sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

FELIZ ANO NOVO DE 2022

Para que o ano seja novo, é preciso que você desamarre os laços que o impedem de caminhar rumo ao perdão. Desfaça os nós da prepotência e revista-se de humildade. Dê o primeiro passo e acredite que o perdão revigora a alma e devolve a paz ao coração angustiado.

Não tenha medo de recomeçar. Nem sempre é fácil deixar aquilo que nos aprisiona. Liberte-se das prisões que criou para si mesmo. Olhe ao seu redor e veja que na liberdade madura, você pode ser mais feliz do que sendo prisioneiro de seus pecados. Liberdade conquista-se com responsabilidade; e a maturidade é o fruto das escolhas bem realizadas. Abra os cadeados que o impedem de ver a vida com mais otimismo. Despeça-se do mau humor. Viva com mais leveza e pare de achar o lado ruim das pessoas e das situações.

Chegou o momento de viver a vida com mais gratidão. Mais um ano mal-humorado será insuportável para você mesmo.

Sempre é tempo de praticar gestos de bondade

Fuja das trevas e caminhe na luz. Um novo ano é sempre uma nova oportunidade de buscar a luz. Deixe-se iluminar pelo bom exemplo das pessoas. Busque amizades que agreguem valor a sua vida. Despeça-se das situações que ofuscam sua visão. Você foi criado para iluminar-se. Seja luz! Brilhe amando! Ilumine semeando esperança!

Acredite que sempre é tempo de praticar gestos de bondade. Não espere o momento ideal para ajudar alguém. Faça de cada situação uma oportunidade única para praticar o bem. Faça de cada dia deste novo ano o tempo de amar.

Faça a diferença! Acredite na força do amor partilhado.

Pequenos gestos fazem grandes diferenças

Seja misericordioso. Acolha a todos com um sorriso verdadeiro e com um abraço fraterno. Pequenos gestos fazem grandes diferenças quando praticados com amor. Seja ponte que une e não muro que separa. Ajude os necessitados e cada dia deste ano novo será um Natal permanente. Visite os enfermos e celebre a liturgia da caridade, no altar de cada leito de dor. Ofereça sua bondade sem esperar retorno. Quem semeia com amor colhe sorrisos de gratidão.

A oração é alimento da alma e fortaleza na vida

Ore mais. A oração é alimento da alma e fortaleza na vida. Em cada oração, unimo-nos mais profundamente ao coração de Deus. Mesmo em meio às lágrimas e dificuldades, busque o auxilio e a segurança d’Aquele que nunca nos abandona. Em Deus somos acolhidos no amor e na misericórdia. Nosso Pai celestial jamais abandona um filho necessitado. Seja na dor ou na alegria, busque Deus com amor. N’Ele somos amados eternamente.

Acredite em si mesmo

Você é protagonista da mais bela história da vida, da qual Deus o fez personagem principal. Sua missão começa com um sorriso de bondade e se expande pelo mundo com pequenos gestos de amor. No palco da vida, você é obra divina da criação. Você foi gerado no amor de Deus. Em sua alma estão impressas as marcas da divindade. Você é fruto de um amor eterno, por isso mesmo, faça deste novo ano o início de um novo tempo na sua história. Seja para o mundo a realidade de um novo tempo! Seja de Deus! Seja feliz com Deus!

Padre Flávio Sobreiro

http://capelapuc.org.br/receita-para-um-ano-novo-de-paz.html

TEOLOGIA

Teologia do Evangelho de Lucas: um caminho sempre atual

Por Aíla Luzia Pinheiro de Andrade e Maria Nivaneide de Abreu Lima


A palavra evangelho significa feliz anúncio, proclamação de uma novidade que revoluciona a vida dos seres humanos, a saber: a salvação em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Com o tempo, o interesse pela história desse Jesus, que “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38), fomentou o surgimento de um novo gênero literário, o evangelho, a narração da história de Jesus à luz dos eventos pascais, fruto do esforço das comunidades para formular e exprimir o significado dessa pessoa e de sua obra, bem como para explicitar a vida cristã, enquanto convite ao seguimento de Cristo. Tal anúncio consiste na mensagem essencial da fé e exige uma tomada de posição.

 

Introdução

Os evangelhos têm a pretensão de mostrar que é na totalidade da vida de Jesus que encontramos salvação. Mais do que relatos de uma história, são testemunhos de fé. Seu ponto de partida é a experiência dos primeiros discípulos, que aderiram a Jesus e foram impactados pela vida, palavras e comportamento do homem de Nazaré; que sofreram o ruir de suas esperanças com a morte do mestre; e que reencontraram, em sua ressurreição, sentido e resposta para a existência.


É importante sublinhar que cada evangelho está referido a uma comunidade determinada. Cada autor narra a história de Jesus de um modo que faça sentido para a comunidade à qual escreve e que suscite nela a adesão à sua proposta do Cristo. Assim, os evangelhos não são neutros; pelo contrário, estão profundamente marcados pela fé da comunidade, bem como por seus desafios e crises. Neste artigo, refletiremos sobre alguns aspectos do Evangelho de Lucas que poderão nos ajudar em nosso caminho de seguimento de Cristo e em nossos esforços de evangelização. Nosso intuito é apresentar a mensagem central do terceiro evangelho, sublinhando seu caráter atual, de forma que a Palavra proclamada seja eficaz para o tempo presente.

