8- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA(*)(**)
"ATÉ
QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE
SÃO FRANCISCO"
[Parte
XIV - 02]
"Ó Mestre, fazei-me
instrumento da vossa paz"
[Atribuída a São Francisco de Assis]
Não
deixa de ser curioso: enquanto jamais se ouviu dizer que a política tenha feito
parte do projeto salvífico do Criador, para um considerável número de religiões
parece absolutamente certo que a família - tal como a concebem, sobretudo, o
judaísmo e o cristianismo - sim, sempre fez. "Por isso, o homem deixará
pai e mãe, unir-se-á à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne."
Essa máxima encontra-se tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, onde é
retomada por Jesus em Mateus e Marcos, além de ser citada por São Paulo na
Carta aos Efésios. Não há nenhum "mandato" ou ordem semelhante a
essa, relacionada ao exercício da vida política. Talvez por isso ministros
religiosos se percam tanto quando se aventuram a transitar por esse espaço da
vida pública, chegando a ocupar cargos dentro dele. Por outro lado,
salvaguardado o mérito da boa e da reta intenção, soa incompreensível e
contraditório que justamente pessoas celibatárias se considerem as mais
preparadas e capacitadas para ditar regras e orientar famílias, casais, pais e
filhos sobre como devem ou não devem administrar o espaço de sua convivência
cotidiana. Mas quem precisaria constituir família, criar filhos e cuidar dos
netos para entender dessa complexidade, quando se tem um modelo já pronto,
testado e aprovado, como a Família de Nazaré, não é verdade?
Nada
contra ideais e idealismo, poesia e lirismo, romance e romantismo;
absolutamente nada. Mas já imaginou - apenas hipoteticamente falando, claro -
se entre José e Maria houvesse ocorrido brigas, desquite, divórcio ou
separação? Nem acesso à sagrada comunhão eles teriam mais. Pois é; ser realista
com esperança, como sugere Ariano Suassuna, pode até ser o ideal - "o
otimista é um tolo, o pessimista é um chato; bom mesmo é ser realista com
esperança" - mas idealizar em excesso pode ser perigoso. Perigoso e por
vezes desastroso. Na prática, o que com frequência termina acontecendo é que um
grande número de casais acabam vivenciando dois casamentos totalmente
distintos: um "ad intra", e outro "ad extra". O primeiro
refere-se ao que acontece de fato e sem máscaras internamente, no âmbito de uma
pessoa, família, grupo, instituição ou relacionamento. Esse tipo não tem como
ocultar sua vulnerabilidade ao barulho, à fadiga e até mesmo à sujeira. O
segundo refere-se ao que, de forma ilusória e dissimulada, se manifesta ou se
deixa conhecer pelo mundo externo, pelos outros. Nesse segundo tipo, barulho,
fadiga e sujeira acabam quase sempre varridos para debaixo do tapete.
O
problema é que o excesso de idealismo costuma acarretar também excesso de
perfeccionismo. E onde há excesso de perfeccionismo, sobra pouquíssimo espaço -
quando sobra - para erros, imperfeições, conflitos e tensões. Sujeira pesada,
então, nem pensar. "Roupa suja se lava em casa", sugere a sabedoria
popular; "sujeira se combate com puritanismo" - conclui prontamente o
perfeccionista. São gêmeos univitelinos o perfeccionismo e o puritanismo. Mas o
que poucos sabem é que, separados ou conjugadamente, ambos são excelentes
coadjuvantes no desenvolvimento de transtornos obsessivo-compulsivos -
comumente chamados de TOCs. Alguns exemplos desse repertório são o TOC de ordem
e simetria - marcado pela busca inesgotável de perfeição, pureza e correção - o
TOC de escrupulosidade - relacionado à culpa excessiva, ao medo de falhar
moralmente e à necessidade de alcançar uma suposta pureza espiritual - e o TOC
de verificação - caracterizado pela necessidade de revisar continuamente
atitudes, pensamentos e comportamentos, visando evitar erros, faltas ou
transgressões.
