sexta-feira, 17 de julho de 2026

8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)(**)

 8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)(**)


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"

               [Parte XIV - 02]

               "Ó Mestre, fazei-me instrumento da vossa paz"

                  [Atribuída  a São Francisco de Assis]

Não deixa de ser curioso: enquanto jamais se ouviu dizer que a política tenha feito parte do projeto salvífico do Criador, para um considerável número de religiões parece absolutamente certo que a família - tal como a concebem, sobretudo, o judaísmo e o cristianismo - sim, sempre fez. "Por isso, o homem deixará pai e mãe, unir-se-á à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne." Essa máxima encontra-se tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, onde é retomada por Jesus em Mateus e Marcos, além de ser citada por São Paulo na Carta aos Efésios. Não há nenhum "mandato" ou ordem semelhante a essa, relacionada ao exercício da vida política. Talvez por isso ministros religiosos se percam tanto quando se aventuram a transitar por esse espaço da vida pública, chegando a ocupar cargos dentro dele. Por outro lado, salvaguardado o mérito da boa e da reta intenção, soa incompreensível e contraditório que justamente pessoas celibatárias se considerem as mais preparadas e capacitadas para ditar regras e orientar famílias, casais, pais e filhos sobre como devem ou não devem administrar o espaço de sua convivência cotidiana. Mas quem precisaria constituir família, criar filhos e cuidar dos netos para entender dessa complexidade, quando se tem um modelo já pronto, testado e aprovado, como a Família de Nazaré, não é verdade?

Nada contra ideais e idealismo, poesia e lirismo, romance e romantismo; absolutamente nada. Mas já imaginou - apenas hipoteticamente falando, claro - se entre José e Maria houvesse ocorrido brigas, desquite, divórcio ou separação? Nem acesso à sagrada comunhão eles teriam mais. Pois é; ser realista com esperança, como sugere Ariano Suassuna, pode até ser o ideal - "o otimista é um tolo, o pessimista é um chato; bom mesmo é ser realista com esperança" - mas idealizar em excesso pode ser perigoso. Perigoso e por vezes desastroso. Na prática, o que com frequência termina acontecendo é que um grande número de casais acabam vivenciando dois casamentos totalmente distintos: um "ad intra", e outro "ad extra". O primeiro refere-se ao que acontece de fato e sem máscaras internamente, no âmbito de uma pessoa, família, grupo, instituição ou relacionamento. Esse tipo não tem como ocultar sua vulnerabilidade ao barulho, à fadiga e até mesmo à sujeira. O segundo refere-se ao que, de forma ilusória e dissimulada, se manifesta ou se deixa conhecer pelo mundo externo, pelos outros. Nesse segundo tipo, barulho, fadiga e sujeira acabam quase sempre varridos para debaixo do tapete.

O problema é que o excesso de idealismo costuma acarretar também excesso de perfeccionismo. E onde há excesso de perfeccionismo, sobra pouquíssimo espaço - quando sobra - para erros, imperfeições, conflitos e tensões. Sujeira pesada, então, nem pensar. "Roupa suja se lava em casa", sugere a sabedoria popular; "sujeira se combate com puritanismo" - conclui prontamente o perfeccionista. São gêmeos univitelinos o perfeccionismo e o puritanismo. Mas o que poucos sabem é que, separados ou conjugadamente, ambos são excelentes coadjuvantes no desenvolvimento de transtornos obsessivo-compulsivos - comumente chamados de TOCs. Alguns exemplos desse repertório são o TOC de ordem e simetria - marcado pela busca inesgotável de perfeição, pureza e correção - o TOC de escrupulosidade - relacionado à culpa excessiva, ao medo de falhar moralmente e à necessidade de alcançar uma suposta pureza espiritual - e o TOC de verificação - caracterizado pela necessidade de revisar continuamente atitudes, pensamentos e comportamentos, visando evitar erros, faltas ou transgressões.

Barulho, fadiga e sujeira: esse é o tripé sobre o qual, de acordo com Nietzsche, se assenta a prática política. Perguntávamos se o relacionamento conjugal - e por extensão a família - seria vulnerável também à "sujeira", e não somente ao "barulho" e à "fadiga". Afinal, por mais distintos que sejam o exercício da "res publica" e o exercício da "res privata", não há como negar: a mesma cabeça que administra uma administra também a outra e vice-versa. Consequentemente, se há sujeira de todo tipo permeando o exercício da política, seria difícil imaginar que o vínculo conjugal e a família consigam permanecer completamente imunes a essa deterioração. A violência física talvez constitua a mais grave de todas essas sujeiras. Isso porque ela representa a completa degradação do relacionamento, ao romper o limite mais elementar do respeito à integridade do parceiro. Empurrões, tapas, socos, chutes, estrangulamentos e qualquer outra forma de agressão corporal jamais podem ser tratados como mero descontrole ou consequência de uma discussão mais acalorada.

Quando um ou ambos os cônjuges levantam a mão um contra o outro, o casamento deixa de ser um lugar de proteção e cuidado para tornar-se um ambiente de dor, medo e humilhação. As marcas deixadas pela violência física nem sempre desaparecem quando os hematomas cicatrizam, pois frequentemente permanecem gravadas na memória, afetando a autoestima e a capacidade de confiar novamente. Nenhuma justificativa, provocação ou crise conjugal é suficiente para transformar a agressão física em algo aceitável. Onde existe violência física e o amor é substituído pela força bruta, a convivência passa a ser marcada não mais pelo respeito e pela confiança, mas sim pelo medo e a intimidação. Na convivência conjugal, praticamente tudo é negociável, menos a violência física; sobretudo quando ela se torna recorrente e até mesmo rotina.