 

1. A obra lucana em seu projeto literário e teológico

O Evangelho de Lucas é uma proclamação do acontecido com Cristo Jesus e da salvação realizada por ele no mistério de sua encarnação, morte e ressurreição. É um manual de catequese, que ajuda no processo de iniciação e de reiniciação à fé. É fruto do esforço da Igreja depois de longo desenvolvimento da prática evangelizadora. Assim, apresenta as características de quem deseja se tornar discípulo missionário de Jesus e as exigências que lhe são feitas, tais como:


– a opção radical por Jesus e pela proposta do Reino, na qual é priorizada a vida plena para todos, sem discriminações ou privilégios;

– o ato de carregar a cruz como expressão do dom total de si mesmo a Deus, que significa assumir, com liberdade e responsabilidade, as consequências da opção por Cristo;

– o serviço à Palavra com docilidade pressurosa, percebendo os sinais dos tempos e a urgência do Reino de Deus;

– a oração pessoal e a vivência litúrgica como “espaços” privilegiados da experiência com o Cristo ressuscitado, que evangeliza o mundo atual mediante a ação do Espírito Santo nos discípulos missionários.


1.1 O autor e sua proposta

O autor do Evangelho de Lucas seria um convertido ao seguimento de Jesus, proveniente do ambiente da cultura helenista, pertencente à classe social alta, conhecedor da retórica grega e da exegese judaica e muito familiarizado com a versão grega do Antigo Testamento (LXX); um gentio que, entre os anos 80-85 d.C., escreve a comunidades cristãs fora de Israel (CASALEGNO, 2003, p. 235-240), que não entendem a cultura na qual surgiu a mensagem de Jesus. Sua intenção – explicitada no prólogo do evangelho: “para que conheças a solidez dos ensinamentos que recebestes” (Lc 1,4) – revela seu interesse de revigorar a fidelidade ao ensinamento e à prática transmitidos pela tradição apostólica e garantir a autenticidade da doutrina, mostrando que as práticas e os ensinamentos assumidos pelas comunidades de sua época estão enraizados no tempo de Jesus.


A perspectiva adotada pelo autor está em função da apresentação do cristianismo como uma continuidade e um desdobramento legítimos do judaísmo (cf. At 23,6; 24,21). O autor pretende afirmar que a salvação prometida a Israel e realizada em Jesus é transmitida pela corrente da tradição apostólica. Para isso, recolhe as tradições sobre o ministério de Jesus, reelabora-as e compõe uma catequese em duas partes, evangelho e Atos dos Apóstolos, cuja unidade é defendida pela maioria dos estudiosos do Novo Testamento (CASALEGNO, 2005, p. 29-32). Desse modo, o autor indica como as ações e as palavras de Jesus foram compreendidas e prolongadas por seus discípulos (GEORGE, 1982, p. 6).


O Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos, em sua unidade literária e teológica, apresentam o caminho profético e salvador através do qual Deus Pai percorre um trajeto com a humanidade, inicialmente com o povo da aliança, depois por meio de Jesus e das primeiras comunidades de seus seguidores e, enfim, com cada geração, até a plenitude do Reino para todos preparado.


1.2 Seguir Jesus pelo caminho

Cada leitor de Lucas é, ao mesmo tempo, convidado e desafiado a percorrer esse caminho de salvação, a olhar retrospectivamente o caminhar da Palavra de Deus, presente nas promessas feitas a Israel, o caminhar de Jesus como realização dessas promessas e, por fim, o caminhar da Palavra proclamada pelos apóstolos na força do Espírito. Tais etapas estão intimamente relacionadas. Formam um único itinerário: o caminho da salvação realizada por Deus na história humana, que alcança os nossos tempos, nos interpela, nos dá sentido à existência e nos impele a aventurar-nos nessa travessia.


O tema do “caminho”, na obra lucana, qualifica a vida e a comunidade cristã. O uso do verbo “ir” (passar, caminhar), que aparece 51 vezes no evangelho e 37 nos Atos, confirma essa perspectiva. Esse verbo aparece tanto nos relatos da infância, para indicar que os pais de Jesus estão a caminho de Jerusalém (cf. 1,39; 2,3.41), como no final do episódio da sinagoga de Nazaré (cf. 4,30), na inauguração de sua pregação na Galileia (cf. 4,14-9,50).


Nos caminhos da Galileia, Jesus pregava e anunciava a Boa-Nova do Reino de Deus (cf. 8,1) por palavras e obras: por meio de parábolas que mostram como se deve ouvir a Palavra de Deus, dar-lhe atenção (cf. 8,4-21), e de ações que comprovavam ser ele o Messias (cf. 8,22-56). No sermão da planície, é apresentado como profeta, que traz uma mensagem de fraternidade, filiação, amor e misericórdia (cf. 6,12-49).


Em Lc 9,51, Jesus toma decididamente o caminho de Jerusalém (cf. 9,51-19,27), seguido por seus discípulos e grande multidão. Seu destino é Jerusalém, centro e símbolo do antigo povo de Deus, o coração de todas as expectativas e esperanças de Israel, onde morrerá para entrar na glória e, desse modo, cumprir todas as profecias a seu respeito (cf. 24,27).


No caminho para Jerusalém, além das instruções acerca das condições do seguimento (cf. 9,51-10,42), da oração (cf. 11,1-13) e das características do verdadeiro discípulo (FABRIS, 2006, p. 13) – para que os discípulos compreendam as implicações da mensagem de Jesus nas práxis cotidianas –, é narrada a parábola que foi universalizada com o título de “o Bom Samaritano” (cf. 10,25-37). Nessa parábola, a vivência do seguimento de Jesus é a execução da vocação do ser humano expressa na totalidade das Escrituras, vocação que, em resumo, implica a tarefa de amar efetivamente a Deus e ao outro que nos interpela no caminho para a vida eterna.


