domingo, 30 de maio de 2021

ECLESIOLOGIA

ORIGEM, FUNDAÇÃO, MISSÃO DA IGREJA E O MISTÉRIO DA IGREJA– SEGUNDA PARTE (2ª Parte)


III. O MISTÉRIO DA IGREJA

770. A Igreja está na história, mas ao mesmo tempo a transcende. É unicamente “com os olhos da fé” que se pode enxergar em sua realidade visível, ao mesmo tempo, uma realidade espiritual, portadora de vida divina.
Parágrafo relacionado 812

A Igreja - ao mesmo tempo visível e espiritual

771. “O Mediador único, Cristo, constituiu e incessantemente sustenta aqui na terra sua santa Igreja, comunidade de fé, esperança e caridade, como um 'todo' visível pelo qual difunde a verdade e a graça a todos.” A Igreja é ao mesmo tempo:
Parágrafos relacionados 827, 1880, 954

· “sociedade provida de órgãos hierárquicos e Corpo Místico de Cristo; · assembleia visível e comunidade espiritual;
· Igreja terrestre e Igreja enriquecida de bens celestes”.

Essas dimensões constituem “uma só realidade complexa em que se funde o elemento divino e humano”: Caracteriza-se a Igreja por ser humana e ao mesmo tempo divina, visível, mas ornada de dons invisíveis, operosa na ação e devotada à contemplação presente no mundo e, no entanto, peregrina. E isso de modo que nela o humano se ordene divino e a ele se subordine, o visível ao invisível, a ação à contemplação e o presente à cidade futura, que buscamos. Ó humildade! Ó sublimidade! Tabernáculo de Cedar e santuário de Deus; morada terrestre e palácio celeste; casa de barro e sala régia; corpo de morte e templo de luz; finalmente, desprezo para os soberbos e esposa de Cristo! És negra, mas formosa, ó filha de Jerusalém: ainda que desfigurada pelo labor e pelado longo exílio, a beleza celeste te adorna.

A Igreja - mistério da união dos homens com Deus

772. É na Igreja que Cristo realiza e revela seu próprio mistério como a meta do desígnio de Deus: “Recapitular tudo nele” (Ef 1,10). São Paulo denomina de “grande mistério” (Ef 5,32) a união esponsal entre Cristo e a Igreja. Por estar ela unida a Cristo como a seu Esposo, a própria Igreja também se torna mistério. Contemplando nela o mistério, São Paulo exclama “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,27).
Parágrafos relacionados 518, 796

773. Na Igreja, esta comunhão dos homens com Deus pela “caridade que nunca passará” (1 Cor 13,8) é a finalidade que comanda tudo o que nela é meio sacramental ligado ao mundo presente que passa. Sua estrutura se ordena integralmente à santidade dos membros do corpo místico de Cristo. E a santidade é medida segundo o ‘grande mistério’, em que a Esposa responde com o dom do amor ao dom do Esposo. Maria nos precede a todos na santidade que é o mistério da Igreja como “a Esposa sem mancha nem ruga”. Por isso, “a dimensão marial da Igreja antecede sua dimensão petrina”.
Parágrafos relacionados 671, 972

A Igreja - sacramento universal da salvação

774. A palavra grega “mysterion” foi traduzida para o latim por dois termos: “mysterium” e “sacramentum”. Na interpretação ulterior, o termo “sacramentum” exprime mais o sinal visível da realidade escondida da salvação, indicada pelo termo “mysterium”. Neste sentido, Cristo mesmo é o mistério da salvação: “Non est enim aliud Dei mysterium, Christus - Pois não existe outro mistério de Deus a não ser Cristo”. A obra salvífica de sua humanidade santa e santificante é o sacramento da salvação que se manifesta e age nos sacramentos da Igreja (que as Igrejas do Oriente denominam também “os santos mistérios”). Os sete sacramentos são os sinais e os instrumentos pelos quais o Espírito Santo difunde a graça de Cristo, que é a Cabeça, na Igreja, que é seu Corpo. A Igreja contém, portanto, e comunica a graça invisível que ela significa. É neste sentido analógico que ela é chamada de “sacramento”.
Parágrafos relacionados 1075, 515, 2014, 1116

775. “A Igreja é, em Cristo, como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano”. Ser o sacramento da união íntima dos homens com Deus é o primeiro objetivo da Igreja. Visto que a comunhão entre os homens está enraizada na união com Deus, a Igreja é também o sacramento da unidade do gênero humano. Nela, esta unidade já começou, pois ela congrega homens “de toda nação, raça, povo e língua” (Ap 7,9); ao mesmo tempo, a Igreja é “sinal e instrumento” da plena realização desta unidade que ainda deve vir.
Parágrafo relacionado 360

776. Como sacramento, a Igreja é instrumento de Cristo. “Nas mãos dele, ela é o instrumento da Redenção de todos os homens” o sacramento universal da salvação” pelo qual Cristo “manifesta e atualiza o amor de Deus pelos homens”. Ela “é o projeto visível do amor de Deus pela humanidade” que quer que o “gênero humano inteiro constitua o único povo de Deus, se congregue no único Corpo de Cristo, seja construído no único templo do Espírito Santo”.
Parágrafo relacionado 1088

RESUMINDO

777. A palavra “Igreja” significa “convocação”. Designa a assembleia daqueles que a Palavra de Deus convoca para formarem o Povo de Deus e que, alimentados pelo Corpo de Cristo, se tornam Corpo de Cristo.
778. A Igreja é ao mesmo tempo caminho e finalidade do desígnio de Deus: prefigurada na criação, preparada na Antiga Aliança, fundada pelas palavras e atos de Jesus Cristo, realizada por sua Cruz redentora e por sua Ressurreição, ela é manifestada como mistério de salvação pela efusão do Espírito Santo Será consuma na glória do céu como assembleia de todos os resgatados da terra.
779. A Igreja é ao mesmo tempo visível e espiritual, sociedade hierárquica e Corpo Místico de Cristo. Ela é una, formada de elemento humano e um elemento divino. Somente a fé pode acolher este mistério.
780. A Igreja é no mundo presente o sacramento da salvação, o sinal e o instrumento da comunhão de Deus e dos homens.

