0107- Feridas do corpo, feridas do mundo: um chamado
à conversão do cuidado
Marcos Aurélio Trindade*
*Mestre em Bioética PUCPR e Mestre em Antropologia Social UBA,
Membro da Sociedade Brasileira de Bioética.
Eis o artigo:
O artigo tem como objetivo analisar criticamente os desafios
éticos e sociais da saúde contemporânea, propondo uma reflexão sobre a
humanização, a justiça e a solidariedade como fundamentos de uma prática
verdadeiramente integral. Ao problematizar temas muitas vezes silenciados como
a mercantilização da vida, o racismo estrutural, a medicalização excessiva,
elitização do cuidado e a inteligência artificial o texto busca apontar
caminhos para a construção de uma pastoral da saúde mais inclusiva, comprometida
com a dignidade humana e com a promoção do bem comum.
O corpo vivo da sociedade: entre harmonia e desordem
Somos habitados por
milhares de vozes invisíveis: bactérias, fungos, vírus, uma comunidade chamada
de microbiota o que seria? são o conjunto de microrganismos bactérias, fungos,
vírus, protozoários que vivem em harmonia no corpo humano e exercem funções
vitais para a saúde, que nos constitui em silêncio. Quando há harmonia, vivemos
em equilíbrio, ou seja, a Microbiota; E a disbiose o que será? são os
desequilíbrios dessa microbiota, quando os microrganismos patogênicos se
sobrepõem aos benéficos, gerando doenças ou fragilidades a desordem se instala.
Essa metáfora, embora biológica, nos permite pensar a sociedade e a vida
comunitária. Estruturas políticas, culturais e econômicas funcionam como
organismos interdependentes, e qualquer ruptura no tecido social provoca
desordem, exclusão e sofrimento coletivo. Paulo nos lembra que “se um membro
sofre, todos sofrem com ele” (1Cor 12,26). A harmonia do corpo social depende
da escuta das diferenças e da valorização de cada sujeito. Husserl (2006, p.
28) afirma que o “eu empírico” amadurece pela experiência e pelo confronto com
as feridas do mundo. A consciência plena exige perceber a dor do outro e
compreender que a vida em comunidade só é possível com empatia e partilha. Em
comunidades que promovem atenção integral à saúde, práticas coletivas como
grupos de acolhimento, hortas comunitárias e ações educativas fortalecem a
diversidade social e reduzem disbioses. Cada indivíduo, ao participar de
cuidados compartilhados, contribui para a vitalidade do corpo social, assim
como cada microrganismo saudável contribui para o equilíbrio biológico.
Tecnologia e ética: inteligência artificial a serviço da
vida
Não é apenas a
inteligência artificial que ameaça o cuidado: a mercantilização radical da
saúde corrói silenciosamente a dignidade humana. Hospitais transformam
pacientes em clientes, médicos em gestores de metas e a dor em planilhas de
custos. O sofrimento é traduzido em números, e a vida perde seu valor
simbólico. Ivan Illich alerta que a “iatrogenia social” ocorre quando a própria
medicina, dominada pela lógica do mercado, começa a produzir doença em vez de
curar, enfraquecendo a autonomia das pessoas e convertendo a saúde em consumo
(ILLICH, 1975, p. 42).
A elitização acadêmica
aprofunda ainda mais essa desordem. Universidades, que deveriam ser
laboratórios de humanização e justiça, tornam-se muitas vezes fortalezas
simbólicas, inacessíveis aos pobres. Jovens talentosos e vocacionados à
medicina enfrentam muros econômicos quase intransponíveis. Paulo Freire recorda
que “ninguém se salva sozinho” (FREIRE, 1987, p. 32); quando a educação se
fecha em si mesma, o conhecimento perde sua função libertadora e a saúde se torna
privilégio. Essa exclusão é também uma forma de disbiose social: um corpo onde
poucos se alimentam de saber, enquanto muitos permanecem à margem da cura.
Mesmo as tecnologias
mais avançadas, como a inteligência artificial, podem reproduzir e ampliar essas
desigualdades se não forem orientadas por critérios éticos. Sistemas de triagem
digital e algoritmos de gestão hospitalar já demonstram, em algumas cidades,
uma tendência a priorizar populações de maior poder aquisitivo, reforçando
padrões históricos de exclusão. A máquina, sem alma e sem consciência, aprende
com os dados que lhe damos — e, quando os dados carregam o viés da injustiça, a
própria tecnologia se torna cúmplice da opressão (HAN, 2021, p. 77).
Mas é preciso
reconhecer: a inteligência artificial também pode ser instrumento de bem quando
colocada a serviço da vida. Quando usada para ampliar o acesso a diagnósticos
em regiões pobres, traduzir informações médicas para comunidades indígenas,
prever surtos epidêmicos e proteger populações vulneráveis, ela se torna
extensão do cuidado humano. A questão não está na máquina, mas na ética que
orienta seu uso. Emmanuel Mounier recorda que o personalismo autêntico afirma
“a primazia da pessoa sobre toda estrutura técnica ou econômica” (MOUNIER,
1962, p. 89). A tecnologia só é boa quando serve à dignidade humana.