No capítulo 15 do Evangelho de Lucas, encontramos três parábolas que tratam do tema da alegria em encontrar o que se havia perdido e nos revelam a maneira como Deus age – norma para a vida dos discípulos e da comunidade cristã. Prosseguindo o caminho, continuam as instruções sobre o uso dos bens (cf. Lc 16), sobre a espera vigilante do Filho do homem (cf. 17,22-37; 18,1-8; 19,11-27) e sobre a salvação e o perdão universais, oferecidos também aos excluídos e pecadores (cf. 17,11-19; 18,9-14; 19,1-10).


O último episódio da parte central do Evangelho de Lucas, a grande viagem de Jesus para Jerusalém, acontece na casa do chefe dos cobradores de impostos (cf. 19,1-10). Nesse ponto, mostra-se a opção por Jesus e o abandono do ídolo das riquezas. O relato mostra o processo de iniciação à fé realizado por Zaqueu. No início, ele demonstra um fascínio por Jesus, mas poderia ter se detido aí. A admiração por Jesus ainda não é uma adesão de vida aos propósitos do Reino. Foi a atitude de Jesus, contrária à da multidão, que levou Zaqueu a uma fé madura, com consequências práticas para a própria vida.


O caminhar de Jesus não termina com a chegada a Jerusalém e com a paixão que sofreu. Essa caminhada continua nas cenas seguintes após sua morte, com os discípulos de Emaús (cf. 24,28). Ela se conclui em Jerusalém, quando, reunido com os discípulos, Jesus sobe aos céus (cf. At 1,10-11) e derrama o seu Espírito sobre a Igreja (cf. At 2,32.35). Esta, por sua vez, continuará a “caminhar”. O protagonista dessa caminhada é, a partir de então, a “Palavra”, que será anunciada com intrepidez pelos apóstolos desde Jerusalém até os confins do mundo, conforme o programa apresentado em At 1,8.


1.3 Assumir com liberdade e responsabilidade as consequências da opção por Cristo

Pensar a vida e a comunidade cristã à luz da metáfora do caminho implica abertura a uma experiência dinâmica e progressiva, a uma aventura que brota do encontro com Jesus e da adesão à sua proposta: “Segue-me” (5,27). É ao longo desse caminho que cada discípulo, de ontem e de hoje, aprende do Senhor que o seguimento dele exige uma opção radical: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (9,23); aprende que, nesse percurso, pode encontrar acolhimento e hospitalidade, como na casa de Marta e Maria (cf. 10,38-42), mas também recusa e rejeição, como no território dos samaritanos (cf. 9,53).


O caminho de Jesus oferece riscos, não se amolda ao projeto de alguém que pretende viver um cristianismo light ou sonha com sucesso ou prestígio.


Seguir Jesus quer dizer ser fiel a alguém que é perseguido, que não tem seguranças sociais e familiares (9,57-62); uma pessoa que está sendo procurada pelo poder político como perigosa (13,31-32); alguém que é rejeitado pelos chefes e dirigentes religiosos (13,34) […]. É o caminho da fidelidade e da coragem, mesmo diante da repressão violenta das estruturas do poder, sinagogas e reis, mesmo perante a morte violenta (21,12) (FABRIS, 2006, p. 189; 202).


O agir cristão é um caminhar com Jesus cada dia, até a plena realização do propósito de Deus. Isso exige decisão firme, pois os discípulos estão vinculados ao caminho de Jesus e devem agir em conformidade com os ensinamentos e com a vida do Mestre. Desse modo, o caminhar com Cristo deve ser entendido como relacionamento profundo e íntimo com Deus, tendo consequências práticas na vida cotidiana. Desse modo, não há lugar para uma religiosidade intimista e subjetivista, sem experiência pessoal com o Deus misericordioso. O seguimento de Jesus consiste em adesão pessoal, comprometimento de vida, não apenas em crenças em formulações doutrinárias. Seus seguidores devem amar como ele amou, ter misericórdia como ele teve misericórdia, pois, com sua vida, palavras e comportamento, Jesus nos mostrou que essa atitude partia de Deus mesmo: “Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai” (Lc 6,36).


A seguir, refletiremos sobre o relato da manifestação de Jesus aos discípulos de Emaús, que, no caminho com Cristo ressuscitado, passam por um processo de reiniciação na fé. Eles vão do desânimo à esperança e da religião à experiência de fé, que consiste em uma adesão da própria vida ao projeto do Reino, celebrado e proclamado. Tornam-se discípulos e são investidos como missionários pelo Cristo ressuscitado, presente na caminhada, na Palavra e na liturgia. É bom exemplo de como podemos, hoje, reencantar os desencantados com o cristianismo.


2. O caminho para Emaús

O episódio do caminho para Emaús (cf. Lc 24,13-35), resumo da obra lucana, encontra-se no contexto da atividade de Jesus em Jerusalém (cf. 19,28-24,53), lugar onde acontece a plenificação da salvação operada em Cristo. O evangelista segue estruturando sua narrativa no contexto de uma caminhada e, como escreve na perspectiva da história da salvação, acentua a sucessão dos acontecimentos em um relato marcado por oposições e contrastes entre seu início e seu final, tanto no que diz respeito à situação – no início os discípulos estão saindo de Jerusalém (cf. v. 13) e, no final, retornam (cf. v. 33) – quanto o que toca à sua compreensão, passando da ignorância ao conhecimento: no início estão com os olhos impedidos de ver (cf. v. 16), no final estes se abrem e reconhecem Jesus (cf. v. 31) (SKA, 2001, p. 48-49).


Essa estrutura nos revela ser preocupação do autor a transmissão de uma experiência que é fundadora para a comunidade. Experiência que todo cristão deve fazer para seguir Jesus. O relato pode ser organizado em cinco partes, a saber: a) 13-16 – os discípulos se afastam, Jesus se aproxima, mas os olhos estão impedidos de reconhecê-lo; b) 17-24 – o diálogo de Jesus com os dois: frustração e desesperança; c) 25-27 – a longa explicação das Escrituras; d) 28-31 – o convite, a fração do pão e o reconhecimento: abertura dos olhos; e) 32-35 – à experiência do encontro com o Senhor segue o retorno para a comunidade.