Revisando temas

1.    JESUS FUNDOU A IGREJA?

Essa é uma questão muito atual. Da resposta a essa questão dependem muitas afirmações que hoje fazemos sobre a Igreja: sacramento da salvação, santidade, apostolicidade, unidade. Na doutrina pré-conciliar sobre a Igreja e na dogmática neo-escolástica a questão da fundação foi resolvida mediante a referência a algumas passagens bíblicas: Jesus instituiu e fundou a única Igreja (DS 3540).

A Igreja como instituição ou fundação de Jesus, nesse contexto, significa: o Senhor terreno e ressuscitado cumpriu consciente e expressamente determinados atos jurídicos formais, mediante os quais fundou a Igreja como instituição visível e juridicamente estruturada por sua vontade em todos os pontos essenciais. Na exegese moderna essa concepção se tornou problemática por vários motivos.

1. Os evangelhos foram escritos na situação eclesial pós-pascal e transmitem as palavras de Jesus já como palavras atualizadas para essa situação eclesial.

2. Também o termo “ekklesia”, quando aparece nos sinóticos (Mt 16,18s; 18,17) derivam da situação pós-pascal. 3. A pregação pré-pascal de Jesus era o Reino de Deus e nesse sentido ele se dirige a todo Israel. Sua intenção era o de reunir, renovar e preparar todo o povo para a vinda iminente do Reino. Nesse sentido ele não quis fundar uma nova comunidade religiosa, nem constituir um resto santo ou uma comunidade particular dentro de Israel. O fato de que nesse movimento de congregação se verificou uma divisão-separação não depende da vontade de Jesus, mas da reação dos interlocutores. Nesse sentido, é muito difícil falar de uma fundação da Igreja em senso estrito e tradicional do termo. “Igreja” e “fundação” são, de fato, termos que podem ter conteúdos e amplitudes diferentes.

I. Se falarmos de “Igreja” em senso estrito (a comunidade de fiéis que sob a direção do Papa e dos bispos professam a mesma fé eclesial e recebem os mesmos sacramentos), devemos responder que ela não foi fundada por Jesus.

1. O aparecimento da Igreja depende de um processo de separação de Israel. 2. Ela tem o seu centro e lugar específico na celebração eucarística.

3. Por isso, no senso estrito do termo, somente depois da Páscoa e Pentecostes tem lugar a Igreja na sua institucionalização concreta.

II. Se, pelo contrário, usarmos o termo “Igreja” em senso amplo e aberto (a comunidade dos que creem, esperam e amam, inaugurada pelo Pai no Espírito Santo mediante Cristo) é indubitável dar uma resposta positiva.

1. O desenvolvimento pós-pascal somente é possível com a história de Jesus pré-pascal.

2. O movimento de reunião escatológica inaugurado por Jesus em Israel e os sinais do advento do Reino de Deus por ele realizados e constitutivos de uma comunidade formam a base teológica objetiva e histórica da institucionalização pós-pascal da Igreja.

III. Também o termo “fundação” pode ser entendido segundo modelos diversos que descrevem a relação entre Jesus e a Igreja. São três as abordagens globais dessa relação: fundadora, originária e fundante.

1. Relação fundadora. A instituição da Igreja está profundamente ligada à questão relativa à pessoa e à consciência pessoal de Jesus. Nesse sentido, a teologia fala de uma “eclesiologia implícita e processual”, uma vez que dessa maneira se exprime que há uma continuidade fiel (não de traição nem de mera substituição) entre o Reino de Deus iniciado por Jesus e a Igreja. Somente assim se pode falar de uma “fundação” da Igreja por Jesus (cf. LG 5).

2. Relação originária. Jesus é origem da Igreja. A Igreja na sua formação histórica é composta por um elemento divino e outro humano em analogia ao mistério do Verbo encarnado; ela é santa e, ao mesmo tempo, sempre necessitada de purificação (LG 8). Nesse sentido, deve-se sublinhar que a Igreja é “mistério” e “sujeito histórico” com a consequente “plenitude e relatividade” de sua existência histórica. Por isso ela pode ser analisada pelas ciências históricas e sociológicas como “povo de Deus que caminha para o Reino”, mas consciente de que é, ao mesmo tempo, “o Reino de Deus já presente no mistério”.

3. Relação fundante. Jesus é o fundamento da Igreja. Os mistérios salvíficos de Cristo são fundamento da Igreja. Os mistérios de Cristo foram preparados já desde as origens (Ecclesia ab Abel, LG 2) e estão articulados na sua encarnação, no seu mistério pascal e no envio do Espírito Santo.

