"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O
VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"
[Parte IX-01]
"Onde houver tristeza, que eu
leve a alegria!"
[Atribuída a São Francisco de Assis]
ONDE HOUVER TRISTEZA, QUE EU LEVE A
ALEGRIA!
Diz
a canção que tristeza não tem fim, felicidade sim. Sem abrir mão do otimismo, o
que o princípio de realidade tem a dizer sobre isso? Uma criança em rota de
fuga, obrigada a abandonar sua pátria rumo a um campo de refugiados, volta-se
para a câmera e interpela: “o que foi que nós fizemos de errado?” Nada! Não
fizeram nada. Ainda assim, há tristeza em seus olhos e incerteza em seus
passos. Tristeza sem fim. Vida que segue. O corpo frágil de uma bebê é
encontrado sem vida numa praia deserta e inóspita, após escapar dos braços da
mãe durante a travessia de um barco superlotado. Testemunhas não há: ninguém
viu, ninguém ouviu, ninguém sabe de nada. Sofrimento que denuncia: “a mim,
também me fez o amor eterno”. Tristeza sem fim. Vida que segue. Uma jovem
atravessa correndo a rua; nua; gritando desesperada. A tristeza transmutou-se
em desespero. O mundo todo viu. Se comoveu ou se entristeceu, não disse
palavra; pouco ou nada fez. Grito dos inocentes, silêncio dos Pilatos.
Vietnã
nunca mais?
Vietnã
nunca mais!
Vietnã
nunca mais.
Tristeza
não tem fim, felicidade sim. Vida que segue.
Durante
um ano inteiro ele esteve ao lado da filha, oito anos, numa enfermaria. Via-a
partir aos poucos, dia após dia, sem poder fazer nada. Tentava sorrir, brincar,
alegrá-la, mas o máximo que conseguia eram lágrimas rolando pela face. Não
dela, dele. “Está tudo bem, papai, está tudo bem; não precisa chorar!”. Quem
consolava era ela. Até que um dia, dia do qual ele jamais se esqueceria, o
médico o chamou à parte: “Creio que é chegada a hora de despedir-se.” À filha,
não conseguiu dizer palavra. Abraçou-a forte. Abraço que durou uma eternidade.
Pela última vez, a filha sorriu: “Vai ficar tudo bem, papai, vai ficar tudo
bem! Se quiser, pode dizer adeus!”. Enquanto a filha sorria, ele chorava. E foi
assim que ambos se despediram: em meio a um sorriso a iluminar o rosto da
filha, e um mar de lágrimas a inundar o rosto do pai. Tristeza não tem fim,
felicidade sim. Vida que segue.
Caminhavam
juntos, de mãos dadas, em silêncio forçado. A mãe apertava contra o peito um
embrulho mínimo; o pai carregava uma mala vazia, não por esquecimento, mas
porque nada lhes fora permitido levar, além do corpo cansado. Antes de sair,
sentada numa cadeira de rodas, a avó centenária quis saber se voltariam para
casa. Ninguém ousou responder nada. O trem chegou sem aviso prévio, como chegam
as sentenças irrecorríveis. Empurrões, números, ordens secas numa língua
estranha. Ao longe, o campo se impunha com suas cercas altas, fumaça baixa e um
cheiro insuportável. “Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate” - “Abandonai toda
esperança, vós que entrais” - deixou registrado Dante, à porta de entrada do
seu inferno. “É só por um tempo; logo logo a gente volta”, sussurrou a mãe, não
tanto para consolar a filha, mas tentando convencer a si mesma. No barracão, a
noite caiu cedo; no céu, nada de estrelas, apenas nuvens escuras. Pela manhã,
foram todos separados. Um aceno rápido, um olhar que dizia tudo, nenhuma
palavra que sinalizasse esperança. Depois, "tudo está consumado!".
Destino selado: passos interrompidos, nomes apagados, vidas reduzidas a pó;
nada mais. Tristeza não tem fim, felicidade sim. Vida que segue.
Holocausto,
nunca mais?
Holocausto
nunca mais!
Holocausto
nunca mais.
“Onde
houver tristeza, que eu leve a alegria!”. Desconfio que palhaços não pintam o
rosto apenas para parecer engraçados; fazem isso também como artimanha,
tentando esconder a dor e a tristeza que habitam suas almas. O espetáculo
precisa continuar. Vida que segue. E palhaços costumam ser a alma do espetáculo,
assim como cortes sempre precisaram de “bobos” para se alegrar. Fui
surpreendido ao folhear uma vez mais o "Pequeno tratado das grandes
virtudes", de André Comte-Sponville, e verificar que a alegria não estava
lá. Perguntei-me: é possível que a alegria não seja considerada uma virtude?
Comte-Sponville esclareceria mais tarde: a alegria é antes um efeito, um sinal
ou um fruto da vida virtuosa, não uma virtude em si; é um estado da alma, uma
experiência afetiva que pode resultar das disposições virtuosas. E arremata:
"não somos virtuosos porque somos alegres - somos alegres porque, às
vezes, conseguimos ser virtuosos". Ou seja: de acordo com Comte-Sponville
a alegria, sem ser virtude, é fruto de uma semente chamada virtude; ou, mais
precisamente, chamada virtuosidade. Isso nos remete de novo ao princípio de que
todo efeito, necessariamente, é precedido por uma causa. Ciência pura.