No relato, a abertura das Escrituras constitui um divisor de águas no itinerário da fé pascal. Anteriormente, o acontecido com Jesus parecia incompreensível, mas quem conhece as Escrituras, quem as compreende bem, é capaz de perceber a lógica do agir de Deus na história. Por isso, Jesus repreende a lentidão dos discípulos em crer que ele ressuscitou. A explicação das Escrituras é essencial para compreender o evento Cristo. Os profetas dão testemunho da inevitabilidade da morte de Jesus e da entrada dele na glória do Pai (CASALEGNO, 2003, p. 195).


O processo de assimilação do acontecido com Jesus se realizou progressivamente, ao longo de uma caminhada de reflexão sobre as Escrituras à luz dos eventos pascais. Tal processo consistiu não apenas na abertura das Escrituras, mas também em longo percurso pela história de Jesus, considerando-a inserida na história do povo de Israel. Os discípulos releram toda a vida de Jesus à luz da páscoa, pois a ressurreição não tem sentido em si mesma, mas ganha sentido por meio da correspondência com o modo como Jesus viveu e morreu. Há íntima relação entre a vida, a morte e a ressurreição de Jesus.


No final da caminhada para Emaús, a meta foi atingida. Verdadeiramente o Senhor ressuscitou! E agora? O que fazer, senão retornar à comunidade? De fato, esse itinerário não teria sentido se não fosse partilhado, se não fizesse parte da experiência de uma comunidade. Por isso a urgência de retornar a Jerusalém para anunciar os acontecimentos do caminho, uma vez que essa experiência não é vivida isoladamente, mas em comunidade, junto àqueles que professam e vivem essa mesma fé no Ressuscitado.


A cidade de Jerusalém simboliza o lugar de irradiação da salvação. Não é simplesmente um lugar geográfico, mas sim teológico. Para Lucas, as nações todas não precisarão se dirigir a Jerusalém para obter a salvação. Ao contrário, é Jerusalém, simbolizada por cada cristão, que irá a cada nação anunciar a salvação realizada em Cristo. Cada cristão que realizou o percurso e reconheceu Jesus Cristo ressuscitado no final do caminho deve agora levar sua experiência às nações que anseiam pela libertação, verificada na vida concreta de todo aquele que adere a essa experiência.


Considerações finais

A partir da experiência com o Ressuscitado, os cristãos fizeram uma releitura da vida de Jesus, de seus gestos e de suas palavras e condensaram essa experiência nos evangelhos. Um dos objetivos principais dos relatos evangélicos é mostrar que o Ressuscitado não é outro senão o Nazareno, o Crucificado. Esse processo de releitura, na obra lucana, está expresso na narrativa de uma grande viagem que se apresenta como verdadeiro itinerário da experiência pascal.


No texto lucano, a grande viagem de Jesus a Jerusalém constitui um programa de catequese cujo objetivo é fazer que os discípulos possam compreender o plano salvífico de Deus. Assim, o relato da caminhada de Emaús torna-se uma catequese pascal, cujo ponto de partida é o evento Cristo. Portanto, para compreender a ressurreição de Jesus, é necessário vê-la em continuidade com sua vida e morte; ou seja, a história de Jesus não termina na cruz.

No processo de abertura dos olhos dos discípulos, a explicação das Escrituras torna-se indispensável. Ela prepara o terreno com suas sementes, cujos frutos serão colhidos mais tarde, na “fração do pão”. E as sementes lançadas despertam nos ouvintes o desejo de ser discípulos de Jesus, de se pôr a caminho com ele, de conhecê-lo mais intimamente, e para isso é necessário entrar na dinâmica do seguimento de Jesus e da opção por ele.


O ponto de partida da catequese pascal situa-se na realidade existencial das pessoas com as quais Jesus se encontra. Isso porque o conteúdo da fé cristã é a vida de Jesus e, por isso, tal fé somente poderia ser acolhida na situação existencial de cada pessoa e por meio da pertença à comunidade. Não obstante, mesmo partindo de uma situação existencial, a experiência com o Ressuscitado é sempre uma proposta. Esta vem de fora, pois é Jesus quem interpela as pessoas pela mediação da comunidade, a qual guarda e transmite o depósito da fé. A comunidade narra esse evento para que o ouvinte de todos os tempos se ponha a caminho, faça o mesmo percurso e se deixe interpelar pelo Senhor, como fizeram os discípulos.

 

Referências bibliográficas

 

BARREIRO, A. O itinerário da fé pascal: a experiência dos discípulos de Emaús e a nossa (Lc 24,13-35). São Paulo: Loyola, 2001.

BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada: edição pastoral. São Paulo: Paulus, 2018.

CASALEGNO, Alberto. Lucas: a caminho com Jesus missionário. Introdução ao terceiro evangelho e a sua teologia. São Paulo: Loyola, 2003.

______. Ler os Atos dos Apóstolos: estudo da teologia lucana da missão. São Paulo: Loyola, 2005.

FABRIS, Rinaldo. O Evangelho segundo Lucas. In: ______; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos II. São Paulo: Loyola, 2006.

GEORGE, A. Leitura do Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulus, 1982. (Cadernos bíblicos, 13).

GOURGUES, Michel. As parábolas de Lucas: do contexto às ressonâncias. São Paulo: Loyola, 2005.

MESTERS, C.; OROFINO, F. Pé no chão, sonho no coração: olhar no espelho das primeiras comunidades. São Leopoldo: Cebi, 2001.

MOXNES, H. A economia do Reino: conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulus, 1997.