2.    O MISTÉRIO DA IGREJA

O que é a “Igreja”? Para o cristão, essa questão se torna ainda mais decisiva quando experimenta a distância existente entre a Igreja enquanto objeto de fé e a Igreja histórica. Ele recita o Símbolo da fé, no qual confessa a Igreja una, santa, católica e apostólica. Ao mesmo tempo, constata com grande intensidade que a Igreja concreta e histórica não corresponde à Igreja crida. A questão da “essência” da Igreja não tem resposta fácil, pois tal essência existe de fato somente e sempre nas suas manifestações históricas. Nesse sentido, Concílio Vaticano II descreveu a Igreja como um mistério que não pode ser adequadamente expresso por um único conceito. Por isso é preciso ilustrar o mistério da Igreja mediante numerosas imagens e conceitos que se corrigem e se completam reciprocamente (LG 1-8). A sociedade provida de órgãos hierárquicos e o corpo místico de Cristo, a assembleia visível e a comunidade espiritual, a Igreja terrestre e a Igreja enriquecida de bens celestes, não devem ser consideradas duas coisas, mas formam uma só realidade complexa em que se funde o elemento divino e humano. É por isso, mediante uma não medíocre analogia, comparada ao mistério do Verbo encarnado. Pois como a natureza assumida indissoluvelmente unida a Ele serve ao Verbo Divino como órgão vivo de salvação, semelhantemente o organismo social da Igreja serve ao Espírito de Cristo que o vivifica para o aumento do corpo (LG 8,1). De fato, a Igreja é uma realidade extremamente complexa: ela é mistério da fé e uma realidade empírica, divina e humana, assembleia visível e comunidade espiritual. Como realidade histórica, ela pode ser empírica e historicamente estudada. Mas para o crente isso não é suficiente para captar a sua essência, a sua dimensão profunda, que tem suas raízes na ação de Deus na história. A ação salvífica livre e gratuita de Deus não é um constitutivo periférico da Igreja. Tal ação divina, porém, só pode ser captada e experimentada pela fé. Por outro lado, é a própria fé que obriga a fixar o olhar na história. Assim os dois aspectos dessa complexa realidade devem ser distintos; não podem ser confundidos nem mesmo separados. Outra característica dialética fundamental da Igreja é que, de um lado, ela existe somente como fruto da ação divina (dimensão objetiva e passiva: Igreja reunida por Deus) e, de outro, ela é também sujeito de ações humanas realizadas em vista da salvação (dimensão subjetiva e ativa: Igreja que congrega). As dimensões objetiva e subjetiva são distintas entre si e, ao mesmo tempo, unidas. A Igreja é também realidade complexa porque, de uma parte, é o resultado de múltiplas ações individuais. Por isso ela é tanto a ação concreta de se reunir e de interagir dos fiéis quanto o resultado dessa ação social individual. Nesse sentido, a Igreja é uma instituição social constituída pela reunião dos cristãos. Por outro lado, a Igreja é também organismo institucional que antecede a ação cristã individual. Desse organismo fazem parte a liturgia, o direito canônico, o edifício da igreja, o ordenamento eclesiástico, o ministério eclesiástico. Sem essa instituição eclesial não existiria também o indivíduo cristão. A instituição é, portanto, espaço vital normativo e pré-existente. Por fim a Igreja é desde sempre o lugar histórico e concreto da salvação. Ela já é a unidade em meio à dispersão do pecado, é a reconciliação em meio à separação. Por outro lado, ela deve também cumprir uma missão, uma função, um serviço no e para o mundo. A Igreja é uma realidade complexa: é mistério da fé e uma realidade empírica, é objeto e sujeito, assembleia reunida e instituição, pátria e missão. Os dois aspectos correspondentes entre si não devem ser confundidos nem separados. Tanto a distinção quanto a unidade das correspondências são essenciais.

http://www.arquisp.org.br/sites/default/files/arquivos/regiao-lapa/estudo_catecismo_40_tema_758-780.pdf

 

SAÚDE

Desigualdade social é determinante em avanço da pandemia, aponta pesquisador

Por Larissa Calixto


Comunidade de Paraisópolis -SP

Pesquisa publicada na revista científica Lancet Global Health aponta a desigualdade socioeconômica e a falta de apoio público à população mais vulnerável como os principais fatores para o avanço da pandemia no Brasil ao longo de 2020.

O estudo foi feito por institutos de pesquisa brasileiros e estrangeiros, como a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde e as universidades de Harvard (Estados Unidos) e a College London. Foram analisados dados sobre a estrutura populacional, características socioeconômicas, infra-estrutura assistencial do sistema de saúde brasileiro e indicadores sobre a covid-19, buscando compreender quais as causas de taxas altas de mortalidade em decorrência do coronavírus no país.

 

"A gente observou, no ano passado, que a trajetória da pandemia nos países dependia muito da resposta do sistema de saúde: se ele falhava, as populações mais afetadas eram primeiramente idosos e pessoas com doenças crônicas", diz Adriano Massuda, médico sanitarista e professor da FGV/Eaesp, um dos autores do estudo, em entrevista ao Congresso em Foco.

 

Ele afirma que, no Brasil, a questão socioeconômica foi determinante. "Grupos populacionais que moram em regiões mais carentes do Brasil, mais pobres, foram os mais afetados. Foram as regiões onde houve maior número de mortes", aponta.

