sábado, 21 de fevereiro de 2026

08- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 

 08-               REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (* )

 


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

 

                  [Parte IX-01]

 

             "Onde houver tristeza, que eu leve a alegria!"

                  [Atribuída a  São Francisco de Assis]

 

ONDE HOUVER TRISTEZA, QUE EU LEVE A ALEGRIA!

 

Diz a canção que tristeza não tem fim, felicidade sim. Sem abrir mão do otimismo, o que o princípio de realidade tem a dizer sobre isso? Uma criança em rota de fuga, obrigada a abandonar sua pátria rumo a um campo de refugiados, volta-se para a câmera e interpela: “o que foi que nós fizemos de errado?” Nada! Não fizeram nada. Ainda assim, há tristeza em seus olhos e incerteza em seus passos. Tristeza sem fim. Vida que segue. O corpo frágil de uma bebê é encontrado sem vida numa praia deserta e inóspita, após escapar dos braços da mãe durante a travessia de um barco superlotado. Testemunhas não há: ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe de nada. Sofrimento que denuncia: “a mim, também me fez o amor eterno”. Tristeza sem fim. Vida que segue. Uma jovem atravessa correndo a rua; nua; gritando desesperada. A tristeza transmutou-se em desespero. O mundo todo viu. Se comoveu ou se entristeceu, não disse palavra; pouco ou nada fez. Grito dos inocentes, silêncio dos Pilatos.

Vietnã nunca mais?

Vietnã nunca mais!

Vietnã nunca mais.

Tristeza não tem fim, felicidade sim. Vida que segue.

 

Durante um ano inteiro ele esteve ao lado da filha, oito anos, numa enfermaria. Via-a partir aos poucos, dia após dia, sem poder fazer nada. Tentava sorrir, brincar, alegrá-la, mas o máximo que conseguia eram lágrimas rolando pela face. Não dela, dele. “Está tudo bem, papai, está tudo bem; não precisa chorar!”. Quem consolava era ela. Até que um dia, dia do qual ele jamais se esqueceria, o médico o chamou à parte: “Creio que é chegada a hora de despedir-se.” À filha, não conseguiu dizer palavra. Abraçou-a forte. Abraço que durou uma eternidade. Pela última vez, a filha sorriu: “Vai ficar tudo bem, papai, vai ficar tudo bem! Se quiser, pode dizer adeus!”. Enquanto a filha sorria, ele chorava. E foi assim que ambos se despediram: em meio a um sorriso a iluminar o rosto da filha, e um mar de lágrimas a inundar o rosto do pai. Tristeza não tem fim, felicidade sim. Vida que segue.

 

Caminhavam juntos, de mãos dadas, em silêncio forçado. A mãe apertava contra o peito um embrulho mínimo; o pai carregava uma mala vazia, não por esquecimento, mas porque nada lhes fora permitido levar, além do corpo cansado. Antes de sair, sentada numa cadeira de rodas, a avó centenária quis saber se voltariam para casa. Ninguém ousou responder nada. O trem chegou sem aviso prévio, como chegam as sentenças irrecorríveis. Empurrões, números, ordens secas numa língua estranha. Ao longe, o campo se impunha com suas cercas altas, fumaça baixa e um cheiro insuportável. “Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate” - “Abandonai toda esperança, vós que entrais” - deixou registrado Dante, à porta de entrada do seu inferno. “É só por um tempo; logo logo a gente volta”, sussurrou a mãe, não tanto para consolar a filha, mas tentando convencer a si mesma. No barracão, a noite caiu cedo; no céu, nada de estrelas, apenas nuvens escuras. Pela manhã, foram todos separados. Um aceno rápido, um olhar que dizia tudo, nenhuma palavra que sinalizasse esperança. Depois, "tudo está consumado!". Destino selado: passos interrompidos, nomes apagados, vidas reduzidas a pó; nada mais. Tristeza não tem fim, felicidade sim. Vida que segue.

Holocausto, nunca mais?

Holocausto nunca mais!

Holocausto nunca mais.

 

“Onde houver tristeza, que eu leve a alegria!”. Desconfio que palhaços não pintam o rosto apenas para parecer engraçados; fazem isso também como artimanha, tentando esconder a dor e a tristeza que habitam suas almas. O espetáculo precisa continuar. Vida que segue. E palhaços costumam ser a alma do espetáculo, assim como cortes sempre precisaram de “bobos” para se alegrar. Fui surpreendido ao folhear uma vez mais o "Pequeno tratado das grandes virtudes", de André Comte-Sponville, e verificar que a alegria não estava lá. Perguntei-me: é possível que a alegria não seja considerada uma virtude? Comte-Sponville esclareceria mais tarde: a alegria é antes um efeito, um sinal ou um fruto da vida virtuosa, não uma virtude em si; é um estado da alma, uma experiência afetiva que pode resultar das disposições virtuosas. E arremata: "não somos virtuosos porque somos alegres - somos alegres porque, às vezes, conseguimos ser virtuosos". Ou seja: de acordo com Comte-Sponville a alegria, sem ser virtude, é fruto de uma semente chamada virtude; ou, mais precisamente, chamada virtuosidade. Isso nos remete de novo ao princípio de que todo efeito, necessariamente, é precedido por uma causa. Ciência pura.

