08- REFLETINDO COM LINDOLIVO SOARES MOURA (*)
Psicólogo e Professor Universitário na Consultório de
Psicologia
Vila Velha, Espírito Santo, Brasil
"ATÉ
QUE A MORTE NOS SEPARE: O VÍNCULO CONJUGAL RESSIGNIFICADO À LUZ DA ORAÇÃO DE
SÃO FRANCISCO"-
[Parte XI - 01]
"Ó Mestre, fazei que
eu procure mais consolar que
ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que
ser amado". [Atribuída
a São Francisco de Assis].
A
rigor, são doze as invocações contidas na célebre oração pela paz atribuída a
São Francisco de Assis. Oito delas compõem um eixo central e nuclear, sendo
introduzidas por uma súplica - “Fazei-me instrumento da vossa paz!” - cuja
principal função é servir de fio condutor para todas as demais, e culminando
com três outras invocações - “Fazei que eu procure mais consolar que ser
consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado!” - que exercem
a função de fechamento para a referida oração. Se admitirmos que tais súplicas
não são aleatórias, mas criteriosamente selecionadas, parece legítimo
perguntar: por quais razões são exatamente elas, e não quaisquer outras, a
abrir e encerrar tal oração? Por sua vez, a formulação complementar “fazei que
eu procure mais…” que introduz as três últimas invocações, longe de enfatizar
uma mera disposição interior parece estabelecer uma prioridade clara e
irreversível: a de voltar-se mais em direção ao outro do que em direção a si
mesmo. Mas qual seria a relevância dessa ênfase comparativa, e em que medida
ela ilumina e orienta as súplicas centrais? Por fim, o que justificaria a
ênfase no consolar, no compreender e no amar? Sendo o amor o fundamento
primeiro e último de toda e qualquer virtude, como atesta São Paulo, não seria
ele, por si só, suficiente? Talvez seja pertinente iniciar a décima primeira
parte de nossa reflexão com essas indagações preliminares.
Não
é possível saber se a tríade de súplicas finais da oração pela paz tem relação
direta, uma a uma, com a tríade de porquês que encerram essa mesma oração.
Nossa opção por admitir esse sincronismo, portanto, é absolutamente arbitrária
e pessoal. Admitida essa hipótese, uma possível formulação conclusiva poderia
ser esta: por que devemos mais consolar do que ser consolados? Francisco
responde: porque é dando que se recebe. Por que devemos mais compreender do que
ser compreendidos? Novamente, Francisco esclarece: porque é perdoando que se é
perdoado. E, finalmente: por que devemos mais amar do que ser amados? Francisco
arremata: porque é morrendo que se vive para a vida eterna.
A
oração pela paz tem sido considerada a melhor versão cristã para a chamada “lei
do karma”, por vezes também chamada de “lei da causa e efeito” pelos budistas.
Na oração atribuída a Francisco, o “dar” funciona como causa, que por sua vez
suscita o “receber” como efeito correspondente. Assim, se consolar suscita a
recepção do consolo como contrapartida, perdoar suscita a recepção do perdão e
assim por diante. Mas eis que de repente, e sem nenhuma explicação ou lógica
aparente, é introduzida uma relação de causa e efeito que pouco ou nada parece
ter a ver com as causalidades precedentes: trata-se do "morrer"
enquanto causa que suscita o "viver para a vida eterna" como efeito
correspondente. A indagação que naturalmente aqui se impõe é: a que tipo de
morte Francisco estaria se referindo? Uma leitura menos atenta poderia sugerir
que se trata da morte física e biológica, fim último e inevitável para todos e
cada um de nós. Um olhar mais apurado e criterioso, porém, afasta imediatamente
essa hipótese. Em sintonia com a tradição evangélica - e sobretudo com a imagem
do grão de trigo evocada pelo evangelista São João - Francisco certamente não
se refere aqui à morte física ou biológica, mas sim à morte existencial e
interior: morrer para si mesmo, para a pretensão de ser medida e fim último de
todas as coisas. Se a morte física é inevitável, a morte existencial e interior
com certeza não o é. Tal tipo de morte, diferentemente da morte física, não
aniquila o sujeito; surpreendentemente, o desinstala e o reconfigura em um novo
e superior patamar. Assim como o grão que se recusa a morrer permanece só e
isolado, também aquele que procura o tempo todo ser consolado, compreendido e
amado pode até subsistir e conservar-se, mas a um preço excessivamente alto: o
de sua esterilidade. Nesse sentido, a morte que suscita a vida eterna não
parece ser a morte enquanto cessação da vida física e biológica, mas a morte da
vida autocentrada e encerrada em si mesma, estéril, incapaz de comunhão e
doação e, por consequência, de fertilidade e fecundidade.