 

https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/desigualdade-social-e-determinante-em-avanco-da-pandemia-aponta-pesquisador/

 

ESPIRITUALIDADE

Pe. Zezinho:
“Fé cristã é feita de teologia, mas também de socorro imediato”

Ampsinc | YouTube

"Poucos deles olham como Jesus mandou olhar, ao redor, para sentir que o povo está como ovelhas sem pastores"

 

Em tempos de polarização ideológica, partidária e politiqueira, são tristemente comuns os extremos também entre parcelas de cristãos que se acusam mutuamente de trair a fé ao privilegiarem aspectos delas em detrimento da sua totalidade – que, assim como nós próprios, é composta por corpo, mente e alma imortal, ou seja: tem uma dimensão material, uma dimensão intelectual e uma dimensão espiritual. Não se pode fragmentar a fé cristã.

 

A este propósito, o pe. Zezinho compartilhou em sua página do Facebook, nesta segunda-feira, uma reflexão pessoal sobre a necessidade de se viver uma espiritualidade que olhe para o céu, enxergando que é Deus quem nos concede toda graça, mas que também olhe para os lados, enxergando e respondendo às necessidades do nosso próximo. Olhar só para os lados ou só para o céu são dois erros que fragmentam e, portanto, deformam a fé cristã autêntica.

 

Eis o que o padre escreveu:

 

OS JOVENS PADRES E A MÍSTICA DE PENTECOSTES


Agora, aos 78 anos, sou um padre ancião. E optei pela mística da misericórdia e do diálogo, acentuando Jesus e seu coração libertador (Mt 9, 36), preocupado com as ovelhas sem pastor. Hoje vejo que aumentou claramente a mística de Pentecostes entre os jovens padres que acentuam o Espírito Santo Consolador que Jesus disse que enviaria e enviou. Naqueles dias, os discípulos reunidos em oração esperavam a manifestação do prometido Espírito Santo. Naqueles dias não foram às ruas conversar com o povo. Estavam concentrados à espera da vinda do prometido Espírito Santo. Mas, assim que o receberam, foram às ruas profetizar e cuidar das feridas do povo (At 5,15) e faziam coletas para os pobres.

Em práticas de Maria passa na frente, Derrubada dos Muros de Jericó, Missas de Cura e Libertação, preces por milagres, incentivo à oração, vejo novos enfoques pastorais e espirituais entre os novos consagrados. É um olhar para o alto e um incentivo para olhar para o alto, de onde vem o auxílio (Sl 33,20 ).

A meu ver, trata-se de procura por uma nova mística de misericórdia com acento na oração e na esperança de que dias melhores virão, se o povo orar mais. Em geral eles acentuam a graça abundante do Cristo através da promessa de Pentecostes. São os novos padres e freiras jovens acreditando no que Joel 2, 28 disse: “Vossos filhos e filhas um dia profetizarão”. Muitos deles ousadamente marcam dias e semanas de oração e profetizam que naqueles dias haverá curas e milagres. Vejo isto nas postagens deles. Deus não me deu esta ousadia e eu não ouso. Ouso na pregação de justiça e paz e na catequese sociopolítica, quando uso a mídia e os escritos e tento ensinar as encíclicas dos Papas e os sucessivos documentos do Concílio e das Conferências Episcopais sobre “ir ao povo“ para ensinar o diálogo permanente na sociedade.

Nosso país precisa encarar as injustiças deste mundo. Não estamos bem representados por nossos porta-vozes em Brasília. Às vezes o povo se queixa da falta de políticos e pregadores e juízes que olhem para suas dores. Basta ver o caos da saúde em algumas regiões. São as duas vias: “olhar para o alto e olhar ao redor” para ver o que acontece em nosso país e no mundo. O povo está clamando por pastores que conversem com ele sobre suas angústias do dia a dia. Ele quer teologia, mas também quer sociologia. Está doendo aqui e agora quando precisa de uma consulta e de uma internação e só será atendido daqui a seis meses…

Neste aspecto vejo a diferença de acento pastoral entre quem ficou padre depois de 1962 até hoje e quem ficou padre depois de 1990 até hoje. Releio o Documento Gaudium et Spes e o Documento de Aparecida, este nos números 98 ,100, 391, 399, 402, e não vejo os novos pregadores no rádio, nos retiros, na TV, incentivando nem acentuando um olhar imediato sobre as angústias do povo. Ainda os vejo olhando para o alto e incentivando o povo ajoelhado a olhar para o alto, de onde vem o auxílio. Poucos deles olham como Jesus mandou olhar ao redor, para sentir que o povo está como ovelhas sem pastores.

A espiritualidade cristã é feita de teologia, mas também de psicologia, psiquiatria, sociologia e socorro imediato. Feliz da cidade que tem tudo isso! Não tendo, o povo corre para os templos com data marcada para curas e prodígios. O ideal é o que muitos bispos e padres fazem: capelães nos hospitais, leigos e monges voluntários nas ruas, fazendas esperança, pregação na TV e no rádio sobre as doutrinas sociais da nossa Igreja, páginas na internet ensinando a se preocupar com os pobres e desempregados. E tudo isto sem xingar os padres da libertação de serem comunistas. Jesus fez tudo isso e não foi e nunca seria comunista. Ele nunca mentiu ou enganou para implantar o Reino dos Céus. E ensinou a repartir o pão sem pegar em armas.

https://pt.aleteia.org/2019/09/10/pe-zezinho-fe-crista-e-feita-de-teologia-mas-tambem-de-socorro-imediato/

 

 

RELIGIÃO

Os devotos da Virgem Maria sempre são muito abençoados por ela

Thaagoon / Shutterstock

 

Claudio de Castro

 

Como não acreditar?

