericórdia triunfa sobre a justiça como a bondade triunfa sobre a benevolência. Se a justiça já é boa, a misericórdia é melhor ainda. Praticá-la é continuar acreditando na vida e investindo no ser humano. E, como qualquer investimento, isso implica risco de curto, médio e longo prazo. Aqui, a lógica se inverte: quanto maior o risco, maior a possibilidade do ganho. Quem pouco ama, pouco perdoa. Quem muito perdoa, muito ama.

 

O VÍCIO: A VINGANÇA. Olho por olho, dente por dente: a vingança segue à risca a implacável Lei do Talião. A força que a impulsiona chama-se ódio, o pior dos vícios e o exato contrário do amor. A vingança pode ser confundida com a justiça porque produz uma momentânea sensação de bem-estar, equilíbrio e até de dever cumprido. Nesse sentido, vingança nada mais é do que ódio travestido de justiça. "Máxima da misericórdia: se não podes amar, cessa ao menos de odiar" – André Comte-Sponville. O resto já não é mais contigo.

 

O DESLIZE MENOS GRAVE: A CONDESCENDÊNCIA. Às vezes, perdoamos em excesso e por demais apressados. Minimizamos responsabilidades, deixamos de exigir o que deveria ser cobrado, inviabilizamos a lição e o aprendizado. Pode haver bondade e generosidade nesse gesto, mas também dificuldade de confrontar e lidar com conflitos. Da misericórdia em excesso, sem razão maior que a justifique, até o santo desconfia.

 

Obs.: Esta segunda parte continua com a terceira, de mesmo título.

 

 (*) Reflexão enviada de Vitória (ES) via Whatsapp.

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