Quando
Francisco afirma que é morrendo que se vive para a vida eterna, tudo indica que
esteja se referindo a uma lei de transformação e de “transfiguração” do ser,
onde morrer é consentir em deixar de ser “grão” para se tornar espiga, aceitar a
perda de uma forma limitada de existência para ingressar numa modalidade muito
mais ampla, relacional e fecunda. Assim considerada, tal dinâmica ilumina e
enriquece toda a tríade de disposições precedentes. Consolar mais do que ser
consolado, compreender mais do que ser compreendido, amar mais do que ser amado
passam a ser assumidas não apenas como disposições ou virtudes morais elevadas,
mas como expressões encarnadas e reconhecíveis dessa morte de si - uma forma de
participação na "kénosis" ou entrega total do próprio Mestre - cujo
principal fruto é gerar vida em abundância e de qualidade superior. Cada vez
que a pessoa se volta mais para o outro que para si mesma, experimenta já, no
aqui e no agora, uma participação antecipada naquilo que chamamos de "vida
eterna", entendida não apenas como imortalidade, duração sem fim, mas como
plenitude e fecundidade do ser. Nesse sentido, viver para a vida eterna, mais
que continuar existindo depois da morte física, é entrar nesse fluxo de
transfiguração radical e nessa dinâmica de doação que liberta da solidão, cura
a esterilidade e faz da própria vida uma experiência transbordante e fecunda.
Há,
porém, um preço a se pagar para que esse
autêntico milagre aconteça. De acordo com Francisco, esse preço não é outro
senão este: estar disposto a mais consolar do que ser consolado, a mais
compreender do que ser compreendido, a mais amar do que ser amado.
Reconhecidamente, entretanto, não somos muitos os que nos dispomos a pagar tal
preço e investir tão alto. Nossa capacidade de compreender, consolar e amar
pode ser fantástica, potencialmente falando, mas esbarra em nossa limitada e
condicionada disponibilidade de entrega, na prática. Criado à imagem e
semelhança do seu Criador, talvez seja justamente aqui onde a criatura mais
dele se distancia. Enquanto Deus nos ama sempre, por primeiro e por inteiro,
irrestrita e incondicionalmente, nosso amor, salvo raríssimas exceções,
articula-se prevalentemente por meio de trocas, intercâmbio e escambo - se
possível, com o máximo de juros, dividendos e correção monetária. Estamos
continuamente esperando que o outro tome a iniciativa, nos ame por primeiro e
deixe clara a medida do seu amor por nós, quase sempre condicionados à
expectativa de que essa medida seja suficiente para preencher nossos vazios e
curar nossas feridas. Mas essa é, quase sempre, uma estratégia de antemão
condenada ao fracasso, tendo em vista que a grande maioria dos diversos
“outros” que irrompem em nossa trajetória existencial trazem também consigo
essas mesmíssimas aspirações e expectativas, sem que sequer - tal como acontece
conosco - estejam consciente disso.
Como
resultado, constata-se que inúmeras relações amorosas acabam sendo conduzidas
por duas contrapartes - “cônjuges”, “amantes” e “parceiros” soa demasiado romântico
e paradisíaco - constantemente queixosas de estarem sendo “mal amadas”, “pouco
compreendidas” e “insuficientemente consoladas”, independentemente de “se” e do
quanto de fato o são. Juramos e renovamos promessas de amor e fidelidade, mas
na prática escolhemos pessoas muito mais com a expectativa de que elas nos
consolem, nos compreendam e nos amem, e muito menos com vontade sincera e
disposição honestas de consolá-las, compreendê-las e amá-las de fato. Isso
significa que grande parte dos matrimônios poderiam ser considerados tragédias
anunciadas? Com a palavra, cada casal e sua experiência conjugal pessoal.
Obs.: O presente tópico 01
será complementado e finalizado com o tópico 02, de mesmo título.
(* ) Reflexão enviada
por whatsapp pelo autor, de Vitoria (ES).
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