 

Cada dia eu me convenço mais de que existem santos anônimos entre nós. São aqueles que passam despercebidos. Nós os reconhecemos por sua humildade, seu amor a Jesus Sacramentado e sua profunda devoção mariana.

 

Quase todos são grandes devotos da Virgem e entregam a Ela as suas vidas e a pureza de suas almas. Nossa Senhora é uma grande guardiã de almas. Ela nos protege, confiando-nos a seu Filho, Jesus.

 

Observe esta “conversa”:

 – “Olha, Filho, este rapaz! E se você lhe desse as graças que ele pede, para consertar sua vida?”

– “Mãe, já lhe demos graças suficientes ao longo do tempo.”

Ela sorri e lança aquele olhar maternal, a que Ele não consegue resistir.

– “Está bem, Mãe, farei isso por você.”

 

Que filho não move céu e terra por sua mãe?

 

Certa vez, fui a uma loja em busca de alguns materiais. Um dos vendedores se aproximou e eu notei que ele estava sussurrando uma oração. Era um senhor mais velho, muito humilde e alegre. Ele me atendeu da forma mais cortês que você pode imaginar.

 

– “Permite-me saber o que você fazia?”, perguntei-lhe.

– “Com muito gosto”, respondeu. E acrescentou: “estava rezando uma Ave-Maria. Rezo várias vezes ao longo do dia para honrar nossa mãe do céu.”

 

Hoje, estou na casa de minha mãe. Decidi passar um tempo com ela e escrever alguns artigos aqui mesmo. Ela me serviu pão quentinho e um café para animar.

Minha mãe me conta sobre uma senhora da Costa Rica muito devota de Nossa Senhora. Ela rezava o terço todos os dias. No dia em que ela morreu, algo extraordinário aconteceu: quando o carro fúnebre saiu da casa dela, um bando de pombas acompanhou o veículo, sobrevoando todo o féretro, até o cemitério.

 

Sinal seguro

 

Os devotos da Virgem sempre são muito abençoados por ela. Certa vez, li que “sinal seguro de santidade é a devoção à Santíssima Virgem Maria”. E não é?

 

Sim, eu conheci alguns santos anônimos. O curioso é que eles não sabem que são santos e se sentem indignos da proximidade de Jesus. São pessoas especiais, que guardam com fervor seu estado de graça. São humildes, alegres, simples, bondosas, misericordiosas, que gostam da presença de Deus e de honrar a Virgem Santíssima. Essas pessoas perdoam com facilidade e amam a todos.

 

O mundo ainda tem esperança, já que milhões de santos anônimos, com suas orações, ajudam-nos a sermos melhores e a perseverarmos na vida.

 

Estado de graça

 

O chamado à santidade não é algo novo. A Bíblia está cheia de referências, principalmente ao chamado de Deus para que sejamos santos e puros de coração.

 

Ao longo dos anos, percebi que, sem a graça de Deus, nada podemos. “Se perco a graça, perco tudo”.

 

Preserve seu estado de graça como um tesouro. Se você o perder, levante-se. Vá a uma igreja, procure um padre, confesse-se e, depois, comece novamente. Encomende-se à Virgem Maria. Ela, como nossa Mãe espiritual, vai nos ajudar. E não se preocupe, pois nosso Deus é o Deus das oportunidades.

 

Deus te abençoe e a Virgem Santíssima te acompanhe sempre!

 

https://pt.aleteia.org/2021/04/29/os-devotos-da-virgem-maria-sempre-sao-muito-abencoados-por-ela/

 

ATUALIDADE

A curiosa foto de “Jesus” que está comovendo a Colômbia


Lucía Chamat

 

Muitos enxergaram na foto uma mensagem de esperança para a população, já que o país vive uma crise política e social.

 

Uma curiosa foto de “Jesus” que circula nas redes sociais está levando esperança para toda a Colômbia. Na imagem, vê-se um policial diante de outro homem. Muitas pessoas garantem ser Jesus de Nazaré.

 

O policial que aparece na foto contou aos companheiros que o homem se ajoelhou, levantou as mãos ao céu e rezou. Depois, seguiu seu caminho.

 

A foto foi tirada no lado de fora de um posto policial entre as cidades de Cali e Palmira. Trata-se de uma região que tem sofrido nas últimas semanas por causa dos conflitos sociais que vive a Colômbia. Os protestos começaram contra uma proposta de reforma tributária e evoluíram para um conflito violento entre as forças de segurança da Colômbia e os manifestantes.

 

Foto de “Jesus” chama a atenção na Colômbia

 

A foto de “Jesus” foi tirada através do celular de uma patrulheira. A imagem lhe chamou a atenção, já que o superior dela conversava com uma pessoa muito parecida com Jesus. “Um homem de cabelo comprido, e coberto com uma manta como vestimenta”, descreveu.

 

Emoção, consolo, esperança, felicidade e paz são o que centenas de pessoas expressaram ao ver a imagem. Independentemente de ser ou não um fenômeno sobrenatural, eles enxergam na foto do “Jesus” na Colômbia a reafirmação de que Deus está ao lado do país. Entretanto, muita gente duvidou da veracidade da foto.

 

Rezou diante da Virgem Maria

 

O cantor e compositor católico Felipe Gómez diz que recebeu o testemunho de uma das pessoas que viveu o momento e o autorizou a publicar, mas sem identificá-la. Diz o testemunho: 

 

“O superior comenta que este homem lhe perguntou se havia um rio perto para ele se banhar. No entanto, na ausência deste, o chefe lhe disse que atrás do posto policial tinha uma mangueira com a qual ele poderia se banhar.”

