sexta-feira, 22 de maio de 2026

08- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (*) Psicólogo e Professor Universitário na Consultório de Psicologia Vila Velha, Espírito Santo, Brasil

08- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (*)

Psicólogo e Professor Universitário na Consultório de Psicologia

Vila Velha, Espírito Santo, Brasil 


"ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO"- [Parte XI - 01]

              "Ó Mestre,  fazei que  eu  procure mais  consolar que  ser  consolado,  compreender que ser compreendido, amar  que  ser  amado". [Atribuída a  São Francisco de Assis].

A rigor, são doze as invocações contidas na célebre oração pela paz atribuída a São Francisco de Assis. Oito delas compõem um eixo central e nuclear, sendo introduzidas por uma súplica - “Fazei-me instrumento da vossa paz!” - cuja principal função é servir de fio condutor para todas as demais, e culminando com três outras invocações - “Fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado!” - que exercem a função de fechamento para a referida oração. Se admitirmos que tais súplicas não são aleatórias, mas criteriosamente selecionadas, parece legítimo perguntar: por quais razões são exatamente elas, e não quaisquer outras, a abrir e encerrar tal oração? Por sua vez, a formulação complementar “fazei que eu procure mais…” que introduz as três últimas invocações, longe de enfatizar uma mera disposição interior parece estabelecer uma prioridade clara e irreversível: a de voltar-se mais em direção ao outro do que em direção a si mesmo. Mas qual seria a relevância dessa ênfase comparativa, e em que medida ela ilumina e orienta as súplicas centrais? Por fim, o que justificaria a ênfase no consolar, no compreender e no amar? Sendo o amor o fundamento primeiro e último de toda e qualquer virtude, como atesta São Paulo, não seria ele, por si só, suficiente? Talvez seja pertinente iniciar a décima primeira parte de nossa reflexão com essas indagações preliminares.

Não é possível saber se a tríade de súplicas finais da oração pela paz tem relação direta, uma a uma, com a tríade de porquês que encerram essa mesma oração. Nossa opção por admitir esse sincronismo, portanto, é absolutamente arbitrária e pessoal. Admitida essa hipótese, uma possível formulação conclusiva poderia ser esta: por que devemos mais consolar do que ser consolados? Francisco responde: porque é dando que se recebe. Por que devemos mais compreender do que ser compreendidos? Novamente, Francisco esclarece: porque é perdoando que se é perdoado. E, finalmente: por que devemos mais amar do que ser amados? Francisco arremata: porque é morrendo que se vive para a vida eterna.

A oração pela paz tem sido considerada a melhor versão cristã para a chamada “lei do karma”, por vezes também chamada de “lei da causa e efeito” pelos budistas. Na oração atribuída a Francisco, o “dar” funciona como causa, que por sua vez suscita o “receber” como efeito correspondente. Assim, se consolar suscita a recepção do consolo como contrapartida, perdoar suscita a recepção do perdão e assim por diante. Mas eis que de repente, e sem nenhuma explicação ou lógica aparente, é introduzida uma relação de causa e efeito que pouco ou nada parece ter a ver com as causalidades precedentes: trata-se do "morrer" enquanto causa que suscita o "viver para a vida eterna" como efeito correspondente. A indagação que naturalmente aqui se impõe é: a que tipo de morte Francisco estaria se referindo? Uma leitura menos atenta poderia sugerir que se trata da morte física e biológica, fim último e inevitável para todos e cada um de nós. Um olhar mais apurado e criterioso, porém, afasta imediatamente essa hipótese. Em sintonia com a tradição evangélica - e sobretudo com a imagem do grão de trigo evocada pelo evangelista São João - Francisco certamente não se refere aqui à morte física ou biológica, mas sim à morte existencial e interior: morrer para si mesmo, para a pretensão de ser medida e fim último de todas as coisas. Se a morte física é inevitável, a morte existencial e interior com certeza não o é. Tal tipo de morte, diferentemente da morte física, não aniquila o sujeito; surpreendentemente, o desinstala e o reconfigura em um novo e superior patamar. Assim como o grão que se recusa a morrer permanece só e isolado, também aquele que procura o tempo todo ser consolado, compreendido e amado pode até subsistir e conservar-se, mas a um preço excessivamente alto: o de sua esterilidade. Nesse sentido, a morte que suscita a vida eterna não parece ser a morte enquanto cessação da vida física e biológica, mas a morte da vida autocentrada e encerrada em si mesma, estéril, incapaz de comunhão e doação e, por consequência, de fertilidade e fecundidade.