PENALVA, José. Pensar Jesus a partir de Lucas. São Paulo: Ave-Maria, 1999.

RETAMALES, Santiago Silva. Discípulo de Jesus e discipulado segundo a obra de são Lucas. São Paulo: Paulus, 2005.

RICHARD, P. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999.

RIUS-CAMPS, J. O Evangelho de Lucas: o êxodo do homem livre. São Paulo: Paulus, 1997.

SKA, Jean Louis. O Deus oleiro, dançarino e jardineiro: ensaios de antropologia bíblica. São Paulo: Loyola, 2001.

STORNIOLO, I. Como ler o Evangelho de Lucas: os pobres constroem a nova história. 5. ed. São Paulo: Paulus, 1997.

 

Aíla Luzia Pinheiro de Andrade e Maria Nivaneide de Abreu Lima

Aíla Luzia Pinheiro de Andrade, nj, é graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com.

Maria Nivaneide de Abreu Lima é bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Possui graduação em Letras – Português e Espanhol – pela Universidade Federal do Ceará (2008). Tem experiência na área de Letras, com ênfase no ensino de Língua Portuguesa.

https://www.vidapastoral.com.br/artigos/temas-biblicos/teologia-do-evangelho-de-lucas-um-caminho-sempre-atual/

ELEIÇÕES

Conheça as novas regras para a votação de 2022

Mudanças envolvem da data da posse à distribuição de recursos


Por Heloisa Cristaldo – Repórter da Agência Brasil - Brasília

Falta pouco menos de um ano para as eleições de 2022 e os brasileiros irão às urnas com novas regras. Promulgada pelo Congresso Nacional na semana passada, as regras serão aplicadas nas eleições para presidente e vice-presidente da República, de 27 governadores e vice-governadores de estado e do Distrito Federal, de 27 senadores e de 513 deputados federais, além de deputados estaduais e distritais.https://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.png?id=1424058&o=nodehttps://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.gif?id=1424058&o=node

O pleito será realizado em primeiro turno no dia 2 de outubro e, o segundo turno, ocorrerá no dia 30 do mesmo mês.

Conheça as regras:

Recursos

Para incentivar candidaturas de mulheres e negros, a nova regra modifica contagem dos votos para efeito da distribuição dos recursos dos fundos partidário e eleitoral nas eleições de 2022 a 2030. Serão contados em dobro os votos dados a candidatas mulheres ou a candidatos negros para a Câmara dos Deputados nas eleições realizadas durante esse período.

Fundo eleitoral

Em 2022, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha - chamado de fundo eleitoral - terá R$ 5,7 bilhões. Esse é o valor previsto para o financiamento de campanhas políticas. Os recursos são divididos da seguinte forma:

·         2% dos recursos do fundo devem ser divididos entre todos os partidos, sendo o marco temporal a antecedência de seis meses da data do pleito.

·         35% dos recursos devem ser divididos entre os partidos na proporção do percentual de votos válidos obtidos pelas siglas que tenham pelo menos um representante na Câmara dos Deputados, tendo por base a última eleição geral. Nos casos de incorporação ou fusão de partidos, os votos dados para o partido incorporado ou para os que se fundirem devem ser computados para a sigla incorporadora ou para o novo partido.

·         48% dos recursos do fundo serão divididos entre os partidos na proporção do número de representantes na Câmara dos Deputados na última eleição geral. Pela regra, partidos que não alcançaram a cláusula de barreira, contam-se as vagas dos representantes eleitos, salvo os deputados que não tenham migrado para outra legenda.

·         15% dos recursos do fundo devem ser divididos entre os partidos, na proporção do número de representantes no Senado, contabilizados aos partidos para os quais os senadores foram eleitos.

Fundo Partidário

Já o Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos ou fundo partidário é destinado às siglas que tenham seu estatuto registrado no Tribunal Superior Eleitoral e prestação de contas regular perante a Justiça Eleitoral. Distribuído anualmente, o fundo partidário deve alcançar R$ 1,2 bilhão em 2022 e R$ 1,65 bilhão em 2023. A divisão é feita da seguinte forma:

·         5% do total do Fundo Partidário serão divididos, em partes iguais, a todos os partidos aptos que tenham seus estatutos registrados no Tribunal Superior Eleitoral;

·         95% do total do Fundo Partidário serão distribuídos a eles na proporção dos votos obtidos na última eleição geral para a Câmara dos Deputados.

Nova data de posse


A emenda à Constituição modifica o dia da posse do presidente da República para 5 de janeiro e dos governadores para 6 de janeiro a partir de 2027. Atualmente, presidente e os governadores tomam posse no dia 1º de janeiro. No caso da próxima eleição, em 2022, a data de posse em 2023 permanecerá no primeiro dia do ano.


Fidelidade partidária

As novas regras permitirão que parlamentares que ocupam cargos de deputado federal, estadual e distrital e de vereador possam deixar o partido pelo qual foram eleitos, sem perder o mandato, caso a legenda aceite. 


O texto permite ainda que partidos que incorporem outras siglas não sejam responsabilizados pelas punições aplicadas aos órgãos partidários regionais e municipais incorporados e aos antigos dirigentes do partido incorporado, inclusive as relativas à prestação de contas.


Antes da mudança, a lei eleitoral permitia que parlamentares mantivessem o mandato apenas nos casos de “justa causa”, ou seja, mudança substancial ou desvio reiterado do programa partidário; grave discriminação política pessoal; e se o desligamento fosse 30 dias antes do prazo de filiação exigido em lei para disputar a eleição.


A incorporação de partidos também foi disciplinada pela emenda. Pelo texto, a sigla que incorporar outras legendas não será responsabilizada pelas sanções aplicadas aos órgãos partidários regionais e municipais e aos antigos dirigentes do partido incorporado, inclusive as relacionadas com prestação de contas.


