7-JESUS CRISTO NO ROSTO DO POBRE: uma breve leitura
da exortação Dilexi Te (“Eu t amei”)
Por Pe. Antonio Iraildo Alves de
Brito, ssp*
A
exortação “Dilexi Te” reafirma o amor de Cristo como o núcleo da missão
eclesial, transfigurando o rosto do pobre em lugar teológico de revelação. O
artigo analisa a denúncia das estruturas de exclusão e a falácia da
meritocracia, propondo uma “Igreja hospital de campanha” que acolhe as chagas
do mundo.
A história da Igreja é marcada por documentos que funcionam como
bússolas para tempos de crise. A Exortação Apostólica Dilexi Te, do
papa Leão XIV, surge como um desses marcos providenciais. Ao assumir e expandir
o projeto iniciado pelo papa Francisco em seus últimos meses de vida, Leão XIV
não apenas honra o legado de seu antecessor, mas também consolida uma teologia
em que a espiritualidade e a justiça social são indissociáveis. O pobre é um
lugar teológico onde Deus revela sua maior predileção. Em um mundo fragmentado
pelo individualismo digital e pela tecnocracia, a Dilexi Te convoca
a Igreja para não perder de vista sua identidade no serviço aos mais frágeis,
reafirmando que o amor de Cristo é a medida de toda ação humana.
1. O
altar das periferias
A grande contribuição teológica da Dilexi Te reside na
afirmação de que o contato com o pobre não pertence meramente ao horizonte da
“assistência” ou da “filantropia”, mas sobretudo ao da “revelação”. O papa Leão
XIV argumenta, com base em uma leitura profunda das Escrituras, que Jesus de
Nazaré não apenas defendeu os pobres, mas também assumiu sua condição
ontológica. No mistério da encarnação, Deus não escolhe a neutralidade. Ele escolhe
a margem, fazendo da carência seu santuário. Ao analisar o episódio da mulher
que unge Jesus com um perfume precioso (Mt 26), a exortação reverte a lógica
funcionalista. Enquanto os discípulos viam um “desperdício” de recursos que
poderiam ser monetizados, Jesus vê um gesto de amor profético que antecipa o
bálsamo da ressurreição sobre o corpo macerado da humanidade.
O texto revela que o afeto pelo Senhor e o afeto pelos pobres são
correntes que se alimentam mutuamente. A pobreza de Jesus, desde a manjedoura
até a cruz – na qual ele morre “fora dos muros”, na exclusão total –, é
apresentada como o privilegium pauperum (privilégio dos
pobres). Teologicamente, o documento resgata o conceito de “Cristo no pobre”.
Quando Jesus afirma “a mim o fizestes” (Mt 25,40), estabelece uma identidade
mística que transforma o necessitado em um “sacramento vivo”.
Portanto, a opção preferencial pelos pobres, tão viva nos documentos das
Conferências Episcopais Latino-americanas e Caribenhas, não é um apêndice ético
da fé ou uma escolha ideológica de uma ala da Igreja: é uma exigência
cristológica. É Evangelho. Ignorar o sofrimento do outro é não apenas uma falha
moral, mas também um ato de “surdez espiritual” à própria voz de Deus, que
clama na história. A santidade, conforme descrita no capítulo II da exortação,
é impossível se se faz uma separação entre o incenso do altar e a poeira da
rua. O altar do sacrifício e a mesa do indigente são, em última análise, o
mesmo lugar onde o Ressuscitado parte o pão da esperança.
2.
Entre o luxo e o lixo
No segundo eixo, a exortação mergulha na análise sociopolítica. Ali,
Leão XIV confronta as “ideologias mundanas” que se infiltram na mentalidade
cristã contemporânea. O texto é contundente ao desmascarar a falsa narrativa da
meritocracia, essa “névoa dourada” que cega os privilegiados para não verem as
correntes que prendem os pés dos humildes. Em um sistema que ignora o ponto de
partida desigual dos indivíduos, a meritocracia torna-se uma ferramenta de
crueldade, utilizada para justificar a opulência de poucos e a miséria de
muitos. A exortação denuncia que a pobreza não é um “destino cego” ou uma
“falta de esforço”, mas o resultado de estruturas de pecado que se tornaram
arquitetura social.
O papa destaca a “poética da dor” daqueles que trabalham exaustivamente,
do amanhecer ao anoitecer, em funções degradantes, apenas para garantir a
subsistência mínima, sem que o sistema lhes permita sequer sonhar com o amanhã.