Barulho,
fadiga e sujeira: esse é o tripé sobre o qual, de acordo com Nietzsche, se
assenta a prática política. Perguntávamos se o relacionamento conjugal - e por
extensão a família - seria vulnerável também à "sujeira", e não
somente ao "barulho" e à "fadiga". Afinal, por mais
distintos que sejam o exercício da "res publica" e o exercício da
"res privata", não há como negar: a mesma cabeça que administra uma
administra também a outra e vice-versa. Consequentemente, se há sujeira de todo
tipo permeando o exercício da política, seria difícil imaginar que o vínculo
conjugal e a família consigam permanecer completamente imunes a essa
deterioração. A violência física talvez constitua a mais grave de todas essas
sujeiras. Isso porque ela representa a completa degradação do relacionamento,
ao romper o limite mais elementar do respeito à integridade do parceiro.
Empurrões, tapas, socos, chutes, estrangulamentos e qualquer outra forma de
agressão corporal jamais podem ser tratados como mero descontrole ou
consequência de uma discussão mais acalorada.
Quando
um ou ambos os cônjuges levantam a mão um contra o outro, o casamento deixa de
ser um lugar de proteção e cuidado para tornar-se um ambiente de dor, medo e
humilhação. As marcas deixadas pela violência física nem sempre desaparecem
quando os hematomas cicatrizam, pois frequentemente permanecem gravadas na
memória, afetando a autoestima e a capacidade de confiar novamente. Nenhuma
justificativa, provocação ou crise conjugal é suficiente para transformar a
agressão física em algo aceitável. Onde existe violência física e o amor é
substituído pela força bruta, a convivência passa a ser marcada não mais pelo
respeito e pela confiança, mas sim pelo medo e a intimidação. Na convivência
conjugal, praticamente tudo é negociável, menos a violência física; sobretudo
quando ela se torna recorrente e até mesmo rotina.
Para
a grande maioria dos casais, a traição - referimo-nos aqui àquela de natureza
física e sexual - é a grande vilã quando o assunto diz respeito à sujeira na
convivência conjugal, superando inclusive a violência física. Ao menos sob
certo prisma, isso deveria ser considerado preocupante. O fato é que a traição
de natureza sexual rompe os laços de confiança e do respeito que sustentam o
vínculo. Na prática, ela não consiste apenas no envolvimento sexual ou
afetivo-sexual com uma outra pessoa, mas inclui todo um conjunto de mentiras,
ocultações, manipulações e enganos que inevitavelmente acompanham o ato de
infidelidade. O cônjuge traído não sofre apenas pela perda da exclusividade
física e afetiva, mas também pela dolorosa descoberta de que foi enganado por
quem mais deveria inspirar segurança. Uma vez quebrada, dificilmente a
confiança é restaurada por completo e, mesmo quando a reconciliação acontece, o
processo costuma exigir muito tempo, esforço, arrependimento e profunda
disposição para reconstruir aquilo que foi destruído. O mais complexo e
devastador da traição, entretanto, é que um único ato pode comprometer todos os
alicerces sobre os quais o relacionamento se sustenta. Definitivamente, seja
por simples variação do amor, seja por desgaste da relação ou qualquer outra
razão, a traição definitivamente não é um bom investimento.
Os
vícios constituem outra forma particularmente destrutiva de sujeira que expõe
ao fracasso a vida conjugal e familiar. O alcoolismo, a dependência de drogas,
workhoolic [vício em trabalho], o jogo compulsivo e outras compulsões tendem a
ocupar progressivamente o lugar que deveria pertencer à família e ao próprio
vínculo. Aos poucos, desaparecem o diálogo, a responsabilidade, a estabilidade
financeira e a confiança. Multiplicam-se as mentiras, as promessas não
cumpridas, os conflitos e o sofrimento daqueles que convivem diariamente com a
pessoa dominada pela dependência. Em muitos casos, ela passa a comandar todas
as decisões da pessoa dependente, tornando o casamento refém de uma realidade
marcada pela insegurança, pelo desgaste emocional e pela permanente sensação de
impotência diante de um problema que parece não ter fim. Conviver passivamente
com um vício - notadamente a dependência alcoólica - recusando-se a tratá-lo, é
sem dúvida uma grande prova de desamor tanto para consigo mesmo, como para com
o cônjuge e para com os filhos.