Plebiscitos

A emenda constitucional incluiu a previsão para a realização de consultas populares sobre questões locais junto com as eleições municipais. Essas consultas terão que ser aprovadas pelas câmaras municipais e encaminhadas à Justiça Eleitoral em até 90 dias antes da data das eleições. Os candidatos não poderão se manifestar sobre essas questões durante a propaganda gratuita no rádio e na televisão.


Federações partidárias

Apesar de não fazer parte da Emenda Constitucional 111, outra mudança nas regras eleitorais terá validade no próximo pleito. Ao derrubar o veto do presidente Jair Bolsonaro, o Congresso Nacional validou o projeto que permite a reunião de dois ou mais partidos em uma federação.


A federação partidária possibilita aos partidos, entre outros pontos, se unirem para atuar como uma só legenda nas eleições e na legislatura, devendo permanecer assim por um período mínimo de quatro anos. As siglas que integram o grupo mantêm identidade e autonomia, mas quem for eleito devem respeitar a fidelidade ao estatuto da federação.


Outras modificações

A Câmara dos Deputados aprovou ainda outra proposta com a revisão de toda a legislação eleitoral. A modificação do novo código consolida, em um único texto, a legislação eleitoral e temas de resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A legislação eleitoral tem, ao todo, 898 artigos e reúne, entre outros pontos, a Lei das Eleições, a Lei dos Partidos Políticos, a Lei das Inelegibilidades e a Lei do Plebiscito.


Pelo texto aprovado na Câmara estabelece a quarentena de diversas carreiras. A proposta aprovada pelos deputados exige o desligamento de seu cargo, quatro anos antes do pleito, para juízes, membros do Ministério Público, policiais federais, rodoviários federais, policiais civis, guardas municipais, militares e policiais militares.


Entre as inovações da nova regra eleitoral está a autorização para candidaturas coletivas para os cargos de deputado e vereador. O partido deverá autorizar e regulamentar essa candidatura em seu estatuto ou por resolução do diretório nacional, mas a candidatura coletiva será representada formalmente por apenas uma pessoa.


No entanto, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), avaliou que não havia tempo hábil para analisar as propostas de alteração ao código eleitoral a tempo de vigorar para as eleições de 2022. De acordo com o Artigo 16 da Constituição Federal, "a lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência". A matéria ainda aguarda votação no Senado e não terá vigor nas próximas eleições.

 

Edição: Fábio Massalli

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2021-10/eleicoes-2022-conheca-novas-regras-eleitorais

DIA MUNDIAL DA PAZ

55ª MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DA PAZ


MENSAGEM DO SANTO PADRE
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
55º DIA MUNDIAL DA PAZ

1º DE JANEIRO DE 2022

DIÁLOGO ENTRE GERAÇÕES, EDUCAÇÃO E TRABALHO:
INSTRUMENTOS PARA CONSTRUIR UMA PAZ DURADOURA

 

1. «Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz» (Is 52, 7)!

Estas palavras do profeta Isaías manifestam a consolação, o suspiro de alívio dum povo exilado, extenuado pelas violências e os abusos, exposto à infâmia e à morte. Sobre esse povo, assim se interrogava o profeta Baruc: «Por que estás tu em terra inimiga, envelhecendo num país estrangeiro? Contaminaste-te com os mortos, foste contado com os que descem ao Hades» (3,10-11). Para aquela gente, a chegada do mensageiro de paz significava a esperança dum renascimento dos escombros da história, o início dum futuro luminoso.

Ainda hoje o caminho da paz – o novo nome desta, segundo São Paulo VI, é  desenvolvimento integral [1] – permanece, infelizmente, arredio da vida real de tantos homens e mulheres e consequentemente da família humana, que nos aparece agora totalmente interligada. Apesar dos múltiplos esforços visando um diálogo construtivo entre as nações, aumenta o ruído ensurdecedor de guerras e conflitos, ao mesmo tempo que ganham espaço doenças de proporções pandémicas, pioram os efeitos das alterações climáticas e da degradação ambiental, agrava-se o drama da fome e da sede e continua a predominar um modelo económico mais baseado no individualismo do que na partilha solidária. Como nos tempos dos antigos profetas, continua também hoje a elevar-se  o clamor dos pobres e da terra [2] para implorar justiça e paz.

Em cada época, a paz é conjuntamente dádiva do Alto e fruto dum empenho compartilhado. De facto, há uma «arquitetura» da paz, onde intervêm as várias instituições da sociedade, e existe um «artesanato» da paz, que nos envolve pessoalmente a cada um de nós [3]. Todos podem colaborar para construir um mundo mais pacífico partindo do próprio coração e das relações em família, passando pela sociedade e o meio ambiente, até chegar às relações entre os povos e entre os Estados.

Quero propor, aqui,  três caminhos para a construção duma paz duradoura. Primeiro, o  diálogo entre as gerações, como base para a realização de projetos compartilhados. Depois,  a educação, como fator de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento. E, por fim,  o trabalho, para uma plena realização da dignidade humana. São três elementos imprescindíveis para tornar «possível a criação dum pacto social» [4], sem o qual se revela inconsistente todo o projeto de paz.

2. Dialogar entre gerações para construir a paz

Num mundo ainda fustigado pela pandemia, que tem causado tantos problemas, «alguns tentam fugir da realidade, refugiando-se em mundos privados, enquanto outros a enfrentam com violência destrutiva, mas, entre a indiferença egoísta e o protesto violento há uma opção sempre possível: o diálogo, [concretamente] o diálogo entre as gerações» [5].