 

O testemunho compartilhado por Felipe Gómez no Facebook continua explicando que, depois do banho, o homem caminhou até uma gruta onde há uma imagem de Nossa Senhora:

 

“Estendeu sua manta vermelha no chão, se ajoelhou, ergueu as mãos, inclinou a cabeça e rezou por um momento. Depois, levantou os braços, estirou as mãos, olhou para o céu e, com os olhos cheios de lágrimas, seguiu rezando por um tempo maior.”

 

O que aconteceu depois chamou a atenção de quem presenciou a cena:

 

“Ao finalizar sua oração, o homem pronunciou palavras incompreensíveis para a patrulheira e seus companheiros. As palavras eram muito curtas e, não conseguimos compreender o idioma”.

 

Dizem que o homem foi pelo caminho da estrada e todos voltaram para seus trabalhos. Depois, pegaram a viatura para encontrar o homem no caminho, mas não o viram mais.

 

Uma mensagem de consolo

 

“Independentemente de crermos ou não de que seja uma manifestação sobrenatural, devemos ver (a cena) de uma perspectiva de fé. Qualquer expressão desse tipo não deve ser medida pela espetacularidade, mas pelo efeito que produz nas pessoas – e esses policiais ficaram comovidos com o que viram e se sentiram protegidos”, assegurou o frei Carlos Alzate, reitor do Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Chiquinquirá.

 

Ele ainda acrescentou:

 

“A Colômbia precisa de uma grande reconciliação e uma fé que nos torne mais coerentes. Este é um país majoritariamente católico, que não pode seguir lidando com níveis tão altos de miséria, insegurança e corrupção”.

 

https://pt.aleteia.org/2021/05/10/a-curiosa-foto-de-jesus-que-esta-comovendo-a-colombia/

 

 

DISSE SANTO AGOSTINHO

SOBRE A SANTÍSSIMA TRINDADE


1.

Introdução.

 

Foi Santo Agostinho quem deu à tradição ocidental a sua expressão madura e final acerca da Trindade. Durante toda a sua vida como cristão meditou sobre a Santíssima Trindade, explicando a doutrina da Igreja aos interessados e defendendo-a contra os ataques dos opositores. Não obstante ser Santo Agostinho mais conhecido através de obras como "As Confissões" ou "A Cidade de Deus", provavelmente sua obra prima é o tratado conhecido por "De Trinitate", que ele demorou dezesseis anos para redigir. Conforme suas palavras:

"Sobre a Trindade,
que é o Deus Sumo e Verdadeiro,
principiei alguns livros quando jovem,
editei-os quando velho".

Santo Agostinho aceita sem discussão a verdade que existe um só Deus que é Trindade, e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são simultaneamente distintos e co-essenciais, numericamente um quanto à substância; e seus escritos estão repletos de declarações detalhadas quanto a isto.

 

Caracteristicamente, em nenhum lugar Agostinho tenta demonstrar estas afirmações. Trata-se de um dado da Revelação que, segundo ele, a Escritura proclama em quase toda a página e que a "fé católica" transmite aos que crêem. Seu imenso esforço teológico é uma tentativa de compreensão, o exemplo supremo de seu princípio de que a fé deve preceder o entendimento.

 

Referências:
Santo Agostinho :Epistola 174; 120,17;
Idem : De Fide et Symb. 16;
Idem : De Doctrina Christ. 1,5;
Idem : De Trinitate 1,7; 15,2;
Idem : Sermo 7,4; 118,1;
Idem : Iohan. Tract. 74,1.

 

2.

A Santíssima Trindade segundo Santo Agostinho.

 

A exposição da doutrina trinitária em Santo Agostinho é inteiramente baseada nas Sagradas Escrituras.

Porém, em contraste com a tradição que fêz da Pessoa do Pai o seu ponto de partida, Santo Agostinho principia com a natureza divina em si mesmo. É esta simples e imutável natureza ou essência que é Trindade. A unidade da Trindade é assim colocada em primeiro plano, excluindo-se rigorosamente todo tipo de subordinacionismo. Tudo o que é afirmado de Deus é afirmado igualmente de cada uma das três Pessoas.

 

Diversas consequências se seguem desta ênfase na unidade da natureza divina.

 

Primeiro, tudo o que pertence à natureza divina como tal deve, numa linguagem exata, ser expresso no singular, já que esta natureza é única. Conforme mais tarde o Credo que já foi atribuído a Santo Atanásio dirá, Credo este que é totalmente agostiniano, embora cada uma das três Pessoas seja incriada, infinita, onipotente, eterna, etc., não há três incriados, infinitos, onipotentes e eternos, mas apenas um.

 

Segundo, a Trindade possui uma única e indivisível ação e uma única vontade. Sua operação é "inseparável". Em relação à ordem contingente as três Pessoas atuam como "um único princípio" e, como as Pessoas são inseparáveis,


"assim também
operam inseparavelmente".


Como exemplo disto, Agostinho argumenta que as teofanias, manifestações de Deus registradas no Velho Testamento, não devem ser consideradas, como a tradição patrística primitiva tendia a considerar, como manifestações exclusivamente do Verbo. Algumas vezes as teofanias podem ser atribuídas ao Verbo, ou ao Espírito Santo, algumas vezes ao Pai, outras vezes a todos os Três; outras vezes ainda é impossível decidir a qual das três Pessoas atribuí-las.