A
mentira, por sua vez, à primeira vista pode parecer algo menos grave, mas pelos
estragos que pode ocasionar, é uma das sujeiras mais corrosivas da vida
conjugal. Sobre ela escreveu André Comte-Sponville: "A cada um, ou antes a
cada casal, a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me
parece menos traído pelo amor - pelo 'outro' amor - do que pela mentira."
Silenciosamente, ela vai minando aquilo que sustenta um relacionamento que se
projeta para ser duradouro: a confiança. Raramente a mentira comparece sozinha.
Na maioria dos casos ela é utilizada como recurso para esconder erros, encobrir
traições, disfarçar vícios, ocultar dificuldades financeiras ou fugir das
próprias responsabilidades para com o parceiro e o vínculo. Considerada
isoladamente, cada mentira pode parecer pequena e inofensiva, mas repetida ao
longo do tempo ela transforma a transparência em suspeita, a segurança em
insegurança e a cumplicidade em desconfiança permanente. Quando um casal deixa
de acreditar na palavra um do outro, o diálogo perde sua força, as boas
intenções e as promessas deixam de ter significado, e o vínculo conjugal começa
a se deteriorar por dentro. A verdade pode, em certos momentos, causar
desconforto e exigir coragem, mas somente ela é capaz de preservar a
credibilidade, restaurar a confiança e manter vivo o alicerce sobre o qual um
casamento sólido é construído. Se a verdade liberta, como desde cedo se
aprende, a mentira aprisiona.
Por
fim, e por questões de tempo e espaço, temos a sujeira do abandono. Engana-se
quem pensa que abandonar significa apenas sair de casa, romper oficialmente o
vínculo ou terminar o casamento. Há pessoas que permanecem sob o mesmo teto
durante anos e até mesmo décadas, mas já abandonaram afetiva e relacionalmente
o cônjuge e os filhos há muito tempo. Tornam-se indiferentes, deixam de
dialogar, recusam-se a oferecer apoio, carinho, presença e corresponsabilidade.
Outras abandonam também suas obrigações materiais, transferindo para o cônjuge
todo o peso da manutenção econômica e material da família. Poucas experiências
são tão dolorosas quanto descobrir que a pessoa que prometeu caminhar ao nosso
lado na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, continua presente apenas
fisicamente, enquanto seu afeto, sua disponibilidade e seu comprometimento já
se ausentaram há muito tempo. Quem passa pela experiência sabe: a presença,
quando marcada pela frieza e pela indiferença pode trazer mais dor e sofrimento
do que até mesmo o abandono definitivo. Quem abandona trai duas vezes; se tem
histórico de abandono, também precisa de ajuda e acompanhamento.
Obs.: Esta décima quarta parte, assim como as anteriores, será completada e
finalizada com a décima quinta parte, de mesmo título.
_________________________________________________________
(* )Possui graduação em teologia pelo Instituto teológico
pio XI (1983), graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito
Santo (1997), graduação em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Filosofia,
ciências e letras (1986) e mestrado em Filosofia pela Pontificia Universidade
Gregoriana ,Roma - Itália(1988) . Foi por 11 anos consecutivos professor de
filosofia jurídica e psicologia Jurídica do Centro Universitário de Vila Velha,
ES. Durante esses 11 anos foi Coordenador Pedagógico por 05 anos e de Ensino
por 1 ano e meio do mesmo Curso de Direito. Atualmente é terapeuta de grupo,
individual, vocacional, Consultório Clínico Psicológico particular. Formou-se
recentemente em Psicodrama (02 anos) pelo Instituto Pegasus de Vitória, ES.
Atualmente, cursa a pós graduação TCC - Terapia Cognitivo Comportamental.
Informações
coletadas do Lattes em 24/12/2025
https://www.escavador.com/sobre/3708588/lindolivo-soares-moura
(**)
Reflexão enviada pelo autor via Whatsapp, de Vitória (ES).
Nenhum comentário:
Postar um comentário