Todo o diálogo sincero, mesmo sem excluir uma justa e positiva dialética, exige sempre uma confiança de base entre os interlocutores. Devemos voltar a recuperar esta confiança recíproca. A crise sanitária atual fez crescer, em todos, o sentido da solidão e o isolar-se em si mesmos. Às solidões dos idosos veio juntar-se, nos jovens, o sentido de impotência e a falta duma noção compartilhada de futuro. Esta crise é sem dúvida aflitiva, mas nela é possível expressar-se também o melhor das pessoas. De facto, precisamente durante a pandemia, constatamos nos quatro cantos do mundo generosos testemunhos de compaixão, partilha, solidariedade.

Dialogar significa ouvir-se um ao outro, confrontar posições, pôr-se de acordo e caminhar juntos. Favorecer tudo isto entre as gerações significa amanhar o terreno duro e estéril do conflito e do descarte para nele se cultivar as sementes duma paz duradoura e compartilhada.

Enquanto o progresso tecnológico e económico frequentemente dividiu as gerações, as crises contemporâneas revelam a urgência da sua aliança. Se os jovens precisam da experiência existencial, sapiencial e espiritual dos idosos, também estes precisam do apoio, carinho, criatividade e dinamismo dos jovens.

Os grandes desafios sociais e os processos de pacificação não podem prescindir do diálogo entre os guardiões da memória – os idosos – e aqueles que fazem avançar a história – os jovens –; tal como não é possível prescindir da disponibilidade de cada um dar espaço ao outro, nem pretender ocupar inteiramente a cena preocupando-se com os seus interesses imediatos como se não houvesse passado nem futuro. A crise global que vivemos mostra-nos, no encontro e no diálogo entre as gerações, a força motora duma política sã, que não se contenta em administrar o existente «com remendos ou soluções rápidas» [6], mas presta-se, como forma eminente de amor pelo outro, [7] à busca de projetos compartilhados e sustentáveis.

Se soubermos, nas dificuldades, praticar este diálogo intergeracional, «poderemos estar bem enraizados no presente e, daqui, visitar o passado e o futuro: visitar o passado, para aprender da história e curar as feridas que às vezes nos condicionam; visitar o futuro, para alimentar o entusiasmo, fazer germinar os sonhos, suscitar profecias, fazer florescer as esperanças. Assim unidos, poderemos aprender uns com os outros» [8]. Sem as raízes, como poderiam as árvores crescer e dar fruto?

É suficiente pensar no cuidado da nossa casa comum, já que o próprio meio ambiente «é um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte» [9]. Por isso, devem ser apreciados e encorajados os numerosos jovens que se empenham por um mundo mais justo e atento à tutela da criação, confiada à nossa custódia. Fazem-no num misto de inquietude e entusiasmo, mas sobretudo com sentido de responsabilidade perante a urgente mudança de rumo [10], que nos é imposta pelas dificuldades surgidas da atual crise ética e sócio-ambiental [11].

Por outro lado, a oportunidade de construir, juntos, percursos de paz não pode prescindir da educação e do trabalho, lugares e contextos privilegiados do diálogo intergeracional: enquanto a educação fornece a gramática do diálogo entre as gerações, na experiência do trabalho encontram-se a colaborar homens e mulheres de diferentes gerações, trocando entre si conhecimentos, experiências e competências em vista do bem comum.

3. A instrução e a educação como motores da paz

Nos últimos anos, diminuiu sensivelmente a nível mundial o orçamento para a instrução e a educação, vistas mais como despesas do que como investimentos; e, todavia, constituem os vetores primários dum desenvolvimento humano integral: tornam a pessoa mais livre e responsável, sendo indispensáveis para a defesa e promoção da paz. Por outras palavras, instrução e educação são os alicerces duma sociedade coesa, civil, capaz de gerar esperança, riqueza e progresso.

Ao contrário, aumentaram as despesas militares, ultrapassando o nível registado no termo da «guerra fria», e parecem destinadas a crescer de maneira exorbitante [12].

Por conseguinte, é oportuno e urgente que os detentores das responsabilidades governamentais elaborem políticas económicas que prevejam uma inversão na correlação entre os investimentos públicos na educação e os fundos para armamentos. Aliás a busca dum real processo de desarmamento internacional só pode trazer grandes benefícios ao desenvolvimento dos povos e nações, libertando recursos financeiros para ser utilizados de forma mais apropriada na saúde, na escola, nas infraestruturas, no cuidado do território, etc.

Faço votos de que o investimento na educação seja acompanhado por um empenho mais consistente na promoção da cultura do cuidado [13]. Perante a fragmentação da sociedade e a inércia das instituições, esta cultura do cuidado pode-se tornar a linguagem comum que abate as barreiras e constrói pontes. «Um país cresce quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais: a cultura popular, a cultura universitária, a cultura juvenil, a cultura artística e a cultura tecnológica, a cultura económica e a cultura da família, e a cultura dos meios de comunicação» [14]. É necessário, portanto, forjar um novo paradigma cultural, através de «um pacto educativo global para e com as gerações jovens, que empenhe as famílias, as comunidades, as escolas e universidades, as instituições, as religiões, os governantes, a humanidade inteira na formação de pessoas maduras» [15]. Um pacto que promova a educação para a ecologia integral, segundo um modelo cultural de paz, desenvolvimento e sustentabilidade, centrado na fraternidade e na aliança entre os seres humanos e o meio ambiente [16].

Investir na instrução e educação das novas gerações é a estrada mestra que as leva, mediante uma específica preparação, a ocupar com proveito um justo lugar no mundo do trabalho [17]. 

4. Promover e assegurar o trabalho constrói a paz

O trabalho é um fator indispensável para construir e preservar a paz. Aquele constitui expressão da pessoa e dos seus dotes, mas também compromisso, esforço, colaboração com outros, porque se trabalha sempre com ou para alguém. Nesta perspectiva acentuadamente social, o trabalho é o lugar onde aprendemos a dar a nossa contribuição para um mundo mais habitável e belo.