Portanto, o desafio
pastoral do nosso tempo é discernir: a quem serve o progresso? À lógica do
lucro ou à comunhão entre os povos? A saúde não pode ser reduzida à eficiência;
ela é, antes de tudo, um encontro de rostos, uma responsabilidade
compartilhada. Somente quando ciência, fé e solidariedade se reencontrarem,
poderemos transformar a inteligência artificial e toda técnica em
instrumento de justiça e compaixão.
Racismo estrutural: a ferida não nomeada
O racismo estrutural na
saúde é uma disbiose ética e histórica. Corpos negros morrem mais cedo, recebem
menos analgesia, têm diagnósticos retardados e sofrem olhares de suspeita antes
de serem escutados. Foucault (1979, p. 154) alerta para a biopolítica que
regula vidas, decidindo quem merece cuidados e quem é marginalizado. Quando um
sistema de saúde trata a pele escura como “menos urgente”, não é apenas falha
técnica, mas sintoma de disbiose social. Estudos mostram que preconceitos
implícitos resultam em menor prescrição de medicamentos analgésicos a pacientes
negros, mesmo em condições idênticas. A pastoral da saúde precisa assumir esse
diagnóstico ético. Comunidades eclesiais que promovem escuta ativa e
protagonismo de populações marginalizadas podem atuar como antídoto para essa
disbiose, restaurando equilíbrio comunitário e espiritual.
Medicalização da existência
A medicalização da vida
cotidiana é outra forma de disbiose cultural. Tristeza é rapidamente
transformada em depressão medicada; inquietação se torna déficit de atenção;
envelhecimento vira falha a ser corrigida por tecnologias estéticas.
Merleau-Ponty (1999, p. 203) nos lembra que “o corpo é a nossa forma de estar
no mundo”. Reduzir o corpo a máquina e a mente a desajuste químico ignora a
riqueza da experiência humana, silenciando linguagem, dor e expressão
existencial. Essa patologização da diferença prejudica a comunidade: sufoca a
pluralidade, criatividade e capacidade de cuidado mútuo. Freire (1987, p. 45)
enfatiza que o cuidado educativo e solidário deve acolher diferenças,
valorizando experiências e saberes distintos, não apenas padronizar respostas.
Espiritualidade e exclusão
A instrumentalização da
religião é outra fonte de disbiose social. Espiritualidades comunitárias
deveriam ser fermento de vida e acolhimento. Quando transformadas em
instrumentos de poder, determinam quem merece viver e quem pode ser abandonado.
Freire nos lembra que a verdadeira espiritualidade é libertadora e comunitária,
não opressora. Pastores e agentes de pastoral devem inspirar-se nessa
perspectiva, promovendo práticas inclusivas, apoio a grupos vulneráveis e
fortalecimento de vínculos comunitários, transformando fé em ação de cuidado e
vida compartilhada.
O sujeito e a consciência do comum
Husserl nos lembra que a
consciência se realiza ao confrontar as feridas do mundo. Reconhecer o outro,
sentir sua dor e agir coletivamente é condição de maturidade ética e
espiritual. O cuidado ético e pastoral exige solidariedade ativa. Redes
comunitárias, grupos de apoio e iniciativas educativas fortalecem a consciência
coletiva, promovendo equilíbrio social e espiritual. A diversidade, seja
microbiológica, social ou cultural, é essencial para a vida plena e para a
saúde coletiva.
Conclusão: curar as feridas do corpo
Assim como a microbiota
depende de diversidade para gerar vida, a sociedade precisa de justiça,
solidariedade e partilha para não adoecer. Curar a disbiose contemporânea exige
coragem de dizer o que não se diz: a saúde de cada um depende do todo, e o todo
só será saudável quando ninguém for descartado. É preciso ousar falar das
injustiças que não cabem em protocolos médicos, recusar o silêncio das
universidades diante da desigualdade, reconhecer que espiritualidade é
liberdade e não poder disciplinador, recolocar o cuidado como gesto humano e
não mercadoria, e acolher diferenças como diversidade vital e não como desvio a
ser corrigido. A pastoral da saúde precisa dessa coragem. A vida comunitária
floresce quando todos têm voz, dignidade e acesso ao cuidado. Assim como a
microbiota saudável sustenta a vida, a sociedade justa sustenta a humanidade.
Referências
BÍBLIA Pastoral. São
Paulo: Paulus, 2020
FOUCAULT, Michel. História
da Sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
FREIRE, Paulo. Pedagogia
do oprimido. Edição comemorativa de 50 anos. São Paulo: Paz e
Terra, 2018. ISBN 978-85-7753-418-6.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica:
o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução de Maurício
Liesen. Belo Horizonte: Editora Ayiné, 2018. ISBN 978-85-92964-93-0.
HUSSERL, Edmund. A
ideia da fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 2006.
ILLICH, Ivan. A
expropriação da saúde: Nêmesis da medicina. Tradução de José
Kosinski de Cavalcanti. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2022. ISBN 978-85-209-3820-2.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia
da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
MOUNIER, Emmanuel. O
Personalismo. Tradução de João Bernard da Costa. São Paulo: Martins
Fontes, 1973. ISBN 978-85-336-0163-0.
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