OSHO,
mestre oriental mundialmente conhecido, prefere seguir em outra direção,
sugerindo uma inversão revolucionária. Convicto de que esperar não é a atitude
mais promissora, e menos ainda a mais sensata, ele propõe: “Crie o efeito - e a
causa virá". Com essa inversão paradigmática ele adverte para o perigo de
se aceitar ser mero joguete das circunstâncias e simples marionetes nas mãos
das consequências. Transportando sua "revolução copernicana" para o
campo da espiritualidade: não espere pela fé para começar a rezar - reze! Reze
sobretudo nos momentos de aridez da alma, quando as palavras soam ocas, quando
Deus permanece em silêncio e os céus parecem fechados. A persistência do gesto
abrirá uma fresta por onde a fé poderá entrar. Da mesma forma, não espere que o
amor esteja presente para começar a cuidar - cuide! Cuide sobretudo quando o
amor se mostra exausto, a paixão parece anestesiada e o afeto respira com
dificuldade. Há dias em que amar não é sentir, e muito menos extasiar-se;
quando muito, é sobreviver, resistir, sustentar. O mais surpreendente é
constatar que é justamente essa atenção pouco espontânea e mais deliberada, menos
grandiosa e mais singela, menos ruidosa e mais silenciosa, que muitas vezes
acaba abrindo caminho para que o amor volte a pulsar, e o relacionamento
recupere, pouco a pouco, a vitalidade necessária para se sustentar e reavivar.
Quanto à alegria, não espere ser tomado por ela para começar a partilhá-la -
sorria! Mais que simplesmente sorrir, surpreenda: sorria especialmente nas
situações em que seria perfeitamente compreensível uma cara fechada. O coração
tem razões que a própria razão desconhece. Reanimar quem está triste é razão
mais que suficiente para alegrar-se. Como se isso não bastasse, acabamos sendo
moldados pela alegria que compartilhamos. É gratificante saber que, quem não é,
pode tornar-se. Nesse horizonte de sentido, a alegria deixa de ser somente
fruto ou recompensa - tal como a concebe Comte-Sponville - e passa a ser também
semente fecunda que produz frutos preciosos - tal como sugere Osho. No mundo da
ciência, a causa produz o efeito; no mundo do espírito - onde habitam afetos,
emoções e sentimentos - também o efeito produz a causa. Isso, convenhamos, não
deixa de ser um grande milagre. Tristeza, também tem fim. Felicidade também
pode recomeçar.
A
oração de Francisco parece intuir essa inversão de princípio, muito antes que
ela fosse nomeada por Osho. “Onde houver tristeza, que eu leve a alegria!” não
é mero consolo tardio; é decisão consciente de levar alívio e consolo ainda
antes de se poder usufruir desse mesmo benefício. Francisco não suplica:
“Concede-me, Senhor, alegria em abundância, para que assim eu possa levá-la a
quem dela necessita.” Não espera que a alegria o invada para que possa começar
a agir. Sua oração não descreve um homem privilegiado, repleto de alegria - tal
como Maria, cheia de graça - mas um ser humano simples, sensível e solidário,
capaz de se entregar sem certezas e sem qualquer promessa de recompensa. É
justamente nessa disposição sem reservas, e nessa entrega generosa, que a
alegria encontra solo fértil para brotar e frutificar, justamente ali, onde
sequer semente existia. Tristeza também tem fim. Felicidade pode retornar, um
dia.
Não
sem razão, a pessoa de Francisco encontra no palhaço a imagem mais
desconcertante. Assim como esse artista do riso, eles não pintam o rosto porque
estejam tomados de alegria, mas porque é urgente levá-la aos corações
entristecidos. Não raro, carregam a própria tristeza disfarçada sob o brilho
das cores, exageram o sorriso e caem de propósito para que outros se levantem
em risos. Arrancam gargalhadas por fora, enquanto suportam por dentro a dor que
não lhes é permitido extravasar. Não esperam estar inteiros para cumprir sua
missão; fazem rir, porque é isso que deles se espera, não importando a quantas
anda seus corações. Ambos, Francisco e o palhaço, não ignoram a dor: convivem
com ela e a carregam consigo por onde vão. Levam alegria, com a esperança de
que, ao partilhá-la, consigam aliviar não só a tristeza do outro, mas também a
própria dor. É nesse ato de doação extrema e generosidade suprema que a alegria
encontra uma fresta para entrar, permanecer, e continuar cumprindo sua missão:
trazer de volta a leveza e o contentamento ao coração.
Tristeza
também tem fim. Felicidade também pode regressar quando menos se espera.
No
vínculo conjugal, essa lógica paradoxal se mostra ainda mais exigente. Esperar
disposição para então se dispor a cuidar; esperar arrependimento, para então se
dispor a compreender; esperar retribuição para então se dispor a ajudar, é
esperar demais e agir de menos. Há dias em que o amor não aquece, em que a
paciência escasseia, em que a alegria não comparece: são dias em que o amor sai
de cena. Como aplicar concretamente a estratégia sugerida por Osho - "Crie
o efeito - a causa virá" - a um matrimônio que se encontra já na UTI, à
beira do colapso, e assim abrir um novo caminho para que o relacionamento possa
brilhar novamente? É sobre isso que refletiremos no próximo tópico da presente
abordagem.
Obs.: Esta nona parte, tópico 01, será
complementada pela parte 02 de mesmo título.
(* ) Reflexão enviada por WhatsApp
pelo autor, de Vitoria (ES).
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