A pandemia Covid-19 agravou a situação do mundo do trabalho, que já antes se defrontava com variados desafios. Faliram milhões de atividades económicas e produtivas; os trabalhadores precários estão cada vez mais vulneráveis; muitos daqueles que desempenham serviços essenciais são ainda menos visíveis à consciência pública e política; a instrução à distância gerou, em muitos casos, um retrocesso na aprendizagem e nos percursos escolásticos. Além disso, os jovens que assomam ao mercado profissional e os adultos precipitados no desemprego enfrentam hoje perspectivas dramáticas.

Particularmente devastador foi o impacto da crise na economia informal, que muitas vezes envolve os trabalhadores migrantes. Muitos deles – como se não existissem – não são reconhecidos pelas leis nacionais; vivem em condições muito precárias para eles mesmos e suas famílias, expostos a várias formas de escravidão e desprovidos dum sistema de previdência que os proteja. Mais, atualmente apenas um terço da população mundial em idade laboral goza dum sistema de proteção social ou usufrui dele apenas de forma limitada. Em muitos países, crescem a violência e a criminalidade organizada, sufocando a liberdade e a dignidade das pessoas, envenenando a economia e impedindo que se desenvolva o bem comum. A resposta a esta situação só pode passar por uma ampliação das oportunidades de trabalho digno.

Com efeito o trabalho é a base sobre a qual se há de construir a justiça e a solidariedade em cada comunidade. Por isso, «não se deve procurar que o progresso tecnológico substitua cada vez mais o trabalho humano: procedendo assim, a humanidade prejudicar-se-ia a si mesma. O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal» [18]. Temos de unir as ideias e os esforços para criar as condições e inventar soluções a fim de que cada ser humano em idade produtiva tenha a possibilidade, com o seu trabalho, de contribuir para a vida da família e da sociedade.

Como é urgente promover em todo o mundo condições laborais decentes e dignas, orientadas para o bem comum e a salvaguarda da criação! É necessário garantir e apoiar a liberdade das iniciativas empresariais e, ao mesmo tempo, fazer crescer uma renovada responsabilidade social para que o lucro não seja o único critério-guia.

Nesta perspectiva, devem ser estimuladas, acolhidas e sustentadas as iniciativas, a todos os níveis, que solicitam as empresas a respeitar os direitos humanos fundamentais de trabalhadoras e trabalhadores, sensibilizando nesse sentido não só as instituições, mas também os consumidores, a sociedade civil e as realidades empresariais. Estas, quanto mais cientes estão da sua função social, tanto mais se tornam lugares onde se cultiva a dignidade humana, participando por sua vez na construção da paz. Sobre este aspeto, é chamada a desempenhar um papel ativo a política, promovendo um justo equilíbrio entre a liberdade económica e a justiça social. E todos aqueles que intervêm neste campo, a começar pelos trabalhadores e empresários católicos, podem encontrar orientações seguras na doutrina social da Igreja.

Queridos irmãos e irmãs! Enquanto procuramos unir os esforços para sair da pandemia, quero renovar os meus agradecimentos a quantos se empenharam e continuam a dedicar-se, com generosidade e responsabilidade, para garantir a instrução, a segurança e tutela dos direitos, fornecer os cuidados médicos, facilitar o encontro entre familiares e doentes, garantir apoio económico às pessoas necessitadas ou desempregadas. E asseguro, na minha oração, a lembrança de todas as vítimas e suas famílias.

Aos governantes e a quantos têm responsabilidades políticas e sociais, aos pastores e aos animadores das comunidades eclesiais, bem como a todos os homens e mulheres de boa vontade, faço apelo para caminharmos, juntos, por estas três estradas: o diálogo entre as gerações, a educação e o trabalho. Com coragem e criatividade. Oxalá sejam cada vez mais numerosas as pessoas que, sem fazer rumor, com humildade e tenacidade, se tornam dia a dia artesãs de paz. E que sempre as preceda e acompanhe a bênção do Deus da paz!

Vaticano, 8 de dezembro de 2021.

Francisco

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[1] Cf. Carta enc.  Populorum progressio (26/III/1967), 76-80.

[2] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 49.

[3] Cf. Francisco, Carta enc.  Fratelli tutti (03/X/2020), 231.

[4] Ibid., 218.

[5] Ibid., 199.

[6] Ibid., 179.

[7] Cf.  ibid., 180.

[8] Francisco, Exort. ap. pós-sinodal  Christus vivit (25/III/2019), 199.

[9] Francisco, Carta enc.  Laudato si’ (24/V/2015), 159.

[10] Cf.  ibid., 163; 202.

[11] Cf.  ibid., 139.

[12] Cf. Francisco,  Mensagem aos participantes no IV Fórum de Paris sobre a Paz (11-13/XI/2021).

[13] Cf. Carta enc.  Laudato si’ (24/V/2015), 231; Francisco,  Mensagem para o LIV Dia Mundial da Paz. A cultura do cuidado como percurso de paz (08/XII/2020).

[14] Carta enc.  Fratelli tutti (03/X/2020), 199.

[15] Francisco,  Mensagem-vídeo por ocasião do Encontro «Global Compact on Education. Together to look Beyond» (15/X/2020).

[16] Cf. Francisco,  Mensagem-vídeo por ocasião do «High Level Virtual Climate Ambition Summit» (13/XII/2020).

[17] Cf. São João Paulo II, Carta enc.  Laborem exercens (14/IX/1981), 18.

[18] Carta enc.  Laudato si’ (24/V/2015), 128.

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/peace/documents/20211208-messaggio-55giornatamondiale-pace2022.html