Quando Francisco afirma que é morrendo que se vive para a vida eterna, tudo indica que esteja se referindo a uma lei de transformação e de “transfiguração” do ser, onde morrer é consentir em deixar de ser “grão” para se tornar espiga, aceitar a perda de uma forma limitada de existência para ingressar numa modalidade muito mais ampla, relacional e fecunda. Assim considerada, tal dinâmica ilumina e enriquece toda a tríade de disposições precedentes. Consolar mais do que ser consolado, compreender mais do que ser compreendido, amar mais do que ser amado passam a ser assumidas não apenas como disposições ou virtudes morais elevadas, mas como expressões encarnadas e reconhecíveis dessa morte de si - uma forma de participação na "kénosis" ou entrega total do próprio Mestre - cujo principal fruto é gerar vida em abundância e de qualidade superior. Cada vez que a pessoa se volta mais para o outro que para si mesma, experimenta já, no aqui e no agora, uma participação antecipada naquilo que chamamos de "vida eterna", entendida não apenas como imortalidade, duração sem fim, mas como plenitude e fecundidade do ser. Nesse sentido, viver para a vida eterna, mais que continuar existindo depois da morte física, é entrar nesse fluxo de transfiguração radical e nessa dinâmica de doação que liberta da solidão, cura a esterilidade e faz da própria vida uma experiência transbordante e fecunda.

Há, porém, um  preço a se pagar para que esse autêntico milagre aconteça. De acordo com Francisco, esse preço não é outro senão este: estar disposto a mais consolar do que ser consolado, a mais compreender do que ser compreendido, a mais amar do que ser amado. Reconhecidamente, entretanto, não somos muitos os que nos dispomos a pagar tal preço e investir tão alto. Nossa capacidade de compreender, consolar e amar pode ser fantástica, potencialmente falando, mas esbarra em nossa limitada e condicionada disponibilidade de entrega, na prática. Criado à imagem e semelhança do seu Criador, talvez seja justamente aqui onde a criatura mais dele se distancia. Enquanto Deus nos ama sempre, por primeiro e por inteiro, irrestrita e incondicionalmente, nosso amor, salvo raríssimas exceções, articula-se prevalentemente por meio de trocas, intercâmbio e escambo - se possível, com o máximo de juros, dividendos e correção monetária. Estamos continuamente esperando que o outro tome a iniciativa, nos ame por primeiro e deixe clara a medida do seu amor por nós, quase sempre condicionados à expectativa de que essa medida seja suficiente para preencher nossos vazios e curar nossas feridas. Mas essa é, quase sempre, uma estratégia de antemão condenada ao fracasso, tendo em vista que a grande maioria dos diversos “outros” que irrompem em nossa trajetória existencial trazem também consigo essas mesmíssimas aspirações e expectativas, sem que sequer - tal como acontece conosco - estejam consciente disso.

Como resultado, constata-se que inúmeras relações amorosas acabam sendo conduzidas por duas contrapartes - “cônjuges”, “amantes” e “parceiros” soa demasiado romântico e paradisíaco - constantemente queixosas de estarem sendo “mal amadas”, “pouco compreendidas” e “insuficientemente consoladas”, independentemente de “se” e do quanto de fato o são. Juramos e renovamos promessas de amor e fidelidade, mas na prática escolhemos pessoas muito mais com a expectativa de que elas nos consolem, nos compreendam e nos amem, e muito menos com vontade sincera e disposição honestas de consolá-las, compreendê-las e amá-las de fato. Isso significa que grande parte dos matrimônios poderiam ser considerados tragédias anunciadas? Com a palavra, cada casal e sua experiência conjugal pessoal.

Obs.: O presente tópico 01 será complementado e finalizado com o tópico 02, de mesmo título.

(* ) Reflexão enviada por whatsapp pelo autor, de Vitoria (ES).

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