 

A dificuldade óbvia que esta teoria sugere é que ela parece ignorar os diversos papéis das três Pessoas. A isto Agostinho responde que, embora seja verdade que o Filho, embora distinto do Pai, nasceu, sofreu e ressuscitou, é igualmente verdade que o Pai cooperou com o Filho na realização da Encarnação, paixão e ressurreição. Era conveniente para o Filho, entretanto, em virtude de sua relação com o Pai, manifestar-se e fazer-se visível.

 

Em outras palavras, já que cada uma das Pessoas possui a natureza divina de uma maneira particular, é apropriado atribuir a cada uma dElas, na operação externa da Divindade, o papel que Lhe é apropriado em virtude de Sua origem.

 

Referências:
Santo Agostinho : De Civitate Dei 11,10;
Idem :Epistola 120,17; 11,2-4;
Idem : De Trinitate 5,9; 5,10; 8,1; 2,9; 5, 15; 1,7; 2,3; 2,12-34; 3,4-27; 2,9; 2,18;
Idem : C. Ser. Ar. 4;
Idem : Enchirid. 38;
Idem : Sermo 52.

 

3.

A distinção das Pessoas.

 

Segundo Agostinho, a distinção das Pessoas se fundamenta nas suas relações mútuas com a Divindade.

 

Embora consideradas enquanto substância divina, as Pessoas sejam idênticas, o Pai se distingue enquanto Pai por gerar o Filho, e o Filho se distingue enquanto Filho por ser gerado. O Espírito Santo, semelhantemente, distingue-se do Pai e do Filho enquanto "dom comum" de ambos.

Surge então a questão de o que são os Três.

 

Agostinho reconhece que tradicionalmente eles são designados como Pessoas, mas ele fica descontente com o termo. Provavelmente a expressão lhe trazia a conotação de indivíduos separados. No fim, ele consente em usar a expressão, mas por causa da necessidade de afirmar a distinção dos Três contra o Monarquianismo, e com um profundo sentido da inadequação da linguagem humana.

 

Sua teoria positiva, original e muito importante para a história subseqüente da doutrina da Trindade no Ocidente, foi a de que os Três são relações reais ou subsistentes.

 

O motivo que levou Santo Agostinho a esta colocação foi o dilema colocado pelos arianos. Estes, baseando-se no esquema aristotélico das categorias, afirmaram que as distinções na Divindade, se elas existissem, teriam que ser classificadas ou na categoria de substância ou na de acidente. Na categoria dos acidentes não poderia sê-lo, porque em Deus não há acidentes; se o fossem, porém, na categoria da substância, então a conclusão seria que existem três deuses.

 

Agostinho nega ambas as alternativas, explicando que a categoria da relação é uma alternativa possível. Os Três, prossegue ele, são relações, tão reais e eternas como o gerar, o ser gerado e o proceder, que fundamentam as relações, são reais dentro da Divindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são assim relações, no sentido de que o que quer que cada um dEles seja, o é em relação a um ou a ambos dos demais.

 

Referências:
Santo Agostinho : Epistola 170,7; 170; 238; 239; 240; 241;
Idem : De Trinitate 5,6; 5,8; 5,15; 5,12; 5,15-17; 8,1; 5,10; 7,7-9; 5,4; Livros 5-7.
Idem : Iohan. Tract. 74,1-4; 39;
Idem : De Civitate Dei 11,10;
Idem : C. Serm. Ar. 32; 118,1;
Idem : Enarrat. in Psalm. 68, 1, 5.

 

4.

A processão do Espírito Santo.

 

Santo Agostinho também procurou explicar o que é a processão do Espírito Santo, ou em que ela difere da geração do Filho.

 

Ele considerou como certo que o Espírito Santo é o amor mútuo do Pai e do Filho:

 

"A caridade comum pela qual
o Pai e o Filho se amam mutuamente".

 

Assim, Agostinho coloca que

"O Espírito Santo não é
Espírito de um dEles,
mas de ambos".

 

Desta maneira, em relação ao Espírito Santo o Pai e o Filho formam um único princípio, o que é inevitável, pois a relação de ambos para com o Espírito Santo é idêntica e onde não há diferença de relação sua operação é inseparável. Santo Agostinho, pois, mais inequivocamente do que qualquer dos Padres Ocidentais antes dele, ensinou a doutrina da dupla processão do Espírito Santo do Pai e do Filho, doutrina que, alguns séculos mais tarde, por questões circunstanciais, passaria a ser conhecida como o "Filioque", palavra latina que significa `e do Filho'. Segundo Agostinho,

 

"O Pai é autor da processão do Espírito Santo
porque Ele gerou um tal Filho,
e ao gerá-lo tornou-o também
fonte a partir do qual o Espírito procede".

 

"Já que tudo o que o Filho tem,
o tem do Pai,
do Pai tem também
que dEle proceda o Espírito Santo".

 

Daqui porém não se deve conclui, ele nos adverte, que o Espírito Santo tenha duas fontes ou princípios. Ao contrário, a ação do Pai e do Filho na processão do Espírito é comum, assim como é a ação de todas as três Pessoas na Criação.

 

Além disso, não obstante a dupla processão, o Pai permanece a fonte primordial, na medida em que é dEle que deriva a capacidade do Espírito Santo de proceder do Filho. Ainda segundo Agostinho,

 

"Do Pai de modo principal, ... ,
o Espírito Santo procede
de ambos em comum".