 

OSHO, mestre oriental mundialmente conhecido, prefere seguir em outra direção, sugerindo uma inversão revolucionária. Convicto de que esperar não é a atitude mais promissora, e menos ainda a mais sensata, ele propõe: “Crie o efeito - e a causa virá". Com essa inversão paradigmática ele adverte para o perigo de se aceitar ser mero joguete das circunstâncias e simples marionetes nas mãos das consequências. Transportando sua "revolução copernicana" para o campo da espiritualidade: não espere pela fé para começar a rezar - reze! Reze sobretudo nos momentos de aridez da alma, quando as palavras soam ocas, quando Deus permanece em silêncio e os céus parecem fechados. A persistência do gesto abrirá uma fresta por onde a fé poderá entrar. Da mesma forma, não espere que o amor esteja presente para começar a cuidar - cuide! Cuide sobretudo quando o amor se mostra exausto, a paixão parece anestesiada e o afeto respira com dificuldade. Há dias em que amar não é sentir, e muito menos extasiar-se; quando muito, é sobreviver, resistir, sustentar. O mais surpreendente é constatar que é justamente essa atenção pouco espontânea e mais deliberada, menos grandiosa e mais singela, menos ruidosa e mais silenciosa, que muitas vezes acaba abrindo caminho para que o amor volte a pulsar, e o relacionamento recupere, pouco a pouco, a vitalidade necessária para se sustentar e reavivar. Quanto à alegria, não espere ser tomado por ela para começar a partilhá-la - sorria! Mais que simplesmente sorrir, surpreenda: sorria especialmente nas situações em que seria perfeitamente compreensível uma cara fechada. O coração tem razões que a própria razão desconhece. Reanimar quem está triste é razão mais que suficiente para alegrar-se. Como se isso não bastasse, acabamos sendo moldados pela alegria que compartilhamos. É gratificante saber que, quem não é, pode tornar-se. Nesse horizonte de sentido, a alegria deixa de ser somente fruto ou recompensa - tal como a concebe Comte-Sponville - e passa a ser também semente fecunda que produz frutos preciosos - tal como sugere Osho. No mundo da ciência, a causa produz o efeito; no mundo do espírito - onde habitam afetos, emoções e sentimentos - também o efeito produz a causa. Isso, convenhamos, não deixa de ser um grande milagre. Tristeza, também tem fim. Felicidade também pode recomeçar.

 

A oração de Francisco parece intuir essa inversão de princípio, muito antes que ela fosse nomeada por Osho. “Onde houver tristeza, que eu leve a alegria!” não é mero consolo tardio; é decisão consciente de levar alívio e consolo ainda antes de se poder usufruir desse mesmo benefício. Francisco não suplica: “Concede-me, Senhor, alegria em abundância, para que assim eu possa levá-la a quem dela necessita.” Não espera que a alegria o invada para que possa começar a agir. Sua oração não descreve um homem privilegiado, repleto de alegria - tal como Maria, cheia de graça - mas um ser humano simples, sensível e solidário, capaz de se entregar sem certezas e sem qualquer promessa de recompensa. É justamente nessa disposição sem reservas, e nessa entrega generosa, que a alegria encontra solo fértil para brotar e frutificar, justamente ali, onde sequer semente existia. Tristeza também tem fim. Felicidade pode retornar, um dia.

 

Não sem razão, a pessoa de Francisco encontra no palhaço a imagem mais desconcertante. Assim como esse artista do riso, eles não pintam o rosto porque estejam tomados de alegria, mas porque é urgente levá-la aos corações entristecidos. Não raro, carregam a própria tristeza disfarçada sob o brilho das cores, exageram o sorriso e caem de propósito para que outros se levantem em risos. Arrancam gargalhadas por fora, enquanto suportam por dentro a dor que não lhes é permitido extravasar. Não esperam estar inteiros para cumprir sua missão; fazem rir, porque é isso que deles se espera, não importando a quantas anda seus corações. Ambos, Francisco e o palhaço, não ignoram a dor: convivem com ela e a carregam consigo por onde vão. Levam alegria, com a esperança de que, ao partilhá-la, consigam aliviar não só a tristeza do outro, mas também a própria dor. É nesse ato de doação extrema e generosidade suprema que a alegria encontra uma fresta para entrar, permanecer, e continuar cumprindo sua missão: trazer de volta a leveza e o contentamento ao coração.

Tristeza também tem fim. Felicidade também pode regressar quando menos se espera.

 

No vínculo conjugal, essa lógica paradoxal se mostra ainda mais exigente. Esperar disposição para então se dispor a cuidar; esperar arrependimento, para então se dispor a compreender; esperar retribuição para então se dispor a ajudar, é esperar demais e agir de menos. Há dias em que o amor não aquece, em que a paciência escasseia, em que a alegria não comparece: são dias em que o amor sai de cena. Como aplicar concretamente a estratégia sugerida por Osho - "Crie o efeito - a causa virá" - a um matrimônio que se encontra já na UTI, à beira do colapso, e assim abrir um novo caminho para que o relacionamento possa brilhar novamente? É sobre isso que refletiremos no próximo tópico da presente abordagem.

 

 

Obs.: Esta nona parte, tópico 01, será complementada pela parte 02 de mesmo título.

 

           (* ) Reflexão enviada por WhatsApp pelo autor, de Vitoria (ES).

Nenhum comentário:

Postar um comentário