 

Para a grande maioria dos casais, a traição - referimo-nos aqui àquela de natureza física e sexual - é a grande vilã quando o assunto diz respeito à sujeira na convivência conjugal, superando inclusive a violência física. Ao menos sob certo prisma, isso deveria ser considerado preocupante. O fato é que a traição de natureza sexual rompe os laços de confiança e do respeito que sustentam o vínculo. Na prática, ela não consiste apenas no envolvimento sexual ou afetivo-sexual com uma outra pessoa, mas inclui todo um conjunto de mentiras, ocultações, manipulações e enganos que inevitavelmente acompanham o ato de infidelidade. O cônjuge traído não sofre apenas pela perda da exclusividade física e afetiva, mas também pela dolorosa descoberta de que foi enganado por quem mais deveria inspirar segurança. Uma vez quebrada, dificilmente a confiança é restaurada por completo e, mesmo quando a reconciliação acontece, o processo costuma exigir muito tempo, esforço, arrependimento e profunda disposição para reconstruir aquilo que foi destruído. O mais complexo e devastador da traição, entretanto, é que um único ato pode comprometer todos os alicerces sobre os quais o relacionamento se sustenta. Definitivamente, seja por simples variação do amor, seja por desgaste da relação ou qualquer outra razão, a traição definitivamente não é um bom investimento.

Os vícios constituem outra forma particularmente destrutiva de sujeira que expõe ao fracasso a vida conjugal e familiar. O alcoolismo, a dependência de drogas, workhoolic [vício em trabalho], o jogo compulsivo e outras compulsões tendem a ocupar progressivamente o lugar que deveria pertencer à família e ao próprio vínculo. Aos poucos, desaparecem o diálogo, a responsabilidade, a estabilidade financeira e a confiança. Multiplicam-se as mentiras, as promessas não cumpridas, os conflitos e o sofrimento daqueles que convivem diariamente com a pessoa dominada pela dependência. Em muitos casos, ela passa a comandar todas as decisões da pessoa dependente, tornando o casamento refém de uma realidade marcada pela insegurança, pelo desgaste emocional e pela permanente sensação de impotência diante de um problema que parece não ter fim. Conviver passivamente com um vício - notadamente a dependência alcoólica - recusando-se a tratá-lo, é sem dúvida uma grande prova de desamor tanto para consigo mesmo, como para com o cônjuge e para com os filhos.

A mentira, por sua vez, à primeira vista pode parecer algo menos grave, mas pelos estragos que pode ocasionar, é uma das sujeiras mais corrosivas da vida conjugal. Sobre ela escreveu André Comte-Sponville: "A cada um, ou antes a cada casal, a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me parece menos traído pelo amor - pelo 'outro' amor - do que pela mentira." Silenciosamente, ela vai minando aquilo que sustenta um relacionamento que se projeta para ser duradouro: a confiança. Raramente a mentira comparece sozinha. Na maioria dos casos ela é utilizada como recurso para esconder erros, encobrir traições, disfarçar vícios, ocultar dificuldades financeiras ou fugir das próprias responsabilidades para com o parceiro e o vínculo. Considerada isoladamente, cada mentira pode parecer pequena e inofensiva, mas repetida ao longo do tempo ela transforma a transparência em suspeita, a segurança em insegurança e a cumplicidade em desconfiança permanente. Quando um casal deixa de acreditar na palavra um do outro, o diálogo perde sua força, as boas intenções e as promessas deixam de ter significado, e o vínculo conjugal começa a se deteriorar por dentro. A verdade pode, em certos momentos, causar desconforto e exigir coragem, mas somente ela é capaz de preservar a credibilidade, restaurar a confiança e manter vivo o alicerce sobre o qual um casamento sólido é construído. Se a verdade liberta, como desde cedo se aprende, a mentira aprisiona.

Por fim, e por questões de tempo e espaço, temos a sujeira do abandono. Engana-se quem pensa que abandonar significa apenas sair de casa, romper oficialmente o vínculo ou terminar o casamento. Há pessoas que permanecem sob o mesmo teto durante anos e até mesmo décadas, mas já abandonaram afetiva e relacionalmente o cônjuge e os filhos há muito tempo. Tornam-se indiferentes, deixam de dialogar, recusam-se a oferecer apoio, carinho, presença e corresponsabilidade. Outras abandonam também suas obrigações materiais, transferindo para o cônjuge todo o peso da manutenção econômica e material da família. Poucas experiências são tão dolorosas quanto descobrir que a pessoa que prometeu caminhar ao nosso lado na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, continua presente apenas fisicamente, enquanto seu afeto, sua disponibilidade e seu comprometimento já se ausentaram há muito tempo. Quem passa pela experiência sabe: a presença, quando marcada pela frieza e pela indiferença pode trazer mais dor e sofrimento do que até mesmo o abandono definitivo. Quem abandona trai duas vezes; se tem histórico de abandono, também precisa de ajuda e acompanhamento.

 

Obs.: Esta décima quarta parte, assim como as anteriores, será completada e finalizada com a décima quinta parte, de mesmo título.

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(* )Possui graduação em teologia pelo Instituto teológico pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia, ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha, ES. Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo, individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se recentemente em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES. Atualmente, cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental.

Informações coletadas do Lattes em 24/12/2025

https://www.escavador.com/sobre/3708588/lindolivo-soares-moura

(**) Reflexão enviada pelo autor via Whatsapp, de Vitória (ES).

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