Referências:
Santo Agostinho : De Trinitate 9,17; 15,45; 15,27; 5,12; 1,7; 5,15; 15,29; 15,45; 15,47;
Idem : Iohan. Tract. 99,6; 99,9;
Idem : Epistola 170,4;
Idem : Contra Maxim. 2,14,1; 2,14,7-9.

 

5.

A contribuição mais própria de Agostinho à Teologia Trinitária.

 

Chegamos àquela que é provavelmente a contribuição mais original de Santo Agostinho à teologia trinitária, o uso de analogias tiradas da estrutura da alma humana. A função destas analogias, deve-se notar, não é demonstrar que Deus é Trindade, mas aprofundar nosso entendimento do mistério da absoluta unidade e também da distinção real dos Três.

No sentido estrito, de acordo com Santo Agostinho, há vestígios da Trindade em todo o lugar, porque as criaturas, na medida em que existem, existem por participação nas idéias de Deus; portanto, tudo deve refletir, embora timidamente, a Trindade que as criou. Para buscar a Sua verdadeira imagem, entretanto, o homem deve olhar primeiramente dentro de si,porque a Escritura representa Deus dizendo "Façamos", - isto é, os Três -,

"o homem à Nossa imagem
e à Nossa semelhança".

 

Mesmo o homem exterior, isto é, o homem considerado em sua natureza sensível, fornece

"uma certa figura da Trindade".

 

O processo de percepção, por exemplo, fornece três elementos distintos que são ao mesmo tempo intimamente unidos, do qual o primeiro, em um certo sentido, gera o segundo, enquanto que o terceiro une aos outros dois. Por exemplo, o objeto externo (a coisa que vemos), a representação sensível da mente (a visão), e a intenção ou ato de focalizar a mente (a intenção da vontade).

 

Quando o objeto externo é removido, temos uma segunda trindade, que lhe é superior, pois é localizada inteiramente dentro da mente. Neste sentido, Agostinho fala da impressão da memória (a memória), a imagem interna da memória (visão interna), e a intenção da vontade.

 

Para a imagem real, entretanto, da Divindade Triuna, devemos olhar no homem interior, ou alma. Freqüentemente tem sido dito que a principal analogia trinitária do De Trinitate é a do amante, do objeto amado e do amor que os une. Porém a discussão de Santo Agostinho desta trindade é bastante curta, e é apenas uma transição para aquela que ele considera sua verdadeiramente importante analogia, a da atividade da mente enquanto dirigida para si mesma ou, melhor ainda, para Deus.

 

Esta última analogia fascinou Santo Agostinho por toda a sua vida, as trindades resultantes sendo:

 

  1. A mente, seu conhecimento de si mesma e seu amor de si mesma;
  2. A memória, ou, mais propriamente, o conhecimento latente da mente de si mesma; o entendimento, isto é, sua apreensão de si mesma à luz das razões eternas; e a vontade, ou amor de si mesma, pela qual este processo do ato de conhecimento é posto em movimento;
  3. A mente, enquanto lembrando, conhecendo e amando ao próprio Deus.

Santo Agostinho considera que somente quando a mente focalizou a si mesma com todas as suas potências de lembrança, entendimento e amor em seu Criador é que a imagem de Deus que ela traz em si, corrompida como está pelo pecado, pode ser plenamente restaurada.

 

Embora demorando-se nestas analogias, Santo Agostinho não tem ilusões quanto às suas imensas limitações. Em primeiro lugar, a imagem de Deus na mente humana é em qualquer caso uma imagem remota e imperfeita. Em segundo lugar, embora a natureza racional do homem exiba as trindades acima mencionadas, elas representam faculdades ou atributos que o ser humano possui, enquanto que a natureza divina é perfeitamente simples.

 

Em terceiro lugar, a memória, entendimento e vontade operam no homem separadamente, enquanto que as três Pessoas divinas co- inerem mutuamente e Sua ação é perfeitamente una e indivisível. Finalmente, na Divindade os três membros da Trindade são Pessoas, mas o mesmo não ocorre na mente humana. Segundo as palavras do próprio Agostinho,

 

"A imagem da Trindade é uma pessoa,
mas a suprema Trindade é Ela própria três Pessoas:
o que é um paradoxo,
quando alguém reflete que,
não obstante isso,
os Três são mais inseparavelmente um
do que a trindade da mente".

Referências:
Santo Agostinho : De Vera Relig. 13;
Idem :Sermo 52, 17-19;
Idem : De Trinitate 11, 1; 11, 2-5; 11,6; 8,12 a 9,2; 15,5; 15,10; 13,11; 9,2-8; 10,17-19; 14,11 até o fim; 10,18; 9,17; 15,7 e ss.; 15,11-13; 15, 43;
Idem : Enarrat. In Psalm. 42, 6;
Idem : Sermo de Symb. 1, 2.

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A Obra “Trindade” em Português

Sinopse

As teses aqui apresentadas sobre o mistério da Santíssima Trindade foram assumidas por toda a Igreja do Ocidente e continuam a exercer forte influência pelos séculos afora. A obra nos introduz na vida íntima do Deus-Trino e na própria vida de nosso espírito. O desejo de Santo Agostinho é mostrar ser a vida divina particularmente semelhante à atividade íntima da alma que se pensa, se conhece e se ama. Ele almeja fazer a mente humana voltar ao Criador e levá-la a tomar consciência de sua dignidade de imagem de Deus.

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