Ao fazer isso, o documento quer atingir o coração do sistema econômico atual,
que prefere a frieza dos números ao calor do sangue humano.
O conceito de “cultura do descarte”, amplamente trabalhado por Francisco
e agora aprofundado por Leão XIV, descreve uma sociedade que trata seres humanos
como excedentes sem serventia. O documento cita as “novas pobrezas” como
feridas abertas: a exclusão digital, que cria novos analfabetos de cidadania; a
pobreza energética, que apaga a luz da dignidade; e, de modo dilacerante, a
vulnerabilidade das mulheres, “flores pisoteadas” por sistemas de violência e
desigualdade. A crítica se estende à indiferença globalizada, essa “anestesia
da alma” que nos permite ver a tragédia de uma criança naufragada como se fosse
apenas mais uma imagem em uma tela de vidro. A economia, para ser cristã, deve
deixar de ser um cálculo de lucros para ser um hino à vida plena.
3. A
Igreja como hospital de campanha
No terceiro subtítulo, a reflexão volta-se para a práxis eclesial.
Inspirado pelo desejo de Francisco de uma “Igreja pobre e para os pobres”, Leão
XIV propõe uma reforma que vá além da estética: uma conversão do olhar que
transforme a instituição em um abraço. A Igreja das bem-aventuranças não é uma
empresa de serviços religiosos, mas uma “mãe de rosto samaritano” que se
inclina sobre as feridas da história. A exortação recupera a figura dos
primeiros diáconos (At 6) para mostrar que a caridade nunca foi o “setor
social” da Igreja, mas sua própria respiração.
A união entre o testemunho de Santo Estêvão e o serviço às mesas
simboliza que a liturgia mais bela é aquela que se traduz em pão repartido. O
documento convoca as paróquias e as instituições católicas para abandonarem a
segurança de seus muros a fim de se tornarem “faróis de luz” em meio às trevas
da exclusão.
O profetismo da Dilexi Te reside na proposta de que os
pobres não devem ser apenas “objetos” de piedade, mas mestres de fé. Eles
possuem a “ciência da resistência” e a “teologia da confiança” que faltam às
elites saciadas. O texto desafia as comunidades a trocar o paternalismo pela
fraternidade real. Não basta dar o pão; é preciso partilhar a vida, ouvir os
silêncios e lutar contra as mãos invisíveis que geram a escassez.
Leão XIV insiste que a credibilidade da Igreja, no século XXI, será
medida pela sua capacidade de tocar, com ternura e coragem, as chagas de Cristo
presentes nos marginalizados. Em um mundo de ruídos e ódios virtuais, a
caridade sintonizada com o clamor das pessoas é a única melodia capaz de
converter corações. A missão eclesial encontra autenticidade quando se torna
abrigo para os desterrados e voz para os emudecidos pela dor. Uma Igreja que
não caminha com os pés sujos de estrada não conhece o caminho do Calvário nem a
luz da Galileia.
Conclusão
A Exortação Apostólica Dilexi Te não é apenas mais um
documento na vasta produção do magistério da Igreja; tampouco é uma coleção de
conselhos piedosos. Na verdade, é um manifesto profético, poético e teológico
para chamar a atenção da humanidade em tempos de barbárie. Ao centrar sua
mensagem no “Eu te amei” de Cristo dirigido aos mais frágeis, o papa Leão XIV
oferece uma bússola que aponta o caminho para o coração de Deus através das
periferias existenciais.
A exortação do papa Leão enfatiza que a santidade cristã é uma teia
tecida com os fios da justiça e da compaixão. Se a Igreja for fiel à melodia
da Dilexi Te, deixará de ser vista como uma guardiã de leis frias
para ser sentida como a casa onde todos os filhos e filhas, especialmente os
que nada têm, são amados sem reservas. O desafio é converter o “clamor do
pobre” no “cântico da Igreja”. Afinal, no entardecer da existência, as palavras
silenciarão, os títulos sumirão e restará apenas a marca do amor que fomos
capazes de semear nas fendas do mundo.
Referências bibliográficas
BÍBLIA Sagrada. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Documentos do Concílio Ecumênico
Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997.
LEÃO XIV, Papa. Dilexi Te: Exortação Apostólica sobre o amor
para com os pobres. São Paulo: Paulus, 2025.
Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito,
ssp*
*Antonio Iraildo Alves de Brito é
padre paulino, doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP). É jornalista e poeta. É professor na Faculdade
Paulus de Comunicação (Fapcom) e editor de Vida Pastoral.
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